Episódios de Escafandro

156: Sociedade tarja preta - O mundo lá fora

18 de março de 20261h6min
0:00 / 1:06:25

Na segunda e última parte do mergulho na crise planetária de saúde mental, seguimos em busca de respostas pra uma das grandes perguntas do nosso tempo: vivemos uma epidemia de sofrimento psíquico, ou de drogas psicoativas para combater esse sofrimento.

Neste episódio, além de trazer mais motivos para o excesso de medicalização, o foco se volta também para os fatores sociais, culturais, econômicos  e ambientais que têm impactado nossa saúde mental.

Mergulhe mais fundo

O que os psiquiatras não te contam ⁠(link para compra)⁠

A institucionalização Invisível: Crianças que não aprendem na escola (link para compra)

Anatomia de uma epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental (⁠link para compra⁠)

⁠A epidemia de doença mental - Revista Piauí⁠

Episódios relacionados

⁠#59: Sonhos de zolpidem⁠

⁠#62: Não sou mais o Pedro - Capítulo 1: Eletroconvulsoterapia ⁠

⁠#63: Não sou mais o Pedro - Capítulo 2: Internação⁠

⁠#137: Os segredos psicodélicos da Jurema Sagrada⁠

Entrevistados do episódio

⁠Juliana Belo Diniz⁠

Psiquiatra, psicoterapeuta e especialista em pesquisa clínica. Pesquisadora do Programa Transtornos do Espectro Obsessivo Compulsivo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Autora de "O que os psiquiatras não te contam" (Fósforo Editora).

Maria Aparecida Affonso Moysés

Médica pediatra, professora  da Faculdade de Ciências Médicas Unicamp, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Aprendizagem, Desenvolvimento e Direitos, da Unicamp, autora do livro A institucionalização invisível: crianças que não aprendem na escola. É militante do Despatologiza - Movimento pela Despatologização da Vida.

⁠Dayana Rosa ⁠

Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ). Gerente de Saúde Mental e Relações Institucionais no Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).

Ficha técnica

Edição: Matheus Marcolino.

Mixagem de som: Vitor Coroa.

Trilha sonora tema: Paulo Gama.

Locução adicional: Priscila Pastre.

Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.

Direção, roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini.

Assuntos20
  • Saúde Mental Social e AmbientalCompetição econômica · Dificuldade de acesso à moradia · Pandemia e isolamento · Mudanças climáticas · Desigualdade social
  • Abordagens coletivas versus individuaisSaúde Mental · Fragmentação da vida · Abordagens coletivas versus individuais · Interdisciplinaridade · Saúde Social
  • Diretrizes Medicas e SaudeTratamento de condições humanas normais · Prescrição desenfreada de psicofármacos · Remédios para ansiedade e insônia · Uso de antidepressivos em crianças · Falta de alternativas terapêuticas
  • Epidemia de transtornos mentaisExpansão do DSM · Proliferação de categorias diagnósticas · Diagnósticos no TikTok · Banalização de transtornos · Critérios vagos e imprecisos
  • Saúde MentalConstrução social da depressão · Vocabulário de depressão circulando · Influência de psicofármacos na definição · Fatores socioculturais · Desesperança contextual
  • Caso clínico: Vitor com depressão e convulsõesMúltiplas tentativas medicamentosas · Efeitos colaterais e comorbidades · Relação complexa com antidepressivos · Ideação suicida como divisor de água · Depressão reativa versus biológica
  • TDAHUso de Ritalina em crianças · Critérios vagos e imprecisos · Medicação precoce · Confusão entre normal e patológico · Influência de mídia e redes sociais
  • Conflito de InteressesFinanciamento da indústria farmacêutica · Desenvolvimento do DSM-5 · Viagens e consultoria · Relações comprometidas com farmácias · Lucratividade do manual diagnóstico
  • Caso clínico: insônia e diagnóstico rápidoConsulta online de 12 minutos · Diagnóstico sem contexto · Prescrição dupla de psicoativos · Falta de anamnese adequada · Problematização do modelo médico
  • Diagnóstico psiquiátricoDSM 1 e 2 com teorias causais · Virada do DSM-3 para medicina · Crítica à psicanálise · Transição para sistema baseado em sintomas · Influência de Ernest Kraepelin
  • Transtorno do Espectro AutistaDiagnóstico como requisito para benefícios · Indústria de laudos · Legislação sobre autismo · Gratuidade de pedágio · Instrumentalização diagnóstica
  • Procrastinacao e ProdutividadeCultura de hiperconexão · Ausência de limites temporais · Pressão constante · Sobrecarga mental · Desinteresse generalizado
  • Ansiedade e saúde mentalRedefinição pela ação de antidepressivos · Ansiedade reativa versus patológica · Expansão do conceito · ISRS definindo transtorno · Normalidade versus patologia
  • Tecnologia e saúde mentalSobrecarga de informação · Conectividade constante · Redes sociais · Velocidade de informação · Impacto no desenvolvimento cerebral
  • Patologização da vida e educaçãoCrianças rotuladas na escola · Problemas de aprendizagem como doença · Dificuldades normais versus transtornos · Institucionalização invisível · Educação versus medicalização
  • Psiquiatria e medicalizaçãoPsiquiatria como especialidade médica · Limitações do modelo biomédico · Necessidade de integração psicossocial · Crítica ao uso exclusivo de medicamentos · Relação médico-paciente
  • Neuroquímica e antidepressivosRecaptação de serotonina · Inadequação da teoria neurobiológica · Desenvolvimento da hipótese · Popularização versus evidência · Crítica científica
  • Psicologia e Comportamento HumanoSurgimento dos antidepressivos · ISRS e Prozac · Anticonvulsivos · Benzodiazepínicos · Estímulos do SNC
  • Diagnostico MedicoBusca por biomarcadores · Analogia com oncologia · Limitações em transtornos comuns · Impossibilidade de explicação biológica · Investimento em pesquisa especulativa
  • Psicologia e terapias alternativasUso off-label de antidepressivos · Enhance humano · Segurança versus melhoria · Condição humana versus patologia · Questões éticas
Transcrição121 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

E se uma música pudesse te levar mais longe? Tá perto de novas histórias, misturando sonhos, culturas e pessoas na energia da latinidade. Com a Latam, você garante sua viagem completa e chega onde todo mundo vai se encontrar. O Rio de Janeiro. Latam Airlines. Bem-vindo a ir mais alto. É viajar com o ritmo da música. Companhia Aérea Oficial do Todo Mundo no Rio 2026. Oi. Antes de começar, dois avisos.

Rádio Guarda-Chuva. Jornalismo para quem gosta de ouvir.

namorada dele sobre a possibilidade de ter uma crise convulsiva e sobre o que ela devia fazer caso isso acontecesse, ele não estava sendo excessivamente cauteloso. Ele sabia que as chances de ter uma crise convulsiva tinham aumentado consideravelmente, que ele tinha parado de tomar a droga que controlava os impulsos elétricos do cérebro dele. A carbamazepina, conhecida pelo nome comercial de Tegretol. Pelo que o neurologista conta, é considerado um período de estabilidade quando você passa cinco anos sem ter uma

Pois é, essa interação acontece porque além das crises convulsivas,

o Vitor sofre com depressão. E como o remédio para tratar da pressão age nos mesmos receptores que o anticonvulsivo, ele tende a tomar uma dose mais alta do antidepressivo, o que aumenta os efeitos colaterais. Então, por indicação do médico, ele tentou aos poucos ir parando de tomar o remédio, o chamado desmame. Ok, os exames estão desta maneira. Vamos retirando o remédio. Quando eu estava com zero de remédio, eu refiz todos os exames, os exames apontando tudo normal. Ou seja, ok, está seguro.

Ótimo, mas vamos continuar vendo. Passou o quê? Dois meses eu tive a crise. Então, de novo, não se sabe exatamente por que eu tenho as crises, mas me parece seguro dizer que sem o remédio eu estou muito vulnerável a ter crises de convulsão e a desenvolver cada vez mais um quadro de epilepsia.

convulsões param. Ele para de tomar, as convulsões voltam. Já com os antidepressivos, a relação tem sido mais complexa. Eu diria que eu respondo as medicações. Por outro lado, essa resposta é desagradavelmente variável. Conforme o tempo passa e você já está usando a mesma medicação, o efeito percebido dela vai diminuindo. Então, de tempos em tempos, acaba sendo necessário ou aumentar a dose ou eventualmente trocar o remédio.

Para mim, essa relação oposta com os psicoativos é um dos pontos mais emblemáticos da história do Vitor. De um lado, uma doença que é combatida com um remédio eficiente e cartesiano. Toma e resolve. Do outro, um transtorno que varia ao longo da vida, que é profundamente impactado por questões sociais, econômicas e ambientais.

A depressão, ela passa a ser um fenômeno comum por conta do vocabulário depressão estar circulando. Essa é a psiquiatra, psicanalista e autora do livro O que os psiquiatras não te contam, Juliana Belo Diniz. Por que existia um remédio que tratava isso? Isso muda a nossa relação com os sintomas. As pessoas passam a se referir ao próprio sofrimento como depressão. Então, é um fenômeno social. Ela não é um fenômeno biológico, né? Esse aumento da frequência de depressão.

Quando eu perguntei sobre isso para o Vitor, ele me disse que tem plena consciência do aspecto sociocultural da depressão. Para mim era bastante claro que a desesperança e a angústia, a tristeza, tinham fatores externos que faziam com que eu me sentisse assim. Isso me levou a uma pergunta das mais difíceis. Que uma coisa é especular a distância olhando para pesquisas e estatísticas. Outra, bem diferente, é viver com a depressão embaixo da pele.

Você percebeu que foi o divisor de água? Tipo, aqui eu estou sentindo que tem alguma coisa que vai além das coisas que o mundo está me trazendo, sabe? Você tinha esse sentimento? Tinha. A resposta para isso, para mim, é bem nítida. A resposta é a partir do momento em que você começa a ter ideação suicida. O impacto que os fatores exteriores estão me causando, eles estão tão intensos que começa a aparecer uma possibilidade plausível

Eu sou Tomás Chiaverini e o episódio 156 de Escafandro já começou. Nele...

a gente vai seguir na complexa e fascinante missão de tentar responder a pergunta que parece resumir o nosso tempo. A gente vive uma epidemia de transtornos mentais ou uma epidemia de drogas para tratar transtornos mentais? Antes, eu preciso te lembrar que o escafandro é orgulhosamente mantido por uma parte dos ouvintes que apoiam o projeto financeiramente. É só por conta deles que a gente está há 7 anos nos tocadores com mais de 150 episódios. Então, se você gosta do podcast,

Se você quer que a gente cresça e se multiplique pelos próximos 7 anos, vem se juntar ao nosso financiamento coletivo. O caminho para isso é rápido, fácil e seguro. É só ir lá no site catarse.me barra escafandro. Catarse.me barra escafandro. Com 5 reais você já consegue apoiar e tem direito a mimos como ouvir os episódios onde antes, gravar a ficha técnica de um programa ou ter o seu nome citado por aqui.

E por fim, se você já está entre as pessoas luminosas que mantém o podcast no ar há mais de sete anos, gente como a Tainara Arranque, a Clédis Fernanda Brandão, o Paulo Eduardo Martins Ribola e o Lucas Amorim, muito obrigado, mas muito obrigado mesmo por isso. A essa altura, talvez seja o caso de a gente se perguntar, afinal, o que são transtornos mentais?

E a primeira resposta talvez seja um médico, ou um psicólogo, ou algum adolescente do TikTok. Sim, esse fenômeno acontece e a gente vai falar dele mais pra frente. Mas antes, eu preciso dar um passo atrás nessa resposta pra fazer outra pergunta.

Você segue no TikTok como diagnosticar alguém? A questão dos transtornos mentais é que os exames auxiliares, exames de sangue, exames de imagem, eles só servem para a psiquiatria para a gente excluir causas que não são da psiquiatria, né? Então, para excluir uma doença neurológica, uma doença endocrinológica que pode explicar um sintoma psiquiátrico. Então, os exames para a gente só servem como exclusão, só servem para a gente dizer, olha, você não precisa de um psiquiatra, vá no neurologista. Para a gente, eles não têm utilidade nenhuma.

a partir de sintomas da nossa observação e do relato dos pacientes e dos familiares. É isso que a gente faz. Existem mil maneiras de sistematizar como a gente usa essas informações. Milhares de maneiras. E aí, para tornar essas maneiras um pouco mais homogêneas, os psiquiatras criaram o DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que pode ser visto como uma resposta da nossa sociedade à popularização das primeiras drogas psicoativas.

Porque como me explicou a psicanalista e psiquiatra Juliana Berodiniz, com o surgimento da psicofarmacologia, foi preciso criar padrões e protocolos até para organizar a burocracia inerente à prescrição de drogas. Que sistema a gente vai escolher? Tem vários. Que sistema a gente vai escolher? E aí, num primeiro momento, se faz uma colcha de retalhos. Então se pega ali o conhecimento da psicopatologia, que vem muito da filosofia, da fenomenologia. E muitos conceitos psicanalíticos,

também estão em voga. Então, você faz ali uma colcha de retalhos e começa a ter uma tentativa de sistematização desses diagnósticos, dessa classificação a partir dos sintomas. Num primeiro momento que a gente faz essa colcha de retalhos, a gente ainda assume algumas teorias de causalidade. Então, a gente usa, por exemplo, a questão do conceito de estruturas em psicanálise que tentam explicar certos funcionamentos. Então, a gente tem uma teorização mais profunda, uma tentativa de explicar origens, causas,

O sintoma é assim. Os dois primeiros volumes do DSM eram pouco conhecidos fora dos círculos dos profissionais de saúde mental. Mas aí, na década de 1980, as coisas mudaram radicalmente. A gente começa a ter muita crítica desse tipo de classificação. E um grupo específico dentro da psiquiatria ganha muita hegemonia. E esse grupo acredita numa coisa muito específica. Eles acreditam que a classificação deve ser baseada numa ideia do Kreplin, especificamente.

Kraepelin, um psiquiatra alemão morto em 1926, que baseava as classificações a partir do prognóstico, a partir do resultado daquele sintoma na vida daquela pessoa. Então ele observava as pessoas e falava, ó, começou assim, terminou daquele jeito. Então ele tentava dividir os diagnósticos, né, ele tentava criar uma classificação a partir desse resultado. E aí um grupo hegemônico olha pra ele e fala, olha, é isso aqui que dá pra usar. A gente não pode ficar aqui inventando que a gente sabe a causa, a gente não sabe, então a gente vai esquecer

qualquer explicação causal aqui, e vai trabalhar única e exclusivamente com corte transversal de sintoma, a partir do que a gente conhece do histórico de outras pessoas que tiveram sintomas semelhantes. Então, essa é a ideia geral. E aí, em 1980, culmina na classificação que a gente usa até hoje, que é essa classificação muito baseada em lista de sintoma e que não faz nenhuma inferência causal. Ela não tem que explicar nada. Ela só fala, ó, tem essa descrição aqui, isso aqui é esse transtorno aqui, ele melhora ou não com aquele remédio lá,

forma de psicoterapia ou não, e a evolução em geral é crônico-aguda. É isso que a gente faz. Na época em que o DSM-III estava sendo finalizado, o presidente da Associação Americana de Psiquiatria, que é a entidade responsável pelo guia, disse que ele, abre aspas, deixaria claro para quem tivesse dúvidas que consideramos a psiquiatria uma especialidade da medicina. E existem várias formas de ver essa guinada em direção à medicina. Os idealizadores do DSM-III falavam em aumentar a confiabilidade, em permitir que caso vários

se sentassem diante de um mesmo paciente, todos eles se saíssem com o mesmo diagnóstico. Essa missão, como a gente disse lá atrás, parece não ter sido cumprida. Quando diferentes médicos avaliam o mesmo paciente de depressão, por exemplo, só 15% deles concordam com o diagnóstico. Mas para além disso, a psicanálise que tinha moldado os dois primeiros volumes do guia estava em crise.

tratar a homossexualidade como doença, era uma coisa horrorosa, eles foram perseguidos com razão, não deviam ter feito isso. Veja, não é um problema da psicanálise, é um problema de como alguns psicanalistas aplicaram a psicanálise. Então, tem ali uma grande crise, tem uma revolta contra a psicanálise, que tinha ali o seu contexto para acontecer, então tem uma necessidade de expurgar a psicanálise do vocabulário psiquiátrico e uma tentativa de aproximar a psiquiatria da medicina geral, da medicina que não era a psiquiatria.

Da terceira edição, o DSM passou a ser uma grande justificativa para o uso mais generalizado de drogas psicoativas. Os adeptos dessa visão argumentam que, para isso, o DSM tem basicamente criado doenças. Ou transtornos, se você preferir. E aqui, a gente, de novo, tem de tomar cuidado com a relação de causa e efeito. Um bom exemplo desse paradigma vem de um médico chamado Peter Kramer. Peter Kramer é um psiquiatra americano que é muito favorável à psicoterapia.

clínico, assim, a questão dele é realmente atender pacientes, é a grande especialidade dele, e ele tem um olhar muito cuidadoso, assim, pros efeitos dos tratamentos psiquiátricos. E ali, no final da década de 80, década de 90, ele começa a usar os inibidores seletivos. O Peter Kramer é autor do livro Ouvindo o Prozac, e foi um entusiasta da droga quando ela foi lançada. E ele fala, bom, esses remédios, eles têm um efeito antidepressivo interessante, só que eu tô vendo uma coisa aqui curiosa, que é, eu tratei a pessoa, a pessoa já melhorou da depressão,

Então eu falo pra ela que eu quero tirar o remédio. E ela vira pra mim e fala, não, não, não, não. Não vou parar de tomar esse troço aqui, não. E aí ele pergunta, mas por quê? E a pessoa fala, porque eu me sinto mais segura. E aí ele olha praquilo e ele fala, peraí, eu tava usando isso aí pra tratar a depressão. Não tava usando isso aí pra você se sentir mais segura na sua reunião de trabalho. E aí ele cria um conceito que depois, coitado, ele é crucificado por causa desse conceito, mas eu acho que ali ele tinha razão de pensar isso. Ele cria o conceito de psiquiatria cosmética. Ele fala assim, será?

que a gente não está correndo o risco de usar remédios para a depressão e para outras funções que seriam tornar os seres humanos sobre-humanos, tratar a condição humana de alguma forma. Então ele levanta essa questão. Em paralelo a essa ideia de que a gente poderia tratar a condição humana, tem a expansão do uso dos antidepressivos. Porque assim como ajudaram a definir o que a gente entende hoje por depressão, essas drogas têm ajudado a fazer isso com outros transtornos. A ansiedade, por exemplo.

eles são remédios pra ansiedade. Só que a gente não tinha essa ideia de ansiedade até então. Então, quando a gente começa a ver esse efeito dos inibidores seletivos da recaptura de serotonina, a gente começa a olhar, mudar o nosso olhar pra ansiedade. Então, a ansiedade que a gente considerava puramente reativa e que a gente não dava tanta bola como uma coisa patológica, né? A gente fala, ah, não, tem pessoas mais ansiosas, pessoas mais ansiosas, mas a gente meio que tocava o sarrafo muito alto, assim, a gente considerava muitas ansiedades completamente normais, ali não dava muita bola, ou entendia que aquilo era só um ponto pra

trabalhado em psicoterapia, mas não via muito que aquilo pudesse ter um lugar para uma medicação específica. Só que pelo efeito dos inibidores seletivos, isso muda o nosso olhar. A gente começa a olhar para a ansiedade de um outro jeito, começa a dar muito mais classificações para transtornos de ansiedade do que a gente tinha até então. De certa forma, é o mesmo caminho que tinha acontecido com a depressão, certo? De novo, o medicamento definindo o transtorno, certo? Ajudando a definir o transtorno. Exatamente. De qualquer forma, os transtornos mentais cresceram bastante.

O formato de diagnóstico é importante em pouco tempo. O DSM-2, de 1968, continha 182 diagnósticos. No 3, quando aconteceu a grande guinada rumo à medicina, esse número subiu para 265. Foram 83 novas possibilidades de diagnóstico em 12 anos, quase 7 por ano. Na última edição, publicada em 2013, o DSM-5, são mais de 300 possibilidades de diagnóstico. O aumento do número de categorias diagnósticas

É algo que só acontece no campo da psiquiatria. Quando você pega qualquer outro campo da medicina, isso não acontece. Essa é a médica pediatra e professora da Unicamp, Maria Aparecida Moisés. E não é porque a psiquiatria se desenvolveu mais. As outras áreas se desenvolveram muito. Eu diria que até muito mais. A Maria Aparecida Moisés me explicou que o interesse dela pela psiquiatria vem do começo da clínica médica. Fiz a residência até 75, na USP. Logo depois eu fui contratada na USP.

para trabalhar no Centro de Saúde Escola Butantan, na pediatria, como assistente. E assim que ela começou a atender crianças, ela percebeu que as moléstias que mais apoquentavam os pequenos não vinham do corpo. E lá a gente recebia muito encaminhamento da escola e também de famílias que procuravam já, porque outros profissionais, outras pessoas tinham falado que as crianças tinham, aspas, problemas de aprendizagem e ou de comportamento. Quer dizer, não é um fenômeno exatamente recente, né?

Não, não é. O que tem de recente é um crescimento mais do que logarítmico, né? Um levantamento recente feito pelo Ministério da Saúde mostrou que em 10 anos, os atendimentos relacionados a transtornos de ansiedade no SUS aumentaram 1.575% entre crianças de 10 a 14 anos. Entre os adolescentes de 15 a 19 anos, o avanço foi maior, de 4.423%.

revela números, mas as últimas edições do DSM são best-sellers. Estima-se que o DSM-IV tenha vendido mais de um milhão de exemplares. Boa parte da receita da associação vem dessas vendas. Durante a pandemia de Covid, período em que, segundo a ONU, os transtornos mentais aumentaram 25%, o DSM-V se tornou o livro mais vendido da Amazon. Num artigo do qual eu já falei no episódio anterior, em que a médica americana Marcia Angel faz um grande ensaio sobre o suposto abuso de medicamentos e diagnósticos,

críticas ao DSM. Diz, por exemplo, que ao contrário do que costuma acontecer com as publicações da área médica, o Manual dos Psiquiatras e Psicólogos não traz estudos de referência que embasem as afirmações que estão ali. Além disso, tem uma questão complicada que envolve conflitos de interesse. Porque mais possibilidades de diagnóstico podem resultar em mais possibilidades de prescrições, o que pode resultar em mais dinheiro para a indústria farmacêutica. O problema é que entre as pessoas que decidem como esses diagnósticos vão ser padronizados

global tem muita gente muito próxima da indústria farmacêutica. Em 2024, o British Journal of Medicine publicou um estudo mostrando que quase 60% dos médicos que desenvolveram o DSM-5 receberam dinheiro da indústria farmacêutica. No estudo, eles detalham que foram 14 milhões de dólares gastos em 4 anos, principalmente com viagens, refeições e serviços de consultoria. Como são 92 médicos,

por ano para cada médico. O que, por um lado, não é lá muito dinheiro. Ainda mais quando a gente considera que psiquiatras de destaque costumam ser muito bem pagos. Por outro, mostra que existe uma relação de proximidade questionável do ponto de vista ético. E o conflito de interesse, vale dizer, não é exclusividade do DSM-5. Dos 170 colaboradores da versão anterior, 95 tinham algum vínculo financeiro com a indústria farmacêutica. Lá no começo do episódio anterior,

Fala Rápida da Diana Rosa, especialista em saúde mental coletiva do IEPS, instituto que fez uma pesquisa sobre o aumento da prescrição de drogas psicoativas. Na nossa conversa, a Diana me explicou que essa entidade onde ela trabalha, o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, atua basicamente com o que a gente poderia chamar de lobby do bem. Quando eu estava produzindo esse episódio, por exemplo, eles estavam trabalhando para que o governo regulamentasse a chamada Lei Felca, que tem o objetivo de coibir a adultização e a exposição de crianças e adolescentes nas mídias sociais.

Então assim, uma vez que a gente aprovou uma lei, seja a lei FELC ou a lei de saúde mental nas escolas, o IEPS com o seu lobby do bem, ele vai estimular os atores do poder executivo a tirarem essa lei do papel. Vai procurar o secretário, vai procurar o ministro, tomar café, almoçar, bater na porta, falar, olha, tá aqui, lê isso daqui, é por aí, né? Basicamente a gente enche o saco do caboclo até ele resolver tomar. Exatamente, a gente enche muito o saco de todo mundo, é isso.

A Dayana Rosa presta atenção em tudo o que tem de legislação tramitando na área dela, que é a saúde mental. E quando falou sobre isso, ela abriu uma portinha toda nova na nossa investigação. A portinha do acesso a direitos especiais. A Dayana me contou que também abriu essa portinha por acaso, quando percebeu que 44% dos projetos da área de saúde mental da Câmara dos Deputados na última legislatura tinha a ver com autismo. E isso deixou ela com uma pulguinha atrás da orelha.

necessariamente é uma questão de saúde mental. Uma pessoa autista pode estar em sofrimento, mas pode não estar em sofrimento também. Ela pode ter uma questão de saúde mental, mas pode não ter também. Diante disso, eles foram olhar com mais cuidado os projetos de lei sobre autismo. O que os parlamentares estavam legislando sobre isso? É sobretudo direito, acesso a direitos, a benefícios, que é uma busca legítima também. Mas aí a gente precisa descer um pouquinho mais também nessa camada para conseguir entender o contexto

pessoas estão inseridas que ela precisa de um diagnóstico de um laudo pra acessar direitos. Isso é muito grave, porque se essa moda pega, vai faltar diagnóstico. Mentira que isso nunca vai faltar. A gente pode pensar numa indústria de laudos que vão falar que você é autista pra você ter acesso a algum tipo de serviço, algum tipo... É isso que você tá me falando? Sim, pode ter essa utilidade. Ter um laudo hoje pode ser instrumentalizado pra acesso a direitos.

de direito. Pegando como exemplo a pessoa autista, né? Hoje é comum você até ver caixa preferencial, né? Dando um exemplo bem prático, assim, de nossas vidas. Tinha projetos de lei, Tomás, que previa gratuidade de pedágio pra pessoa autista. Tem muita coisa... Eu não consigo falar sério nessa... O brasileiro... Eu vou falar o brasileiro, mas é esse espírito de vira-lata, né? O ser humano realmente tem o dom, né? O cara vai legislar pra pedir direito,

ao acesso gratuito de pedágio pra pessoa autista, é isso. É importante frisar também que isso é um absurdo e que prejudica a pessoa que realmente precisa, sabe? Tem pessoas sendo prejudicadas por isso. E é dessas pessoas que a gente tem que lembrar. Existe diagnóstico, existe transtorno, existem pessoas com transtorno. Mas se a gente eleva isso a um grau de que todos temos alguma coisa, a gente vai acabar prejudicando quem realmente precisa de assistência.

Assim, a gente pode voltar à questão de quem realmente precisa de assistência e de como isso está definido. Porque se você ficou assustada com os conflitos de interesse por trás do DSM, espera até eu te falar sobre os diagnósticos em troca de likes. Tem sido muito comum, por exemplo, se a gente vai analisar TikTok, Instagram, vídeos curtos em que você consegue, por exemplo, se autodiagnosticar com TDAH, com autismo. Comportamentos típicos de uma pessoa bipolar. Pega papel e caneta que a gente vai fazer.

uma avaliação de triagem para a TDAH. É essa banalização que a gente fica muito atento, né? Porque quando a gente fala de medicalização, é o ato da medicina, do poder médico,

ele abrangeia outras áreas da vida que não aquela restrita à psiquiatria, ao medicamento, ao sintoma e ao tratamento. Ou seja, você coloca condições clínicas em algo que é normal da vida. Divulgar informação não é ruim, né? As pessoas terem acesso à informação não é ruim. Mas quando a gente simplifica demais a informação, as pessoas começam a fazer associações muito reducionistas, né? Então elas começam a enxergar,

qualquer angústia, como um sintoma de ansiedade, começam a dizer, então as outras pessoas não sentem isso como eu sinto, então tem algo errado comigo, né? E aí vão na linha de eu preciso procurar um médico porque tem algo errado comigo. Sendo que em outros momentos, talvez elas falam assim, esse negócio que eu sinto aqui, que eu sinto desde que eu me lembro por gente, que é porque eu tô chateado, porque eu tô triste, porque eu tô frustrado, sei lá, né? Então isso começa a mudar a atitude das pessoas, que obviamente não são culpadas, elas estão só ali reagindo,

no contexto. É normal a gente ficar chateado, a gente ficar triste, é normal a gente ficar desanimado, mas às vezes em um contexto em que as informações estão vindo sem evidência ou de forma muito simplificada, isso se torna prejudicial, né? Então a gente começa a achar que pra tudo na vida tem remédio, literalmente. Só que não tem. E isso pode, inclusive, piorar a saúde mental de alguém.

a pediatra Maria Aparecida Moisés, ela me falou sobre um dos transtornos cujos diagnósticos mais crescem entre crianças e adolescentes. Como é que é feito o diagnóstico de TDAH? É de uma subjetividade total que nos apresenta como se fosse objetivo. Veja, o TDAH é apresentado não só como se fosse biológico, que não tem essa comprovação. Aliás, o diagnóstico de TDAH, essa categoria de diagnóstico de TDAH, é questionada no mundo todo.

que questionam. Profissionais da psiquiatria no mundo todo questionam esses diagnósticos, porque eles surgem sem uma sustentação, inclusive epidemiológica e no campo psi, que se distoram dos outros. Mas o diagnóstico TDAH é feito com base numa observação a partir de um padrão meu, o que eu espero que uma criança seja, e de basicamente um questionário. Se a gente pegar os critérios diagnósticos,

entre aspas, para esses transtornos mentais mais em voga, TDAH, TEA, transtorno opositor desafiante, quando você olha aquelas perguntas, você fala, bom, peraí, eu me encaixo em todos. Porque eles são muito vagos, imprecisos, e eu até diria mal redigidos. E vou mais, Tomás, não são vagos, imprecisos, frouxos e mal redigidos por incompetência. É por competência.

vago, proxo, impreciso e mal redigido, mais pessoas se enquadram. E aí você tem esse boom de diagnósticos que é divulgado pela mídia, é divulgado pelas associações de profissionais, por exemplo, de psiquiatria no Brasil, de TDAH, de dislexia, divulgam isso. E as pessoas são capturadas por isso. Os pais são capturados por esses discursos e acreditam

que estão fazendo melhor para os seus filhos. Porque, assim, se você não tratar o TDAH do seu filho, ele vai ser um delinquente. Não tem esse dado? Onde tem isso? E aí você entende, por exemplo, um dado do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos que diz que 46% dos estadunidenses preenchem critérios diagnósticos de transtorno mental. Não, peraí, alguma coisa está errada. Esses diagnósticos são cada vez mais precoces e a introdução de substâncias psicoativas

mais cedo. Se você olha qualquer coisa sobre Ritalina, é assim, não use antes de 6 anos. Ritalina é um dos nomes comerciais do cloridrato de metilfinidato. É um estimulante do sistema nervoso central indicado para o tratamento de TDAH e narcolepsia. Atua aumentando a tensão e reduzindo a impulsividade. O metilfinidato também é vendido sob o sugestivo nome comercial de conserta. Que está na bula. Não usar antes de 6 anos. Você tem crianças de 3, 4 anos recebendo. Você tem substâncias.

Por exemplo, antipsicóticos como a risperidona, que até pouco tempo atrás era usado em surtos graves de pacientes com esquizofrenia, por período curto. Hoje é usado em crianças de pré-escolar com diagnóstico de opositor desafiante. Está errado, não pode. Você tem um diagnóstico hoje de crianças com menos de dois anos com diagnóstico de tempo cognitivo lento. É desesperador.

é que quando a gente olha para os dados globais, a gente percebe que o problema só piora. Eu conversei sobre isso com a Juliana Bero Diniz. Muitos dos críticos da hipermedicalização dizem isso e é verdade. Eles dizem, bom, se a gente tem cada vez mais depressão e ansiedade, a gente nunca usou tanto antidepressivo e ansiolítico, como é que a gente pode ter cada vez mais? Se esses remédios efetivamente estivessem tratando essas doenças, elas deviam diminuir e não aumentar. Os antidepressivos não estão tratando depressão, porque não estão curando depressão, pelo menos.

não tratem alguns sintomas, e não que algumas pessoas não melhorem muito com antidepressivo. Tem algumas pessoas que beneficiam muito, né? Por isso que eu acho que a gente não pode demonizar essas medicações. Inclusive, tem vidas que são salvas, certo? Porque depressão, a gente sabe que tem uma relação de depressão com suicídio, né? Que eu acho que a gente não pode deixar de falar disso, né? Quer dizer, às vezes está salvando a vida de uma pessoa quando está dando medicamento para ela, certo? Sim. Essas medicações psiquiátricas bem indicadas, elas podem ter efeitos muito benéficos. Só que uma medicação

psiquiátrica bem indicada, ela não é uma indicação no vácuo. Não é um chat de EPT dizendo que você precisa tomar antidepressivo. Ela existe dentro de um contexto. Então, você vai numa pessoa que te escuta, que ouve a sua história, que te explica algumas coisas, que fala que algumas coisas são perfeitamente normais, outras nem tanto. Então, melhora ali a sua relação com seus sintomas, porque coisas que você achava que te faziam completamente louco, você descobre que não. Estou dando exemplos, assim, do que pode acontecer numa interação. No meio disso, vem uma indicação

de um remédio que a pessoa te explica exatamente o que faz, como, o que esperar. Você vai ter que testar ali pra ver se aquilo vai acontecer com você ou não, porque não necessariamente o que a gente espera e o que acontece, mas você tá ali criando um vínculo, uma relação com aquela pessoa e o remédio tá ali no meio. Isso pode ser extremamente benéfico. Uma coisa completamente diferente é um antidepressivo que cai do céu, que a pessoa não sabe de onde, não tem relação com quem prescreveu. Aí é outra história.

Uma noite totalmente insônia, uma noite dormindo por exaustão completa. Ao longo dos anos, eu tentei várias coisas. Fiz meditação, acupuntura, segui um tal de treinamento autógeno com técnicas de respiração e relaxamento, roubei benzo de azepina e costarja preta da minha avó, que funcionavam mas me deixavam sonado no dia seguinte, e entornei doses consideráveis de vodka com suco de laranja ou de uísque com leite. Esse último tinha vantagem de servir como um jantar nas noites em que eu trabalhava até tarde. E até funcionava.

Mas no dia seguinte eu tava de ressaca e o alcoolismo tá muito fora de moda pra merecer meu flerte. Aí um dia, quando eu trabalhava no Roda Viva da TV Cultura, num desses períodos de crise, eu resmunguei das minhas agruras com a Lúcia, nossa coordenadora de produção. Disse que não aguentava mais viver nesse semi-sonho grudento que é a vida quando se tem insônia. A Lúcia era uma produtora de TV experiente e prática, do tipo que resolve as coisas. Em resposta às minhas lamúrias, ela me deu um telefone. O telefone de um psiquiatra.

Um psiquiatra do tipo prático. Alguns dias depois, eu tava desfrutando do estranho sono químico induzido pelo emitartarato de zoopidem, um sonífero hipnótico conhecido pelo nome comercial de Pats, ou Stilnox, ou Ambien, nos Estados Unidos. Mas eu não quero te falar sobre esse medicamento hoje, inclusive porque a gente já fez todo um episódio sobre ele. Episódio 59, sonhos de zoopidem. Hoje, eu quero te falar sobre o médico que me receitou esse medicamento. Porque quando eu comecei a apurar esse episódio,

eu achei duas receitas antigas dele que estavam havia mais de dois anos no porta-luvas do meu carro. Era um produto da minha última consulta com esse médico, feita em agosto de 2023. Duas receitas de medicamentos controlados que eu nunca tive coragem de usar. E mais. Eu achei o tal médico na rede credenciada do meu convênio, eu marquei uma consulta online com o tal médico e eu gravei o áudio dessa consulta. Fala, doutor. Alô. Tudo bom? Tá me ouvindo? Agora sim. Eu não vou falar o nome dele aqui,

para não pressunificar um problema que é coletivo. Pois não, Tomás. Pelo mesmo motivo, a voz dele foi modificada digitalmente para impedir o reconhecimento, ainda que, vale ressaltar, ele não esteja fazendo nada de ilegal. Talvez antiético, mas não ilegal. Doutor, eu estou com um problema aí que me é recorrente ao longo das últimas décadas, talvez, que é a insônia. É uma questão que vai e volta. Eu basicamente narrei para ele o meu problema,

encaradamente sobre estar numa fase pior. Na verdade, nos últimos tempos, as noites, em claro, têm se tornado cada vez mais raras e eu sei exatamente porquê. Mas enfim, quem nunca mentiu para um psiquiatra que atira a primeira pedra?

É um sono que é muito insuficiente. Olha, é curioso que varia mais com relação ao horário do que ao tipo de compromisso. Claro que se é uma coisa um pouco mais tensa, se eu tenho, às vezes, uma apresentação, algum trabalho que exija mais mentalmente, ou sei que eu vou ter um dia muito cheio... Quando eu terminei de explicar a minha condição, o psiquiatra da Lúcia me surpreendeu.

mostrou que fazia algum tipo de acompanhamento clínico dos pacientes. Aqui eu disse a verdade, que a minha insônia tinha arrefecido e que na ocasião tinha achado o tratamento proposto um pouco excessivo.

Perguntou se eu tinha procurado outro médico. Eu disse que não. E que vez ou outra, quando sei que o bicho vai pegar no dia seguinte, eu mando para dentro 5 miligramas de zopidem de forma preventiva. E aí, em nome do jornalismo, eu voltei à mentira inicial. Disse que isso não estava funcionando e que eu estava numa crise das brabas. Ele ajustou os óculos no rosto magro e eu percebi que a nossa aventura estava próxima dos finalmente.

do 2023, que a sua insônia é por conta de ansiedade. Porque insônia não é uma patologia em si. Insônia é reflexo de ansiedade. E eu penso que você tem aí uma condição de ansiedade que eu poderia chamar em transtorno de ansiedade generalizada. Pumba! Tava lá o diagnóstico. Transtorno de ansiedade generalizada. Eu tinha acabado de deixar o seleto grupo das pessoas saudáveis, do qual eu descobri por conta dessa apuração, fazem parte

menos de 5% dos humanos. Agora, eu era uma pessoa com um transtorno para chamar de meu. O psiquiatra da Lúcia tinha levado 5 minutos e 4 segundos para me oferecer esse diagnóstico. E com ele, veio o tratamento. Na consulta anterior, ele tinha prescrito frontal, que é o nome comercial do Alprazolan,

para tratar transtornos de ansiedade, tensão, insônia e crises de pânico, e Reconter, que é um antidepressivo da famosa classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina.

Eu perguntei sobre esse remédio específico, ele me explicou, aí perguntei quanto tempo teria de tomar um antidepressivo se optasse pelo tratamento contínuo.

Geralmente, quando a pessoa responde bem, o tratamento é bem feito, a tendência é que a pessoa, depois de ficar sem o medicamento, continue bem. Tem pessoas que precisam tomar por mais tempo, tem pessoas que param, vêm, depois de um certo tempo precisam voltar a tomar, dá para afirmar-se muita coisa com a TCTs. Entendi. E tem muitos efeitos colaterais desse medicamento? Não. O fato de dar um pouquinho de nausea, um pouco de enxônia,

No fim, eu discutaria pelo tratamento completo.

O vein lift é outro antidepressivo que mexe com as monoaminas. Mas esse, além da serotonina, também inibe a recaptura da noradrenalina. Ou seja, faz com que essas monoaminas se tornem mais abundantes nas fendas sinápticas. Ele me explicou como eu devia usar o remédio. Depois, no melhor estilo, vai beber alguma coisa enquanto espera.

mais imediato. Eu, no melhor estilo, já que estamos aqui mesmo, falei para mandar descer.

Essa receita vai estar disponível no consultório a partir de amanhã cedo e ela precisa ser retirada até terça-feira da próxima semana mais tarde. Tá, combinado então, doutor.

esse antidepressivo por voluntário de CT, ele não pode ser interrompido abruptamente. Se interromper ele abruptamente, você vai passar mal. Então, antes de acabar, você entra em contato com a secretária e já mais uma outra consulta pra me contar como é que foi, se foi bem, se não foi bem, se a gente vai manter, se vai aumentar a dor, trocar, diminuir, sim, pra dar sequência fina e tal tratamento. Legal. Combinado, doutor. Alguma coisa a mais, Tomás? Não, só isso mesmo.

Até a próxima. Obrigado, doutor.

Aqui vale dizer que esse processo todo diz muito sobre a forma como a gente tem enfrentado a saúde mental, mas também diz um tanto sobre a forma como a gente tem lidado com a saúde como um todo.

A gente tem uma mudança também da atitude dos profissionais de saúde, que estão muito pressionados a serem técnicos, mais do que figuras que vão criar um relacionamento pessoal de alguma forma. Claro que na posição de profissional, mas é um relacionamento, a pessoa sabe quem você é, você sabe quem a pessoa é, tem ali alguma coisa muito peculiar de quem você é naquele tratamento. Então, os médicos estão sendo ensinados a serem técnicos, despersonalizados,

despessoalizados, que vão aplicar um protocolo que diz que se a pessoa queixa de ansiedade, você tem que dar o remédio. Eu acho curioso essa questão. Por um lado, os cientistas sérios que trabalham com doença mental estão percebendo que a gente não consegue explicar pelo lado só biológico, certo? E ao mesmo tempo, a sociedade como um todo está querendo uma resposta que seja por aí, né? Sim. O que você está me falando é justamente isso. O que você fala no livro também, a gente está deixando as terapias,

de olhar pra uma vida que não seja patologizante, vamos dizer assim, e a gente tá querendo uma solução que venha numa pílula. E ao mesmo tempo que a medicina tá falando, olha, essa pílula não resolve, certo? É muito doido pensar isso, né? É um paradoxo gigantesco. Sim, tem a ver com a gente criar uma visão da psiquiatria de que psiquiatria é igual a prescrever remédio, né? Então a gente dá um valor pro remédio dentro da psiquiatria e dentro da atuação do psiquiatra,

do que ela realmente é. E também a gente começa a ter muitos clínicos que não são psiquiatras, né? Médicos de outras especialidades prescrevendo esses remédios muito influenciados pela indústria farmacêutica e muito intolerantes a manifestações da condição humana. Então, assim, as pessoas estão mais sofrendo mais. As pessoas que escutam esse sofrimento estão menos tolerantes, estão com mais pressão pra dar uma solução rápida, numa consulta muito curta, que ela não tem muito como saber de onde aquilo veio. Então, você começa a ter um uso exagerado

para medicar coisas que são da condição humana, que não são necessariamente sintomas patológicos, né? Que a gente possa atribuir a uma doença. E começam a banalizar esse uso. E a gente começa, por exemplo, a ter a ideia de que tratamentos de certas doenças são primordialmente com medicação. Transtornos de déficit de atenção, por exemplo. Existem inúmeros tratamentos de transtornos de déficit de atenção que não envolvem remédio. Mas toda vez que a gente pensa nisso, a primeira coisa que vem na cabeça é o remédio. Porque é isso que está na cultura. Isso está muito disperso na cultura.

a tomar cada vez mais remédio. Mas muitas vezes esses remédios estão mal indicados, estão fora de contexto ou estão tratando a condição humana. E assim, eu me senti razoavelmente seguro para vestir o meu jaleco jornalístico e arriscar um diagnóstico para a pergunta que tem guiado esse episódio e o último. Porque se a gente somar tudo o que foi dito até aqui, o desconhecimento de como as drogas funcionam, a disseminação dos antidepressivos baseada na hipótese falsa das monoaminas, as propagandas que vendiam drogas psicoativas como se fosse uma panaceia,

tão próximos aos dos placebos, os conflitos de interesse por trás do DSM, a proliferação de transtornos mentais diagnosticáveis, os diagnósticos de TikTok, os PLs para os autistas não pagarem pedágio e para coroar um diagnóstico com duas receitas controladas em 12 minutos. Tudo isso me faz dizer, sem medo de errar, que sim, a gente vive uma epidemia de diagnósticos que tem feito as pessoas se medicarem demais. O problema é que essa resposta é só uma parte da resposta.

entender isso melhor é voltando para a história do Vitor. Primeiro, as drogas psicoativas, no caso, um anticonvulsivo, permitiram que ele tivesse uma vida normal. Evitaram que ele fosse dormir toda noite com medo de acordar com os ossos quebrados. Além disso, teve o controle da depressão, um transtorno que o Vitor começou a conhecer quando estava com 20 anos e tinha acabado de entrar na faculdade de engenharia. Comecei um curso, não gostava do curso e, meu Deus, o que eu vou fazer? Eu não aguento mais isso e tudo mais, como lidar e tal.

Percebi que, de fato, eu sentia mais do que uma angústia e sentia uma desesperança que extrapolava o que, sei lá, é razoável sentir, se é que existe uma régua para isso. Mas eu mesmo percebi que a coisa estava indo um pouco além do que seria o normal de angústias cotidianas.

alternam. A fase da pandemia foi, obviamente, uma fase muito crítica, né? Desde a pandemia o mundo é muito diferente, né? E eu acho que a gente, claro, continua, a gente segue, só que, enfim, as coisas elas deixaram uma marca, né? A pandemia deixa uma marca em todo mundo e a gente lida com isso. Eu faço acompanhamento psiquiátrico e ao longo desse acompanhamento tem fases em que as coisas estão mais

agudas ou menos agudas. Portanto, tem fases em que o tamanho da receita é maior ou menor. E aí isso é médios de várias naturezas. Tem ansiolíticos, tem antidepressivos, tem as suas particularidades. Tem suas particularidades. Muitas particularidades. E como a gente já disse, os transtornos mentais em geral e a depressão em particular são diferentes de um problema como o colesterol alto, por exemplo. E a depressão até pode ter uma base biológica. Até pode existir algum gene que deixe as pessoas

E você tá com o celular?

está sempre conectado à internet e tudo chega até você. Você não precisa mais ativamente, ah, poxa, eu vou ler notícias. Não, as coisas simplesmente chegam até você. Eu acho que isso, de certa maneira, traz uma certa percepção diferente e contribui para um certo quadro mais ou menos generalizado de desesperança e etc.

sobre o mundo que deixa a gente mais doente, ela falou sobre competição.

comprar um imóvel ficou mais difícil, realmente, para a nossa geração é mais difícil que foi para a geração dos nossos pais e assim por diante. Eles não estão tão equivocados na leitura deles de mundo. Claro que eu acho que é uma leitura que não precisa ser assim, tem outro jeito de você olhar para o mundo, mas considerando o que eles consomem, o que eles estão ouvindo, faz sentido que eles pensem assim. Tomás, a gente vive hoje um modo de organização das condições de trabalho, em que você recebe um WhatsApp do seu chefe,

Às 10 da noite, sua mãe não recebia isso. E isso é uma sobrecarga, você não tem tempo de parar. E isso não é produzir, isso é produtivismo. Isso gera muita angústia, muita desesperança, muito comportamento disruptivo e muito desinteresse. Porque para que eu vou investir em alguma coisa se a minha vida está condenada a ser um saco? Que é muitas vezes o que eles trazem. E aí, muita gente vê isso, vê essa reação dos adolescentes como se eles tivessem um transtorno de déficit de atenção porque eles estão desinteressados.

de déficit de atenção, eles estão desinteressados porque o que eles estão vendo ali à volta deles está levando eles a acreditar num cenário muito sombrio. E a gente sempre corre o risco de banalizar o sofrimento alheio quando a gente fala dessa forma, mas a gente tem a impressão de que se você não tem déficit de atenção é porque você não tem um celular no bolso, sabe? Porque a gente está o tempo inteiro distraído, né? Eu sinto o meu cérebro sendo moldado por essa tecnologia de uma forma muito

e eu não consigo me livrar disso. E assim, eu acho que qualquer pessoa com quem você vai conversar vai ter a mesma visão de que esse celular, de fato, está causando uma mudança no cérebro e que tem um lado patológico, não? Sem dúvida. Eu acho que a sobrecarga de informação, a velocidade da informação, a facilidade de acesso, que é uma coisa meio maluca, né? Porque parece que facilidade é sempre bom, mas é aquela coisa, a gente não se organiza mais, né? No centro, para ver o filme, porque só vai passar naquele horário, né?

hora, eu posso parar no meio, eu posso ver outra coisa, eu posso ver o celular enquanto eu vejo o filme, enfim. Lá atrás, quando eu te contei da minha insônia, eu disse que as crises tinham se tornado raras e que eu sabia exatamente porque isso tinha acontecido. E teve a ver, basicamente, com essa viagem que você tem acompanhado nos seus fones de ouvido. Com o advento do escafandro. Primeiro, em alguma medida, porque hoje eu consigo me organizar de forma a tornar raros os dias em que eu tenho de madrugar. Mas isso é o de menos. A grande mudança que o escafandro trouxe pra minha vida foi uma

Uma brisa ilusória de propósito. Em outras palavras, eu tô trabalhando com algo que faz sentido pra mim. Então sim, acho que tem essa sobrecarga, mas também eu acho que uma coisa que as pessoas deixam de olhar é que assim, o que que mobiliza a gente? O que que faz a gente fazer algo? Juliana Belo Diniz. É uma coisa que é emocional, assim, a gente tem um envolvimento, a gente se apaixona, né? Você faz esse programa e você é apaixonado por isso, você gosta desse negócio. É uma realização, você acha muito legal quando o programa vai pro ar e você vê o que você fez, né?

essa motivação, mas que ela depende muito do nosso interesse. E assim, existem alguns problemas nessa minha cabotina jornada do herói. Primeiro, eu levei duas décadas devidamente pontuadas por crises de insônia pra construir essa rota de fuga. E segundo, eu tô num lugar privilegiado que me permitiu fazer isso, ainda que em duas décadas. E assim, a gente chega ao ponto mais importante desse nosso mergulho. Porque os transtornos mentais, como tantas outras moléstias humanas, têm sido tratados como problemas pessoais. Em alguns casos,

Eles, inclusive, são usados como formas individuais de virar as costas para outros problemas. Quando você recebe um diagnóstico, seja ele real ou não, ele te acalma. Especialmente nesse campo. Ufa! Então é isso que eu tenho. Não sou eu que estou sendo agressivo e eu preciso ver o que é que eu estou fazendo na minha vida, que relações eu estou construindo e que eu estou sendo agressivo. Não. Eu tenho um transtorno mental. Então isso me acalma.

De novo, está na esfera individual. E a essa altura, eu acho que ficou claro que a gente está falando de uma epidemia. Na verdade, de duas epidemias que se misturam e em boa parte dos casos se sobrepõem. De um lado, a epidemia de diagnósticos e de medicalização em excesso. De outro, a epidemia de doenças mentais. E eu sei que você que está me escutando estava nesse planetinha quando sete anos atrás a gente começou a ouvir falar de um vírus transmitido por morcegos que tinha aparecido na China. Você sabe bem que não se enfrenta epidemias só tratando os indivíduos.

As soluções precisam ser coletivas.

A especialista em saúde coletiva, Diana Rosa.

que a gente vive hoje, né? Na individualização, na fragmentação da vida, a gente perde um pouco a noção da saúde coletiva, que é uma saúde mental coletiva também. Então, podemos estar, de fato, diante de um processo de adoecimento coletivo, mas tratamos isso no individual, na busca dos sintomas, do medicamento, e que a gente sabe que isso pode dar conta ali no momento, mas não ataca muito a raiz, né?

sobre o tipo de sociedade que a gente vive hoje. E aí você resolve o seu problema até o próximo problema aparecer. No fim da minha longa conversa com a Juliana Berodiniz, a gente falou sobre uma questão que, para mim, pode ser bem resumida pela metáfora do prego e do martelo. Porque lá em meados do século passado, os cientistas descobriram essa ferramenta incrível que são as drogas psicoativas, o martelo da nossa metáfora. O problema é que uma parte dos psiquiatras ficou tão deslumbrada com esse martelo

das ferramentas. E aí, já viu, né? Quando você só tem um martelo, todos os seus problemas ficam parecendo um prego. Na versão mais recente desse dilema, a Juliana me falou sobre a perseguição dos tais marcadores biológicos. Não necessariamente para explicar as doenças, mas para identificar o melhor martelo a ser usado em cada paciente. Isso tem a ver com o advento da chamada medicina de precisão. A medicina de precisão, ela tem uma importância muito grande na oncologia.

respostas e tratamentos com resultados muito extraordinários. Doenças letais que passaram a ser tratadas quando a gente começou a olhar para cada tumor e tentar descrever nos mínimos detalhes a composição daquele tumor e descobrir exatamente qual que é o receptor que a gente tem que atuar para aquele tumor específico. Então isso que é medicina de precisão. A gente está meio deslumbrado com isso em certas áreas, porque em algumas áreas isso está tendo efeitos realmente incríveis.

tentaram fazer paralelos, né? Então, se a precisão está funcionando na oncologia, a gente pode levar essa precisão para outras especialidades, entre elas a psiquiatria. E aí, você começa a investir na busca por marcadores biológicos que não vão ser marcadores de doença, porque a gente já sabe que essa ponte não é transitável, mas que a gente supõe que podem nos ajudar a dizer se um tratamento vai ser melhor que outro para aquela pessoa. Nada disso deu resultados incríveis na psiquiatria até hoje, muito pelo contrário.

mas existe esse grande investimento nessa ideia de precisão baseada em marcador pelo outro. E aí é uma grande aposta e muita gente investe muito dinheiro nisso. Acha que isso vai ser a grande revolução para a psiquiatria. Só que quando a gente olha para as doenças mentais e vê que pelo menos os transtornos mentais comuns, tem essa diferença dos transtornos mentais graves, a prevalência não aumenta tanto, não é tão variável por questões sociais como a prevalência dos transtornos mentais comuns. Se a gente olhar para os transtornos mentais comuns, tem essa prevalência que vai aumentando

numa velocidade que não pode ser explicada por fatores biológicos, como é que a gente vai poder dizer que marcadores biológicos vão ser a revolução pra esse tipo de manifestação que parece claramente ligada a fatores culturais sociais, né? Então, não dá. Aí a gente tem uma resposta, né, que fala, olha, a gente não consegue ainda trabalhar com marcador biológico, a gente não tem nenhum marcador biológico que tem utilidade clínica atualmente, mas a gente tem uma outra coisa, né, que são as questões sociais, que a gente sabe com muito mais

evidência que estão associadas aos transtornos mentais, e que a gente pode ter uma atuação muito mais direta, afetando uma população muito maior. Porque se eu vejo que desigualdade social é algo que aumenta a prevalência de transtorno mental, e eu fizer alguma coisa pra tentar reduzir desigualdade social, eu vou ter um impacto na população muito maior do que se eu descobrir um marcador biológico que serve pra identificar das pessoas. Existem pesquisadores dentro das neurociências que eu acho muito admiráveis, que eles usam as neurociências, na verdade, num outro sentido. Não no sentido de descobrir as causas biológicas

doenças mentais, mas no sentido de provar os efeitos biológicos das questões sociais. Então eles provam, por exemplo, que experiências de discriminação alteram o desenvolvimento cerebral de um modo significativo. O que eles estão dizendo é, olha, essas experiências de discriminação, elas têm muito impacto. Então o que a gente precisa tratar é o racismo, e não o cérebro das pessoas que passaram por isso. Então são neurocientistas que eu acho muito admiráveis e que trabalham nessa contracorrente.

de procurar a causa biológica das doenças mensais, eles mostram, na verdade, que várias questões de experiência de vida têm muito impacto no desenvolvimento do cérebro e, portanto, a gente deveria tentar melhorar essas experiências.

com o seu gosto, é ir dar uma fuçada no Instagram da Guarda Chuva, que é Guarda Chuva Pode. Eu sou Tomás Chiaverini e termino aqui o episódio 156 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho. Aqui é o Lucas Boa e eu estou falando de Belo Horizonte, Minas Gerais. A mixagem de som desse episódio é do Vitor Coroa. A trilha sonora tema é do Paulo Gama. O design das capas é da Cláudia Furnari. A locução adicional é da Priscila Pastre.

A edição de áudio é do Matheus Marcolino. O roteiro, a direção e a sonorização são do Tomás Chiaverini.