157: Vinte dentes naturais
Em agosto de 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, submarinos nazistas afundaram navios na costa brasileira. O Brasil, que ainda mantinha relações com os dois lados do conflito, se viu obrigado a entrar numa guerra para a qual não tinha qualquer preparação.
Foi formada então a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que viajou até a Itália para auxiliar as forças aliadas contra o Eixo. Quase 25 mil pracinhas passaram nove meses combatendo no maior conflito armado da humanidade, ajudando a libertar cidades italianas do domínio nazista.
Quando retornaram, porém, esses homens não foram considerados heróis por muito tempo. E trouxeram na bagagem romances com jovens italianas, traumas vividos na guerra, e um sentimento geral de admiração por um país aliado: os Estados Unidos da América.
Num momento em que o governo de Donald Trump trouxe a guerra para o nosso quintal, o episódio 157 de Escafandro mergulha na missão da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Conta como o Brasil atuou na Itália, como essa missão ajudou a moldar nossas Forças Armadas de hoje e reflete sobre o que ela nos ensina a respeito de possíveis futuros conflitos.
Mergulhe mais fundo
Barbudos, sujos e fatigados: Soldados Brasileiros na Segunda Guerra Mundial (link para compra)
Histórias de um pracinha da Segunda Guerra Mundial (link para compra)
Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial (link para compra)
A dupla face da guerra: a FEB pelo olhar de um prisioneiro (link para compra)
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Entrevistados do episódio
Pedagoga e diretora da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil em Valença.
Mario Pereira
Guia turístico e palestrante. Ex-administrador do Monumento Votivo Militar Brasileiro de Pistoia.
Doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Autor de "Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial" (Zahar, 2005).
Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Autora de "A dupla face da guerra: a FEB pelo olhar de um prisioneiro" (Editora Intermeios, 2023).
Antropólogo, professor da Universidade Federal de São Carlos. Autor de livros como “O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida" (Alameda Casa Editorial, 2020), e "Dois ensaios sobre magia política" (Editora Hucitec, 2025).
Ficha técnica
Produção, reportagem e edição: Matheus Marcolino.
Mixagem de som: Vitor Coroa.
Trilha sonora tema: Paulo Gama
Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari
Direção, roteiro e sonorização: Tomás Chiaverini
Tomás Chiaverini
Priscila Pastri
Cristina Feres
Isalete Leal
Mário Pereira
Piero Leirner
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Desde criança eu sabia que meu pai tinha ido para a guerra. Não tinha noção do que era. Essa é a pedagoga e uma das diretoras da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil em Valença, Isalete Leal. Tanto é que a gente brincava com o material todo que eu tenho aqui guardado do meu pai. No livro eu conto que a gente fazia cabana, fazia... No livro que narrou as aventuras do pai, histórias de um pracinha da Segunda Guerra Mundial,
A Isalete dá detalhes desse material que virou brinquedo para ela. Tem cartuchos de munição de metralhadora .50, latas de desinfetante, purificador de água e papel higiênico e uma machadinha. Subia nas poltronas, no sofá, falando que eram as montanhas, essas coisas todas. A Isalete conta para o nosso produtor, Matheus Marcolino, que ela cresceu com essa ideia de que o pai dela era um herói de guerra.
Mas, apesar de ter guardado tal material, ele nunca falava no assunto. Aliás, ele não era exatamente um sujeito falador. Sentava na hora das refeições e ninguém falava nada. Ficava quieto. Aquela época era assim.
E assim a vida seguiu, o tempo passou, a Isalete se casou, teve filhos e o pai dela continuou sem falar muito. Ou, no caso da guerra, sem falar nada. Foi assim até 2007, quando a mãe dela teve um problema sério de saúde.
E ela ficou de cama, ela teve uma perda de memória mesmo. E daí meu pai pediu que nós ficássemos com eles pelo menos à noite, para ele não ficar sozinho com a minha mãe. Porque na época eu já estava aposentada. Eles moravam em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Isso em 2008. Eu ficava com a minha mãe, depois que ela dormia eu ia conversar com ele, porque ele ficou muito depressivo com a doença dela.
Um belo dia, do nada, a gente estava numa varanda que saía da cozinha para o quintal, ele olhou para um infinito, a visão dele não estava vendo nada, e ele falou para mim assim, eu vi o Mussolini pendurado. Eu olhei para ele e falei, o quê, pai? O pai dela repetiu. Eu vi o Mussolini pendurado, ele e a esposa dele, mais os companheiros.
Você provavelmente ouviu essa história, né? Benito Mussolini, o ditador fascista que fez a Itália se aliar ao Hitler na Segunda Guerra, terminou morto por uma milícia antifascista pendurada de ponta cabeça ao lado da esposa. Uma mensagem para as futuras gerações de que o fascismo não compensa. Uma mensagem que parece esquecida, desbotada pela enfleirada décadas.
O fascismo definitivamente voltou à moda com o presidente da maior potência global apontando imigrantes como inimigo interno, falando que o sangue da nação está sendo envenenado, criando forças militares que operam livremente sem responder as leis vigentes do país.
e flertando com o autoritarismo sem qualquer pudor. E só isso, o fascismo mostrando os dentes, já seria suficiente para o mundo se preparar para a guerra. Mas o Trump foi além.
No dia 3 de janeiro de 2026, usando 150 aeronaves, pela primeira vez na história, os Estados Unidos invadiram oficialmente um país da América do Sul. O objetivo? Sequestrar o ditador Nicolá Maduro e tomar posse do petróleo venezuelano.
Quando um repórter perguntou para o Donald Trump o que o governo ia fazer com os petroleiros sequestrados da Venezuela, ele respondeu, vamos ficar com eles, incluindo os navios. Menos de dois meses depois, o Trump voltou a usar o poderio bélico americano para tentar controlar os fluxos globais de petróleo. Dessa vez, numa desastrada campanha contra o Irã, que no momento em que eu estou escrevendo esse roteiro, não tem uma saída clara no horizonte.
Além disso, vale lembrar que o Trump ameaçou invadir a Groenlândia, ameaçou tomar Cuba, ameaçou até a nação que abriga os vizinhos mais camaradas que um país pode ter, o Canadá. Ou seja, se tem uma coisa da qual a extrema-direita pode se gabar, é de ter feito a guerra voltar à moda. Diante disso, a gente resolveu mergulhar na última vez que o Brasil se envolveu numa guerra como combatente para tentar entender o que essa experiência pode ensinar sobre uma participação em alguma guerra futura.
E aí
Eu sou Tomás Chiaverini e o episódio 157 de Escafandro já começou. Nele, a gente vai falar de como um grupo de brasileiros patriotas capturou toda uma brigada nazista. A gente vai falar sobre a proximidade dos nossos pracinhas com os americanos. A gente vai contar histórias de amor e heroísmo. Enfim, a gente vai falar sobre a participação dos militares brasileiros na Segunda Guerra Mundial e sobre o que ela diz a respeito do estado atual das nossas forças armadas.
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Quando a Segunda Guerra Mundial estourou na Europa, o Brasil, pelo menos das fronteiras para fora, era um país pacífico. A Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1864 e 1870, tinha sido a última do qual o país tinha participado como combatente.
E os militares brasileiros estavam muito preocupados, porque nós não tínhamos, os armamentos nossos eram importados. Esse é o historiador e professor da Universidade Estadual de Londrina, Francisco César Ferraz. Ele é autor, entre outros, do livro Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial, publicado pela editora Zahar.
Imagina você estar lutando contra um país e a munição acabar e não ter como prover. Quer dizer, era melhor não procurar Sarna e por algum tempo, apesar de viver sob uma ditadura comandada por Getúlio Vargas que tinha alguma afinidade com a extrema direita europeia, o Brasil achou por bem ficar na miúda. Só que não foi o Brasil que procurou a guerra. A guerra é que chega ao Brasil.
Porque enquanto o conflito estava ali, sem um vencedor claro, o Brasil fez um jogo duplo, mantendo o diálogo tanto com a Alemanha nazista quanto com os Estados Unidos, que vale lembrar, também demoraram dois anos para entrar na guerra. Mas, segundo o historiador Francisco Ferraz, esse era um jogo que só adiava o inevitável.
Os Estados Unidos não iam permitir que um país das Américas, com a importância, inclusive geográfica, que era do Brasil, ficasse sob domínio dos países do eixo. Os norte-americanos, inclusive, pensaram bastante nessa possibilidade.
Entre 1939 e 1942, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos elaborou vários planos de possível invasão do Brasil por tropas americanas caso o Brasil aderisse ao eixo.
Você sabe, né? Era a frente formada pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão imperial. Agora, é importante ressaltar que no fim de 1941, o poder bélico dos Estados Unidos não era lá grande coisa. O exército menor que o da Romênia na época, com número de homens. Mas aí...
No dia 7 de dezembro de 1941, os japoneses atacaram uma base aérea americana em Honolulu, no Havaí. No dia seguinte, o Congresso americano declarou guerra ao Japão. No dia 11, a Alemanha e a Itália declararam guerra aos Estados Unidos.
E de certa forma, esses eventos foram a pedra fundamental do Kraken militar que a gente está vendo hoje em ação. E foram também um empurrão definitivo para o Brasil, mesmo sem querer entrar na guerra. O Nordeste brasileiro é o ponto mais curto.
em linha reta, do extremo ocidente africano. Esse trajeto entre Natal, Rio Grande do Norte, Dakar, Senegal, esse trajeto era feito por avião, na época, em aproximadamente nove horas. Isso era bem rápido para os padrões de 1940.
com essa cintura fina do Atlântico Sul, passavam os suprimentos dos aliados dos países das Américas e também da África. E quando o canal do Suez tinha problemas e o Mediterrâneo também de várias nações do hemisfério sul, mais ao Oriente, esses suprimentos acabavam indo e vindo.
por essa cintura fina. Então era preciso proteger esse lugar de ataques de submarinos, alemães principalmente e italianos. Por causa da simpatia do Getúlio pelo governo alemão e daquela ideia de deixar um pé em cada canoa, os brasileiros ainda tentaram manter a relação com os dois lados. Mas em pouco tempo, isso se tornou inviável e os Estados Unidos começaram a usar o território brasileiro.
meio que discretamente, já começaram a desembarcar soldados americanos e embarque-desembarque de aviões, principalmente dos Estados Unidos, para os teatros de operação no Mediterrâneo, na Europa.
Segundo Francisco Ferraz, teve um momento em que a base de Natal foi a mais movimentada da guerra. Com cerca de 800 pousos e decolagens ao dia. Então realmente era um ponto, acho que foi chamado inclusive de apelidado de trampolim da vitória.
Em agosto de 1942, veio o estopim. Submarinos alemães afundaram navios comerciais do Brasil e Getúlio Vargas declarou que o Brasil tinha entrado num, abre aspas, estado de beligerância com a Alemanha e a Itália.
O Brasil declara ganhar. Mas? O Brasil era muito pobre, um pouco menos na metade da sua população analfabeta. Quer dizer? Com que roupa eu vou para a festa que você me convidou? Como já diria o samba do Noel Rosa. Com o que a gente vai lutar? A gente não tem arma, a gente não tem nada. As lideranças militares americanas e britânicas não estavam interessadas em mais um aliado.
Mais alguém que a gente tem que armar, a gente tem que treinar, a gente tem que levar, fornecer todo apoio logístico. Eles já tinham gente demais.
Por outro lado, principalmente para os Estados Unidos, seria vantajoso o Brasil fornecer, nem que fosse um grupo relativamente pequeno, dadas as dimensões de milhões de soldados da guerra, mas pelo menos para garantir realmente essa adesão política e ter um aceno político do Brasil como um apoio à política hemisférica americana durante e pós Segunda Guerra.
Ao mesmo tempo, dentro do exército, também existia uma certa dubiedade quanto à ideia de se meter ou não no maior conflito armado da história da humanidade. Uma parte do exército defendia que deveria ir para a guerra, enquanto outra parte, particularmente algumas de suas lideranças, como o general Dutra, que depois seria presidente do Brasil.
e o general Góes Monteiro, chefe de Estado-Maior, eles diziam que nós não temos a mínima condição de defender o nosso território e ao mesmo tempo mandar um contingente para fora do Brasil. Mas no fim, como você sabe...
venceu o grupo que realmente queria que houvesse esse envolvimento maior na guerra. Em novembro de 1943, mais de um ano depois da declaração de guerra, o Brasil oficializou a formação da Força Expedicionária Brasileira, a FEB.
O voluntariado foi aberto, na época o Brasil tinha 40 milhões de população, 2 milhões e meio nessa faixa etária de rapazes, e, vergonhosamente, apenas 2.500, 2.700 é que se voluntariaram. E aqui tinha um complicador a mais, porque muitos desses voluntários não tinham condições reais de participar da guerra. Metade da nossa população não sabia ler, lembra?
Era realmente uma guerra que não era só atirar e correr nos tiros, era uma guerra técnica, uma guerra que necessitava um conjunto de conhecimentos que demandavam, no mínimo, a alfabetização e também demandavam uma saúde. E aí o Brasil adotou os padrões americanos. Quais eram os padrões americanos? Pelo menos 20 dentes naturais.
20 dentes naturais.
E assim, devidamente munido de pelo menos 20 dentes naturais, depois de passar por um treinamento no rio, no dia 22 de setembro de 1944, o Francisco Conceição Leal, pai da Isalete, embarcou num navio rumo à Itália, ao lado de outros 5 mil homens que formavam o terceiro escalão da Força Expedicionária Brasileira, a FEB. Em solo italiano, já esperavam outros 5 mil soldados que tinham chegado na Europa em 16 de julho.
E segundo a ex-valete conta, ele ia ter de embarcar sem se despedir da família. Mas aí, algo um tanto cinematográfico aconteceu. Porque o avô dela, pai do Francisco, trabalhava como fiscal de linha ferroviária. Quando ele ficou sabendo que poderia ter o embarque, ele foi para o porto com o trem, porque o trem passava lá, né?
Ele chegou no porto e ele viu que meu pai estava embarcando, estava na fila para embarcar. E o meu pai avistou ele também, porque ele ficou numa posição que dava para o meu pai ver. E meu pai pediu permissão para o superior dele para sair da fila e despedir do meu avô. E eles negaram para ele. Disse não, ninguém vai sair da fila.
Então ele embarcou e lá de cima o meu avô se aproximou e falou com ele que tinha uma carta para entregar para ele, que era da minha mãe, que era a namorada dele. Ele gritou para o meu avô deixar com um soldado e que o soldado entregaria para ele. Segundo a Isalete, uma das piores partes de toda a campanha da FEB foi a viagem de ida.
porque não podia acender luz à noite, o compartimento onde eles ficavam era muito escuro, era quente.
E também o enjoo que eles sentiram na viagem. Meu pai sentiu mais enjoo quando chegou na Itália e teve que entrar nas barcaças para ir para a frente. Então, aí ele disse que passou muito mal. E um companheiro dele fez um misturado de um pó de limão e começou a dar para todo mundo que estava passando mal.
Aí, duas semanas depois, os 5 mil pracinhas desembarcaram em Nápoles. E a realidade da guerra foi ficando clara. Essa chegada deles no porto foi um impacto muito grande, porque eles viram muita destruição no porto, prédios destruídos e italiano querendo chegar perto do navio para pedir comida.
Aí ele foi para o acampamento e lá no acampamento eles ficaram reunidos ali até ir para a linha de frente, né? Porque ele ainda foi pela infantaria para a linha de frente.
Estou com 66 anos e faz uns 60 anos, no mínimo, que estou envolvido e mergulhado nessa história. Esse é o guia turístico Mário Pereira. Quando eu era pequeno, eu me lembro muito bem que a gente percorria muitas vezes a estadual 64. O Mário é filho de pai brasileiro e mãe italiana.
Hoje, além de guiar turistas que querem saber mais sobre a participação do Brasil na guerra, ele faz palestras em escolas italianas para falar sobre a FEB. E a gente ia a Bolonha frequentemente, ia a Bolonha passando pela 64. Essa rodovia liga a cidade de Pistoia, onde ele morava, à Emília-România passando pela Bolonha.
E à medida que a gente ia percorrendo essa estrada, o pai contava que aconteceu isso, ali me aconteceu aquilo, aqui estourou uma bomba, ali. Eu era menino, me lembro, cinco, seis aninhos, ia ter uns 15 anos, e cada vez era mais ou menos o mesmo conto.
E aquilo, assim, parecia um conto fantástico, parecia um conto que nem sempre batia com a realidade. Essa sensação de que a vivência do pai na guerra pertencia a uma realidade fantástica tem a ver com a forma como a participação do Brasil no conflito era ensinada na escola que o Mário frequentava. As minhas professoras...
sempre diziam que o Brasil fez nada, fez quase nada, a participação foi uma coisa benigera. Isso contrastava totalmente com o que meu pai me contava e me dizia no dia a dia.
Então, muitas vezes eu voltava para casa nessa fase da vida e chegava, não digo obrigada, mas a discutir com meu pai muito animadamente, porque ele contava essas histórias fantásticas e as professoras falavam que o Brasil tinha feito praticamente nada. Isso só mudou muito tempo depois, no ano 2000, quando o Mário visitou o Brasil pela primeira vez, junto com o pai, e eles foram para o encontro de veteranos em Salvador.
E ali aconteceu uma coisa interessante, porque eles contavam as mesmas coisas que meu pai contava. Aqueles contos que eu vinha ouvindo desde criança, os contos batiam com o que meu pai dizia, o bombardeio em pureta termo, as alajadas de metralhadoras dos aviões, etc. Cada vez mais os contos do meu pai pegavam uma forma.
assim, coerente e quase física, assim. Eu quase conseguia ver o que meu pai tinha me contado durante todos aqueles anos. Pois é, assim a gente chega a um dos pontos centrais do nosso episódio. Porque além daquela participação anual em uma matéria de dois minutos no Fantástico comemorando o aniversário da tomada do Monte Castelo, os pracinhas brasileiros foram meio que ostracizados pela sociedade.
E muita gente vê esse descaso como uma injustiça histórica. Mas, conforme a gente foi mergulhando nessa história, foi ficando claro que a coisa era um pouco mais complexa e interessante. Porque mesmo na época, mesmo tendo mais de dois anos para ser organizada a campanha da FEB, tal qual uma parada militar dos anos Bolsonaro com tanques fumegando óleo queimado, aconteceu de forma um tanto mambembe.
Tanto que quando o governo declarou guerra ao eixo, o senso comum era de que os brasileiros nunca seriam de fato enviados para a Itália. É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra, era um ditado comum naquela época. Um ditado que mais tarde seria incorporado pela FEB como uma busca de justiça histórica, talvez.
No livro Barbudos, Sujos e Fatigados, o historiador César Maximiano conta que, comprensivelmente, o moral dos pracinhas era dos piores logo depois do desembarque na Itália. Aí, o então major americano Vernon Walters pensou que um distintivo que identificasse os brasileiros talvez levantasse os ânimos. Os pracinhas não demoraram muito para escolher o mascote. Uma cobra fumando.
Ainda segundo César Maximiano, o tal Major pediu simplesmente para os estúdios Disney cuidarem do assunto. E algumas semanas depois, os soldados brasileiros se viram diante de um primeiro rascunho da cobra fumante, distintivo definitivo da FEB.
A frente de batalha designada aos militares brasileiros foi das piores. Na época, generais do governo fascista tinham derrubado Mussolini e negociado uma rendição da Itália que meio que mudou de lado no meio da confusão. Mas os alemães anteciparam esse movimento e tomaram boa parte do território italiano.
E aí nós temos uma Itália dividida, dois terços, vamos dizer, com os alemães e o terço sul com os aliados. Então, a partir daí, a campanha da Itália, dentro da Itália, já não é mais contra os italianos, é contra as tropas alemãs que estão ocupando a Itália.
O Francisco Ferraz contou que isso mudou a lógica dos combates. Os alemães agiam como uma tropa de ocupação em relação aos italianos. Ao mesmo tempo, um grande número de milícias que já tinham se organizado para enfrentar os fascistas, os famosos partidiani, se voltaram contra a ocupação nazista. Os partidiani sabotavam um comboio de alemães. O comandante alemão falava, para cada soldado alemão morto a gente mata 100 da comunidade.
E aí era indistinto, né? Mulheres, crianças, velhos, jovens, todo mundo ali era colocado na praça e fuzilado sumariamente. Então havia um ressentimento dos italianos, de parte da população italiana, em relação a esses ocupantes. Era contra esses ocupantes, literalmente encastelados numa região montanhosa da Itália, que os brasileiros tinham ido lutar.
E para piorar... O pior inverno na Itália do século entre 44 e 45 foi esse que os brasileiros pegaram. Brasileiros que a maior parte sequer conheciam o mar. O que dirá combater no frio intenso, né? E assim, a gente não vai se aprofundar muito nisso porque é repisar o óbvio. Mas as batalhas da Segunda Guerra eram brutais. De tudo que a gente ouviu, uma das cenas que mais evidenciou isso foi contada pelo guia turístico ítalo-brasileiro Mário Pereira.
Meu pai passou um bombardeio em Coreta Terme, enquanto ele voava, ele viu um soldado dele, da unidade dele, que caminhava cabisbaixo. E quando depois acabou tudo, aquele instante, meu pai se deu conta que...
o cara estava com a cabeça baixa porque tinha a cara praticamente destacada. Sua pele segurava a cabeça desse soldado com o restante do corpo e provavelmente ele tinha continuado a andar por coisas dos nervos.
De qualquer forma, essa situação extrema e o convívio com outros militares nessa situação, se não foi o ponto de partida, foi certamente um facilitador de uma relação amistosa, de admiração, que foi bem além daquele conflito. E que de formas às vezes bastante prejudiciais ao Brasil, se estende até hoje.
A relação com os militares americanos. Eram eles que forneciam armamentos, alimentação e roupas adequadas. E que coordenavam a torre de papel dos aliados na Itália.
No livro Barbudo, Sujos e Fatigados, o César Maximiano conta que muitos pracinhas não sabiam cantar a canção do Expedicionário, uma espécie de hino da Feb, mas todos sabiam cantar Deus Salve a América, que inclusive, ainda segundo o historiador, ainda é cantada em muitos encontros de veteranos brasileiros.
Muitos praças tratam os Estados Unidos como uma segunda pátria. E isso aconteceu por uma série de fatores. Alguns dos 600 feridos da FEB que foram atendidos nos Estados Unidos se sentiram valorizados pelo tratamento com ferida veteranos de guerra no país, que era muito melhor do que recebiam os que desembarcavam por aqui. A gente vai falar mais dessa recepção daqui a pouco.
Além disso, entre os militares que conviveram com os americanos durante os nove meses de missão na Itália, há relatos de que o conceito de democracia, vejam só, acabou fisgando os pracinhas. Vale lembrar que esses eram militares que serviam a um governo ditatorial.
Mas enfim, voltando a Babel dos Aliados. Era uma espécie de mini organização das Nações Unidas, que tinha brasileiro, britânico, americano, francês, neozelandês, polonês, indiano.
marroquino, assim, todos eles aliados. Era um problema para o 5º Exército. Tem uma entrevista que o Mark Clark, o general comandante do 5º Exército americano, um dos dois exércitos que administravam todas essas forças, ele dizia que era um pesadelo logístico.
Porque você não pode fazer nada às cinco da tarde, porque os britânicos vão tomar o chá. Fornecimento de carne de porco não pode, porque os islâmicos não comem porco. O brasileiro exige arroz com feijão. Desde a comida até o tato, a dificuldade de lidar as línguas.
Nesse sentido, da diversidade, a FEB trouxe um ingrediente a mais. Porque diferentemente do que acontecia com o exército americano, por exemplo, nas forças brasileiras, a separação por cor da pele, se existia, era muito mais discreta.
A força de petição era brasileira, foi a única força que era racialmente integrada. Ou seja, negros, índios, brancos, nipo-brasileiros, todos lutavam ali, não tinha divisão, como, por exemplo, havia nas divisões combatentes americanas.
Do lado da tropa brasileira tinha a 92ª Divisão Americana de Exército composto por soldados negros. Eles não se misturavam com os brancos. Eles eram combandados pelos brancos, mas não se misturavam com os soldados brancos. A segregação racial no Exército americano chegou a tal ponto que o Serviço Médico Brasileiro ficou assustado, porque havia bolsa de sangue branco para transfusão de brancos e bolsa de sangue para transfusão para negros.
Isso no hospital americano de campanha. Claro que o racismo brasileiro sempre se manifestou de outras formas mais sutis e estruturais. Mas o fato é que naquele contexto de conflito era realmente diferente não ter tropas segregadas. E aí os alemães, à medida que iam recuando, pichavam muros, espalhavam dizendo Nere Brasiliani Mandiari Bambini. Negros brasileiros comem crianças.
E assim a gente chega a ela, a famosa Batalha de Monte Castelo, que na verdade não era um monte só, mas toda uma região montanhosa num raio aproximado de 20 quilômetros, cravejados com ninhos de metralhadora do exército alemão. Era chamada a linha gótica, que impedia o avanço rumo ao norte da Itália. Para os aliados poderem continuar, avançar mais ao norte era preciso deixar que aquelas vias pudessem ser percorridas sem problemas. Então essa era a missão.
O problema é que, por parte do comando americano, foi subestimado o papel da defesa alemã. Por isso, a FEB, segundo estratégias do exército americano, falhou em quatro tentativas de conquistar o monte. 74 soldados brasileiros morreram e mais de 300 ficaram feridos nessas incursões.
Os alemães tinham, não só no Monte Castelo, mas tinham também forças, artilharia e metralhadoras e fogo concentrado no topo de mais dois montes ali do lado. Então, muitas vezes, os brasileiros iam subir o monte e acabaram levando tiro pelas costas. Eles nem vêem como. Francisco Leal, pai da Isalete, estava nessa campanha que se estendeu por três meses.
Ele falava, a gente não podia fazer nada, tinha hora que tinha que parar e ficar esperando, porque a neve era muito, 20 graus abaixo de zero, mais de metro de neve. Se você pisasse naquilo, tu afundava. Aí depois aquilo virou uma lama.
No fim, foi preciso esperar o inverno arrefecer. Com isso, e também com o reforço de artilharia aérea de uma divisão de montanha americana, eles finalmente conseguiram avançar. Aí, com uma ação coordenada, americanos de um lado nos montes, brasileiros de um lado também em outros montes e em Monte Castelo. Fazendo a cobertura para que o grosso da tropa fosse em Monte Castelo, aí foi possível realmente conquistar.
E no final da guerra, eles conseguiram fazer algo que nenhuma tropa da Campanha da Itália tinha feito. Conseguir a rendição de uma divisão inteira alemã. Isso aconteceu na comuna de Fornovo de Taro. Então, quando você...
ver uns 15 mil soldados se rendendo como uma divisão inteira, as forças brasileiras cercaram as forças germanas e chegou uma hora que não restou outra coisa a não ser os super-homens arianos se renderem àqueles que eles consideravam então como sub-humanos.
O soldado brasileiro foi o único que foi reconhecido por alemães, que os alemães costumavam minar os mortos, armadilhar os mortos, para aproveitar que quando alguém fosse recolher também ficasse machucado, ferido pelas armadilhas. O guia turístico, filho de combatente brasileiro, Mário Pereira.
Três brasileiros, depois de um tiroteio, foram enterrados pelos alemães, que era uma coisa totalmente incomum e que entre os meios militares é considerada uma honra. E os alemães até colocaram uma cruz que é inscrito aqui, jazem três heróis brasileiros.
Então aquele soldado que não valia nada, entre aspas, chegou a ter o respeito do inimigo, chegou a aprisionar uma interdivisão de inimigos. É preciso também entender o seguinte, a experiência dos brasileiros na guerra não envolveu a ocupação do seu próprio território, a violação do seu território, de suas residências, de suas famílias.
Por exemplo, a guerra no leste, na campanha russa, no país do leste europeu, ou no caso dos Balcãs, ela foi extremamente violenta e provocou ressentimentos que depois acabavam desembocando em comportamentos deploráveis, criminosos mesmo.
Então, no caso brasileiro, não tinha esse ressentimento em relação ao inimigo. Assim, havia o ressentimento instantâneo de que o sujeito está querendo te matar.
E aí havia o ressentimento em relação aos companheiros mortos. Você via lá o seu melhor amigo, o cara que compartilhou a barraca com você, explodindo em pedaços e muitas vezes havia comportamentos de extrema raiva, de extrema repulsa. Mas é difícil comparar...
com experiências diferentes de quem teria o território invadido. Claro que é importante também a gente não romantizar essa atuação dos brasileiros. Eram soldados numa guerra, fazendo o que os soldados fazem na guerra, que quase nunca é bonito.
No recém-lançado livro As Regras da Guerra, o jornalista João Paulo Charlot conta de dois pracinhas que foram condenados à morte por estuprar uma jovem italiana. Um de cada vez, enquanto o outro mantinha a família refém sob a mira de uma metralhadora.
Quando um tio da moça entrou desavisadamente em casa, foi morto por um dos soldados brasileiros. A sentença de condenação à morte veio ainda em solo italiano e foi proferida por um tribunal militar que fazia parte do efetivo brasileiro na Segunda Guerra. Mas ela nunca foi levada a cabo, porque as penas foram reduzidas primeiro para 30 anos, depois para 6.
Não quer dizer que, a priori, o soldado brasileiro seja melhor moralmente, ou bonzinho, em relação aos outros. Por outro lado, para os italianos que estavam sob o domínio alemão, os aliados, a febre incluída, foram os libertadores. Então, quando as tropas aliadas, entre outras as do Brasil...
liberavam essas cidades, havia muita alegria, muita felicidade. Então, os brasileiros foram libertadores de várias dessas localidades. E até hoje, quem era criança naquela época, hoje já é bem velho, mas se lembra, senhora, como que eles ficaram felizes na hora que se livraram, realmente, desse domínio alemão. E aí os aliados vieram.
Por tudo isso, era bem comum que os soldados criassem vínculos bastante intensos com a população local.
O pracinha Miguel Pereira, por exemplo, pai do guia turístico Mário. Ele era chefe de uma estação rádio, a estação rádio que mantinha contato com o Brasil. E ele, em Pistoia, foi destinado para colocar o jipe dele com a estação rádio em cima e com a equipe rádio que ele estava chefiando, num determinado lugar. Esse determinado lugar era na frente da casa dos meus avós.
Chegando lá, logo começou a dar de olho numa mocinha, que depois seria a minha mãe, a Juliana, e começou a tentar uma relação.
O Mário contou que a coisa demorou a engrenar porque a mãe dele tinha 16 anos e, como você pode imaginar, a fama dos soldados entre os adolescentes não era das melhores. Na Itália inteira tinham se espalhado as notícias do que aconteceu depois da libertação de Roma, das cidades do norte de Roma, um outro exército aliado.
fez besteiras horrorosas com as mulheres, fez coisas que nem dá para contar sinceramente, é de se vergonhar de ser homem e pensar naquilo. Aqui ele está falando de estupros coletivos que aconteceram na Itália depois da libertação de Roma. Então não tinha muita vontade de se aproximar dessas tropas. Só que os brasileiros eram diferentes do restante do exército aliado.
Primeiro, por causa da língua. A possibilidade de comunicação de brasileiros com italianos era facilitada. Tem muitas palavras cognatas e isso facilitava o entendimento. Além disso, tinha comida. Porque os soldados que recebiam suprimentos de fora tinham até alguma sobra de alimento, enquanto os locais estavam sofrendo com a escassez pós-ocupação nazista. No fim, se estabeleceu um regime de trocas, de escambo.
Você negociava cigarros e comida com os locais, então podia ser lavar roupa ou uma garrafa de vinho, e aí os locais tinham bastante vinho, isso ajudava bastante.
A maioria das casas não tinha homens, porque os homens ou estavam combatendo do lado dos fascistas, ou eles estavam atuando na resistência, ou eles estavam escondidos ou prisioneiros. Essa é a historiadora e autora do livro A Dupla Face da Guerra, Cristina Férez. Então as casas tinham majoritariamente mulheres, crianças e velhos. A Cristina Férez se especializou em documentar algo que costuma passar batido nos relatos das guerras. O papel das mulheres.
E, obviamente, onde tem muito homem acampado e a miséria é grande, também haviam as mulheres que iam como forma de vender o seu corpo e ganhar dinheiro para o sustento.
Eu entrevistei, no meu trabalho de doutorado, no meu livro, 37 ex-combatentes. Unanimemente, todos eles disseram que uma das coisas que mais lhes impressionou foi a miséria moral. As famílias, passando fome, várias dessas famílias ofereciam seus filhos para os soldados.
E a maior parte das vezes você, não, não vou fazer isso, só toque a comida aqui, você lava a minha roupa, cozinha uma comida melhor do que essa porcaria, essa comida enlatada que a gente recebe do exército americano.
Porque você imagina, esses homens eram jovens, eles tinham 22, 23, 24 anos. Longe de casa, num país em guerra, sem saber se vai voltar. Então essa coisa de você conhecer a casa de uma pessoa, estabelecer um vínculo, conhecer uma família, sentar numa mesa para comer, era importante também para o morar dessas tropas.
E aqui vale lembrar que a logística da Segunda Guerra era diferente do que acontece nos conflitos atuais, onde os soldados geralmente entram em grupos pequenos, em operações cirúrgicas e rápidas. Eles ficaram ao todo nove meses na Itália, o que incluiu um tempo depois que os combates terminaram.
Quando a guerra estava nesses últimos dias, as cidades começavam já aos poucos a voltar à normalidade. E uma coisa que começou a acontecer muito foram os bailes, que as pessoas já estavam em clima de comemoração de final de guerra. O Hitler já havia se suicidado. E nesses bailes, muitos dos contatos aconteceram.
Uma dessas festas aconteceu em Pistoia, quando um certo sargento tinha acabado de ser promovido. Foram nessa festa e a mãe ficou assim, dançou com meu pai, etc. E no dia sucessivo ela sempre conta, e até tem um diário que conta isso, assim, da sensação positiva que meu pai conseguiu transmitir à minha mãe.
Ela falava que ele tinha as mãos lisas, que não era uma coisa muito comum. Na época, todo mundo camponês, todo mundo trabalhando na roça. Então, era muito mais fácil sentir as mãos de uma pessoa que trabalhava em rádio. O desafio seguinte do Miguel Pereira foi conquistar os sogros. Ele decidiu fazer isso pelo estômago.
Minha mãe fazia muitos anos, fazia uns 4, 5 anos que não experimentava que não comia açúcar, porque o açúcar só se encontrava no mercado negro e meu avó não tinha recursos para comprar, porque ele era um operário. Uma das primeiras providências que meu pai teve foi levar um pacote de açúcar na casa dos meus avós, e depois algumas comidas, essas coisas.
E aí nasceu devagarinho, mas nasceu o amor.
E ela pediu permissão para os meus avós, que aceitaram, claro, o casamento. Só que o casamento não podia ser ali no momento, mas devia ser depois do fim da guerra. Só que esse final feliz aí tinha um problema. Porque com o fim da guerra, as tropas brasileiras tinham de fazer o que as tropas fazem no fim das guerras. Juntar as tralhas e voltar para casa.
E assim, no começo de julho de 1945, a primeira leva de pracinhas embarcou de volta rumo ao Brasil. E assim como Miguel Pereira, vários deles deixaram relacionamentos para trás. Casamentos de guerra é uma coisa mais usual do que a gente imagina.
Se eu disser pra você a cifra, você vai se assustar, mas a estimativa é que aconteceram cerca de um milhão de casamentos de guerra na Europa. Nossa! 120 mil mulheres foram para os Estados Unidos, casadas com soldados americanos. Quando bateu o olho nesses números, a Cristina Férez ficou fascinada. Imagina o tanto de história de vida que existe por trás dessas cifras.
Quando eu pego os registros de casamento, eu vejo que os casamentos, a maioria começou a acontecer em junho, entre junho e agosto. De 1945, o ano do fim da guerra. Então, o prazo em que eles se conheceram e decidiram se casar era muito rápido.
Porque na guerra, as fronteiras todas se embaralham e se tornam porosas na marra. Mas depois, ainda que muitas vezes em locais distintos, elas voltam a se solidificar. E uma parte do povo que estava misturado na confusão da sobrevivência se vê em lados diferentes. As italianas que se relacionavam com os pracinhas, por exemplo, só podiam entrar no Brasil se tivessem casadas. Isso fazia parte de uma decisão do governo Vargas que limitava a entrada de estrangeiros para não enfraquecer o mercado de trabalho nacional.
De qualquer forma, conforme foi revirando os registros oficiais, a Cristina chegou à conclusão de que pelo menos 58 italianas se casaram com brasileiros e resolveram se mudar para o Brasil. E mais, ela descobriu que essas mulheres viajaram todas juntas num navio. E quando ela ouviu essa história pela primeira vez, pensou que tinha sido uma missão diplomática do Estado brasileiro. Na realidade não foi isso que aconteceu.
Mas o governo Vargas não mandou um navio especificamente para isso, nem acomodou as mulheres em alguma embarcação militar. Ele comprou passagem para todas as noivas italianas. Consegui identificar uma listagem do Ministério da Defesa com a requisição para a compra das passagens dessas mulheres.
Elas acabaram, então, saindo da Itália em 7 de outubro, nesse navio Pedro II, que chegou ao Brasil no dia 31 de outubro. O navio saiu de Nápoles, lá embarcaram duas mulheres. Aí ele parou em Roma, embarcaram mais duas. E em Livorno, embarcaram 54. 58 mulheres atravessaram o Atlântico no navio Pedro II, uma embarcação que ficou conhecida como o navio das noivas.
O navio parou primeiro em Recife. Em seguida, Rio de Janeiro. Existe um clima de festividade, o cônsul italiano sobe ao navio para dar presente às noivas. Vários jornalistas conseguem subir ao navio para escutar essas histórias.
Hoje, olhando para o que ficou documentado, a gente imagina todas as noivinhas italianas sendo triadas, ganhando passagens e embarcando felizes. Mas é óbvio que as coisas não foram exatamente assim. Poucas coisas devem ser mais caóticas do que o fim de uma guerra mundial e muitos casais acabaram separados nessa confusão.
E aí entra em cena o famoso cantor romântico Vicente Celestino. Nos idos de 1945, ele estava numa festa em homenagem aos pracinhas organizada no Morro da Urca. E aí ele notou um soldado cabisbaixo num canto do baile. João Pedro Paz. E resolveu puxar a conversa com ele.
E eu estava assim triste, estava chorando. E ele olhou para mim e disse, e você, você o que eu vou contigo? Essa é a voz do próprio João Pedro Paz, numa entrevista concedida ao coronel Leonardo Araújo em 2014. Não faz estar tão triste? Estou, estou mesmo. Olha, eu deixei lá um amor, que eu nunca mais vou poder ver ela.
Foi a época mais triste da minha vida. Poucos meses antes do embarque de volta ao Brasil, o João Pedro Paz tinha conhecido a italiana Ioli Trediti num bairro na cidade de Pestia. Por quê? Eu tinha deixado a promessa para ela de mandar buscar ela e casar com ela. Mas era uma promessa impossível de ser cumprida, porque nós vamos lá combater uma nação inimiga.
E como é que nós íamos prometer uma coisa para o inimigo? E não podia. A polícia, a PE, estava ali, e de propriedade, para anunciar o público se aproximar do navio. E nós entrando para o navio, o navio começou a mover as máquinas e se mover em direção ao Atlântico, em direção ao Brasil. E lembro que eu vendo o cais da popa do navio, abanando com a mão, e ela ficou movido.
Essa história virou a canção Mia Gioconda. Uma história de amor impossível entre uma jovem italiana e um soldado brasileiro.
Partindo para a Itália, transformou-se num terreiro E lá, muito distante de espontar, o amor sentiu E disse estas palavras ao mais jovem quando deu Italiana, lá minha vitória dissei tu
Só que a história não terminou assim. O João Pedro Vaz voltou para o Rio Grande do Sul e passou três meses lá até que ele recebeu uma carta da Iole. E a carta dizia que ele ia ser pai.
Aí ele ficou mais desesperado. Falei, como que eu vou fazer para trazer essa mulher para cá? Aí ele pensou, bom, eu vou ao consulado da Itália pedir ajuda. Foi ao consulado, recebeu uma bronca danada, né? Da autoridade. Como que você vai fazer isso com uma moça num contexto de guerra? Aí ele dizia assim, tá bom, nós vamos ajudar, mas vocês vão ter que se casar. A minha mamãe não queria que eles sejam brasileiros sem casar.
Essa é a Ioli Trediti, a famosa geoconda, na mesma entrevista que está disponível no YouTube. Eu caí, já escrevi para a procuração. Eu caí na igreja. Eles se casaram para a procuração, mas esse documento levou eras para sair. Tanto que na cerimônia, o filho deles já tinha um ano. A mãe dela entrou na igreja representando ele e aí conseguiu então essa certidão, o documento para poder ter autorização para ela entrar no Brasil.
Mas aí, faltava o dinheiro para uma viagem transatlântica de navio, o que não era nada barato. O jornal do Rio Grande do Sul fez uma campanha para arrecadar dinheiro para conseguir comprar a passagem para ela vir. E aí, com a certidão de casamento em mãos, com o dinheiro da passagem no bolso, foi só alegria, certo? Não exatamente.
Quando ela saiu do porto, ela foi roubada, porque a miséria era imensa na Itália. Então, naquela confusão do porto, ela com uma criança no colo, tinha a maleta de roupa dela, a maleta da criança, levaram a maleta de roupas dela, ela só ficou com a maleta da criança. E aí ela veio na terceira classe, porque era o que dava para ela vir. E ela conta que até tinha uma senhora da primeira classe que ficou com dó dela e falou assim, eu vou te dar um vestido para você ficar bem bonitinha para o seu marido.
Só que aí, quando ela finalmente desembarcou em Porto Alegre com o filho, não tinha ninguém esperando por eles. Ela conta que aquela sensação dela chegar no Porto, num lugar que ela não conhecia, com uma criança no colo, uma língua que ela não falava. Eu comecei a chorar. Isso é, será que me enganou?
No fim, a comoção foi tanta, e pergunta daqui, pergunta dali. Em pouco tempo, descobriram quem era o tal pracinha e onde ele morava, e foram lá tirar satisfação com ele, e no fim, descobriram que tinha sido mal entendido. O navio tinha simplesmente chegado um dia antes do previsto. Ele veio tudo contento, lá deixou o trabalho, veio me buscar.
No fim, o João Paz e a Ioli Trediti ficaram juntos por mais de 70 anos. Meio brabinho, mas com ele. A Ioli segue viva até hoje, mas viúva, porque o João Paz morreu em 2020, aos 98 anos.
Nessa singela enxurrada de histórias de amor promovidas pelo fim da guerra, teve gente fazendo o caminho contrário. O pai do Mário, Miguel Pereira, por exemplo, teve que virar mundos e fundos para conseguir voltar para a Itália. E ele estava quase para viajar para o Brasil, e meu pai finalmente conseguiu ser incluído na terceira guarda. Ele passou quase dois anos tentando ser enviado para servir no cemitério de guerra que o Brasil passou a ter na Itália. Ele chegou na Itália em fevereiro de 1947.
Nos nove meses de campanha na Itália, 451 integrantes da FEB foram mortos e 1.567 feridos. Os pracinhas foram desligados do exército quando ainda estavam em campo. Getúlio Vargas dissolveu a FEB antes deles embarcaram de volta, provavelmente com medo que esse pessoal angareasse poder político e acabasse ameaçando o governo.
Quer dizer, os oficiais voltaram para os postos que tinham ou foram promovidos. Os praças viraram civis. Mas mesmo os veteranos que ficaram no exército, os oficiais não eram exatamente bem vistos pelos militares de carreira. Aspas para um trechinho do livro Barbudos, Sujos e Fatigados.
A parte do exército que permaneceu no Brasil, envolvida em tarefas de defesa territorial na porção mais ao sul do hemisfério ocidental, continuou atrelada às tradições patriarcais dos tempos em que as forças armadas eram principalmente instrumentos de controle social. Era uma organização militar muito diferente daquela formada por conscritos de todos os níveis sociais que lutaram ao lado dos aliados.
Aqui vale ressaltar que muitos militares de carreira fugiram do conflito. Ernesto Geisel, futuro ditador do Brasil, por exemplo, justificou a ausência dele e dos irmãos dele na FEB por terem sobrenome alemão. Ainda segundo o livro do César Maximiano, os oficiais que foram para a Itália não aceitavam que os praças recebessem comida e uniformes melhores, ainda que estivessem na linha de frente.
Aconteceu até dos americanos mandarem farda para a neve e os oficiais estocarem no depósito em vez de repassarem para o front. Eles chegaram até a customizar os próprios uniformes com estrelinhas para se diferenciarem dos praças.
O que era, obviamente, uma burrice, porque transformava eles em alvos mais visados. De qualquer forma, por tudo isso, quando voltaram, os pracinhas até foram celebrados como heróis. Mas isso não durou muito tempo. À medida que o tempo vai passando, a sociedade brasileira não estava preparada para receber esses rapazes. O historiador Francisco Ferraz.
O rapaz que vai para a guerra, ele não volta o mesmo. E isso não é porque a pessoa virou mau caráter. É a forma de sobreviver psiquicamente na guerra. Há estatísticas que entre 8% e 10% de quem realmente combateu, 8% a 10% desenvolvem algum tipo de problema psicológico.
A esse tipo de problema, recorrente entre os veteranos, a gente pode somar a questão financeira, já que boa parte dos pracinhas, recém-tornados civis, tinham deixado os empregos para ir para a guerra. O Dietúlio prometeu uma casa para cada um que voltasse, prometeu mundos e fundos. E nada. Por isso que foram criadas associações para lutar pelos direitos. O pai da Isalete só conseguiu a reforma no exército em 1989.
Eles foram abandonados mesmo. Eles foram abandonados pelo governo e pelo exército. E aí, no meio militar, tinha a inveja. Não dos praças, que tinham virado civis ainda na Itália, mas dos oficiais.
Esse pessoal que ficou aqui temia a volta dos que voltavam, com a folha de serviços recheada, cheia de medalha. Então, o que aconteceu? A maior parte desses militares regulares da FEB foram mandados para guarnições distantes. Ah, manda lá para o Mato Grosso, manda lá para a Amazônia, manda lá para algum lugar. Não os locais onde eles poderiam ser aproveitados. Então...
Eles eram aqueles que tinham a maior experiência em guerra moderna. Experiência em loco e na pele. Esses nem foram aproveitados direito nas escolas de comando, nas escolas de formação de oficiais.
Uma coisa é você dizer patriota, se enrolar numa bandeira, falar Brasil, Brasil, e na verdade a primeira oportunidade é concordar em oferecer o território, riqueza, soberania, o país que você admira, o outro. Outra coisa é você realmente estar ali, lutar contra o que talvez tenha sido uma das piores formas de expressão e prática.
política da história da humanidade.
Como disse, eu faleci de historiador, que eu admiro muito, eu considero o melhor historiador da FEB, que faleceu mês passado, César Maximiano. Pode ser que o mundo que saiu da Segunda Guerra Mundial e que os brasileiros contribuíram para construir, não seja o melhor dos mundos. Mas, com certeza, eles evitaram, ajudaram a evitar que fosse o pior dos mundos. Não é pouca coisa.
Depois de ouvir essas histórias todas, a gente ficou pensando sobre como a vivência extraordinária desses 25 mil homens se inseriu nas Forças Armadas da época. Mas mais do que isso, a gente ficou se perguntando sobre como essa experiência se relaciona com as nossas Forças Armadas no geral. As mesmas Forças Armadas que deram um golpe militar e transformaram o Brasil em uma ditadura que durou 20 anos, que idolatram Jair Bolsonaro e que em pleno século XXI ainda tem tantos generais dispostos a embarcar num golpe de Estado.
Para entender isso um pouco melhor, eu fui falar com um antropólogo, professor da Universidade Federal de São Carlos, pesquisador no mundo militar e velho conhecido dos escafandristas, Piero Lerner. E o Piero começou lá atrás, falando do golpe de 1889, que derrubou a monarquia e instituiu a república. Esse golpe, que tinha pretensões revolucionárias, acabou sendo uma espécie de golpe conservador.
No sentido de que a ideia era substituir um regime por alguma coisa muito parecida. O Piero, aliás, acaba de lançar um livro novo sobre a influência dos militares na política recente. Dois ensaios sobre magia política. O que você teve foi uma espécie de processo de substituição de elites. A partir daí, segundo o Piero, os militares viraram uma força conservadora. De certa maneira, eles acabaram incorporando.
as características que já vinham das elites imperiais. Então, eles têm um olhar muito conservador. Eles fazem de tudo para conservar posições. Posições de classe, de status, culturais, aquilo que eles entendem como os valores centrais da nossa sociedade.
Nesse sentido, quando a gente olha para a campanha da FEB, ela parece um capítulo à parte na nossa história militar. A própria postura do alto escalão que ficou aqui em relação aos veteranos evidenciava isso. Uma vez terminada a campanha, as coisas voltaram ao normal. E o normal das nossas forças armadas sempre foi olhar para dentro.
Foi crescendo, nos anos pós Segunda Guerra, uma compreensão de que aquele tipo de guerra que se combateu na FEB foi legal, foi muito bom, mas não seria aquele tipo de guerra que seria combatida no Brasil. E aí, ainda por cima, veio a Guerra Fria, a ameaça comunista.
as forças armadas brasileiras começaram a se voltar para esse inimigo interno. E os americanos lá de cima falando, é isso aí, folks, bora ficar de ouro nos vermelhos.
os Estados Unidos estimularam a ida de oficiais brasileiros para suas escolas militares. E nessas escolas militares de aperfeiçoamento, esses oficiais eram apresentados a esse novo tipo de guerra que fazia parte do planejamento de defesa hemisférica dos Estados Unidos contra o seu inimigo de então na Guerra Fria, que era...
O comunismo, a União Soviética, as guerrilhas nacionalistas, esses movimentos insurrecionais. Então, por coerência e por uma progressiva americanização, toda a América Latina, o oficial da América Latina, estava voltado cada vez mais para essa guerra insurrecional.
Não é à toa que nos anos 60, mas principalmente 70, nós tivemos uma sucessão de golpes militares e ditaduras militares em vários países da América Latina, protagonizadas por oficiais militares que vivenciavam esse tipo de guerra insurrecional, esse tipo de guerra revolucionária, como uma guerra muito mais importante do que a guerra convencional.
Além disso, aos olhos das nossas forças, em termos geopolíticos, fazia sentido ficar perto dos americanos. Recebendo um material de guerra mais modernizado, podendo, portanto, impor uma espécie de demonstração de força para os vizinhos, de maneira que os vizinhos não se aventurassem. Um dos marcos dessa proximidade foi a Escola Superior de Guerra, fundada logo depois da campanha da FEB em 1949.
A Escola Superior de Guerra abrigava coronéis ou oficiais generais das três armas e mais civis escolhidos a dedo pela presidência e pelo Estado-Maior das Forças Armadas que tivessem, aspas, relevantes serviços prestados ao Brasil. Ideologicamente, é claro que eram grupos mais à direita no espectro político. Você não ia encontrar sindicalistas.
fazendo o curso superior de guerra. Segundo Francisco Ferraz, o modelo da escola superior de guerra foi o National War College americano. Não foi uma escola, foi mais um ponto de encontro, um think tank.
incorporava elites locais, politicamente conservadoras, juntando com os militares, e esse caldo político, fervido lentamente, gerou, entre outras, as condições políticas para o golpe militar de março de 64.
Quando os pracinhas foram enviados para a Itália, eles estavam, obviamente, despreparados para a guerra. Pelo menos para aquela guerra. Porque até ali, o exército brasileiro tinha se inspirado no modelo francês de guerrear. A doutrina francesa era uma guerra de mais fortalecimento das defesas. O que, de certa maneira, era coerente com o tipo de guerra que o Brasil poderia enfrentar. O eventual combate com a Argentina sempre foi o nosso paradigma em termos de conflitos externos.
Quando acontece a Segunda Guerra Mundial, é uma guerra completamente diferente da Primeira. A Primeira Guerra Mundial foi uma guerra de trincheiras, uma guerra estática. A Segunda Guerra Mundial é uma guerra de movimento, de combinação de movimento e fogo. E isso me faz pensar no atual estado das nossas Forças Armadas.
O exército tem que estar preparado para a guerra, sempre. A questão é qual é o tipo de guerra que as forças armadas brasileiras deveriam estar preparadas. Aí, recentemente, o exército brasileiro revelou ter feito uma grande compra de materiais bélicos. Um gasto de 1,3 bilhão de reais. Eles gastaram, sobretudo, em materiais para a guerra terrestre.
Compraram tanques e um sistema de mísseis para atacar blindados. Quem entende do assunto viu esse movimento como uma resposta à ameaça, veja só, da Venezuela. Quer dizer, não dos americanos invadindo a Venezuela, decapitando o governo e saindo de lá com os cotonos limpos.
A ameaça, no caso, era da Venezuela invadir o Brasil para atacar a Guiana na tentativa de conquistar a região de Esequibo. Ou seja, algo que já passou, nunca aconteceu e provavelmente nunca vai acontecer.
O problema é que essa situação muito peculiar das nossas Forças Armadas, que criaram uma zona de conforto muito grande para eles, fez eles produzirem no plano ideológico e cultural da mentalidade militar uma espécie de fusão de horizontes, onde o que eles veem como ameaça externa sempre está projetado aqui em função.
daquilo que eles chamam de inimigos internos, ou hoje em dia, das ameaças internas. Com queda de muro de Berlim e toda a mudança de contexto mundial, eles readaptaram essa noção para uma série de outras, mas especialmente focada na ideia de ameaça à Amazônia. Os inimigos aqui são as ONGs, os indígenas, o Leonardo DiCaprio.
Mas estranhamente eles jamais se opuseram, por exemplo, à exploração de minerais por companhias norueguesas, norte-americanas ou japonesas, ou canadenses ou australianas, seja na Amazônia, seja em Minas, seja em Goiás, seja em qualquer lugar.
Quer dizer, para o Piero, o problema das nossas forças armadas vai além da questão do preparo, do treinamento, dos meios físicos e materiais para se travar uma guerra moderna. Tem a ver com algo que, na falta de um termo melhor, a gente poderia chamar de afinidade ideológica com os americanos. Uma afinidade que foi se construindo ao longo das décadas e que tem, na participação do Brasil na Segunda Guerra, o grande marco simbólico inicial.
A questão não é pensar em preparo ou despreparo, mas como a leitura de mundo dele está dirigida para uma coisa que talvez despreze um conjunto incrível de ameaças que se põem. Por exemplo, tudo o que aconteceu nos últimos anos em relação à Petrobras poderia ser pensado como fruto talvez de uma ação ou de uma intervenção externa?
Os militares brasileiros estavam atentos a isso ou foram, vamos dizer assim, condizentes com esse processo? Por exemplo, existia no mundo inteiro uma grande fragilidade naquele ponto que são chamadas guerras não cinéticas.
Por exemplo, guerra cibernética. Sistemas cibernéticos brasileiros, muita coisa veio de Israel. Isso não é rifar um pouco a nossa soberania no assunto? Como é que são construídas as parcerias das Forças Armadas Brasileiras com o que tem lá fora?
Não adianta você construir um material, um equipamento bélico, uma força nuclear, se quem aperta o botão está completamente enviesado para o lado errado.
Recentemente, o Donald Trump flertou publicamente com a ideia de classificar organizações criminosas brasileiras, tipo o Comando Vermelho e o PCC, como terroristas. Na mesma época, o governo brasileiro caçou o visto de um conselheiro do presidente americano que disse que tinha vindo participar de um congresso, mas que queria mesmo encontrar Jair Bolsonaro na cadeia.
Aí, a gente somar isso às ações militares contra a Venezuela e o Irã, a ideia de invadir a Groenlândia e vem aquela pulguinha atrás da orelha. Porque, claro, a hipótese de os Estados Unidos invadirem o Brasil é das mais estapafúrdias. Ainda mais depois da ressaca financeira global provocada pela campanha no Irã. Mas o Trump é o Trump. E assim, por via das dúvidas, talvez fosse melhor pensar em algo mais eficiente do que mísseis antitanques.
Mesmo porque, como o próprio Piero falou em outra entrevista, quando os tanques entram em cena, é porque a coisa já foi para o brejo. A guerra hoje é feita majoritariamente por via aérea, com drones, mísseis, caças e helicópteros.
E nesse sentido, a nossa defesa antiaérea não é só completamente porosa, como é basicamente dependente de sistemas fornecidos por Israel, um grande aliado bélico dos Estados Unidos. Diante disso, eu perguntei para o Piero se ele acredita que existe alguém nas nossas forças armadas olhando com alguma desconfiança para os americanos.
Eu acho que pode, pode ter um ponto de ruptura. Se o Trump começar a pensar a Amazônia, que nem ele falou, a respeito da Groenlândia e do Canadá, colocaria eles, de fato, no impasse.
Mas eu acho que até a última hora eles apostariam no alinhamento do Brasil com os Estados Unidos. Os sistemas de defesa são todos integrados também. O Brasil não tem em relação nenhuma com a Rússia nem com a China no campo militar, propriamente dito. São corpos estranhos. Então, eu acho que eles não pensariam duas vezes em se alinhar às ambições trumpistas.
Eu sou Tomás Chiaverini e termino aqui o episódio 157 de Escafandro. Obrigado por escutar e até o próximo mergulho.
Oi, aqui é a Thaís Tosati. Eu estou falando de Parnamirim, no Rio Grande do Norte. A mixagem de som deste episódio é do Vitor Coroa. A trilha sonora tema é do Paulo Gama. O design das capas é da Cláudia Funari. A locução adicional é da Priscila Pastri.
A reportagem e a edição de áudio são do Matheus Marcolino. O roteiro, a direção e a sonorização são do Tomás Chiaverini. Agradecimento especial a Bruno Bartakini.
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