EP06 | Quem matou a política?
Quem matou a política? é uma série documental em áudio que investiga por que a política parece não dar conta de responder a problemas e anseios contemporâneos.
A cada episódio, um novo suspeito é colocado sob lupa: a corrupção, o crime organizado, a religião e outros elementos que podem estar contribuindo para enfraquecer ferramentas e estratégias políticas e, por consequência, ferindo a política de morte.
Quem matou a política? é uma audiossérie Original Audible. A temporada completa já está disponível na Audible. Acesse agora o site Audible.com.br, faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou 3 meses, se você for membro Amazon Prime.’
Os episódios de Quem Matou a Política vão ser veiculados no feed do Escafandro sempre às segundas-feiras. Os episódios de Escafandro continuam saindo normalmente, a cada 15 dias. Sempre às terças pra financiadores e às quartas para o público geral.
Ficha técnica
Quem matou a política? é um Original Audible.
Produzido por Rádio Escafandro, Rádio Guarda-Chuva e Audible.
Roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini
Direção e coordenação: Gabriela Mayer e Tomás Chiaverini
Produção-executiva: Gabriela Mayer
Reportagem: Allan de Abreu, Andrea Dip, Anna Virginia Balloussier, Flávio VM Costa, Jorge Cavalcanti, Juliana Dal Piva, Natália Silva e Pedro Pannunzio
Produção: Alrik Schubotz, Ana Schuchter, Davi Carlos Acácio, Elenilce Bottari e Natália André
Checagem: Bruna Barone
Edição de roteiros: Gabriela Mayer
Consultoria de conteúdo: Guilherme Casarões
Dublagem: Matheus Marcolino, Raphany Viegas Leal e Silva e Renan Sukevicius
Desenho de som: Tomás Chiaverini
Edição de som: Matheus Marcolino
Pós-produção e a mixagem: Vitor Coroa
Música original e Trilha Sonora: Gabriel Falcão
Trilha sonora tema: Paulo Gama
Identidade Visual: Elisa Pessôa
Assessoria Jurídica: Flavia Penido
Estúdio de Gravação: Rádio Escafandro
No time de Conteúdo Original Audible Brasil,
Direção de conteúdo original Brasil: Léo Neumann
Líder do projeto: Alyson Borges
Gerentes de produção: Fernando Schaer e Juliana Denden Arcanjo
Líder de conteúdo LATAM: Paulo Lemgruber
Diretora-geral Brasil: Adriana Alcântara
Líder Global de conteúdo: Rachel Ghiazza
Copyright 2026 por AMAZON SERVIÇOS DE VAREJO DOBRASIL LTDA
Copyright da gravação de som 2026 por Audible Inc.
Tomás Chiaverini
Andrea Dip
Guilherme Casarões
Matheus Marcolino
Raphany Viegas Leal e Silva
Renan Sukevicius
- A demagogia da extrema-direita e a instrumentalização do ódio, medo e ressentimentomentira como estratégia política·utopia da esquerda versus afetos da direita·ódio contra o diferente·medo do negro e LGBT·ressentimento pela perda de privilégios
- A investigação da extrema-direita alemã e o medo sentido pela repórterrua de paralelepípedo super estreita·encontro em porão de bar·apologia ao nazismo é crime·medo em evento não oficial
- A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD) e seu flerte com o nazismopartido fundado na crise econômica de 2008·guinada extremista e o cordão sanitário·Björn Höcke e o revisionismo histórico·proibição do nazismo na Alemanha
- A estratégia da AfD para atrair jovens e a narrativa de segregaçãofoco nos jovens do leste alemão·políticas de inclusão como agressão·jovens homens europeus preteridos·infiltração em subculturas como a cena gamer
- A influência das redes sociais e a construção de um rockstar políticoAfD como partido que melhor entendeu as redes sociais·TikTok como plataforma para figuras como Björn Höcke·carisma autêntico de Björn Höcke·rebeldia como atrativo para jovens
- O discurso xenófobo e apolítica de imigração como fator de politização·perda de identidade e não se sentir em casa·Angela Merkel e a traição do povo·transformação multiétnica sem consentimento
Esse episódio faz parte de uma audiosérie original Audible. A temporada completa já está disponível na Audible. Acesse agora o site audible.com.br, faça sua conta e teste grátis por 30 dias. Outros meses se você for membro Amazon Prime. Os episódios de Quem Matou a Política vão ser veiculados no feed do Escafandro sempre às segundas-feiras. Os episódios de Escafandro continuam saindo normalmente, a cada 15 dias, sempre às terças para financiadores e às quartas para o público geral.
Oi.
No começo da noite de 4 de setembro de 2025, a jornalista Andrea Dieppe caminhava ao lado de um colega alemão por uma rua da cidade de Erfurt, na Alemanha. Eles estavam em busca de um endereço onde ia acontecer uma reunião pra um grupo seleto de pessoas.
Era uma rua muito pequena, uma rua de paralelepípedo super estreita.
Erfurt tem 200 mil habitantes, fica a 300 km ao sul de Berlim e é uma cidade medieval com direito a telhados góticos pontudos.
Tem muita coisa que foi destruída, né, na guerra, nas guerras, né? Então também tem coisas novas assim.
Durante a Guerra Fria, Erfurt, assim como toda a região da Turíngia, ficava na Alemanha Oriental, sob a batuta do comunismo soviético.
Essa mistura doida aí de Alemanha pós-guerras e pós-divisões, né?
O endereço que a Andréa Jeep tava procurando naquela noite ficava na parte antiga dessa mistura doida, a parte que tava lá desde a Idade Média.
Era uma rua bem residencial, ou tinha umas lojinhas pequenininhas assim, já tava tudo fechado. E a gente ficou muito tempo andando nessa rua, indo e voltando, porque a gente não conseguia encontrar o lugar.
O encontro tinha sido divulgado só em certos círculos, não tinha nenhuma placa na porta, era, enfim, uma reunião feita de maneira discreta. Provavelmente porque depois do fim da Segunda Guerra, a apologia ao nazismo se tornou crime na Alemanha. Ideologias que se aproximam do nazismo são mal vistas pela maioria dos alemães.
Em Berlim, você vê plaquinhas com nomes e data dos judeus que foram mortos naquele lugar. Quer dizer, a memória tá ali o tempo todo, né?
Mas apesar da memória do Hitler e da guerra, que ainda faz alguns encontros acontecerem de forma mais discreta, a extrema-direita tem crescido rápido na Alemanha. Nas eleições federais de fevereiro de 2025, a AfD sigla para Alternativa para a Alemanha e o mais próximo do nazismo que a política alemã tolera atualmente, dobrou o número de votos em relação a 2021. Recebeu 20% do total de votos. Com isso, a AFD se tornou o segundo partido mais votado do país.
Ao mesmo tempo, em maio de 2025, a AFD foi classificada oficialmente como uma organização extremista de direita pelo serviço de inteligência alemão. E assim, depois de meses de apuração, de idas e vindas de trem entre Berlim e Erfurt, ela tinha chegado ali. Aquele encontro no porão de um bar de uma cidade medieval. Um encontro de extremistas de direita pra falar sobre ódio racial.
E a gente viu umas pessoas paradas numa porta. A gente falou, bom, deve, só pode ser aí, porque era o único lugar que tinha gente fora.
A Andrea Dieppe não tava sozinha nessa missão. Não é nada aconselhável ir a encontros de extremistas de direita alemães à noite sem companhia. E mesmo se ela quisesse, ela não teria chance. Afinal, a Dieppe é brasileira. E o cerne da política da AFD é, claro, o ódio a qualquer pessoa que não seja genuinamente alemã. E assim, a Andrea Dieppe tem a pele bem branca, os olhos bem azuis, Cabelo preto raspado do lado. Ela é vocalista de uma banda punk, tem mais tatuagem do que a sua mãe acharia sensato, calça coturnos com um palmo de sola e se defende no alemão. Ela poderia se passar por alemã em qualquer país europeu, mas não na Alemanha.
Eu nem sou branca lá, né? É uma coisa muito doida isso.
Você não é branca lá? Não. Ah, vai.
Não.
Sério?
Por ser latina, por ser brasileira, eu não sou branca, ponto.
Isso causava um problema pra nossa empreitada. Porque como uma pessoa não branca, uma estrangeira, uma imigrante ia entrevistar gente que odeia tudo isso? E aí você arranjou um parceiro, certo?
Sim, porque eu imaginei que uma das dificuldades que eu teria seria justamente conseguir que eles me dessem entrevista, já que eu sou imigrante, né? Já que eu sou o inimigo.
Porque é diferente você frequentar um evento como estava fazendo, calada, só assistindo ali no seu lugar de bela arrecatada e do lar.
Exatamente. Assim, eles não iam topar Ou se eles topassem, eles não iam falar o que a gente queria ouvir. Diante disso, eu chamei, escalei o meu amigo e cientista político Aurich Schubertz, que é alemão, que fala português perfeitamente, mas que é alemão e num terno também passa ali por um cidadão de bem alemão.
Contratar um guia alemão na Alemanha não é exatamente inventar a roda. Mas a artesania do plano ia além, porque quando eles se apresentavam, eles invertiam os papéis, como se o Auric Schubertz fosse o repórter e a Jeep fosse uma assistente.
E a gente montou inclusive assim variações, né? Então assim, ah, se ele responder isso, a gente pode ir por tal caminho. Se ele responder aquilo, você pode perguntar isso, né? A gente montou juntos o que que a gente queria saber deles assim. E eu fui como técnica de som.
Uma técnica de som latina que sequer falava alemão.
O Auric falou que eu não entendia nada de alemão, então eles se sentiram ainda mais à vontade para falar todas as barbaridades que eles falaram.
Sensacional. E assim, com as tatuagens devidamente cobertas, ao lado do companheiro alemão embalado num terno, Andréa Dieppe finalmente achou o tal endereço.
Daí o Auric perguntou, ah, o evento com o Stefan Moller é aí? E aí as pessoas, sim, é aqui, pode entrar.
E eles entraram num bar escuro que ficava, claro, num porão.
Uma escada estreitinha que descia para um subsolo. E aí embaixo era tipo uma taverna assim, era o teto era baixo, abobadado, as paredes de tijolo aparente e o bar ficava bem na saída da escada. Tinha um alemão enorme dentro do bar e várias pessoas ali já confraternizando. E aí ele cumprimentou o Auric, foi até o Auric, deu a mão pra ele e falou, bem-vindo, camarada, em alemão. Não falou comigo. Aí o Áureo pediu uma cerveja. Esse lugar era só um bar bem pequeno assim.
E aí a gente entrou pra uma segunda sala que tinham mesas coletivas de madeira. E aí tinham velas assim nas mesas.
A Andréa Dipp é uma jornalista experiente com mais de 20 anos de profissão. Além disso, como eu disse lá atrás, Ela tá acostumada a se infiltrar em eventos da extrema-direita na Alemanha. Por fim, ela tava acompanhada do Auric, que não é exatamente um cara delicado.
Assim, confio muito no Auric. Confio muito na faixa preta de judô do Auric.
Ele é faixa preta de judô?
É. Ele foi segurança também de festa muito tempo, então...
Ainda assim, Quando entrou naquele porão, a Dipe sentiu que tava em perigo.
Foi a primeira vez que eu senti medo, assim, de estar num evento. Medo mesmo. Porque é isso, era um evento não oficial, nesse lugar pequeno, apertado. Tinha muito uma aura de filme antigo nazista, assim.
O mundo tem hoje mais de 8 bilhões de pessoas. Todas elas conectadas por uma rede invisível e intrincada de tecnologias que tornou a comunicação imediata. Quantidades incontáveis de decisões são tomadas a cada fração de segundo e cada uma dessas decisões modifica a realidade de forma instantânea. O mundo nunca foi tão complexo. Essa complexidade crescente tem desafiado a nossa capacidade de organização. Tem desafiado em especial uma das pedras fundamentais dessa organização: a política.
Líderes de diversas partes do planeta têm cada vez mais dificuldades para oferecer respostas e são frequentemente punidos pelas urnas. Muitas vezes, a impressão que se tem é que a política foi ferida de morte. Eu sou Tomás Chiaverini e nessa série original Audible, em parceria com a Rádio Escafandro e a Rádio Guarda-Chuva, eu vou acompanhar alguns dos maiores repórteres do país em investigações pra tentar responder a uma pergunta inquietante: quem matou a política?
Quem matou a política?
Quem matou a política? Quem matou a política? Assunto da vez: a demagogia da extrema-direita. A demagogia é uma estratégia política, vem do grego e em termos literais significa algo como a arte ou o poder de conduzir o povo. Tem a ver com promessas impossíveis, com a criação de narrativas irreais, tem a ver em suma com algo que está intrinsecamente ligado com a política. Tem a ver com a mentira. E por um lado, na política, a mentira não escolhe ideologia.
Todos os políticos mentem, como explicou o cientista político, professor da Universidade da Flórida e pesquisador da extrema-direita Guilherme Casarões.
A atividade política, ela envolve em larga medida o controle de informação. Quando você é político, você tem que escolher muito bem aquilo que vai ser transmitido para o seu eleitor, para o público em geral, aquilo que não pode ser transmitido, não pode ser passado naquele momento, mas que um dia você vai revelar.
Por outro lado, hoje a gente percebe que uma das pontas do espectro ideológico abraçou a mentira como estratégia de forma mais intensa. Pense em líderes populistas da extrema-direita como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu. Eles não somente criam uma realidade própria, que também conta com uma rede própria de disseminação, como a gente contou no episódio anterior.
A extrema-direita conseguiu um feito, não só no Brasil, na Alemanha, nos Estados Unidos, que é tocar a profundeza dos preconceitos ou da ignorância humana. E eles fazem isso de maneira deliberada.
Isso tem a ver com um enxame de fatores, mas o Guilherme Casarões me falou sobre um deles que às vezes passa despercebido para quem pensa no assunto. Um fator que diferencia as ideologias de direita e de esquerda. Segundo ele, a esquerda historicamente apostou na ideia da utopia, na construção de um mundo futuro melhor.
Tanto nos simbolismos quanto nos discursos quanto nesse ímpeto revolucionário, muitas vezes a ideia da esperança ela tava sempre ali.
Já a direita não costuma investir na ideia de esperança.
Claro que você pode construir um discurso que ele te dê uma certa perspectiva de futuro também, mas basicamente o que que move a extrema-direita como movimento político, onde que ela toca nas pessoas? Ela toca, eu diria, em 3 grandes afetos, que é o ódio, é o medo e é o ressentimento. Então é o ódio contra tudo aquilo que representa uma divergência daquilo que você acredita. Então todo diferente, seja o diferente por orientação sexual, seja o diferente por ideologia, seja o diferente em termos raciais, ele vai ser enquadrado nessa categoria do ódio.
Nessa santíssima trindade da ideologia de direita, o ódio anda junto com o medo.
Você é educado a ter medo do negro, a ter medo do LGBT porque ele vai destruir sua família, a ter medo da mulher empoderada porque ela vai romper a estrutura da família conservadora. Isso tudo ajuda a incitar o ódio.
Por fim, tem o ressentimento.
Porque qual que é o fundamento de todos esses movimentos políticos de extrema-direita que a gente vê proliferar ao longo dos últimos 15 anos, mais ou menos, 20 anos? É a ideia de que houve uma grande transformação do mundo que deu muito poder e poder desproporcional a essas figuras diferentes.
O woke.
O woke. É o LGBT que agora tem cota, é o negro que agora tá empoderado porque tem cota também, porque vai tirar o emprego do branco, é a mulher que vai tirar o emprego do homem. É a ciclofaixa que não deixa mais o carro andar na rua. E aí essa pessoa que tava no lugar de poder, numa posição de privilégio, ela vai olhar e falar, pô, mas eu tô perdendo. E isso produz medo e ódio, que são elementos que eles se reforçam, mas produz também um grande ressentimento.
É uma revanche.
É uma revanche, é uma revanche. O Bolsonaro representa uma revanche.
Enquanto eu ouvia essa análise do Casarões, simples, direta e objetiva, eu tinha dificuldade para encontrar um exemplo desse fenômeno se desdobrando no mundo real. Não porque ele fosse um fenômeno raro, mas justamente pelo contrário. A instrumentalização do ódio, do medo e do ressentimento vira um recurso tão manjado que eu tinha dificuldade em escolher um único exemplo. Diante disso, eu lancei mão da estratégia mais certeira que pode ser usada em qualquer tipo de escolha.
De discos a filmes, de comidas a livros, se tiver dúvida, investe no clássico que você vai se dar bem. E quando eu pensei no grande clássico da demagogia de extrema-direita, eu, claro, pensei no nazismo alemão. Feito um vestido tubinho preto, ele vai agradar racistas e xenófobos ressentidos, em qualquer lugar, de qualquer tempo. Dos encelos de Santa Catarina aos rednecks do Cinturão da Ferrugem. Além disso, tem todo o peso histórico, né?
Os alemães sabem muito bem o que significa apostar num líder de extrema-direita com traços de psicopatia. Eles viram o país deles ser literalmente dividido ao meio por um muro. E eles fazem questão de lembrar das atrocidades, de ressaltar as marcas que o nazismo deixou, cicatrizes urbanas como igrejas em ruínas ou placas com o nome de judeus exterminados. Quer dizer, um discurso que flerte com o nazismo na Alemanha me parece muito mais impactante do que o mesmo discurso em qualquer outro lugar.
E assim, tema estabelecido, eu não tive muita dificuldade de achar a pessoa certa para a missão: Andréa Dieppe. Jornalista investigativa com 20 anos de carreira, moradora de Berlim desde 2022, pesquisadora da extrema-direita, a perfeita heroína punk pós-moderna. Quando eu propus que ela saísse pela Alemanha em busca de neonazis, a Andrea de Ypê, claro, curtiu a ideia. Mas logo de cara a gente teve de fazer um grande ajuste, porque o nazismo é proibido na Alemanha.
Ele não faz mais parte da política. Então a gente deu um passo atrás para falar sobre a extrema-direita que não se chama abertamente de nazista, ainda que tenha afinidade com os discursos do Hitler. A AFD defende abertamente que certos grupos étnicos sejam alijados do debate público, por exemplo. E não são poucos os apoiadores da AFD que se declaram neonazistas.
Eu tenho amigos que também são professores em colégio. E começaram a dizer que muitas crianças e adolescentes estavam se dizendo nazistas. Então, quando a gente conversou, eu pensei, ah, eu acho que talvez seja importante a gente falar sobre isso, sobre essa situação.
E assim estava delimitado o objetivo da nossa missão: tentar entender um pouco melhor por que tantos jovens alemães estão sendo seduzidos pelo nazismo ou por correntes ideológicas que flertam com ideias do nazismo. Para fazer isso, Andréa Dieppe focou as atenções na face político-institucional do extremismo de direita. A alternativa para a Alemanha. O partido foi fundado em 2013, na esteira da crise econômica de 2008, como uma força política crítica à União Europeia.
Porque tinha essa ideia de que a Alemanha era mais forte do que os outros países e tava carregando todo mundo nas costas.
Ressentimento, lembra?
Então a AFD surge meio que por aí, sabe? Não era neonazista. Mas aí, e aí algumas pessoas dentro da AFD é que foram se encaminhando mais para esse nacionalismo e para esse revisionismo aí do nazismo.
Essa guinada extremista ficou bem clara para o mundo em 2025, quando o estrategista político mordomaga Steve Bannon fez o típico gesto associado ao nazismo num evento de extrema-direita nos Estados Unidos. Mas mesmo antes disso, a guinada à direita sofreu reações na Alemanha, algo que eles chamam de cordão sanitário.
Porque eles dizem: não podemos trazer de volta o nazismo para Alemanha, não podemos nos unir a extremistas de direita.
Então eles, no caso, são os políticos da direita alemã tradicional. E aqui a Jeep tá resumindo um pensamento que se espraiou entre os políticos democráticos da Alemanha naquele momento, de que era preciso fazer o que eles chamam de cordão sanitário.
Nenhum outro partido se alia à AfD para votar pauta, para propor projetos e tudo mais.
Um dos responsáveis pela guinada extremista da AfD foi um cara chamado Björn Höcke, que na época da nossa apuração era o líder da Bundesland na Turíngia, algo semelhante à nossa Assembleia Estadual. O Björn Höcke, à primeira vista, parece tudo que um jovem não quer como ídolo. É um professor de história de meia-idade, com uma oratória esquecível, natural de uma região com forte tradição rural, a Turíngia. E isso colocou a gente diante de outra questão a ser respondida: por que esse cara, Björn Höcke, fascina os jovens?
Por que que ele é um rockstar para juventude assim?
O primeiro passo para tentar desenrolar esse novelo dado vários meses antes da descida ao porão do ódio racial, foi, claro, tentar entrevistar o Björn Höcke.
Acontece que, diferente de outros líderes populistas e populares de direita, ele não é um cara falastrão. Ele é bem na dele, assim, ele é bem reservado, ele se apresenta como alguém do campo, sabe? Alguém que corta lenha, que passeia pela mata, ele tem essa coisa porque ele é da Turíngia, né? E a Turíngia Guruja, na Alemanha, é um pedaço que tem muito essa coisa dessa valorização da terra.
Aqui tem um pequeno paradoxo, claro que tem, porque apesar dessa persona de homem do campo simplão, avesso à mídia, o Rocket tá o tempo inteiro na mídia.
Tem muitas coisas no TikTok, por exemplo, sobre ele, mas nenhuma é ele falando para o TikTok, sabe?
Dá uma característica de uma liderança natural, né?
Exatamente.
De qualquer forma, Como bom populista de direita, o Höcke investe no ódio e na polêmica.
Quando ele chamou o memorial aos judeus assassinados, né, que tem em Berlim, de monumento da vergonha. E ele defendeu uma mudança de 180 graus na política de memória alemã sobre o nazismo. Então também tem essa coisa do revisionismo histórico sobre o nazismo, que ele é muito forte sobre isso. Ele chegou a ser condenado por usar o slogan Tudo pela Alemanha em um discurso, um slogan nazista, né?
No fim, já viu, né?
Não conseguiu.
O Roque nem pensou em dar uma entrevista pra gente.
E a resposta era sempre essa: ele não dá entrevista, ele não vai dar entrevista.
Diante disso, plano B. Stefan Müller, deputado estadual e porta-voz da AFD na Turíngia.
Então a gente entrou em contato com o Stefan Müller e ele topou.
E aí ele falou: venham até mim?
Sim. Venham também. Então a gente pegou o trem Berlim, foi para Erfurt, que é a capital do estado da Turíngia, que é onde tem a sede da AFD Turíngia. Umas 2 horas e meia de trem.
A equipe me explicou que a entrevista aconteceu numa parte do parlamento estadual que é reservada aos gabinetes dos partidos.
E aí foi a secretária do partido buscar a gente lá embaixo. E aí quando você vai entrando pelos corredores, tem várias fotos nas paredes que são ou fotos de manifestações feitas pelos jovens, por exemplo, manifestações pedindo a reemigração, ou fotos, por exemplo, do Björn Höcke durante um grande evento ali como uma pessoa muito iluminada assim.
O Stefan Möller recebeu a Dipe e o Auric numa salinha pequena com uma mesa, 3 cadeiras e nada mais.
Ele foi simpático assim, e aí simpático, eu quero dizer simpático dentro dos padrões alemães de simpatia.
Deu um abraço e 3 beijinhos?
Não, imagina, mal me deu a mão, me deu a mão com nojo ali, né?
Assim, você sentiu uma coisa diferente? Em relação a você e ao Auric?
Totalmente. Cada vez que ele ia fazer uma fala xenófoba, que ele ia falar mal de imigrante, ele me dava uma rápida olhadinha assim de lado. Eu via o olho dele ir pra mim e voltar assim. E aí eu também tomava muito cuidado pra não esboçar qualquer reação.
Porque você não falava alemão.
Exatamente.
Apesar de você falar alemão, eu tô entendendo perfeitamente o que ele falava.
Perfeitamente eu não diria, mas assim, um pouco eu entendo, né?
Assim... E foi difícil pra você?
Não esboçar reação diante de barbaridades é uma coisa que eu faço há muito tempo.
Vocês fazem isso?
A gente faz. Sei lá, entrevistando Malafaia, entrevistando Feliciano, entrevistando...
Andréa Dipp é autora do livro Em Nome de Quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder. Daí a abundância de pastores no passado jornalístico dela.
Eu treinei bem, assim. Todo o meu treinamento me levou a esse momento.
Assim como todos os outros filhotes modernos do fascismo, a AFD tem um discurso de segregação. A Alemanha tá dividida, sempre esteve dividida, e isso não precisa mudar. Escuta só um trecho da fala do Möller, dublada pelo Renan Suquevicius.
Essas duas Alemanhas nunca deixaram de existir. Elas continuam existindo, é claro, e portanto não são apenas aqueles que nasceram antes da reunificação que têm convicções diferentes sobre como a sociedade deve funcionar, mas também aqueles que nasceram após a reunificação, na Alemanha reunificada.
Por que que ele falou isso? Porque a AFD tá muito focada nos jovens meninos do leste alemão. O principal foco de conquistar corações e mentes é dos meninos da Alemanha Oriental, que são pessoas sem frescura, são pessoas ligadas à terra, que existe ainda um modelo de masculinidade que é importante, que os papéis ainda são muito importantes, os papéis de gênero, e que essas coisas são meio que modernidades do Ocidente.
Para o Moller, essas políticas de inclusão, de defesa da igualdade, são uma forma de agressão para uma boa parte dos jovens alemães.
Os jovens, em grande medida, muito mais do que os aposentados, por exemplo, também sofrem com as imposições da sociedade. Por exemplo, experiências de violência na escola ou experiências de injustiça.
Ungerechtigkeitserfahrung, ja, zurückgesetzt werden, weil man beispielsweise—
Ele tá falando que os meninos do Leste sofrem preconceito. Eu tenho visto muito isso também nos congressos que eu vou, é que a direita tá se dando conta e tá de fato mirando os trabalhadores, do mesmo jeito que a extrema-direita também no mundo todo mira esse menino cisgênero heterossexual que não se sente pertencente a grupo nenhum, que não se sente representado por grupo nenhum, que aí ele ele vai então, por conta do ressentimento e de todas essas emoções somadas ali, vai encontrar o que ele acha que é um lugar nesses grupos incel, nesses grupos red pill, nessas ideologias de vamos ter orgulho de ser homens e tal.
Que no caso da Alemanha ainda se soma com vamos ter orgulho de ser alemães, porque ter orgulho de ser alemão era feio por causa do nazismo.
Ser preterido porque se é homem e não mulher, por exemplo, isso exige na Alemanha atualmente. Ou seja, a tentativa de estabelecer a igualdade que a esquerda tenta estabelecer favorecendo determinados grupos leva naturalmente a uma discriminação de outros grupos. O jovem homem europeu geralmente fica para trás nesses processos. Mas ele percebe isso. Um jovem quer ter oportunidades. Quando percebe que uma sociedade lhe tira oportunidades, ele procura alternativas.
E como essa sociedade é de esquerda, ele procura alternativas logicamente no espectro da direita, onde lhe é oferecido algo diferente.
E aí ele fala, e é isso que a gente tem aqui.
Então, quando a intolerância termina e se torna uma imposição? Quanta capacidade de tolerar determinadas circunstâncias eu posso ignorar? Quão forte é essa capacidade?
Aqui não custa ressaltar: a Alemanha é hoje uma das democracias mais consolidadas do mundo. Ninguém está de fato impondo nada. O Müller sabe disso. Esse, vale lembrar, é um episódio sobre demagogia, sobre a construção de narrativas. E quando a gente fala em construção, é importante entender que os processos históricos levam tempo. Nesse momento, enquanto você me ouve, algum político autoritário em algum lugar do planeta tá dando um passinho a mais nesse processo, testando a temperatura da água para saber até onde pode ir com o próprio extremismo, experimentando discursos.
Acredito que a tese da diversidade provoca reações alérgicas aqui, enquanto lá no Ocidente ela é amplamente percebida como algo positivo. Aqui ela causa irritação socialmente falando.
Aí nossos repórteres perguntaram especificamente sobre como a AFD tem lidado com os jovens eleitores. O Möller deu uma resposta passivo-agressiva, como se antecipasse uma acusação. Diz que eles são políticos e não pregadores.
Isso significa que fazemos uma proposta política. E não fazemos apenas uma proposta política, vendemos em última análise uma visão de sociedade. Se você quer se aproximar dos jovens, você tem que explicar sua visão de sociedade e não pode fazer isso por meio de uma iniciativa parlamentar. É claro que você precisa entrar nesse espaço cultural em que os jovens estão.
Certo, um pouquinho pregadores então.
Ele disse assim que eles têm também tentado se infiltrar em subculturas como a cena gamer.
Olha só, quem diria, hein?
Pois é, sem imaginar uma coisa dessa. Mas não é interessante alguém falando isso com todas as letras assim?
É. Aí tem a questão da desconfiança do mundo político diante da AFD. Para o Müller, esse cenário tá mudando rápido.
Acho que começou com Elon Musk e os americanos.
Pois é, Elon Musk, o homem mais rico do mundo, que durante um evento de campanha de Donald Trump também fez um gesto similar à saudação nazista. Duas vezes. Ele virou uma espécie de garoto propaganda global do partido.
Ele fez uma entrevista com Alice Weidel no X ao vivo.
A Alice Weidel foi candidata a chanceler pela AFD, afirmando, por exemplo, que o Hitler era comunista.
E o Trump, quando foi eleito, chamou a AFD para posse. A AFD estava lá na posse.
E aí tem o rockstar da AFD, Björn Höcke. A Jeep perguntou sobre ele para o Müller.
Ele não é um tipo polido, moldado, é uma personalidade excepcional. É também uma figura que é combatida pela República Federal até o último suspiro. Querem, na verdade, torná-lo completamente invisível. Mas justamente isso é o que o torna tão atraente. Porque as pessoas perceberam: ah, isso é algo totalmente diferente do que me contam o tempo todo. E isso tem seu valor. O que ele diz é convincente.
Essa ideia de que é no discurso da AfD que reside a verdade acaba se aproximando do nazismo. Porque apesar de eles abraçarem a visão de mundo nazista, a xenofobia, o ódio ao diferente, a ideia de pureza alemã, eles têm de manter as aparências. Então eles se distanciam do nazismo oficialmente. Ao mesmo tempo, dizem que o nazismo não foi exatamente o que foi.
A geração da guerra, eram todos nazistas e criminosos? Eu vejo meu avô de uma forma diferente, por exemplo. Isso também é uma guerra cultural que a esquerda venceu durante anos, décadas, mas agora tá perdendo. E claro que isso não passa despercebido para os jovens.
No fim da entrevista, a Dipe e o Auric perguntaram para o Müller como ele vê a AFD em 10 anos. Ele respondeu que o partido vai estar governando a Alemanha, se não for proibido antes.
Esse episódio faz parte de uma audiosérie original Audible. A temporada completa já está disponível na Audible. Acesse agora o site audible.com.br, faça sua conta e teste grátis por 30 dias. Outros meses se você for membro Amazon Prime.
O Stefan Müller pareceu feliz com a condução da entrevista, tanto que quando o Auric falou sobre o interesse em entrevistar jovens ligados ao partido, ele deu o contato de duas pessoas, moradores da mesma região da Turíngia.
A gente voltou para Berlim porque eles demoraram para responder, a gente ficou um tempão caçando eles e tal.
E assim, algumas semanas depois da conversa com o Stefan Müller, Jeep e Auric estavam de volta ao Parlamento da Turíngia.
A gente entrevistou primeiro um menino, ele chama Erik Engelhardt e ele é ex-presidente da Junge Alternative.
Essa organização, a Junge Alternative, ou Juventude Alternativa, é uma das terrivelmente saborosas contradições da AFD. Porque durante 10 anos ela funcionou quase como um braço do partido, até que em 2025 eles simplesmente acabaram com ela.
Porque a Jung Alternative, por exemplo, durante a campanha eleitoral eles fizeram vários eventos, principalmente na Turinja, em que eles cantavam músicas que falavam em deportação em massa, sabe? E tudo isso nos comícios da AFD, e chamou muita atenção da mídia.
Aqui não custa lembrar que o Holocausto também começou com deportações em massa.
E aí isso começou a ficar feio. E aí o governo alemão falou, ó, estamos de olho em vocês, estamos de olho nessa organização. E aí a AFD falou, gente, vamos separar aqui, vamos falar que vocês não são conectados com a gente oficialmente, para não ficar mais feio ainda.
Por isso os dois jovens que deram entrevista para a DIP estavam meio que num limbo. Eles eram líderes jovens ligados ao partido, mas sem cargos oficiais lá dentro. Algo que mudaria alguns meses depois das entrevistas. De qualquer forma, a primeira delas foi com o influencer digital Eric Engelhardt. Ele é protagonista de vídeos machistas e xenófobos defendendo a reemigração com discursos de ódio, em especial contra os árabes.
Ele é um menino baixinho, magrinho, muito loirinho, muito branquinho, gelzinho, tava de terno. 23 anos.
A Dipe me contou que, como o Eric tava ali representando o partido, ele foi mais institucional no discurso do que costuma ser nas redes, pegou leve no radicalismo. Mas ao mesmo tempo, ela sentia que ele tava se contendo, principalmente em relação a ela.
Ele me olhava com nojo mesmo, assim. Ele mal me cumprimentou, mal olhou para minha cara. Claro, né, porque é isso, para ele eu sou, não sou gente, né.
A entrevista começou com o Eric explicando que entrou para a AFD em 2019, quando tinha 17 anos.
Fui a um evento para as eleições estaduais de 2019 na minha cidade natal, Sonnenberg.
Quem tá dublando o Eric é o Mateus Marcolino.
Eu participei, observei, ouvi alguns discursos e percebi que era um partido que defendia o que eu também considerava certo.
A gente pergunta, Tá, mas o que afinal você considera certo?
Foi a política de imigração que me politizou um pouco. Desde 2015 temos visto um grande fluxo de pessoas de outros países e isso naturalmente traz certas dificuldades.
Porque todo o discurso da AfD é que quando a Angela Merkel abriu a Alemanha em 2015 para refugiados e imigrantes, isso estragou a Alemanha, estragou tudo.
Eu disse que não queria isso, que não queria essa imigração em massa, que também não queria a perda de identidade que isso acarreta. E então me filiei ao AfD.
Aqui tem um ponto importante que a gente precisa destacar nesse discurso xenófobo, que ele é uma narrativa relativamente fácil de construir. É mais fácil para um político falar que a culpa é dos imigrantes porque a solução para o problema é aparentemente simples. É só expulsar os imigrantes. Isso, claro, é mentira. Como a gente tá mostrando desde o primeiro episódio, o mundo tá cada vez mais complexo, os problemas são múltiplos e intrincados, e as soluções muitas vezes são desconhecidas.
Diante disso, os nossos repórteres perguntaram se eles já tiveram algum problema real e pessoal causado pela terrível imigração que destrói o verdadeiro espírito alemão.
Todos os dias nas ruas, quando você não ouve mais alemão, mas sim idiomas estrangeiros. Isso é uma experiência pessoal que eu acho que todo mundo tem. Essa perda de identidade, de não se sentir mais em casa no próprio país. E acho que isso também foi um ponto decisivo para mim.
Aqui, vale dizer que Erfurt não é Berlim. Tá longe de ser uma cidade cosmopolita recheada de sotaques diferentes. Mas, de novo, o que vale é a narrativa. Tanto que a política de acolhimento de imigrantes e refugiados da Angela Merkel ganhou até um nome: Volksverrat, traição do povo.
E eles falam que a transformação da Alemanha em uma sociedade multiétnica é uma experiência que não deu certo e que aconteceu sem o consentimento do povo alemão.
Aí a Jipe perguntou de novo: sobre a admiração ao Björn Höcke.
Pessoalmente, eu acho admirável que ele diga há anos o que pensa, apesar da perseguição dos meios de comunicação e da estigmatização. Isso, para mim, faz dele um bom político.
Certo, primeira entrevista concluída. Hora de falar com a Caroline Lichtenheld, à época ex-presidente estadual da Juventude Alternativa na Turíngia.
E ela também é super radical, principalmente na pauta de imigração nas redes sociais.
A Dili me contou que eles tinham combinado se encontrar do lado de fora dos escritórios do parlamento, o que gerou uma situação curiosa.
E eu tava procurando na minha cabeça uma menina loirinha, uma barbiezinha, uma barbiezinha. E aí a gente tava esperando, olhando, e no canto tinha uma menina que tinha um cabelo castanho comprido, tal, tava com uma roupa bem roupa que jovem alemão usa assim, uma calça jeans com aquela barra arrastando no chão, uma camiseta meio polida assim, tava de óculos, cabelo castanho, fumando um cigarro.
Podia ser da Juventude Comunista, totalmente, totalmente. No fim, claro, a moça com jeitão neo-hippie era a Caroline. E assim que se sentou na mesma salinha para começar a entrevista A Dipe percebeu que o jeitão era só jeitão mesmo.
Nem se dirigiu a mim em nenhum momento da conversa, era como se eu nem tivesse na sala.
Ela foi mais preconceituosa do que os outros?
Sim, eu acho que sim.
A Dipe inclusive tem uma hipótese para isso.
As mulheres têm discursos mais violentos que os homens, até principalmente nas pautas de gênero, porque é isso, não é um homem falando, então elas podem falar mal das feministas, podem destruir tudo muito facilmente assim. Então eu sinto que muitas vezes as mulheres da extrema-direita são mais raivosas e radicais nos seus discursos também para se provar, né?
Na época em que entrei na AFD e na Juventude Alternativa, muitos jovens ainda eram rotulados como a geração Greta.
Aqui ela tá falando da ativista ambiental Greta Thunberg. Ah, e quem tá fazendo a dublagem da Caroline É a Raffany Leal.
O que não era verdade, porque hoje muita gente da minha idade é politicamente ativa em partidos de direita. Eles não se identificam com o que veem na mídia. Começa com os temas LGBTQIA+, passa pelas questões de emissões de carbono. Vimos isso também com o tema da linguagem neutra de gênero. Muitas dessas coisas que se apresentam como modernas e woke simplesmente não interessam à maioria.
Eu fiquei pensando nessa fala. A ameaça woke, adoctrinação LGBTQIA+. Por que de repente ela virou algo importante para jovens que vivem em regiões mais distantes dos grandes centros? Eu tenho dificuldade em acreditar que a vida de um adolescente na Turíngia tenha ficado mais difícil porque os direitos transexuais são respeitados, porque a Greta Thunberg tá brigando por menos emissões de carbono. E sim, é demagogia, é narrativa, esse episódio é sobre isso.
Mas a questão que me vem no primeiro momento é: por que agora? E aí eu percebi que a resposta já tinha sido dada no nosso episódio anterior, e ela explica também porque ninguém mais dá bola para o discurso de esperança que o Guilherme Casalões falou lá no começo. Por que o tripé de ódio, medo e ressentimento que sustenta a extrema-direita é tão sólido? Por que, enfim, a demagogia da extrema-direita funciona tão bem nos dias de hoje?
É que nos dias de hoje ela encontrou o canal certo para ser disseminada em rolagens infinitas direto para o cérebro dos adolescentes. A Caroline sabe disso muito bem.
A AFD é o partido que melhor entendeu o jogo jogo das redes sociais. Tudo começou com Facebook, mas hoje é principalmente o TikTok. A geração mais nova, ainda mais do que a minha, tá o tempo todo vendo figuras como Björn Höcke ou Alice Weidel no TikTok. Além disso, as redes sociais fazem com que as pessoas sintam que já conhecem um pouco os integrantes. Isso também diminui a barreira de aproximação.
E assim, de novo, a gente chega nele, Björn Höcke.
No ano passado, durante a campanha eleitoral estadual, passamos 6 semanas viajando por toda a Turíngia em uma turnê de eventos familiares, eventos promovidos pela AFD que chamam de festas de família. A Juventude Alternativa participou com uma campanha especial para os jovens e a gente viu inúmeros rapazes e moças que foram apenas para ter a chance de falar com ele, tirar uma foto, pedir um autógrafo. O Hulk tem algo que é difícil de escrever: um carisma autêntico.
É como aqueles professores da escola que a gente percebe que realmente acreditam no que ensinam. Ele não tá na política por vaidade ou por status, mas porque realmente quer mudar a Alemanha para melhor.
Depois de terminar a entrevista, a Dipe e o Auric perceberam algo curioso. Porque ainda que ninguém tenha dito nada exatamente bombástico, a conversa com os dois jovens tinha sido um furo de reportagem. Não pelo que eles disseram, mas pelo lugar que eles ocupavam. Porque se a AFD tinha acabado com a Juventude Alternativa, por que o porta-voz do partido, num reduto eleitoral do partido, quando foi indicar jovens para falar com a imprensa, indicou dois jovens da Juventude Alternativa?
Quer dizer, a Juventude Alternativa não tinha acabado de fato, tava só passando por uma mudança para ganhar outra cara dentro do partido.
E eles falaram que grande parte dos jovens da organização estavam agora trabalhando então dentro do partido para construir essa juventude oficial.
No dia 29 de novembro de 2025, algumas semanas depois das entrevistas, a AFD fez um evento na cidade de Gießen, ao norte de Frankfurt, para anunciar que tinha criado um braço jovem para o partido. O nome escolhido foi Generation Generation Deutschland, GD, ou Geração Alemanha. A partir dali, a Caroline e o Eric tinham se tornado presidente e vice-presidente estaduais da GD na Turíngia. No lançamento, segundo o Der Spiegel, um dos principais jornais alemães, tava cheio de extremistas de direita e neonazistas declarados.
E aí eu fiquei pensando em tudo isso. Eu li as transcrições das entrevistas, conversei com a Andrea Jeep, e num primeiro momento achei que talvez não tivesse nada de anormal ali. Afinal, toda narrativa era algo que a gente tá cansado de ouvir. Aí eu pensei de novo e me assustei. Porque sim, é uma narrativa que a gente tá cansado de ouvir. Ao mesmo tempo, é uma narrativa de pessoas que, aos olhos dos próprios alemães, estão num espectro perigoso de radicalização política.
O serviço secreto alemão acompanha a AFD com preocupação. E a constatação de que a narrativa deles se tornou algo comum é das mais assustadoras, né? Além disso, tem o porão. Porque as conversas com o Mueller, com o Eric e com a Carolyn foram entrevistas oficiais no gabinete do partido. O discurso tava ali contido, modulado. Já no encontro no porão, do qual o Auric e a Dipe só ficaram sabendo porque conquistaram a simpatia do Stephen Mueller, não tinha modulação nenhuma.
O ódio A raiva e o ressentimento deixaram a Andrea Dieppe, uma repórter experiente, temerosa pela própria segurança. Era um medo, porque medo a gente às vezes a gente não explica, né? Mas você tinha, você pensou em algum desfecho que poderia te acontecer?
Era um ambiente hostil. Eu sou neta de judeus que ficaram em campos de concentração. Minha avó polonesa e meu avô romeno, os dois ficaram em campos de concentração. Fugiram para o Brasil. Meu avô tinha a tatuagem do campo de concentração no braço. Eu senti que eu tava num lugar que eu não deveria estar, definitivamente não deveria estar ali. E aquele evento estava acontecendo justamente para livrar a Alemanha de pessoas como eu.
Eu era o inimigo infiltrado ali. E era um lugar muito pequeno, um porão de um bar com um monte de gente que queria que eu morresse, basicamente.
Pra piorar, as mesas eram grandes, coletivas. Então eles sentaram em uma ponta e o restante dos lugares foi ocupado por extremistas de direita.
Lotou o lugar. E aí eu não podia realmente abrir a boca, nem pra falar com o Auric, assim. E morrendo de medo, porque pensando, gente, em algum momento alguém vai me questionar o que eu tô fazendo aqui, o que eu vou responder, né? A cabeça fica ali a milhão, assim. Eu conversava com o Auric por mensagem de texto. Ele tava do meu lado, mas pra falar com ele eu trocava mensagem de texto. E assim, ainda segurando meu celular embaixo da mesa pra ninguém ver que eu tava falando em português, né?
E na minha frente, na mesa, sentaram duas alemãs que passaram o evento inteiro gritando em alemão. Porque, né, isso tem uma camada a mais, ouvir gritos em alemão. Elas passaram o tempo inteiro gritando coisas como, imigrantes são lixo, imigrantes têm que morrer. Imigrantes voltem para casa.
Nesse trecho, por exemplo, dá para ouvir as duas mulheres que estavam na frente da Jeep dizerem que a pessoa tem que ser esquizofrênica para ser de esquerda. O tema geral da noite era o ódio racial, como ele não deveria ser considerado um crime o que na Alemanha é e como promover discursos racistas sem acabar em cana.
Como as pessoas deveriam falar e agir, se comportar de maneira que elas não fossem enquadradas por essa lei?
A Dife me contou que a coisa foi num crescendo. As pessoas foram ficando inflamadas com o avançar da noite e provavelmente também do teor alcoólico nas correntes sanguíneas. E aí? Ela achou que já tinha visto bastante.
Eu confesso que eu pedi pro Eric pra gente ir embora um pouco antes, porque eu achei que tava ficando muito tenso, eu achei que as pessoas tavam ficando cada vez mais exaltadas, gritando cada vez mais.
E o Miller tava lá?
Tava, ele que tava falando.
Talvez o fato de você tá lá e ele te conhecer poderia ser um problema também.
Mas eu acho que ele não me viu.
Mas se você ficasse até o final, talvez ele te visse.
Exatamente.
Eles ficaram pouco mais de 2 horas no evento e quando saíram passava das 10 da noite.
A gente saiu assim e foi para um bar e ficou sentado um tempo assim em silêncio, sabe? Assim, só, nossa, assim, demorou para conseguir elaborar assim.
Apesar do impacto dessa experiência, a Dipe e o Áureo, que ainda sentiam que faltava um detalhe importante para investigação deles ficar completa, Eles precisavam ir a um evento em que o Bjorn Hoche fosse falar.
Escutar o Hoche falando, né, assim.
E não foi fácil.
A gente teve que tentar de muitas maneiras e pedir pessoalmente também para o Stefan Müller e depois para esses dois jovens para ajudarem a gente a se credenciar para os eventos e tal. E só assim que a gente conseguiu também.
Eles conseguiram acesso a um segundo evento, esse mais oficial, portanto provavelmente menos potencialmente perigoso. E aí toca pegar mais um trem para Erfurt e depois outro trem ainda mais para dentro ali da Alemanha profunda.
Acho que foi mais uma hora e meia para o leste, para o leste, uma cidade chamada Arnstadt. No trem a gente já percebia que tinham várias pessoas que estavam indo para esse evento, então com camisetas da Alemanha, camisetas igual no Brasil, né? Camiseta da Alemanha, bandeira da Alemanha, camiseta com logo da FD ou com a cara da Alice Weidel e uns dizeres dela, essas coisas assim. E a gente desceu do trem e a gente viu que a polícia já tava bloqueando as vias desde a estação de trem até o evento. A gente tá perto, você acha?
Não, acho que a gente ainda tá longe, mas olha quanta polícia já tem. Tá cheio de polícia aqui, a gente ainda não tá nem aí. Um dos motivos da presença policial era uma manifestação antifascista que tinha sido organizada para se opor ao evento que eles estavam indo.
E aí quando a gente foi descer a rua, uma policial virou para gente em alemão e falou assim: não se preocupem, eles não podem fazer nada com vocês, vocês estão seguros.
Para vocês? É, ela tá falando em relação aos antifas?
É, sim. E aí a gente passou e eles gritando coisas e tal, e eu pensando: meu Deus, o que que eu tô fazendo da minha vida, né? Assim, como é que eu vim parar do lado de cá dessa cerca? Estamos do lado errado dessa cerca, amiga. A gente tem que passar por eles, né?
E aí eles finalmente chegaram ao evento, que começou com um videoclipe que a Andrea Dieppe definiu como impactante.
Só com imagens de atentados terroristas cometidos por imigrantes, fotos de que pessoas estavam sendo procuradas pela polícia, árabes, sobretudo árabes. E aí, para ele entrar no prédio, ele, no caso Björn Höcke, foi uma câmera filmando ele lá de fora da entrada, ele e mais uns 3 ou 4 em volta. E aí me lembrou muito aquelas entradas de lutador de MMA, assim, que era uma música também super forte, super alta, muito alta tocando. Essa câmera na cara dele entrando no prédio e as pessoas de pé aplaudindo e gritando.
Pra mim foi a comprovação da coisa do rockstar, porque ele foi apresentado dessa maneira e as pessoas receberam ele dessa maneira.
A Andrea Dieppe passou meses investigando essa história que você ouviu. Mas para além disso, ela tá há anos mergulhada nesse universo, tentando entender o que tá por trás do crescimento da extrema-direita, do aumento dessa empatia ao nazismo, especialmente entre os jovens, num país que sofreu tanto nas mãos da extrema-direita. Quer dizer, existe demagogia, existe a criação de uma narrativa. Mas essa narrativa precisa de algum lastro na realidade para ganhar atração.
Para a Jeep, um dos pontos centrais tem a ver— bom, tem a ver com toda a nossa série. A política simplesmente não está sendo capaz de oferecer respostas. Então as pessoas acabam buscando figuras que prometem romper com o status quo.
Essa figura do outsider, no sentido de que ele não faz parte do mainstream, da mídia, da opinião pública. Ele fala o que pensa, ele não tem medo, ele não tem medo da mídia, ele não tem medo de chocar, de enfrentar o que está errado e precisa ser consertado.
Aí tem outro elemento que é a rebeldia intrínseca à juventude. Nada melhor para chocar a sociedade do que ser nazista na Alemanha, né?
De alguma maneira eles conseguiram trabalhar Pra que os jovens vissem isso como uma rebeldia.
Quer mais um motivo? As boas e velhas respostas fáceis.
Então a gente tem o tempo inteiro cientistas falando, gente, o mundo vai acabar, a gente vai morrer, a gente vai derreter igual lesma no asfalto, né? A gente já tá num ponto de não retorno. A gente tem novos momentos acontecendo nas questões de gênero. E aí, o que a extrema-direita oferece? Porque é isso, essas todas não são questões simples. Não tem como explicar cada uma dessas coisas de uma maneira simples. A esquerda, de fato, não consegue fazer isso nunca.
Como que você vai explicar que o mundo tá numa terrível crise neoliberal de maneira simples? Essas coisas se entrelaçam, né? A extrema-direita, ela mentindo oferece soluções. A crise climática não existe, é invenção da esquerda.
Se a sua cidade tá violenta, a gente resolve mandando os imigrantes embora e matando bandido, porque bandido bom é bandido morto, não é isso?
Fazendo chacina e 60% da população aprovando. Vamos ter mais emprego porque se a gente manda embora imigrante, se a gente melhora a economia, a gente também oferece mais empregos para os jovens.
Aqui, de novo, dando um passo atrás e refletindo sobre tudo que a Dipe falou, eu tive aquela sensação incômoda de familiaridade. A gente tá vendo esse filme se repetir em escala planetária, e isso não é coincidência. E de novo, é bem assustador.
Existe essa construção de narrativa que é feita de maneira consciente, de maneira transnacional, se adaptando às realidades de cada país, mas no fim das contas tá todo mundo mais ou menos construindo a mesma coisa, a extrema-direita no mundo inteiro, usando mais ou menos os modelos que funcionam, usando os mesmos discursos contra as mesmas pautas, porém de maneiras diferentes para cada situação.
Sabe o que mais existe na política alemã que se espelha na política planetária? A polarização.
Hoje na Alemanha você tem quase que metade dos jovens pendendo ou para a ACD ou para o Die Linke, que é o partido mais à esquerda.
A AFD tem explorado essa polarização com sucesso, assim como os políticos de esquerda exploram essa polarização com sucesso. Mas a gente não vai entrar mais fundo nesse tema agora, pelo simples motivo de que a polarização é o suspeito do nosso próximo episódio. Nele você vai acompanhar outra viagem também com emoção, mas bem longe da Alemanha, no interior do Pernambuco.
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