155: Sociedade tarja preta - A resposta química
Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a depressão é a maior causa de invalidez no mundo. Atualmente mais de um bilhão de pessoas sofrem de algum transtorno mental ao redor do planeta.
Uma em cada oito pessoas. Ou 12,5% da população mundial. Essa prevalência é maior entre crianças e adolescentes e varia de acordo com o país. Os brasileiros, por exemplo, parecem sofrer mais com os males da mente do que a média global.
O estudo mais recente produzido em âmbito nacional sobre o tema, sintomaticamente, não foi feito pelo Ministério da Saúde, mas pelo Ministério da Previdência Social. Afinal, pessoas com transtornos mentais costumam faltar ao trabalho. São menos produtivas.
A pesquisa mostra que em 2024, houve quase meio milhão de afastamentos por motivos relacionados à mente, sendo que ansiedade e depressão são os principais problemas. Esse número representa um aumento de quase 70% em dez anos.
Em paralelo, existe um aumento vertiginoso na prescrição de drogas psicoativas. Segundo uma pesquisa feita pelo instituto de estudos para políticas de saúde (IEPS), usando dados do Sistema Único de Saúde, a prescrição de drogas para tratar saúde mental aumentou 50% em uma década.
Diante disso, esse episódio tenta responder a uma pergunta inquietante: estamos vivendo uma epidemia de depressão, ansiedade, déficit de atenção e outros transtornos mentais; ou uma epidemia de drogas psicoativas receitadas com base em diagnósticos relapsos e apressados?
Mergulhe mais fundo
O que os psiquiatras não te contam (link para compra)
Anatomia de uma epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental (link para compra)
A epidemia de doença mental - Revista Piauí
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Entrevistados do episódio
Psiquiatra, psicoterapeuta e especialista em pesquisa clínica. Pesquisadora do Programa Transtornos do Espectro Obsessivo Compulsivo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Autora de "O que os psiquiatras não te contam" (Fósforo Editora).
Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ). Gerente de Saúde Mental e Relações Institucionais no Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).
Ficha técnica
Edição: Matheus Marcolino.
Mixagem de som: Vitor Coroa.
Trilha sonora tema: Paulo Gama.
Locução adicional: Priscila Pastre.
Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.
Direção, roteiro e apresentação: Tomás Chiaverini.
- Epidemia de transtornos mentaisPrevalência global de depressão e ansiedade · Afastamentos do trabalho por questões mentais · Aumento de 70% em afastamentos na última década · Maior prevalência em crianças e adolescentes · Dados do Ministério da Previdência Social
- Prescrição de Drogas PsicoativasAumento de 50% em uma década · Dados do Sistema Único de Saúde · Prescrições de ansiolíticos e antipsicóticos · Aumento de atendimentos psicossociais · Pesquisa do Instituto IEPS
- Vacinacao e ImunizacaoPesquisa de Irving Kirsch com ensaios clínicos não divulgados · Substâncias inertes 82% tão eficientes quanto antidepressivos · Problemas metodológicos nos ensaios clínicos · Viés de seleção de pacientes para estudos · Efeito placebo nos estudos com antidepressivos
- Teoria das Monaminas e a Hipótese da SerotoninaMonaminas como neurotransmissores específicos · Teoria da serotonina e bem-estar · Hipótese nunca comprovada cientificamente · Diferença entre correlação e causalidade no funcionamento cerebral · Papel real da serotonina no corpo
- Desenvolvimento e Lançamento da Fluoxetina (Prozac)Testes iniciais fracassados entre 1977-1985 · Efeitos adversos: psicose, alucinações, tentativas de suicídio · Aprovação pela FDA apesar de dados negativos · Marketing e campanha de conscientização DART · Investimento de 8 milhões de brochuras
- Marketing Farmacêutico e a Doença MentalPrograma DART da Eli Lilly · Papel do Instituto Nacional de Saúde Mental · Simplificação da mensagem para venda · Efeito placebo amplificado pela propaganda · Conflito de interesse entre lucro e saúde pública
- Invenção da depressão como doençaDepressão como construção social e histórica · Redefinição pela possibilidade de tratamento químico · Evolução do significado ao longo do tempo · Depressão como excesso de bílis, malhumor, possessão demoníaca · Contexto cultural e científico na definição
- Causa versus Correlação em Saúde MentalDificuldade de diagnosticar depressão objetivamente · Impossibilidade de usar exames de sangue ou ressonância · Discordância de 85% entre psiquiatras no diagnóstico · Complexidade de medir subjetividade · Diferença entre correlação e causalidade
- Limitações biológicas e fisiológicasNão são a pílula da felicidade · Efeito modesto e limitado · Não funcionam para todos os casos de depressão · Redução de angústia versus cura da depressão · Delay de semanas para efeito
- Medicamentos e TratamentosClorpromazina na década de 1950 · Acidental descoberta de efeitos antipsicóticos · Imipramina e o teste na Suíça · Rolando Kuhn e a primeira descrição de antidepressivos · Psicofarmacologia como novo campo
- Incerteza Diagnóstica na NeurologiaCrises sem causa identificável em exames · Múltiplos testes neurológicos sem conclusão · Diagnóstico baseado em sintomas, não em achados objetivos · Limite das tecnologias médicas atuais · Prescrição de medicamento sem certeza etiológica
- Caso Clínico Epilepsia JornalistaPrimeira crise convulsiva aos 36 anos · Fratura do ombro esquerdo durante convulsão · Seis meses de imobilização antes de cirurgia · Diagnóstico impreciso e vago de epilepsia · Medicamento Tegretol para controle
- Efeitos à Saúde de AlimentosSugestibilidade humana e melhora esperada · Placebo em homeopatia · Amplificação por propaganda e expectativa · Dificuldade em isolar efeito do medicamento · Métodos de controle em ensaios clínicos
- Estudos Clínicos e Publicação SeletivaTendência de publicar apenas resultados positivos · Submissão de todos os ensaios à FDA nos EUA · Acesso a informação e Freedom of Information Act · Comparação entre publicado e não publicado · Viés na literatura científica
- Relações BrasilComportamentos violentos associados ao Prozac · Ideações suicidas em adolescentes · 50 milhões de dólares em acordos · Suicídios e homicídios relacionados · Questões éticas no desenvolvimento de drogas
- Tratamentos psiquiátricosPrática no século XX em manicômios · Uso de medicações sedativas prolongadas · Bandagens frias para reduzir estímulos · Resultados desastrosos e prejudiciais · Precedente de medicamentos inadequados
- Histórias Pessoais e de ViajantesObservação clínica prolongada de psiquiatras · Limitação dos ensaios clínicos randomizados · Propaganda versus eficácia real · Diferença entre droga completamente inútil e modestamente eficaz · Validação clínica além de estudos
- Humor e ComédiaNeurônios e impulsos elétricos · Fenda sináptica e transmissão de sinais · Glutamato e GABA como neurotransmissores principais · Monaminas em sistemas circunscritos · Regulação de sono e função sexual pela serotonina
- Monsanto de Marshmallow e Mobilidade SocialEstudo original de 1967-1973 em Stanford · Replicação e análise de variáveis socioeconômicas · Influência da estabilidade financeira familiar · Determinismo social versus teste de caractere · Falsa causalidade em pesquisa comportamental
- Tratamentos Históricos PsiquiatriaLobotomia no século XX · Secção de conexões do lobo frontal · Eletrochoques e danos à memória · Atrocidades em manicômios · Evolução ética da medicina psiquiátrica
- Histórico do Manicômio em KonstanzHospital psiquiátrico de Konstanz na Suíça · Lokomotingencja e influência climática na medicina · Teste da imipramina em 1950s · Localização geográfica entre Suíça, Áustria e Alemanha · Configuração para pacientes psiquiátricos
- Produção de PodcastsModelo de apoio de ouvintes · Impacto da inflação na produção · Plataforma Katarse para captação · Reconhecimento de apoiadores · Sustentabilidade de conteúdo independente
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Esse episódio trata de temas sensíveis como depressão e suicídio. Ele é um conteúdo jornalístico e não foi pensado para ajudar pessoas em sofrimento psíquico. Se esse é o seu caso, eu sugiro que você pare de escutar agora e procure ajuda especializada. A gente vive uma epidemia de depressão, ansiedade, déficit de atenção e outros transtornos mentais? Ou a gente vive uma epidemia de drogas psicoativas receitadas com base em diagnósticos relapsos e apressados?
ter me acompanhado pelos últimos anos me voltou recentemente durante uma conversa com um amigo. Essa última crise que eu tive foi em julho de 2024. O jornalista Vitor Aguiar. Estava a trabalho no Rio de Janeiro, estava cobrindo o evento lá. Foi quarta e quinta-feira. Eu peguei uma folga na sexta para poder aproveitar, já que eu estava lá no Rio de Janeiro, sexta, sábado e domingo, aproveitar a cidade, passear, etc. O Vitor tem 36 anos, é especialista em economia,
E aí a minha companheira, Jasmine, ela chegou no Rio na sexta-feira, então pra gente poder ter ali uma mini férias no Rio.
três dias de miniférias no Rio de Janeiro. No sábado, a gente fez ali, programa super turístico, fomos ao Bondinho, aquela coisa incrível, Praia Vermelha, ah, que bonito é o Rio de Janeiro, e etc. Bebemos ali à noite e tal. E aí, no domingo de manhã, o Vitor acordou desorientado. Meio confuso, e aí eu percebi que ela tava muito, assim, angustiada, e percebi que tinham duas pessoas dentro do quarto do
Ele contou que foi voltando ao normal aos poucos e foi percebendo o que tinha acontecido. Percebi que aquelas duas pessoas eram pessoas do SAMU. Eram socorristas que foram chamadas porque a Jasmine ligou para a recepção do hotel. Alguém me ajuda e a recepção do hotel ligou para o SAMU e o SAMU estava no quarto.
E essa experiência, acordar com dois socorristas ao lado da cama, não é exatamente confortável. Mas ao mesmo tempo, quando o cérebro do Vitor começou a se recuperar do que tinha acontecido, ele entendeu tudo. Afinal, aquela não tinha sido a primeira vez. Entendi que, ok, eu tive uma convulsão. E com, digamos, os sintomas clássicos. Dor no corpo, sentindo a língua machucada, por ter mordido a língua durante a crise. Ele, inclusive, tinha avisado a namorada dele que aquilo poderia acontecer.
explicado o que ela deveria fazer caso acontecesse. Eu tinha falado pra ela que, olha, faz 10 anos que eu não tenho crises, mas caso eu venha a ter, então eu tinha passado ali algumas orientações básicas. Ah, se eu tiver uma crise, me vira de lado. Não tenta enfiar o dedo na minha boca porque eu mordi a língua, porque eu posso decepar o seu dedo se você fizer isso. Afasta objetos de mim e tenta só se certificar que eu, enquanto eu estiver debatendo,
vou me machucar, então não vou bater, digamos, na cabeceira da cama, ou não vou cair da cama e bater a cabeça em algum móvel ou coisa do tipo, e espera que a coisa vai passar, eventualmente eu vou voltar ao normal. A Jasmine fez tudo isso, e segundo ela, a crise convulsiva durou mais ou menos meia hora. Mas aí é isso, será que foi meia hora mesmo, ou será que foi uma distorção, porque no pânico você fica ali tão abalado que parece uma eternidade,
De qualquer forma, por volta das oito da manhã de um domingo, o Vitor estava no pronto-socorro de um hospital particular do Rio, pronto para ter a cachola revirada pelos médicos. Fizeram exames no próprio hospital, relatando que, olha, estou com bastante dor no corpo, estou com bastante dor no meu ombro esquerdo. A resposta dos médicos foi, olha só. Teve a convulsão, então você ficou com o corpo muito rígido. E isso tudo faz parte. Então isso é uma certa tensão muscular, me deram ali relaxantes musculares, analgésicos,
uma investigação quanto a essas dores corporais de fato. Sem muito o que fazer, o Vitor tomou os remédios que deram pra ele e aliviaram um pouco a dor, voltou pra São Paulo e tocou a vida. Mas as coisas ficaram bem piores. Meu corpo continuou doendo, dor no meu ombro esquerdo, meu ombro esquerdo, putz, tem algo estranho com o meu ombro esquerdo. Quando foi terça-feira, eu decidi que eu preciso ir ao médico ver isso. Ele deu entrada num pronto-socorro, eles fizeram o primeiro raio-x e o médico plantonista já viu que a coisa era de fato séria.
Que, olha, aconteceu algo bem grave com o seu ombro esquerdo. A hipótese dos médicos é de que durante a crise de convulsão, o ombro do Vitor saiu do lugar e voltou sozinho. Provavelmente mais de uma vez. E como eu estava tendo uma convulsão, os movimentos foram agressivos. Então houve um choque do osso do meu braço com o osso do meu ombro, com a minha clavícula.
Um achatamento da cabeça do úmero e o rompimento de diversas estruturas no meu ombro. Tendões, ligamentos, outras estruturas de cartilagem. Então o raio-x mostrava um quadro bem extenso de lesões no meu ombro esquerdo. Se o Vitor fosse um paciente ortopédico qualquer, ele teria ido para a mesa de cirurgia o mais rápido possível. Mas ele não era um paciente qualquer.
tivesse uma crise em sequência e durante essa crise meu ombro saísse do lugar de novo, as coisas ficariam muito piores. Então eu precisava esperar pelo menos seis meses de estabilidade para que se pudesse fazer a cirurgia de reconstrução do meu ombro. Então durante seis meses eu tive que conviver com um ombro fraturado e lesionado e enfim, fazendo fisioterapia meio que para tentar fazer com que o tendão cicatrizasse por conta para que a extensão
da cirurgia fosse a menor possível. O Vitor passou seis meses convivendo com dores, com o ombro imobilizado, até a cirurgia de reconstituição que aconteceu em dezembro de 2024. E quando me deu essa entrevista, ele ainda lidava com as sequelas da cirurgia. Tinha receio de mexer o ombro, sentia dor em exercícios de impacto, ainda não tinha tido coragem de se aventurar na natação. Mas, na história do Vitor, o ombro é o de menos. Porque um ombro quebrado, mesmo que em vários lugares, mesmo com essa mistura aterrorizante de ossos estilhaçados
ligamentos cumpidos, tem um diagnóstico claro, tem um procedimento pra lidar com esse diagnóstico e tem um caminho pra cura. Já os problemas que acometem um órgão que causou essa confusão toda são de outra natureza. Hoje, o Vitor tem um diagnóstico de epilepsia. E quando me contou essa história pela primeira vez na mesa do bar, ele me disse isso. Sofria de epilepsia. Mas depois, no dia em que a gente sentou pra gravar, ele me explicou que esse diagnóstico é... subjetivo. Décadas atrás, quando o irmão mais velho dele chamou os pais assustado
O Vitor estava se mexendo de um jeito estranho na cama, ele não estava na idade normal em que pessoas descobrem a epilepsia. Em geral, essa doença se manifesta ou na primeira infância, quando o cérebro está se formando, ou na velhice, por processos de demência. Mas na primeira crise, o Vitor tinha 13 anos. Além disso, as crises do Vitor sempre acontecem quando ele está dormindo, o que também é diferente das crises clássicas de epilepsia. E por fim, depois da primeira convulsão, o Vitor foi virado do avesso por neurologistas.
O Vitor simplesmente tinha convulsões. Segundo os médicos do Vitor, elas eram causadas pela falta de um elemento químico. A única coisa que eles podiam fazer era receitar um medicamento que aumentava a disponibilidade desse elemento no cérebro do Vitor. E, desde então, eu tomo um remédio, que é o Tegretol.
mas uma epilepsia leve, que na época causou nele um sentimento de indignação.
Eu só tenho convulsão porque sim.
um estudo científico que mostre que isso é verdade. Nunca a gente encontrou algo que a gente olhasse para os depressivos e falasse, nossa, quase todos têm, e olhasse para os não depressivos e falasse, quase ninguém tem. Essa é a psiquiatra, psicanalista, especialista em pesquisa clínica, Juliana Belo Diniz. Não quer dizer que não existam associações. Existem. Mas são associações assim, num grupo deu 7%, no outro grupo deu 3%. Então, são coisas que explicam muito pouco. A Juliana Belo Diniz é autora de um livro
fascinante e assustador, lançado em 2025 pela editora Fósforo, chamado O Que Os Psiquiatras Não Te Contam.
que estuda a relação da flora intestinal com depressão. Tem uns estudos que vão nesse caminho. Mas é isso, é correlação, não necessariamente causalidade. Isso, exatamente. Um dos exemplos mais fascinantes dessa dicotomia entre causalidade e correlação, que inclusive a Juliana traz no livro dela, é o famoso experimento dos marshmallows. O estudo inicial foi feito entre 1967 e 1973 na Universidade de Stanford. Eles colocavam uma criança na frente de um marshmallow ou outro doce qualquer
Eles informavam para a criança, a cobaia, que ela podia comer o doce na hora sem qualquer problema. Mas se ela conseguisse resistir por 15 minutos, ela ia ganhar aquele doce e mais um. Aí eles planilharam todos os resultados e seguiram acompanhando essas crianças ao longo dos anos.
Os idealizadores do estudo acharam que tinham simplesmente descoberto a chave do sucesso. E isso ajuda a moldar toda uma geração de americaninhos treinados para resistir às tentações da vida dos marshmallows imediatos em prol de um futuro de glórias. Porque os dados eram claros. As crianças que resistiam mais tempo ao doce de olho na recompensa futura acabaram sendo mais bem-sucedidas na vida. Mas aí os anos passaram e o pessoal foi olhar com cuidado outras variantes.
sabendo que as crianças que não conseguiam esperar para ganhar dois doces tinham maior probabilidade de ter mães com menor grau escolar e de vir de famílias com menos estabilidade financeira. Quer dizer, os níveis de sucesso ou fracasso provavelmente tinham a ver com o fato de que crianças em melhores condições socioeconômicas conseguem esperar que vão ter um saco de marshmallow na primeira gaveta quando chegarem em casa. E as crianças em condições piores têm o cérebro moldado para garantir o que tem para hoje, porque amanhã ninguém sabe.
As crianças em melhores condições socioeconômicas têm mais chances de sucesso simplesmente porque partiram de um lugar de vantagem na vida. Vão ter escolas melhores, alimentação melhor, contatos melhores e assim por diante. Tudo isso para dizer que na relação entre antidepressivos e neurotransmissores, o que a ciência conseguiu mostrar foi uma situação de correlação. E mesmo assim, só em alguns casos.
para uma depressão, não. Provavelmente não. E aí a gente tem essa coisa que é muito particular, que é o fato de que a gente não sabe como essas drogas atuam, certo? Não, a gente não sabe. A gente sabe algumas coisas que elas fazem, mas a gente não sabe exatamente daquilo que elas fazem, o que tem um efeito antidepressivo. Quer dizer, a gente não sabe se existe alguma causa biológica para a depressão, a gente não sabe como os antidepressivos funcionam, mas ao mesmo tempo, os humanos nunca tomaram
antidepressivo quanto nos últimos anos. Para completar, apesar do aumento das prescrições, o número de pessoas com depressão e outros transtornos mentais continua a aumentar. Eu sou Tomás Chiaverini e o episódio 155 de Escafandro já começou. Nele, a gente vai tentar responder a pergunta inquietante que eu fiz lá no começo. A gente vive uma epidemia de transtornos mentais ou uma epidemia de drogas para tratar transtornos mentais. Como esse assunto é dos mais complexos e fascinantes, esse episódio vai ser duplo.
E o que é melhor, a segunda parte chega aos tocadores já na semana que vem. Mas antes de adiante, você já sabe, né? Preciso te lembrar que o escafandro continua sendo orgulhosamente mantido por uma parte dos ouvintes que apoiam o podcast financeiramente. É só por conta dessas pessoas que a cada 15 dias pingam um episódio novo aí no seu tocador. E eu tenho uma boa e uma má notícia quanto a isso. A boa é que ao longo do último ano o nosso financiamento está estável. A má é que existe uma coisinha chamada inflação.
Isso quer dizer que, na prática, a gente continua entregando o mesmo trabalho, mas tem recebido um pouquinho menos por isso. Então, a hora é agora. Se você quer que o projeto cresça e se fortaleça, se tem uma sobrinha aí no seu orçamento mensal, vem se juntar aos humanos luminosos que mantêm o podcast no ar há mais de sete anos. Para fazer isso, o caminho é fácil e seguro. Só ir lá no site catarse.me barra escafandro e escolha o valor com o qual você quer ou pode apoiar.
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Atualmente, mais de um bilhão de pessoas sofrem de algum transtorno mental ao redor do planeta. Uma em cada oito pessoas, ou 12,5% da população mundial. Essa prevalência é maior entre crianças e adolescentes e varia de acordo com o país. Os brasileiros, por exemplo, parecem sofrer mais com os mares da mente do que a média global. O estudo mais recente que a gente tem por aqui, sintomaticamente, não foi produzido pelo Ministério da Saúde, mas pelo Ministério da Previdência Social.
Pessoas com transtornos mentais costumam faltar ao trabalho. São menos produtivas. Essa pesquisa mostrou que em 2024 houve quase meio milhão de afastamentos por motivos relacionados à mente, sendo que ansiedade e depressão são os principais problemas. Esse número equivale a um aumento de 70% em uma década. Em paralelo, a gente tem um aumento vertiginoso na prescrição de drogas psicoativas.
políticas de saúde, o IEPS, usando dados do Sistema Único de Saúde, a prescrição de drogas para tratar a saúde mental aumentou 50% em 10 anos. Eu conversei sobre isso com a Diana Rosa, que é gerente do IEPS, especialista em saúde mental coletiva e foi uma das responsáveis pela pesquisa. Essa pesquisa revelou para a gente um aumento tanto da prescrição de antipsicóticos, que aumentou mais de 50% entre 2013 e 2023,
e dobrou também o número de atendimentos psicossociais nos tuis. Isso leva a um indício de aumento da demanda por saúde mental. Eu digo indício porque não podemos falar aqui em causa e efeito. Pois é, de novo ela, a dicotomia entre causa e efeito e correlação, que quando se trata de saúde mental é ainda mais complexa. Se a gente tivesse, por exemplo, um aumento pela busca de remédios para baixar o colesterol, a gente poderia estimar que tem mais gente com colesterol alto,
A gente poderia acompanhar essas pessoas e medir os níveis de colesterol no sangue delas. A gente poderia medicar essas pessoas. A gente poderia ver como esses medicamentos estão agindo. A gente poderia fazer estudos para conferir a eficácia dos medicamentos. E em algum tempo, se tudo desse certo, a taxa média de colesterol alto ia ter diminuído drasticamente. Na saúde mental, nada disso é possível. Não tem como diagnosticar depressão, TDAH ou ansiedade por meio de um exame de sangue, de uma ressonância magnética ou de um eletroencefilograma.
Ou seja, não dá pra saber se todas as pessoas que buscam os CAPs ou drogas psicoativas estão realmente precisando dessa atenção, nem em que nível. Também é muito difícil acompanhar o efeito desses medicamentos, porque, de novo, é tudo bem subjetivo. Na verdade, a gente não sabe nem se as pessoas que buscam ajuda estão realmente se tratando. A única coisa que a gente consegue dizer a partir dos dados disponíveis é que tem muito mais receita sendo preenchida. Diante disso, a gente vai aceitar essa resposta a me churuca e seguir a vida?
Claro que não, caro ouvinte. Claro que não. A gente vai tomar ar e mergulhar mais fundo. E eu vou começar a aprofundar esse mergulho, te levando de volta para meados do século passado, quando a mãe de todos os transtornos mentais foi descoberta ou inventada. Eu estou falando da depressão. Antes de 1950, a gente até já usava substâncias, medicações, dentro dos manicômios para a contenção dos transtornos, que hoje a gente chama de transtornos psiquiátricos,
chamava de doença mental, então a gente tinha ali um uso, mas a gente não acreditava antes de 1950, não era um senso comum, que existiria um remédio para tratar as doenças mentais. Então você usava, por exemplo, um remédio para acalmar uma agitação, mas você não acreditava que aquilo revertesse o quadro da doença mental. Essa linha de tratamento, de acalmar os pacientes, de domar os sintomas, levou a atrocidades que ficaram famosas, como as cirurgias de lobotomia, que seccionavam a ligação do lobo frontal
restante do cérebro e tiravam dos pacientes qualquer tipo de iniciativa e os eletrochoques, que causavam danos na memória, entre outros efeitos colaterais. A Juliana me falou especificamente das hibernações forçadas.
inclusive tóxicas, então era uma péssima ideia, mas era o que se tinha na época. E algumas vezes elas eram até embaladas em bandagens frias, porque era uma ideia de que você diminuía os estímulos todos, então como se esfriar, manter a pessoa dormindo, fosse reduzir alguma coisa, uma energia extra, alguma coisa que sobrava. E aí, na década de 1950, quando a Europa se recuperava da Segunda Guerra, um cirurgião do exército francês estava pesquisando drogas que tornassem os pacientes menos reativos à dor durante cirurgias. No meio disso, chega até ele ali,
A clorpromazina, um medicamento que ainda hoje é usado e atende pelo nome comercial de amplictil. No primeiro momento, os psiquiatras começaram a usar a clorpromazina junto com outras drogas.
Principalmente naquele processo de hibernação forçada. No fim, a clorpromazina é um eficiente antipsicótico. Ela serve principalmente para tratar os sintomas da esquizofrenia.
ter a menor ideia do que ela fazer no cérebro. Então, veja, a gente não precisa saber absolutamente nada sobre o remédio para encontrar o efeito dele. Vai ali por acerto e erro e enxerga esse efeito. Isso, como a Juliana Belo Diniz me contou, provocou uma revolução no campo da psiquiatria. Na verdade, isso inaugurou um novo campo, a psicofarmacologia. A ideia de que as pessoas com doenças mentais podiam ser curadas, não apenas contidas. Então, isso muda a nossa forma de enxergar a relação entre a psiquiatria e os remédios.
a partir daí a gente começa a testar outras coisas. Nessa época, os cientistas tinham acabado de aprender a sintetizar substâncias e a combinar moléculas, permitindo a invenção de compostos que não existem na natureza. Nesse momento também a gente tem menos regulação em relação a como a gente faz esses testes, então a gente faz isso com uma velocidade muito maior até do que a gente faz hoje, que a gente tem uma regulação muito mais restrita em o que a gente pode testar em humanos, por exemplo. Um desses testes aconteceu num hospital psiquiátrico à beira do Lago Constance, que fica na Tríplice Fronteira,
entre Suíça, Áustria e Alemanha. Fica na margem que faz parte da Suíça, uma cidade que chama Mönsterlingen, que vive em volta do manicômio, uma cidade super pequenininha que até hoje vive em volta do manicômio. Que tinha a ideia de que a brisa do lago ia ajudar as pessoas a se curarem, não é isso? Isso, porque se a gente lembrar da medicina hipocrática, que é a medicina ali antes do encontro da ciência moderna com a medicina, ela tinha muito essa coisa do clima, do ar, da humidade. Um dos exemplos mais famosos desse pensamento é a palavra malária.
que vem do italiano mala area ou mau ar, porque se acreditava que a doença emanava do mau cheiro dos pântanos. Isso, apesar de a gente ter abandonado a medicina hipocrática, isso continua influenciando o pensamento médico por muito tempo. Então tinha essa ideia da brisa, da umidade, e é um lugar muito agradável. A Juliana visitou esse antigo manicômio quando estava pesquisando para o livro O Que Os Psiquiatras Não Te Contam. Uma estragem super bucólica. Eu fui de bicicleta, inclusive esbarrei em umas ovelhinhas com aquele sininho, atravessando a estrada,
E aí, começo da década de 1950, os médicos estavam em busca de uma alternativa à clorpromazina, que na época custava muito caro. E o diretor desse hospital em particular, Roland Kuhn, recebeu um lote de uma substância semelhante que precisava ser testada. Na época, o composto tinha uma identificação alfanumérica, G22355.
conhecido como hemipramina. E aí ele começa a usar hemipramina, naquela época a regulação era completamente diferente, então ele não precisa pedir autorização, ele simplesmente começa a usar. E ele usa lá num tanto de pacientes, e ele não só não vê os efeitos da clorpormazina, que tem um efeito calmante muito intenso, como alguns pacientes ficam agitados, e aí tem essa história, essa anedota, que um dos pacientes sai do hospital no meio da noite de bicicleta e vai cantar serenatas no meio da cidade.
Nessa época, os transtornos mentais não tinham a mesma classificação de hoje. Mas para Juliana Belo Diniz, esse paciente que saiu pedalando e cantando pela noite dos Alpes, sofria de transtorno bipolar. Provavelmente era um bipolar, tipo um, que entrou por um quadro psicótico, potencialmente depressivo, e melhorou, e entrou num quadro de mania, provavelmente é isso. De qualquer forma, esse acontecimento levou o Rolando Kuhn a repensar o uso da Mipramina.
viria pra outra coisa. Aí a gente não tem tantas informações, né, pra gente entender exatamente qual que foi o caminho dessa ideia, mas parece que a enfermagem tinha notado alguma coisa, o Roland Kuhn já tinha essa intuição de que poderia ter uma outra utilidade. Um dos executivos dessa indústria tem uma esposa com um quadro depressivo muito grave e resolve testar a medicação nessa esposa dele e ela melhora. Então começa a ter essas notícias de que aquilo pode funcionar de uma outra forma. E aí,
vai se criando a ideia de um antidepressivo. Aqui, eu preciso chamar a atenção para a forma exata como a Juliana está contando a história. Ela está dizendo que foi se criando a ideia de um antidepressivo. Essa é uma informação bem específica e importante. Porque, na época, essa ideia não existia. Até porque a depressão, pelo menos o transtorno que hoje a gente entende como depressão, também não existia. Muito do que a gente chama de depressão eram considerados quadros neuróticos que não tinham esse nome. E aí, volta para o Roland Kuhn.
de Munselingen e vai ser testado exatamente para tratar esses quadros de depressão endógena. E aí ele descobre, ele confirma o efeito da hemipramina como antidepressivo e ele publica um primeiro estudo em que ele avalia, ele descreve os 50 casos de pacientes tratados com a hemipramina e, mais uma vez, isso é antes da regulação, então não foi um estudo duplo cego controlado com placebo, nada disso, mas só da observação dele, da descrição dele desses primeiros casos, o Roland Kuhn
E foi assim que se descobriu a primeira substância com potencial antidepressivo. E foi assim também que a depressão, como a gente conhece hoje, ganhou uma definição. Não como uma doença ou transtorno em si, mas como uma doença ou transtorno que podia ser tratada com antidepressivos. Aspas para um trecho do livro da Juliana, que tem a rara característica de ser didático
extremamente bem escrito, ao mesmo tempo. A complicação é que a depressão é ao mesmo tempo uma doença e uma invenção. Chamá-la de doença permitiu que fossem desenvolvidos tratamentos médicos para os deprimidos. Afinal, se existem muitas pessoas que se queixam de um mal-estar, é uma boa notícia que elas possam contar com ajuda médica. Porém, a depressão é inventada à medida que seu significado e seu valor mudam de acordo com a época, o contexto social, o grau do avanço científico,
as interpretações da cultura e o olhar que as pessoas que padecem têm sobre ela. Depressão já foi excesso de bile negra, mal-olhado, possessão demoníaca e falta de umidade. Já foi e ainda é motivo para consultar o oráculo, as musas, as sacerdotisas, o padre ou o pastor, ou para mudar para uma cidade litorânea. Depressão um dia não foi e ainda hoje nem sempre é um problema médico. Depressão é, no fundo, o que desejamos que ela seja.
Mas não só isso. Há quem puxe a sardinha para o modelo médico e a chame de doença. Mas também há quem prefira chamar de saudade, quebranto ou preguiça. Em 1970, cientistas da empresa farmacêutica norte-americana Eli Lilly começaram a testar um medicamento que aumentava a disponibilidade da serotonina nas fendas sinápticas e que tinha algum potencial como antidepressivo. A fluoxetina.
Apesar disso, a empresa insistiu. Como o jornalista americano Robert Whittaker contou no livro Anatomia de uma Epidemia, em 1985 a Eli Lilly conduziu um estudo clínico de nível 3 na Alemanha. E foi outro fracasso. O órgão de licenciamento alemão concluiu
que a droga era, abre aspas, totalmente inadequada para tratar a depressão. Pacientes relataram psicose, alucinações, aumento de agitação, ansiedade e insônia. E houve várias tentativas de suicídio entre eles. E aqui, talvez você não esteja ligando o nome ao medicamento, mas a fluoxetina acabou sendo lançada com o nome comercial de Prozac.
E como isso aconteceu? Pra começar, a Eli Lilly usou o argumento básico. Colocou a culpa dos efeitos adversos na doença pré-existente. Aí, a FDA, a Anvisa dos Estados Unidos, olhou os dados e falou Olha só, isso tá meio estranho. Não tá claro que essa tal fluxetina seja mais eficiente do que uma pílula de farinha. Só que aí o tempo foi passando e a farmacêutica conseguiu emplacar estudos que mostravam uma eficiência maior. Ao mesmo tempo, artigos científicos começaram a revisitar uma tese dos anos 60
sobre os motivos da depressão. A sedutora, porém até que se prove o contrário ou falsa, teoria das monoaminas. Para entender essa teoria, a gente tem de entender o que são as monoaminas, e para entender isso, a gente tem de entender que o cérebro é uma grande rede elétrica orgânica. Tudo o que acontece no nosso corpo é comandado por essa rede, que é composta por células chamadas neurônios. Os neurônios transmitem impulsos elétricos entre si, e é isso que faz você pensar, respirar, andar, ter fome, sorrir,
E assim por diante. Mas ao contrário dos fios de eletricidade do seu chuveiro, os neurônios não estão exatamente encostados uns nos outros. Existe um espaço minúsculo chamado fenda sináptica que separa todas as células do cérebro. Essas fendas são preenchidas por neurotransmissores. Eles basicamente podem fortalecer ou enfraquecer conexões. Se uma fenda sináptica tem mais ou menos neurotransmissores, a eletricidade, e consequentemente a informação, vai passar ali com maior ou menor facilidade.
são tipos específicos de neurotransmissores. São três. É a serotonina, a dopamina e a adrenalina, a noradrenalina. Então a gente tem as monaminas. A gente sabe que a imipramina, de alguma forma, inibe a recaptura. Ou seja, ela mantém as monaminas mais tempo atuando na fenda sináptica, que é o lugar onde os neurônios conversam. Aqui a gente vai usar o exemplo da serotonina, mas tem outros tipos de antidepressivos que atuam de forma diferente, mas sempre supostamente mexendo com esse equilíbrio dos neurotransmissores.
do alardeado como verdade, inclusive eu preciso reconhecer e fazer um mea culpa em episódios antigos do escafandro, esse modelo nunca passou de uma hipótese. As próprias pessoas que criaram as teorias monoaminérgicas diziam que era um erro fazer esse tipo de salto especulativo. Deixa eu fazer uma pergunta bem de leigo, porque assim, a gente está acostumado a pensar na serotonina, por exemplo, como o neurotransmissor que está associado ao bem-estar. Isso tem a ver com esse momento
em que se fez essa associação? Ou, de fato, existe uma relação da serotonina com o bem-estar no funcionamento do nosso cérebro? Não existe relação entre você consumir serotonina ou aumentar a serotonina cerebral e ter bem-estar. Isso não existe. As monaminas existem em pouca quantidade no cérebro. Os principais neurotransmissores são glutamato e gava. Não tem nada a ver com as monaminas. Então, as monaminas existem em sistemas muito circunscritos. A serotonina existe nesse sistema.
com a regulação de sono, ela tem a ver com todo o processo de excitação sexual, tanto que um dos efeitos colaterais dos remédios que atuam em serotonina pode ter relação com isso. Ela tem alguma relação também com o apetite, ela tem alguma relação ali com sistemas de regulação geral do corpo, mas não existe um sistema de regulação de bem-estar, isso não existe. Entendi. Injetar serotonina em alguém não faz diferença nenhuma. A Juliana Belo Diniz me trouxe um argumento óbvio que está na cara de todo mundo
já tomou antidepressivo na vida. Porque assim que você começa a tomar um antidepressivo como o Prozac, ele começa a mexer na disponibilidade de serotonina no seu cérebro. Mas os efeitos da droga sobre a depressão costumam levar semanas para serem sentidos. O efeito dos remédios que atuam em serotonina de alguma forma e que é antidepressivo provavelmente não é um efeito direto do aumento da disponibilidade de serotonina. Ele provavelmente é alguma compensação secundária a esse aumento. Isso, vamos combinar,
Hoje a gente pode dizer que a depressão não é causada pela falta de serotonina? Ou a gente não sabe dizer nem isso? De todas as maneiras que a gente usou para olhar para o sistema serotonérgico até hoje, a gente não encontrou nenhuma que fosse capaz de discriminar entre depressivos e não depressivos.
E os estudiosos, os pesquisadores, os cientistas que estavam lá estudando, eles nunca disseram que depressão era causada por serotonina. Quem diz que depressão era causada por serotonina é a indústria farmacêutica que se aproveita desse contexto. E veja, eu não acho que a indústria farmacêutica é um monte de gente ruim em volta de uma mesa,
ele dominar o mundo, não acho isso, tá? Não é teoria da conspiração. Mas eu entendo que a indústria farmacêutica se aproveita do que tá sendo falado ali, descoberto, pra justificar as suas próprias explorações comerciais. E tinha um cara de mal que tinha lá falando, gente, a gente precisa explicar isso de alguma forma, entendeu? Vamos falar que a serotonina é pronto, é isso, né? Tá muito complicado isso, vamos simplificar. É, não, e tinha toneladas de boas intenções, porque era assim, ah, as pessoas resistem muito, elas falam que é remédio do louco, elas não querem tomar porque acham que faz mal. Se a gente tiver uma boa explicação, se a gente fala, olha,
E na época do lançamento do Prozac, tinha vários antidepressivos que atuavam nas monaminas. Mas o Prozac tinha sido desenhado especificamente para atuar no sistema serotonérgico. Então era muito fácil de ele ser vendido como o químico que resolve a doença. Mas faltava contar para geral. Entra o Instituto Nacional de Saúde Mental americano.
Cinco meses depois do Prozac chegar às drogarias, o órgão lançou o Programa de Conscientização, Reconhecimento e Tratamento da Depressão. DART, na sigla em inglês. A Eli Lilly, criadora do Prozac, investiu pesado no DART. Ajudou a pagar 8 milhões de broxuras que falavam sobre os perigos da depressão e sobre os méritos das novas drogas que agiam na disponibilidade de serotonina. Em dezembro de 1989, a manchete da revista americana New York era
Tristeza. Uma nova droga milagrosa para a depressão. Em 1992, as vendas de Prozac bateram a marca de 1 bilhão de dólares. Em 1994, numa entrevista para a revista Newsweek, o neuropsiquiatra Richard Hestack festejou a nova droga 100 mil de palavras. Pela primeira vez na história humana, estaremos em condições de projetar os nossos cérebros. O número de pessoas com depressão em tratamento triplicou nos 10 anos seguintes.
primeira década desse século, 10% dos americanos com mais de 6 anos de idade estavam tomando antidepressivos. Essa história que eu te contei, ainda que não seja exatamente alardeada pelos psiquiatras, não é secreta. Boa parte dos cambalachos da Eli Lilly vieram à tona em processos que a empresa sofreu nos Estados Unidos. Estima-se que ela tenha pagado 50 milhões de dólares em acordos legais por processos que envolviam suicídio, homicídio e comportamentos violentos em geral. Quando eu li sobre essa história, eu já tinha feito entrevista com a
então eu mandei uma mensagem para ela perguntando sobre esse buzíris todo. Ela me disse que sim, a empresa provavelmente agiu de forma antiética, mas que ao mesmo tempo, muito do que o Robert Whittaker narra no livro dele faz parte das etapas normais para aprovação de uma droga. É comum, por exemplo, que no começo dos estudos, quando os pesquisadores ainda estão estabelecendo dosagens e procedimentos, os efeitos colaterais sejam mais intensos. E a empresa dificilmente avançaria com os estudos se o medicamento não se mostrasse promissor
Ainda mais quando se trata de uma droga que teve um sucesso comercial tão grande quanto o Prozac. Também disse que o Prozac tem se mostrado mais seguro do que outros antidepressivos, ainda que tragam um risco maior de provocar ideações suicidas em crianças e adolescentes. Ela me disse também que o Robert Whittaker é desses jornalistas que compram uma causa.
de Elay Lili. Costuma olhar mais para os dados que se encaixam na narrativa que é conveniente. De qualquer forma, o Prozac continuou nas prateleiras e a eficácia dele e de outros antidepressivos continuou sendo colocada à prova. Em 2008, um psicólogo e professor norte-americano chamado Irving Kirsch teve uma ideia genial que tem tudo a ver com a história do Prozac. Ele resolveu ir atrás justamente dos ensaios clínicos que não tinham sido divulgados pelas empresas farmacêuticas. Isso que a gente chama de pesquisa clínica,
eu vou chamar aqui de ensaio clínico, isso é um conjunto de regras, isso é um método, é uma tecnologia, uma coisa que a gente inventou para resolver um problema. A gente precisava saber o que a gente podia comercializar ou não, alegando um efeito ou outro. Quando a gente faz um ensaio clínico, não está em questão como que o remédio age, nada disso interessa, interessa só. Se eu pegar uma população e der esse remédio, ele vai fazer um efeito que eu posso dizer que ele faz e vender ele para isso? É a única coisa que o ensaio clínico responde. Mas aí tem um detalhezinho interessante,
esse processo todo. É que o ser humano é altamente sugestionável. E os pesquisadores logo perceberam que em muitos casos as pessoas melhoravam mesmo quando o remédio mais tarde se mostrava ineficiente. Ou seja, o simples fato de a gente achar que está sendo medicado faz a gente melhorar. É por isso que linhas de tratamento como a homeopatia, em que os médicos muitas vezes receitam remédios que não contêm nada além de açúcar, acabam funcionando em certos casos. É o que os pesquisadores chamam de efeito placebo. E aí a gente criou esse modelo de
esse método de comparação entre o efeito do remédio e o efeito de uma pílula placebo, que imita o remédio em tudo que for possível, para tentar isolar o efeito do remédio. Nos ensaios clínicos sérios, uma parte dos pacientes recebe o remédio, outra recebe o placebo. Hoje, para que qualquer droga seja aprovada, ela precisa passar nesse teste. Precisa se mostrar mais eficiente do que o placebo. Dito isso, entra em cena o psicólogo e pesquisador Irving Kirsch. Ele faz um levantamento que é assim,
Quando a gente faz ensaio clínico, a gente não necessariamente publica os resultados. Então, a gente já sabia que a indústria farmacêutica tinha uma tendência de publicar só os resultados positivos e não publicar os resultados duvidosos ou negativos. Só que nos Estados Unidos, todos os ensaios clínicos, mesmo aqueles destinados a nunca velos do sol, tinham de ser submetidos à FDA. Aí o Kirch fez um pedido via lei de acesso à informação e conseguiu colocar as mãos em um bom punhado de ensaios clínicos que as farmacêuticas não queriam que o público visse.
impactantes. Ele avaliou ensaios duplo cego com os seis antidepressivos mais utilizados, aprovados entre 1987 e 1999. Prozac, Paxil, Zoloft, Celexa, Serzone e Efexor. Eram ao todo 42 testes e a maioria deles falhou em mostrar um efeito significativo sobre os placebos. Na média, as substâncias inertes se mostraram 82% tão eficientes quanto os antidepressivos.
tipo de estudo, que usava placebos pensados para imitar efeitos colaterais dos antidepressivos como se cura na boca. Nesses ensaios, que usaram atropina como placebo, os resultados entre os dois grupos, o que tomou antidepressivos e o que tomou as drogas que simulam efeitos colaterais, foram os mesmos. Diante disso, resta perguntar, será que os antidepressivos são placebos? Será que tem centenas de milhões de seres humanos comprando pílulas da felicidade e recebendo remédio para deixar a boca seca? Para Juliana Belo Diniz,
que não custa lembrar é psiquiatra e psicanalista, então entende bem os dois lados dessa discussão, também não é pra tanto. A indústria farmacêutica consegue controlar muita coisa, mas tem muita coisa que na vivência clínica é que a gente tende a não dar valor pra isso, porque aí fica toda aquela discussão que é caso anedótico, é difícil mesmo dar valor pra experiência clínica, mas assim, o que eu vejo com 20 anos de experiência aqui, é que às vezes a indústria tenta vender uma história que não cola. Então, por exemplo, a indústria às vezes vende um antidepressivo como se ele fosse muito melhor que todos os outros. Aí você vai falar com os colegas,
Eu falo assim, mas você tem essa experiência? Eu falo, não, não é igual, é a mesma coisa. Então, a gente tem essa experiência. Então, é muito difícil uma droga completamente inútil sobreviver num esquema desse. Ela pode viver alguns anos em cima de propaganda. Aqui é importante a gente ter em mente que a propaganda pode, inclusive, potencializar o efeito placebo. A partir do momento que as pessoas têm notícia de que existem remédios que tratam depressão, o efeito placebo fica amplificado.
melhorar. É mais ou menos o mesmo princípio da droga que simula o efeito colateral. Ainda assim, pra Juliana Belo Diniz... Pra se sustentar há tantos anos, tem que ter algum efeito. Senão, a coisa não se sustenta. Não dá pra viver só de propaganda. Tá. E como a gente explica os resultados tão semelhantes entre antidepressivos e placebos? Pra Juliana, a resposta tem a ver com as características dessa doença inventada que a gente se acostumou a chamar de depressão. Que é um conjunto de fatores variáveis e complexos de se medir. É diferente de uma dor de cabeça ou de um
processo inflamatório, onde a resposta sim ou não é possível. Para avaliar se um paciente está ou não deprimido, normalmente são usadas escalas de gravidade em que o avaliador dá notas para vários aspectos relacionados a como o paciente tem se sentido. Eu tenho plena experiência com escala de gravidade e sei o quão limitadas elas são. Mesmo com os testes padronizados, como a Juliana mostra no livro dela, quando se fala em diagnóstico de depressão, os psiquiatras discordam em 85% dos casos.
Isso, claro, sem falar nos interesses que estão envolvidos na aprovação de drogas que vão render bilhões. O cara que faz avaliação para saber se o paciente está deprimido ou não, ele já tem uma tendência de dar uma latinha ali a mais para o cara conseguir entrar no ensaio clínico, porque ele é remunerado pelo número de pacientes que ele coloca no ensaio clínico. E se isso acontece, ou seja, se pessoas sem depressão acabam entrando no ensaio, a eficácia média da droga em questão tende a aumentar. Não porque as pessoas estão melhorando depois de tomar antidepressivo ou placebo,
porque elas não estavam deprimidas antes. Por tudo isso, para Juliana Barodiniz, os estudos do Kirch têm de ser vistos com alguma cautela.
toma antidepressivo, melhora a depressão. Não é assim. Eles são medicações que têm a sutilidade, mas eles são muito limitados e eles não vão tratar todas as depressões. Isso é verdade. Mas dizer que eles não servem pra nada, ou que eles são puro efeito placebo potencializado por efeito colateral, já não é. Também não concordo. De qualquer forma, uma coisa a gente pode afirmar sem medo de errar. Os antidepressivos não são a pílula da felicidade e não vão erradicar a tristeza do mundo. O que eles fazem? Eles diminuem um pouco o desconforto,
Então eles contêm um pouco de angústia, que é uma sensação muito ruim, que é muito avassaladora para quem está deprimido. Então eles diminuem essa sensação. Eles trazem algum conforto, eles trazem um pouco de distanciamento emocional. Nesse momento, se tudo ocorreu como planejado, eu imagino que você esteja com mais dúvidas do que certezas. A boa notícia é que eu te garanto que a gente vai responder pelo menos algumas dessas dúvidas no próximo episódio, que sai já na semana que vem. Nele, você vai ouvir o restante da história do Vitor.
interesse nos bastidores da Bíblia dos Transtornos Mentais e vai me acompanhar numa consulta psiquiátrica. Fala, doutor. Alô? Tudo bom? Tá me ouvindo? Agora sim. Legal. Boa tarde. Tudo bem, doutor? Bem, é Tomás quem está falando. É Tomás, isso. Pois não, Tomás. Antes de terminar, eu tenho uma boa notícia. É que um dos nossos parceiros de Rádio Guarda-Chuva, o Afluente, podcast narrativo em que o jornalista Bruno Tadeu conta a história da região
está de volta. Dessa vez, o Bruno, que vive em Manaus, conta sobre como o povo Mura está sendo impactado por um projeto de mineração de potássio no município de Autazes. Então procura aí no seu aplicativo de áudio pelo episódio Trincheiras Mura do podcast Afluente e escuta que você não vai se arrepender. Eu sou Tomás Kiaverini e termina aqui o episódio 155 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho que dessa vez vai chegar logo
Daqui a uma semana.