166: Castigo sem crime
Como é a rotina das mulheres de presidiários no Brasil? Quais os impactos do deslocamento de presídios para o interior? Como as "cunhadas" lidam com as regras escritas e não escritas que regem a forma de vestir, as visitas íntimas e o envio de alimentos? Por que muitas dessas mulheres são obrigadas a mudar radicalmente de vida para se adequarem à pena dos companheiros?
Ouça a resposta para essas e outras perguntas no episódio 166 de Escafandro.
Mergulhe mais fundo
Nos arredores da prisão: tensões, relações e movimentos de familiares de pessoas presas (link para compra)
Manicômios, prisões e conventos (link para compra)
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Entrevistada do episódio
Antropóloga e professora do Departamento de Ciências Sociais na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Autora de "Nos arredores da prisão" (Hucitec Editora, 2026).
Ficha técnica
Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.
Trilha sonora tema: Paulo Gama.
Mixagem de som: Vitor Coroa.
Produção, reportagem e edição de áudio: Matheus Marcolino.
Direção, roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini.
Tomás Chiaverini
Demetrios Aparecido de Freitas
Natália Lago
Vitor Coroa
- O Jumbo e a alimentação prisionalKit de sobrevivência para detentos·Regras de entrada de alimentos·Qualidade da comida estatal·Comida como afeto e relação·Disque Jumbo
- Regras e revistas vexatóriasRevista íntima·Scanner 3D do corpo·Taxa de apreensão·Humilhação e constrangimento
- Violência e controle no sistema prisionalTortura cotidiana·Controle do crime organizado·Penas por tabela·Medo e paranoia
- Vida Pessoal e Familiar· SociedadeRotina das mulheres de presidiários·Regras de vestimenta·Preconceito e estigma·Vitória Zanotto
- A vida nas cidades prisionaisCidades do interior de São Paulo·Dependência econômica do presídio·Pensões para visitantes·Tamara (cidade fictícia)
- Logística das visitasDeslocamento de presídios·Transporte público·Carona e fretamento·Cidades do interior de São Paulo
- Mudanças na política prisional de SPMassacre do Carandiru·Deslocamento de presídios para o interior·Primeiro Comando da Capital
- Maternidade gerada na féPromessa divina·Gravidez na prisão·Nascimento de Isaac
Oi!
Antes de começar o episódio de hoje, eu quero te falar de uma novidade das mais saborosas. É que no dia 4 de agosto a gente estreou uma audiosérie pra LAD especial no serviço da Audible. A Audible é um serviço de audiolivros e audioséries originais. A nossa série que acaba de estrear se chama Quem Matou a Política e é uma parceria entre Audible, Rádio Guarda-Chuva e Rádio Escafandro. São 10 episódios escritos e narrados por mim, ou seja, com DNA do Escafandro, mas que também tem algo a mais.
Porque a nossa missão com a série, que chega nos seus fones bem quando a corrida eleitoral começa a esquentar, é ir atrás dos maiores suspeitos pela nossa crescente desilusão com a política no Brasil e no mundo. Pra isso, eu contei com a ajuda de alguns dos maiores repórteres do país, cada um investigando um suspeito com o qual tem mais afinidade. Tem Ana Virgínia Balucier investigando a religião, tem Allan de Abreu investigando o crime organizado, tem Andréa Dipp, Juliana Dalpiva, Natália Silva e muito mais.
Ficou curiosa? Pois vai lá em audible.com.br que os 10 episódios de Quem Matou a Política já estão disponíveis. E aproveita que dá pra fazer um teste gratuito de 30 dias ou 3 meses se você fizer parte do Amazon Prime. E agora, sem mais delongas, o episódio de hoje.
Rádio Guarda-Chuva.
Jornalismo para quem gosta de ouvir.
Acho que o pior dia da minha vida, quando chegou as condenações, que a gente nunca acha, né, que a pessoa vai ser condenada todo esse tempo.
Pra entender como a Vitória Zanotto chegou nesse dia, a gente tem que voltar pra 2018. Ou 2019.
Não lembro, ele é melhor com data do que eu.
Foi nessa época que ela conheceu o marido dela. Walter.
Mas a gente se conheceu na loucura mesmo, assim, desse ramo aí que eu fazia coisas erradas. Conheci meu marido assim, toda doida, ele todo doido.
A Vitória não quis detalhar exatamente o que eram as doideiras ou as coisas erradas na conversa com o nosso produtor Mateus Marcolino.
Não tinha um serviço honesto e eu era totalmente perdida.
E aí?
Aí foi 2021, 2022 que ele foi preso.
E quando vieram as penas? Elas vieram pesadas.
Começou a chegar as condenações, uma de 12, na outra de 15.
Um dos maiores problemas que a Vitória enfrentou, que é o problema básico de quem se vê nessa situação, tinha a ver com a logística. Ela morava em Jundiaí, no interior de São Paulo, e o Walter foi cumprir pena em Hortolândia, a quase 2 horas de distância para quem depende do transporte público. Uma viagem que a Vitória levaria 3 horas para fazer.
Deus pediu para eu voltar com ele lá no Monroe Cárcere.
A essa altura, ela tinha virado evangélica, deixado as loucuras e as coisas erradas pra trás.
Só que eu falei pra Deus: Deus, eu até vou, mas eu não vou gastar um real, sei lá. Porque eu já não tinha.
Diante disso, antes de tentar dar um jeito de visitar o marido, a Vitória abraçou uma missão que a princípio pode parecer das mais desafiadoras.
Você vai querer ser esse homem de Deus ou eu vou ter que arrumar outro?
Mas que no fundo, a Vitória sabia que não era tanto assim.
Quem conhece o Walter, ele sempre foi louco, maluco e apaixonado por mim, graças a Deus.
Então, Segundo a Vitória contou, ele nem pensou duas vezes.
Ó, ainda hoje eu vou estar dentro da igreja. A partir de hoje eu não fumo mais, tô largando a minha religião para servir a Deus com você.
Diante dessa promessa, a Vitória começou a procurar algum jeito de visitar o marido na cadeia. Aí fala com um, fala com outro.
Tinha uma mulher daqui da minha cidade, ela era guia da unidade. O que que é guia? Guia é aquela que ajuda os visitantes.
Essa mulher ouviu a história da Vitória e falou: Olha só, vou te levar e não vou cobrar um real. Normalmente as cunhadas, como são chamadas as companheiras dos detentos, viajam para as visitas em vans fretadas ou ônibus, mas essa em especial tinha um carro. Então tava basicamente oferecendo uma carona, que não era pouca coisa, tá?
A passagem mesmo, se fosse para me cobrar, é uns R$100, R$150, entendeu? Ali já assusta, né? Porque são R$600 no mês só de passagem.
Junto com a carona vieram as instruções. Porque visitar um presídio é uma experiência dolorosamente única.
Ó, faz assim, faz assim, é essa roupa, é essa roupa, entendeu?
O jeito de vestir foi a primeira instrução e talvez a mais importante. A gente vai falar mais sobre isso daqui a pouco, mas o que você precisa saber é que existe um código de figura inoficial e escrito para as mulheres que vão visitar os detentos. Ele mistura quesitos de segurança que vêm do Estado, tipo não usar cintos, zíperes ou outras coisas que podem virar arma, com regras que visam evitar confusão entre os presos.
Não podia entrar de regata, não pode mostrar os ombros, né? Não pode mostrar a barriga.
Essa é a antropóloga e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, a Unirio, Natália Lago.
Não pode usar camiseta muito curta que deixa a bunda aparente. Então tem uma série de atenções ali ao modo de se vestir que tem a ver também com uma certa moralidade, sabe? Desse corpo da mulher como um um perigo, como uma armadilha, né? Tem a ver com as regras prisionais, mas também tem certas moralidades que circulam entre as mulheres e também entre os homens que estão presos.
Isso foi uma coisa que marcou a Vitória na primeira visita. Ela achou tudo... Bom, ela achou tudo horrível.
Um pouco roxo em cima, vermelho embaixo. Eu falei, nossa, o Boves tá igual essas doidas. Não!
E aí ela começou a pensar naquilo. Porque a carona com a amiga guia não ia durar para sempre e as penas do marido dela não eram exatamente curtas.
E eu falei, meu Deus, como que eu vou fazer para visitar todo esse tempo? E aí, orando, Deus me deu, e aí eu vou te sustentar. E moda para as cunhadas na minha cabeça enquanto eu orava de madrugada.
Moda para as cunhadas foi a mensagem que a Vitória acredita ter recebido de Deus enquanto orava de madrugada.
E aí eu acordei e falei para o meu pai, falei, pai, Deus falou comigo, Deus falou que ele vai me sustentar através da loja. Senhor, acredita em mim? Quer entrar aí de sócio comigo? Aí, claro que eu acredito e tal. E aí ele foi, pegou o único dinheiro que ele tinha e investiu comigo.
Eu sou Tomás Chiaverini e o episódio 166 de Escafandro já começou. Nele, a gente vai falar sobre a vida das cunhadas, as mulheres que quase sempre são responsáveis por manter a sanidade, as finanças e a família dos maridos e companheiros presidiários. Antes, eu preciso te falar sobre o financiamento da Rádio Escafandro, que como você sabe é feito por meio de um financiamento coletivo. Ou seja, a gente só consegue continuar produzindo novos episódios porque uma parte dos nossos ouvintes apoia o projeto financeiramente.
É isso que paga o nosso salário, a nossa trilha sonora, os nossos custos de produção e outros gastos como bancos de trilha, softwares de edição e de gravação, enfim, tudo que a gente precisa pra tentar fazer um produto cada vez mais interessante pra você que escuta. Mas a gente tá com um probleminha. Faz mais ou menos um ano que essa campanha tá estagnada. O que, descontando a inflação, significa que a gente tá tendo de fazer o mesmo trabalho com menos recurso.
E assim, quando eu falo que a gente tenta fazer um produto cada vez mais interessante, eu não tô falando da boca pra fora. Eu tenho certeza de que o Escafandro pode melhorar muito. Mas pra isso, a gente precisa de uma equipe maior. A gente precisa, por exemplo, de mais gente pra investigar histórias mais exclusivas. A gente precisa de um especialista em checagem, de alguém pra cuidar de redes sociais. A gente precisa poder contar com assessoria jurídica em casos mais complexos.
Enfim, a gente precisa de mais recurso. Então, se você também vê esse potencial, se você ama esse podcast, mas quer que ele voe mais alto, vem se juntar ao grupo de pessoas luminosas que apoiam o Escafandro financeiramente. O caminho mais fácil para fazer isso é por meio do fabuloso Pix recorrente usando a chave de email apoie@radioescafandro.com. apoie@radioescafandro.com. Mas tem vários outros caminhos e você encontra todos eles no nosso site, que é radioescafandro.com.
Lá você também consegue conferir os vários mimos que a gente oferece para os nossos financiadores. E por fim, se você já tá entre essas pessoas luminosas que mantêm o podcast no ar há quase 8 anos, gente como a Isabel Reis, a Marta Barbieri Machado, o João Seridônio e o Téo Ferraz Mota, muito obrigado. Mas muito obrigado mesmo por isso. O Brasil tem hoje 900 mil pessoas presas, incluindo aí os presos provisórios, que ainda não foram julgados, e os que estão em regime aberto e semiaberto.
Desses, 200 mil estão no estado de São Paulo. Essa população tem crescido numa rapidez preocupante. Em 1990, a população carcerária brasileira era de 90 mil pessoas no total. Ou seja, um décimo do que é hoje. Quando a gente olha para o estado de São Paulo, o que tem a maior população carcerária do país, a gente vê uma mudança clara de padrão que começou numa data bem precisa, dia 3 de outubro de 1992, quando aconteceu o maior massacre já registrado numa unidade prisional brasileira.
A polícia invadiu o presídio e tomou posição em várias saídas. Fumaça no pavilhão. Os presos fizeram fogueiras e queimaram roupas e colchões. Depois agitaram faixas com reivindicações debaixo de uma chuva forte. Quando a polícia resolveu agir, o resultado foi trágico.
Pelo menos 111 detentos da casa de detenção de São Paulo, o Carandiru, foram assassinados pela polícia.
Muito emocionados, os parentes dos presos pediam informações. A polícia saiu do presídio Por volta das 4 da manhã, debaixo de vaias e protestos.
Agora cedo, as pessoas já estão indo para o portão principal.
O massacre foi o estopim para uma grande mudança na política prisional de São Paulo por dois motivos. Primeiro, por uma razão prática. A capacidade oficial do Carandiru era de 3.250 presos, mas em alguns momentos dos anos 90 ele chegou a abrigar quase 8 mil detentos. Antes de o presídio ser desativado em 2002, esse pessoal, claro, teve que ser levado para outras unidades, novos presídios que passaram a ser construídos no interior do estado.
O segundo motivo para essa mudança de política foi o nascimento do Primeiro Comando da Capital, o PCC, em 1993. Com a organização entre os detentos e o fortalecimento de lideranças como Marcola, o estado optou por presídios afastados dos grandes centros e pelo isolamento dos presos considerados mais perigosos. Como resultado, hoje só 6% das unidades prisionais do estado de São Paulo estão na capital, o que significa que a maior parte dos detentos está longe das famílias, no interior, também conhecido como fundão.
Eu fiquei muito interessada nesse tema das prisões e do encarceramento, e na época muito curiosa em relação ao— tá, a gente tem aí alguns dados sobre encarceramento, mas a gente sabe muito muito pouco sobre as mulheres.
Nos idos de 2008, a antropóloga Natália Lago mergulhou numa etnografia que começou com trabalho voluntário na pastoral carcerária.
E eu chegava nas prisões para conversar com as mulheres, né, e queria conversar sobre crime, sobre tráfico, e elas não queriam falar comigo sobre isso. Elas falavam sobre família, elas falavam sobre os relacionamentos que elas tinham com outras mulheres da prisão ou com os caras do lado de fora, né, com homens que também estavam presos. Falavam dos filhos, falavam de pai e mãe, enfim, tinha ali uma profusão de histórias, né, que elas contavam um pouco a vida numa perspectiva assim de dentro para fora.
Ela passou todo o mestrado trabalhando com essas histórias. Aí, na hora do doutorado, ela resolveu inverter o ponto de vista, resolveu olhar de fora para dentro.
O que que acontece quando alguém vai preso? O que que acontece com a família? O que acontece com a rede de relações dessa pessoa? Como que a prisão transforma essas relações e reposiciona o cotidiano de uma família?
A etnografia da Natália aconteceu numa cidade do interior de São Paulo. Na tese de doutorado Nos Arredores da Prisão, que acaba de ser lançada em livro pela editora UCITEC, ela chama essa cidade de Tamara. A cidade fica a mais de 600 km da capital, no noroeste do estado. Tem alguns milhares de habitantes e fica numa região chamada de Nova Alta Paulista. Ali, um terço das cidades tem uma unidade prisional para chamar de sua. Na primeira vez em que visitou Tamara, a Natália tava junto com um colega antropólogo, Rafael Godói.
E aí a gente saiu de São Paulo Numa quinta-feira à noite, pegou esse ônibus, que é um ônibus que vai para Tamara e que vai parando em milhares de cidades. Já amanhecendo, olhando para a janela, a paisagem é cana-de-açúcar e cadeia, cana-de-açúcar e cadeia, né? E cidadezinhas pequenas, rodoviárias pequenas. E ele já falando, ó, tá notando aí o movimento, né? Familiares já descendo nessas cidades.
Essa rota rumo ao oeste inclui cidades como Bauru, Junqueirópolis, Marília, Pompeia, Tupã, Oswaldo Cruz, Adamantina, Flórida Paulista, Pacaembu e Irapuru. Em algumas rotas, os ônibus param em todas essas cidades, muitas vezes de hora em hora, em cada parada despejando visitantes de presos. Além do ônibus, existe a alternativa de ir numa van organizada por alguma guia, mas a Natália optou por não fazer isso, primeiro porque não conhecia ninguém que organizasse esse tipo de viagem, e segundo, por receio de acabar numa batida policial, um fenômeno bem recorrente nessas rotas.
E a gente chega em Tamara, essa cidadezinha assim, aquela coisa do poema do Carlos Drummond de Andrade, assim, né, cidadezinha qualquer.
Aspas pro poema cidadezinha qualquer. Do Carlos Drummond de Andrade. Casas entre bananeiras, mulheres entre laranjeiras, pomar, amor, cantar. Um homem vai devagar, um cachorro vai devagar, um burro vai devagar. Devagar, as janelas olham. Eita vida besta, meu Deus!
É uma rodoviariazinha aí, as ruas, uma cidade toda planejada, bonitinha, essa coisa, carroça com cavalo, Sabe? E aí, no meio dessa paisagem, brota um presídio que fica meio numa estrada, perto de uma plantação de cana. Então a gente tava ali na porta da prisão, passava um trator. Essa paisagem meio rural, né, sendo transtornada pelas torres da prisão, né, pela porta de entrada da prisão e pela profusão de mulheres que parava ali todo fim de semana.
Aspas para um trechinho do livro Nos Arredores da Prisão, lido pela Natália Lago.
A parte central da cidade tinha algumas lojas que vendiam roupas, produtos para casa, sorvete e açaí, uma das coisas que Fabiana mais gostava. Uma das lojas que oferecia uma miríade de itens no estilo loja de 1,99 era a preferida de Fabiana. Para comprar os potes plásticos que seriam utilizados para acondicionar as refeições encomendadas, que depois comporiam o jumbo de um preso.
Jumbo é uma espécie de kit de sobrevivência que os visitantes costumam levar para os detentos. Geralmente inclui uma cesta básica, roupas, produtos de higiene pessoal e de limpeza.
E a gente chega na pensão da Flora e do Ítalo.
A Flora e o Ítalo, como muitos outros moradores de Itamara, não nasceram por ali, chegaram por conta do presídio.
Eles moravam em uma outra cidade, o Ítalo foi preso, foi transferido pra lá, e aí ela foi atrás.
E assim como a Vitória, ela precisava ganhar a vida. E assim como a Vitória, ela começou um negócio, uma hospedaria pras mulheres que iam visitar os maridos e parentes encarcerados.
Tinha uma cozinha que ela alugava pra que as mulheres cozinhassem a comida que comporia o jumbo dos seus familiares, né? E ela também cozinhava. Ela cozinhava o fim de semana inteiro pra vender as comidas.
No livro, a Natália conta que a Flora tinha uma filha com o Ítalo que ajudava na administração um tanto caótica da pensão.
Flora, Fabiana, a filha mais nova, e Ítalo dormiam em um conjunto de cômodos que ficava atrás da cozinha grande. O puxadinho tinha uma sala, dois quartos e um banheiro que costumava ser oferecido às hóspedes mais próximas da família. Quando o único banheiro da pensão estava ocupado. Além da pensão e da barraquinha na porta da prisão, a família também ganhava dinheiro com o transporte das visitas na perua de Ítalo.
Pois é, quando Ítalo foi solto, a vida da família já tinha mudado definitivamente. Não tinha mais como voltar. E mesmo em liberdade, ele se viu amarrado para sempre naquele lugar.
Ele era geralmente o responsável por levar e trazer mulheres de preso nos trajetos que envolviam a pensão, a porta da prisão, o supermercado, a rodoviária e qualquer outra corrida que aparecesse.
O presídio de Itamara tem 850 vagas, mas hoje abriga 1.235 presos, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária. A população carcerária equivale a quase 6% da população da cidade. E a cidade, perdida no extremo oeste do estado de São Paulo, vive no ritmo do presídio ou das visitas do presídio.
Durante o fim de semana era essa coisa frenética, né, de corre para lá e para cá, e de Flora e Fabiana cozinhando loucamente, levando pessoas, enfim. E durante a semana, um marasmo de uma cidade pequena. Aí elas limpavam a casa na segunda-feira, aí na terça-feira, enfim, tinha o culto da igreja à noite, elas eram evangélicas. Aí na quarta-feira passava uma vizinha, conversava, nada acontecia naquela coisa assim. Aí quinta-feira o negócio já ia começando a ganhar essa velocidade do frenesi do fim de semana, né?
Chegavam as primeiras pessoas na quinta à noite, aí na sexta já começava tudo de novo.
E aí tem uma particularidade emblemática das pessoas que visitam presidiários.
98% das pessoas ali eram mulheres, né? Algumas crianças, alguns meninos e tal, mas às vezes um homem ou outro muito deslocado daquele universo que se tornava completamente feminino.
Feminino e jovem.
Eu era uma mulher jovem e eu era mais velha do que elas, do que muitas.
Mas apesar de ter mais ou menos a mesma idade, o mesmo sexo, a mesma nacionalidade, a Natália contou que se sentia uma estrangeira ali.
Vamos dizer assim que eu tinha uma estética paulistana, né?
Colocar nesses termos.
As roupas que eu usava, enfim, eu tinha o cabelo mais curto. Então eu tinha uma certa feminilidade contrastante com as feminilidades das mulheres que estavam fazendo visita.
Ela disse que a pergunta que mais ouviu durante a produção da tese foi: Mas você visita? Uma pergunta que trazia junto com ela um estranhamento claro, né?
Eu fui racializada em campo e gente branca não tá muito acostumada a ser racializada, né? Então rola assim um: Meu Deus, o que que tá acontecendo, né?
O que tava acontecendo, claro, era o resultado de 5 séculos de racismo estrutural. Segundo o Anuário de Segurança Pública, em 2023, 70% da população carcerária do Brasil era composta por pessoas negras. Pra além disso, como a gente já disse, tinha a questão da moda um tanto específica.
As unidades prisionais estabelecem uma série de regras que vão mudando a todo momento. A respeito do que que pode, do que que não pode entrar. Mas as regras geralmente para vestimenta das visitas são bastante rígidas. É muito doido, né, como é que tem um uniforme para a população prisional e tem um uniforme para as mulheres que vão visitar também. Algumas unidades prisionais exigem cores específicas.
É bem colorido, só tem duas ou três cores restritas para nós, que é preto, o azul marinho e, se eu não me engano, o azul royal em algumas unidades não entra.
Tem uma série de não podes, né?
No fim, o uniforme básico é calça legging, top e camiseta larga comprida.
Chega na cidade no final de semana um monte de mulheres que usam calça legging e camiseta. Eu penso que essa coisa do estigma tá um pouco colocada aí, né?
Porque é evidente que a padronização desse uniforme gera preconceito, né? Aliás, de preconceito as cunhadas entendem bem.
Ah, o preconceito já vem, já sem eu visitar mesmo já tem, por causa das tatuagens. Aqui eu passei uma base assim no rosto, mas tenho tatuagem aqui nos olhos, aqui eu tenho, aqui, aqui tenho dentro da orelha, no pescoço, pelo corpo. E nunca fui bandida e as pessoas já me julgam como alguém do mal pela aparência.
A Vitória contou que no condomínio onde vive ninguém sabia que o marido dela tava preso. Pra quem perguntasse, ela dizia que ele era caminhoneiro.
Ele vem de 3 em 3 meses à noite, entra, pega a roupa e vai embora. Porque eu não queria que elas soubessem.
Mas aí ela resolveu gravar um vídeo pras redes falando sobre o Jumbo.
Eu desci no meu condomínio pra poder fazer um vídeo da minha roupa de visita com a bolsa do Jumbo.
Pra quê?
Só que a internet começou a entregar o vídeo pra todo mundo e eu... Agora os meus vizinhos descobriu que meu marido não é caminhoneiro.
O resultado?
Vazei de lá, mudei para uma casa aqui maior, que não seja um condomínio, mas os vizinhos sempre veem eu chegando com a bolsa, te trata de um jeito até descobrir que você é mulher de um preso, né? Aí depois que ele descobre que você é mulher de um preso, que pode ser o filho dela um dia, pode ser o neto, a gente não sabe o dia de amanhã, aí julga, né? Mas já aconteceu também de pessoa me julgar e depois pedir ajuda. Pedir roupa, se parcela em 10 vezes, porque o primeiro Jumbo é carinho, hein, para mandar, que tem que comprar tudo.
Aí você consegue parcelar para mim? Ó, mas você me julgou que eu era mulher de preso e agora seu filho foi preso e você quer me ajudar? E sabe o que eu faço? Eu ajudo, porque foi assim que Deus me ensinou.
E se o preconceito existe em qualquer canto, imagina numa cidade que vive para o presídio.
Assim, as mulheres entram no mercado, segurança já vem para acompanhar. Afinal, se é mulher de preso, tá aqui pra roubar, né? Tem um estigma no sentido de uma extensão mesmo, né, da pena às pessoas e de uma extensão da criminalização.
Quer dizer, as mulheres dos detentos, de certa forma, cumprem pena junto com eles. As que continuam visitando os maridos acabam construindo a vida em volta dessas visitas.
É, nossa, um frio na barriga desde a quarta-feira até chegar a visita. E é assim, ó, 4 anos que eu tô visitando, toda visita é a mesma coisa, aquela borboleta na barriga, aquele medo.
Elas abrem mão de uma parte da vida, elas se submetem a regras impostas pelo Estado e pelos outros detentos, elas sofrem um preconceito comum a presidiários e ex-presidiários.
Em São Paulo, no metrô, às vezes você vê mulheres com um certo tipo de roupa e com a sacola transparente, com potes transparentes de comida. Vão criando esses sinais que vão marcando em determinados contextos, né, que a pessoa tá indo fazer uma visita prisional.
Eu separei umas coisas aqui, se você quiser depois eu mostro ela.
Enquanto dava entrevista para o Matheus, a Vitória, dona da loja Moda para as Cunhadas, Começou a mostrar produtos do catálogo dela. Afinal, propaganda é a alma do negócio, né?
A gente tem desde o kit liso, que é o kit básico que entra em todas as unidades, camiseta básica e a calça básica. O premium é, por exemplo, assim, ó, tipo uma camiseta assim da Tommy, malha peruana. Essa aqui é o premium das cunhadas, não amassa e tal. E o básico é desde R$69,99, né? Eu coloco lá na minha loja e aí vai subindo. Aí tem as blusas de frio, calça canelada, tem creme para o preso, roupa para o preso, tem tudo, tudo, desde o mais básico até o mais caro.
E até desde a toalha, o lençol, o lençol para o queto, né, que é onde a gente tira a nossa visita íntima com nossos esposos. Aí a gente coloca um lençol assim, então ele tem que ser um pouco mais grosso, ele tem que ser um lençol melhor. Pra não ter transparência, pra ninguém ver a gente.
Em muitos presídios, as visitas íntimas são feitas em cômodos com mais de um casal. Então, o lençol, no caso, não serve pra deitar em cima. Serve de divisória.
Uma curiosidade: não pode ter ferro. Então, aqui na minha loja, a gente vende padrão penitenciária.
Eu imagino que você nunca tenha pensado nisso, mas tem muita roupa com partes metálicas. Tipo os bojos de alguns sutiãs.
Porque o sutiã, ele não tem ferro. Ele já é próprio pra visita. Então ela não vai passar lá no scanner ou no detector de metal e vai apitar. Porque se apitar, você tá com alguma coisa, você toma um gancho, vai embora.
E aí, como é que funciona o gancho, Vitória?
O gancho é... você fica... primeiro começa... eu nunca tomei, pra glória de Deus.
Gancho é um período em que um preso fica impedido de receber certo visitante e o tempo do gancho é determinado de acordo com a infração cometida. O medo do gancho é um dos mais presentes entre as mulheres de presos, e a Natália Lago conta no livro dela o caso de uma visitante chamada Aline.
Abre aspas: Ela frequentava a pensão já havia algum tempo e era amiga de Flora e de Fabiana. O marido estava preso em Itamar e ela mesma já havia estado presa durante algum tempo. Em uma das suas visitas ao marido, o detector de metais apitou e ela foi impedida de entrar na prisão. Como isso já ocorrera em um dia de visita anterior, Aline acabou por tomar um gancho de 6 meses, ou seja, a administração do presídio a proibiu de voltar para visitar o marido durante esse período.
Assim que foi impedida de entrar, Aline voltou à barraquinha de Flória e Fabiana para esperar uma carona até o centro de Itamara. Ficamos conversando, fumando e ouvindo música enquanto esperávamos a hora de a barraca ser montada. Ao longo da conversa, ela disse, meio falando pra si: Vou ter que voltar pras faxinas. Aline já mencionara em outros momentos que trabalhava como faxineira e que com a crise o trabalho diminuiu.
As patroas não abriam mão do cabeleireiro, mas dispensavam a faxina. Com menos dinheiro, ela montava o jumbo do marido com mais dificuldade.
E tipo assim, meu esposo tá há 4 anos preso. A gente quer fazer um agrado para o marido. Aí só porque é lá dentro a gente vai com lingerie feia bege? Vamos nada, né? A gente vai com essas aqui que é belíssimas, que é a graça nossa, gente. A gente espera a semana inteira para ver o nosso marido, aí chega lá com uma lingerie feia? Não, tem que ter uma lingerie linda.
E o que que sai mais, Vitória? Qual que é o produto que você mais vende assim, ou os produtos?
Nossa, eu vou falar para você que lingerie É o que mais sai. Nossa, elas não gostam de repetir lingerie, cara. E eu não posso falar nada que eu sou igual. Quando chega, eu já separo tudo as minhas. Mas lingerie sai muito, bermuda tectel. Nossa, sai muito. Antes não tinha, não entrava muito nas unidades. Hoje tem as tectel. Eles estão presos, mas eles não querem se sentir, como que eu posso dizer, abandonado. Eles querem estar na moda lá dentro.
Por exemplo, Ó, as meias, eles não quer meia comum, eles quer meia da Lacoste, entendeu? Eles quer andar no estilo lá dentro. O meu marido mesmo, a hora que eu vou ver ele assim, falo, parece que tá na rua. Porque blusa da Boys, a bermuda da Boys, a meia da Boys, eles combina tudo lá dentro. Igual nós, as cunhadas, a blusa tem que ser roxa, a calça roxa, o chinelo roxo, a meia roxa, lingerie roxa. Tem que ser tudo igual. Eu acho que é um jeito da gente dar uma amenizada, sabe, na dor.
Então, igual essa semana eu fui, levei uma calça de moletom da Lacoste pro meu marido. Então essa semana eu vou entrar, ele vai estar como? Com a blusa da Lacoste, a calça da Lacoste, o chinelo e a meia da Lacoste. Ele tem tênis também, mas ele gosta de combinar tudo.
Em 1961, o sociólogo canadense Erving Goffman, no livro clássico Manicômios, Prisões e Conventos, falou que a prisão leva à mortificação do eu. O encarcerado passa a ser um número, usa um uniforme padrão, segue um conjunto de regras que vão matando a individualidade. Você deixa de ser uma pessoa e passa a ser uma engrenagem de um sistema repressivo. Segundo Goffman, é em contraposição a isso que os presos buscam ajustes secundários, como as roupas, as tatuagens e assim por diante.
Quer dizer, atrás das grades, mais do que do lado de fora, a blusa da Lacoste vira uma afirmação da própria identidade. Além de tudo que a gente já disse nessa relação entre o mundo de dentro e o mundo de fora, um dos itens que se destaca é o jumbo.
Aspas para antropóloga Natália Lago: Algumas sacolas geralmente estavam disponíveis para venda na barraquinha de Flora e Fabiana e tinham o plástico costurado com detalhes coloridos que reforçavam a estrutura da sacola para aguentar o peso dos mantimentos. Uma sacola de jumbo cheia de alimentos e de mais itens é extremamente pesada. Algumas sacolas tinham estampas com personagens como a Minnie da Disney e continham uma bolsinha interior com o tamanho suficiente para guardar os documentos fundamentais para entrada de cada visita.
O RG, a carteirinha da SAP e uma tarjeta de madeira com o número da senha pra entrada na prisão.
Eu às vezes ia no mercado com elas pra comprar as coisas que iam compor o jumbo e eu ficava muito acompanhando o processo de preparação, né? Tinha assim uma série de discussões a respeito do que era permitido e do que era proibido, do que poderia ser proibido por um tempo. Ah, teve uma briga lá dentro e tá todo mundo no castigo. E não pode entrar refrigerante essa semana.
Aqui eu preciso fazer uma pausa na fala da Natália pra gente pensar um instante sobre isso. Porque uma casa de detenção é parte do nosso sistema de segurança pública. Na verdade, a gente poderia ver a prisão como uma das pontas desse grande sistema. Quando tudo mais falha, a gente chega ali, em um dos extremos da nossa organização social. E eu sei que é assim, e você sabe que é assim, mas eu não deixo de me surpreender sempre que eu penso em como essa realidade é caótica.
Em como o Estado é incapaz de se organizar no lugar em que a gente poderia esperar o máximo de ordem. Pensa sobre isso: 1.300 homens, uma pequena cidade, todos de castigo, sem refrigerante por uma semana porque algum deles se comportou mal.
Então assim, às vezes tem proibições que são temporais, né, que servem como punição mesmo para a população presa que tá, que tá na unidade, certo?
De volta para o Jumbo.
É meio padrão o Jumbo, as penitenciárias de São Paulo, que é quase tudo igual. É um pacote de bolacha, aquele de rosquinha, sempre as embalagens transparentes, pão, 2 bolos. A gente sempre leva 2, aqueles que vende pronto já, não pode fazer e levar pronto. Pode fazer e levar, mas se você fazer e levar fica no lugar da sobremesa, aí não entra sobremesa, só aquilo.
Mas esse bolo, a hora que vai chegar pra revista, ele vai ser furado muitas vezes pra saber se tem alguma coisa dentro. E isso elas falam sobre o jumbo, né? Que o jumbo chega revirado lá do lado de dentro. Algumas falam, ah, parece lavagem. Eu tenho nojo, eu não consigo comer.
A gente faz a comida antes de levar pronta, não leva, tipo, pra eles fazerem lá, né? Porque não tem onde fazer. Não tem geladeira, não tem onde esquentar comida.
E as comidas que elas faziam também eram reviradas desse jeito, né? Então fazia, sei lá, Um arroz temperado, arroz, linguiça, ervilha.
E claro que nem tudo pode entrar.
Não podia colocar milho, porque milho fermenta, e aí os caras podem fazer Maria Louca, que é a bebida alcoólica fermentada. Então assim, não podia Fanta Uva pela mesma razão.
Tá aí um problema irrelevante, né? Não poder levar Fanta Uva para um ente querido.
Mas enfim, um dia uma moça chegou com arroz. E aí sempre tem as que estão acabando de chegar e as que já visitam há muito tempo e sabem muito das regras. É um conhecimento ali, é um conhecimento de estado sobre estado, né? Modo de funcionamento dessas regras arbitrárias. E aí chega essa menina com pacotão de arroz temperado com milho. Aí eu: Fulana, vem aqui dar uma olhada, vê se vai entrar. Aí chega lá a fulana que já visita muito tempo, que sabe exatamente o que que entra, o que que não entra, né?
Olha para aquilo e fala, ele não vai entrar não, você vai ter que catar esses milhos aí para conseguir entrar. Então a moça lá na porta da cadeia catando o milho um por um do arroz que ela tinha feito.
E para completar a maluquice dessas regras, elas variam de presídio para presídio.
Lá, graças a Deus, entra tipo macarrão com várias coisas. Então eu levo macarrão carne seca, eu levo macarrão com cheddar bacon, que é maravilhoso, eu levo Levo macarrão carne moída e bacon, levo brigadeiro de maracujá que ele ama. Nossa, brigadeiro de maracujá é bom, hein?
É bom.
Eu gostava de levar doce de leite, que aí dá para ele comer todo dia, que aí não estraga, entendeu? Porque não tem geladeira. Porém, doce de leite eu acho que não tá entrando mais. Aí eu levo brigadeiro, brigadeiro de Nutella, a gente vai inventando, vai inventando um monte de coisa. E no Atapuera eu gosto de levar coisa para lanche, tipo hambúrguer, mortadela, Mussarela, cheddar, salame, tudo que é tipo de fios, ovo. E aí eu levo o pão de forma, a salada. Então ele consegue fazer vários lanches.
Entendi.
Então esse sim dura até mais ou menos, por exemplo, a visita foi no sábado, até segunda tem lanche. Dá para ir comendo devagar, entendeu?
A Natália contou que uma tarde que passou conversando sobre o Jumbo com uma cunhada, essa mulher abriu o que tava levando para mostrar o que tinha lá dentro.
Ela abriu um saco transparente desses tipo bobina, que é exigido pela unidade, abriu o saco, abriu o pacote de House, conversando comigo assim, tirando um House por um, House branco, daquele papelzinho e jogando no saco um por um. A bala não pode vir embalada assim, né? Tem que estar no saco transparente. Então eu passava a tarde com elas descascando bala.
E era assim com tudo. Biscoito, abre o pacote, tira um por um, joga lá dentro. Bombom, descasca um a um, joga lá dentro do saco transparente.
E aí dá pra gente imaginar que essas coisas com o tempo e com o calor vão meio que virando uma maçaroquinha, né?
Vai virar uma papa, né?
Então as coisas vão chegando em outros estados dentro da prisão.
E você, meu ouvinte do bandido bom é bandido morto, do direitos humanos pra humanos direitos, sim, eu sei que você existe, deve tá achando que isso tudo tá certo, que vagabundo devia agradecer por poder comer bombom atrás das grades. O problema é que esse fluxo pantagruélico de comida que faz girar a economia de cidades do interior só acontece porque o nosso sistema penitenciário raramente dá conta de oferecer um alimento digno.
É um processo que tem a ver com o sustento dessas pessoas presas, né, com o abastecimento da prisão de comida, porque se não entram essas comidas, eles ficam à mercê da comida estragada e insuficiente da prisão.
Mas também não é só isso, porque comida é mais do que sustento pro corpo, né?
E ao mesmo tempo, a preparação do Jumbo tem um lance de... a comida como um espaço em que a gente produz relações, né? Como uma substância que ajuda a gente a produzir relações, a produzir famílias. Essa coisa de se sentar à mesa pra comer uma comida que alguém cozinhou.
Comida é afeto, é demonstração de afeto, que só para continuar no nosso jogo do avesso, nem sempre é uma coisa positiva.
E tem mulher que não gosta de cozinhar, e aí os caras pedem que elas cozinhem, né? Ah, cozinha, faz aí uma coisa para mim e tal. Enfim, essa coisa do tempero, né, do tempo investido na produção disso também, né? Mas mesmo aquelas que não cozinhavam, que compravam a comida que a Flora e a Fabiana cozinhavam, porque elas é isso, elas ficavam ali cozinhando fazendo as comidas encomendadas. Essas mulheres têm esse trabalho de descasca bala, descasca biscoito, confere se o peso não vai exceder.
Quando o Matheus Marcolino me vendeu a ideia desse episódio, ele falou em contar a história das cunhadas, das mulheres dos presos. E a gente tá aqui cumprindo essa missão. Mas tem um outro lado dessa história também. Tem os presos que não têm ninguém do lado de fora. E não são poucos que estão nessa situação, dependendo da comida estragada, insuficiente que o Estado oferece, ou da caridade dos outros detentos.
Na cela do meu marido, só ele tem visita, o resto é tudo abandonado. Ali é um lugar que você chega na penitenciária que ninguém quase tem visita. Tipo, a cadeia tem 1.300 presos, tem 200 visitas. Então, tipo, o macarrão que eu levo para o meu marido, ele Come porção dele e o resto ele dá para os amigos, para os companheiros de cela, né? Então não sobra, até falta. Se a gente pudesse levar mais, levava. Mas é muita gente abandonada aí com fome.
A fome lá grita, é lá, tem cheiro de fome. Você chega com comida lá, é nossa. Então não sobra para guardar, entendeu?
E o que que acontece, Vitória? Por exemplo, vamos imaginar um cenário em que você não visitasse o seu marido.
Nossa, aí tem que se virar nos 30. Lá tem a comida da casa, né, que eles pagam. É ruim, mas não tem o que fazer, tem que comer. Então tem a comida da casa, que não é uma comida assim, né, mas tá bom, fazer o quê, né? Ninguém mandou ir preso.
A minha história com o Jumbo, na verdade, ela começa quando eu fui preso há 7 anos e meio atrás, mais ou menos.
Esse é o Demetrios Aparecido de Freitas, dono do Disque Jumbo.
A pessoa tá lá dentro e infelizmente o Estado em geral, independente de partido político, Enfim, não cuida, né? Não cuida. Quando você chega, o que você recebe lá é um kitzinho, que é um cobertor. Na maioria das vezes, a roupa que você recebe não é nova, né? É a roupa de alguém que saiu. A escova de dente, a pasta de dente que o Estado dá deveria ser melhor. Eu parto desse princípio. Então são coisas que o Estado não faz, que isso quem tem que fazer é o próprio familiar, né?
Não existem dados consistentes sobre o investimento estatal na manutenção dos presídios. Em 2016, por exemplo, só 3 estados da União forneciam dados referentes às despesas com detentos ao Departamento Penitenciário Nacional, o DEPEN. Em 2022, o Conselho Nacional de Justiça, CNJ, divulgou que em média o gasto de manutenção de uma pessoa reclusa era de R$1.800 por mês.
O familiar vai lá visitar a primeira vez, ele não acredita. Que o filho, pai, parente tá lá naquela situação. Então a importância é isso, né? A importância de quem manda é tentar fazer o melhor dentro do possível para quem tá lá dentro, né?
O Demetrios contou que a ideia para o negócio dele apareceu depois que ele recebeu uma encomenda dos Correios enviada pela mãe para dentro do presídio.
Aí eu pensei comigo, falei, pô, por que não montar algo disso na internet, já que eu era tão ligado a isso? E quando eu saí, a primeira coisa que eu fiz foi ir atrás disso, só que eu não tinha recurso, né? Eu tinha perdido todo o meu dinheiro que eu tinha conquistado de maneira errada, como acontece com a maioria das pessoas que vão para esse caminho. E eu não tinha recurso nenhum.
Quer dizer, nenhum nenhum é um certo exagero.
Trabalhei na cadeia bastante, então eu tenho alguma coisa para receber. Eu tinha um bom dinheiro para receber, só que não era o suficiente para abrir um site na época.
E aí tinha um problema a mais, porque os grupos das cunhadas eram exclusivamente femininos, então Demetrios não conseguia entrar. A solução foi conseguir uma laranja.
Tinha uma namorada na época que me ajudou bastante, a Elaine, e a gente conseguiu fazer a primeira venda, a segunda, aí começou a virar indicação, indicação, indicação, indicação. Foi a época que a gente ganhou muito dinheiro, foi na época da pandemia, porque não podia ninguém visitar, né, na época. Da pandemia. Então era só Sedex. Então a gente teve um volume muito grande, muito grande, muito grande. E aí acabou a pandemia e para a gente foi meio complicado, né, porque você sai do movimento de 100 para 50 assim de uma hora para outra. E aí a gente teve que reduzir o quadro.
Mas entre altos e baixos, o Disque Jumbo tá há 7 anos em plena atividade vendendo pacotes variados.
A gente atende público que compra o nosso jumbo básico de R$195, ou a gente atende aquele cliente que já tem mais condição, que manda um jumbo de R$700, R$800, né?
Diante do caos e da falta de padronização do sistema penitenciário, os jumbos do Demetrios são customizados.
Por exemplo, a pessoa tá em avareia 1, né? Aí ela clica lá no nosso site, ela vai em avareia 1, já tem o jumbo pronto para ela lá de avareia 1, jumbo 1, jumbo 2, jumbo 3, jumbo 4 e jumbo 5. O Jumbo 5 é um jumbo mais completo, onde ele tem a roupa, tem o cigarro. E aí tem um jumbo básico também para essa unidade, que são as coisas básicas de alimentação, básicas de higiene, básicas de limpeza.
O jumbo mais barato custa R$195 e leva produtos de higiene como sabonetes e aparelhos de barbear, além de alimentos e produtos de limpeza. No jumbo mais caro, de R$864, o pacote é incrementado com alimentos de marcas mais caras, material para envio de cartas, 10 maços de cigarro e roupas como camisetas e cuecas.
E tipo assim, lá tem trocas de favor, né?
A Vitória contou que tem uma parceria com o Disque Jumbo do Demetrios e que às vezes ela faz doações de itens de higiene para unidade prisional onde o marido dela tá.
A gente faz os kits em higiene lá dentro e doa também. E tem a igreja dentro da penitenciária, que é onde o meu marido faz parte hoje, para glória de Deus. O marido da Vitória hoje é pastor na igreja da cadeia, que pega doações do raio inteiro, que é o dízimo, né? Lá dentro tem o dízimo. Então eles dizimam sabonete, eles dizimam pasta de dente, e aonde a igreja às vezes distribui pelo raio também, eles receberam.
Você tem que pensar que não é uma caixa, não é uma caixa da Shopee, não é uma caixa do Mercado Livre, não é uma caixa, é um sentimento que tá ali dentro. É o sentimento de quem manda, é o sentimento de quem recebe. É sentimento que tá ali.
Na conversa que teve com o Matheus Marcolino, a antropóloga Natália Lago falou sobre as torturas cotidianas que o sistema prisional brasileiro faz.
Essas torturas cotidianas assim que a instituição prisional faz, né?
A gente esquece disso, a gente finge que não tá acontecendo, mas a verdade é que a tortura é parte da nossa política de segurança pública. Ela tá no patrulhamento ostensivo das polícias militares e guardas metropolitanas e tá na fase de inquérito dentro das delegacias. Mas nessas etapas, a tortura costuma ser minimamente escondida. Na cadeia, não. A gente sabe que a população carcerária, salvo em raras exceções, tá sendo cotidianamente torturada.
Com celas superlotadas, com condições de higiene desumanas, com revistas humilhantes, com castigos e agressões, com comida podre. Mas tem um outro lado dessa tortura que a gente sabe menos, porque ele é mais difuso, e sutil, que é a tortura de quem tá do lado de fora cumprindo pena por tabela. A Natália Lago falou, por exemplo, das esperas.
Demanda que as pessoas cheguem ali às 6 horas da manhã, antes das 6 da manhã inclusive, e ao mesmo tempo produzem esse tempo lento da verificação dos documentos, da revista das comidas que você tá levando, da revista do seu corpo, né? Então são horas até que elas efetivamente consigam entrar.
Né? Nossa semana já começa mais ou menos numa quarta, porque a gente se organiza, a gente pega uma senha e tal pra ter a sequência ali da fila. E aí lá pra sexta, mais ou menos, a gente já começa a ir no mercado, ou às vezes quinta, ver o que que vai levar, né, pro preso. A comida, a carne, o macarrão, o doce. É onde a gente cria os vídeos ensinando a fazer um doce permitido que entra na unidade e tal. E aí, conforme vai passando os anos, a gente vai ficando sem ideia também, né.
Porque já levou tudo, então começa a repetir. Mas aí a gente faz a comida, aí começa a separar o look, né. As cunhadas, desde a segunda-feira, já sai da visita já pensando no look da próxima semana. E aí a gente vai separando as roupas, separando a comida, faz a comida. Algumas saem na madrugada pra poder visitar e algumas dormem na pensão que tem lá na frente. Eu, uma semana eu durmo na pensão, uma semana eu saio daqui de casa mesmo.
E quando a gente dorme na pensão, aí parece que dá pra descansar mais. Agora, quando é na madrugada, não dorme com medo de perder a hora. Então você vai virada, aí você pega lá, né, o trânsito. E tipo assim, eu ainda tô perto, eu tô umas 3 horas por aí. Tem cunhada que é 8, 16 horas, então elas têm que ir tipo uns 2 dias antes, entendeu? Levar comida nas bolsas térmicas, é bem difícil.
E assim, uma semana de preparação, 16 horas de viagem, noites dormidas em camas desconfortáveis, legging e camisetão, revistas vexatórias. Nada disso é desculpa para as cunhadas não estarem bonitas, felizes e carinhosas na hora da visita.
Eu acordava e tinha já fila no banheiro porque elas querem ficar bonitas. Banho tomado, faz escova, faz chapinha, deixa o cabelo do jeito que prefere, etc., faz uma maquiagem. É calça legging e camiseta, mas não é qualquer camiseta.
Chega fim de semana, o cabelo tem que estar impecável, a maquiagem tem que estar impecável, né? Porque é o dia da gente ver o amor da nossa vida.
Aí, quando chegam no presídio, as cunhadas enfrentam outra maratona.
E vamos pra senha, aí é chamado o nosso número, a gente se organiza e entra. A cadeia, a gente olhando ela na internet, ela tá romantizada, né? Parece que é tudo muito fácil, parece que é uma férias, parece que é uma viagem pelo jeito que estão levando. Eu sou muito sincera nos meus stories, quando eu chego eu choro. Antes de ontem eu fiz um post: hoje é dia de saidinha, a gente vê o pessoal de todo mundo saindo menos o nosso, mesmo Eu estou 2 dias sem dormir.
Quando eu chego, eu não consigo parar de ouvir a voz do meu marido no meu ouvido. Mas eu quero lembrar vocês que tudo que tem data vence. E a nossa hora vai chegar, meninas. Porque é muito difícil você ter o dia com a pessoa que você ama e você chega em casa e de novo você tá sozinha. Eu volto a ser o homem da minha casa quando eu volto pra ela.
Eu não acho que a porta da cadeia ou a prisão seja um mundo à parte, sabe? São o nosso mundo, o mundo em que a gente vive, e as pessoas vivem e se relacionam como as pessoas vivem e se relacionam na porta de outros lugares. Ao mesmo tempo, a porta de uma festa é distinta porque não tem instituição prisional, né? Não tem assim a arbitrariedade e a violência da instituição prisional. E essas mulheres estão ali o tempo inteiro também se medindo em alguma medida, justamente porque tem um certo clima de desconfiança ali.
Ah, fulana de tal, você viu? Ela não era mulher de preso, ela era amante. A mulher mesmo veio aqui na semana seguinte e aí a gente descobriu que ela era amante. E aí tem uma certa, essa feminilidade excessiva Esse excesso tá muito vinculado a esse perigo de você ser enquadrada como uma amante ou como uma garota de programa no contexto da fila, de você ter a sua posição de mulher de preso questionada. E isso pode ser perigoso no contexto da fila, porque se acham que você é amante, você corre risco de apanhar mesmo, entendeu?
Para Vitória, esse fenômeno que a Natália chamou de feminilidade excessiva tem se intensificado nos últimos anos.
Antes as mulheres eram mais unidas, antes era. Hoje é, ai, quem trouxe picanha, quem trouxe Nutella, uma competição entre elas.
Essa separação entre o mundo da cadeia e o mundo de fora ficou ainda mais tênue com a consolidação de organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Por um lado, o crime organizado oferece proteção para quem tá atrás das grades. Por outro, o que o detento faz lá dentro repercute no mundo real. Essa relação de mão dupla muitas vezes é estendida também às mulheres e aos familiares.
O marido responde pelos atos da mulher do lado de fora, né, e lá dentro também. Então assim, se você vai com uma roupa muito provocante, isso vai dar, pode dar problema para além das regras da prisão.
Vitória e Fabiana ficaram bravas quando viram uma mulher na fila da prisão. Pois achavam que ela não merecia estar ali. Disseram-me que algumas semanas antes ela pedira a outra mulher que entrasse com um pote de comida por ela e o pedido foi aceito. Esse pedido não é incomum na porta da prisão e há pessoas que se oferecem para entrar com comidas em nome de outras como forma de solidariedade. Alguns metros de fio estavam escondidos em meio à comida e a mulher que aceitou carregar o pote como um favor para outra foi responsabilizada pela administração prisional e tomou um gancho de tempo indeterminado.
Em outras palavras, ela foi impedida de entrar para visitar seu marido, sem previsão de voltar a circular pela prisão. O marido assim ficou sem visita e sem jumbo. Quando informado do acontecido, o marido da mulher punida chamou para as ideias o marido da dona do pote, ou seja, demandou uma discussão dentro da prisão mediada pelos presos reconhecidos como do PCC. Para que decidissem se ele teria o direito de cobrar o marido preso por um ato da esposa na rua.
A solução do caso culminou em uma surra no marido da dona do pote. Fabiana, porém, não estava contente com a decisão. Eu acho que ela tinha que ter tomado um pau aqui fora também.
O que as mulheres fazem e como elas vivem tem efeitos práticos na vida do marido que tá preso? E ao mesmo tempo é observado pelo marido e pela comunidade e pelas criminalidades organizadas, né? Se a mulher ficar arrumando uma briga, arrumar uma briga e discutir com alguém e tiver equivocada, esse homem vai ser cobrado ali do lado de dentro. A Flora mesmo muitas vezes já recorreu aos maridos do lado de dentro para resolver desavenças com as mulheres na pensão, porque a mulher estava sendo folgada, porque a mulher estava fazendo alguma coisa que ela não devia estar fazendo.
E aqui, de novo, para por um instante e pensa sobre isso. Sobre levar uma vida que por um lado é regida pela burocracia mal escrita do Estado e por outro é regida pelas leis não escritas do crime organizado.
Eu acho que é um sentimento que pode inclusive provocar paranoia, né? Essa coisa de que você tá sendo observado o tempo inteiro. Com quem você anda, né? Com quem você conversa. Se você sai ou não à noite, né? Se você vai para determinados lugares ou não. Tudo isso tá dentro das condutas que seriam observáveis e que eventualmente podem chegar ao conhecimento do seu marido do lado de dentro. É isso, as pessoas nunca sabem exatamente quem conta.
A Natália Lago contou de uma vez em que viu de perto esse estranho sistema em ação. Ela chegou para visitar o presídio, como costumava fazer de tempos em tempos, e as cunhadas estavam todas assustadas e apreensivas.
E a Flora vai me contar tudo isso muito Então, você não sabe, Natália, assim, né? Semana passada saiu uma moça que tinha ido fazer visita e ela saiu toda machucada, de cabeça raspada, de sobrancelha raspada.
A história que se contava era de que ela tinha sido espancada dentro da prisão.
O motivo é que ela tinha traído o marido. Qual seria o desenrolar da história? Isso é que era o desconhecido, né? Algumas diziam que ela tinha sido morta. Outras diziam que ela tinha sido expulsa do bairro em que ela morava. Não dava para apontar, alfinetar ali, né, qual teria sido o destino dessa mulher, mas era pensar, bom, num destino trágico, né, que significa morte ou degredo, de certa forma. E ao mesmo tempo, como que elas construíam algum grau de entendimento em relação a isso.
Elas contavam isso muito assustadas e em seguida falavam, pô, mas como, por que que ela foi visitar sendo que ela tinha traído o marido? Todo mundo sabe que se você trai seu marido, você não volta para visitar, porque você tá correndo o risco de acontecer uma situação dessa com você. Era uma situação que elas encaravam como uma violência, mas que ao mesmo tempo elas conseguiam compor um certo nexo entre a ação da mulher e a reação do marido, né?
Era algo que as assustava, mas que tava dentro de um certo enquadramento do que elas consideravam possível de acontecer diante de uma situação de adultério.
A violência, em suas várias formas, faz parte da vida dessas mulheres. Ela não vai embora depois do julgamento e da condenação. Pelo contrário, é como se o presídio emanasse ondas de violência mesmo quando nada tá acontecendo.
O medo da criminalização vai produzindo esse ambiente de paranoia, né, ao redor da prisão. A Flora, ela é uma dona de pensão que sabe que algumas pessoas fazem o que ela chama de corre, né, mas ao mesmo tempo ela tá muito atenta porque isso pode prejudicar a própria existência da pensão que ela tem.
A Natália contou que é comum que a pensão da Flora seja alvo de batidas policiais.
A casa dela era uma casa visada justamente por ela ser uma pensão que acolhia mulheres de E a polícia chega lá um dia e encontra e prende uma mulher. Acho que tava com um pouco de droga que ela levaria para dentro da prisão.
Segundo a Natália, nessa batida a polícia tentou incriminar a filha da Flora.
Queriam fechar a Fabiana num quarto. Justamente nesse quarto que eles encontraram coisas de uma das hóspedes. E as mulheres lá e as pessoas que estão na pensão meio que se juntam Num enfrentamento mesmo de tipo, não vão ficar sozinhos com ela nesse quarto. Tô contando tudo isso pra mostrar como que esses processos e como que a própria existência do corre, né, nesse contexto era algo que fazia parte. A Flora meio que julgava, mas ao mesmo tempo ela não ia expulsar uma mulher que tivesse fazendo um corre da pensão dela, entendeu?
Justamente por ela entender essas complexidades que envolvem estar dentro de uma prisão e o que que você faz pelo seu familiar. E o dinheiro que você precisa muitas vezes pra viver a vida, pra cuidar dos filhos, enfim.
Depois de ouvir essas histórias todas, eu fiquei pensando nesse sistema, em especial no sistema de visitas que tem mais a ver com o nosso episódio, na quantidade de humilhação que essas mulheres têm de enfrentar semana depois de semana. Até que ponto isso é realmente necessário? Um bom jeito de começar a responder a isso tá num dado que foi levantado pela Defensoria Pública de São Paulo via Lei de Acesso à Informação, da quantidade de apreensões ocorridas durante as revistas vexatórias.
E aí eles pegaram esses dados e chegaram a um número de 0,02%. Nossa, 0,02% das revistas incorriam em algum tipo de apreensão. Então assim, é muito doido, né? Isso quer dizer que 99,8% das mulheres que entraram naquele período não tinham nada. E aí 0,02% justifica essa ocorrência de uma revista que hoje é o scanner, né? E que é essa coisa do corpo inteiro desnudado.
Em 2014, o Estado de São Paulo criou uma lei que proibiu a revista íntima e determinou que todas as unidades prisionais de São Paulo deveriam utilizar scanners corporais. Hoje a maioria dos presídios tem um scanner, mas a revista íntima ainda pode acontecer. A Vitória contou de uma experiência diferente que viveu ao passar por um scanner corporal.
Vitória, tá dando mancha. Aí eu falei, mancha? Falei, senhor, eu só tenho cara de doida. O senhor, né, fala por mim aí, que o senhor não sabe que eu não faço nada de errado. Porque talvez elas estão me vendo assim pela aparência, acham que eu mexo com coisa errada, né?
O scanner usado em presídios revela objetos metálicos ou orgânicos escondidos embaixo das roupas, mas também dentro de cavidades corporais. Quando alguém fala que tá dando mancha, significa a princípio que a pessoa tá com alguma coisa escondida, mas nesse caso foi diferente. Porque a Vitória sabia que não tava escondendo nada. Mas não só por isso, a agente de segurança também parecia saber que a mancha em questão não era nenhum item proibido.
Ela: não, Vitória, você vai entrar, mas tá dando mancha.
E a Vitória demorou um pouco para entender o que tava acontecendo, porque a mulher ficava repetindo que tava dando mancha.
E aí você escutou mancha, você sabe que você não entra. Tipo, tá dando mancha, tá com tipo, não sei nem se eu posso falar, né, mas Droga!
Mas ao mesmo tempo dizia que ela ia poder entrar.
Ela falou, não, você vai entrar, tá? Mas você tá com mancha. Aí eu, meu Deus!
A Vitória só percebeu mesmo o que tava acontecendo quando entrou e contou a história pro marido.
Ele falou, lembra que Deus falou que ia enviar um Isaac? Ele já lembrou da promessa e eu nem lembrei, porque um ano atrás Deus tinha falado. Eu falei, nossa, né? Deus vai me dar um Isaac? O motivo pra sorrir é um carro. Que meu marido não pode ter filho, eu pensei.
A Vitória e o marido estavam tentando engravidar antes de ele ser preso. E um ano antes, num culto, o pastor tinha falado para Vitória que Deus ia enviar um filho para eles que ia se chamar Isaac.
Tava mó tempão com ele na rua, não engravidei. Aí vai preso, engravida. E isso acontece muito porque falam que quando a pessoa vai presa quem vai visitar engravida. E eu vi que era real, que a gente morava junto, eu nem engravidei. E aí lá, um ver uma vez na semana, eu engravidei. Eu achava que ele era estéril. Aí o estéril tá aqui.
Foi só do lado de dentro das grades, ouvindo o marido relembrar a promessa feita por Deus por meio de um pastor, que a Vitória entendeu por quê Apesar da mancha, ela não tinha sido barrada, porque a mancha era o Isaac.
Eu acho que elas não podiam me dar a notícia, né, que eu tava grávida.
Antes de terminar, eu quero te convidar a escutar os outros podcasts que fazem parte da rede da Rádio Guarda-Chuva. Tem muita coisa legal por ali. Tem o Ciência Suja, que fala do lado obscuro da ciência. Tem o Vida de Jornalista, que ilumina os bastidores do jornalismo. E tem o Afluente, que traz reportagens direto da Amazônia. Então procura aí por esses podcasts no seu aplicativo de áudio ou por Guarda-Chuva Pod no seu Instagram pra ter o cardápio completo.
Eu sou Tomás Chiaverini e termina aqui o episódio 166 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho.
Oi, aqui é Thiago Correia. Eu tô falando de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O design das capas é da Cláudia Funari. A trilha sonora tema é do Paulo Gama. A mixagem de som deste episódio é do Vitor Coroa. A produção, a reportagem e a edição de áudio são do Mateus Marcolino. O roteiro, a direção e a sonorização são do Tomás Chiaverini.
Audible
Audiosérie Quem Matou a Política