a internet multilíngue da floresta, a dança dentro das folhas, o que sao esquemas ?
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- Esquemas mentais e religiãoDiferença entre ex-religiosos e não-religiosos · Hábitos e comportamentos persistentes · Aprendizado por imitação e osmose · Esquemas morais e culturais
- Movimento de cloroplastosFotossíntese · Proteção contra luz solar excessiva · Eficiência evolutiva · Simulação matemática
- Internet da florestaRedes de fungos subterrâneas · Comunicação sonora entre espécies · Sinais de alerta contra predadores
- Endobiose e origem da vida complexaSurgimento da mitocôndria · Surgimento dos cloroplastos · Evolução das plantas
Raríssimas, raríssimos e raríssimes. Boa tarde, René de Paula Junho falando aqui no Radinho de Pilha. 5 de maio de 2026, ao som de uma orquestra, uma orquestra italiana. Essa é outra gravação que eu fiz da janela em Perugia. Perugia é uma cidade no centro da Itália.
E a gente teve a felicidade do nosso quarto dar de frente para uma sinfonia todo dia de manhã. Então, esse som vai nos acompanhar ao longo desse curto episódio. Vai ser um episódio um pouco mais curtinho. Eu tenho um compromisso oftalmológico daqui a pouco.
Mas eu não queria deixar de registrar algumas coisas que eu acabei aprendendo, que eu acabei descobrindo de ontem para hoje. E uma delas diz respeito a uma coisa que me preocupou na minha ausência, que eram as plantas. Quem cuida das plantas em casa sou eu. Não que eu saiba exatamente como cuidar, não que eu detenha os segredos. Não tenho segredo nenhum. Na verdade, eu tenho carinho, gosto e vou aprendendo e vou tentando ver o que funciona, o que não funciona.
E quando eu saí, as plantas estavam num estado bastante, puxa, bacana, satisfatório. Eu falei, puxa, será que na minha volta elas vão ter sido regadas suficientemente ou em excesso? O que vai acontecer? Para a minha alegria, elas estão bem. Está tudo bem, eu acabo de dar uma rodada agora.
com o regador ali, botando todo mundo feliz, vou ter que lidar com um surto bastante desconcertante de algo que, se não me engano, se chama coxonilha, que é uma praga horrível que está atacando uma das plantas, mas são coisas miúdas. Mas uma coisa interessante...
é a surpresa de você voltar e ver um vaso que, de repente, está com, sei lá, com novos ramos, com brotos novos e aquela coisa enorme, você se surpreende. Por quê? Porque você ficou bastante tempo sem ver.
então a mudança é bastante visível, se eu estivesse olhando todo dia, talvez não estivesse vendo essa movimentação toda com tanta clareza, mas eu voltei, tem um vaso ali que está, uma festa, e eu estou super feliz com isso, mas é muito interessante porque, eu estou chamando a atenção para as plantas, porque quando a gente pensa em planta, planta é aquela coisa que não se mexe, ok, planta, árvore, não sai do lugar.
Uma planta dificilmente... Ok, tem girassol. Ah, tá bom, tem algumas, sei lá, algumas plantas que percebem a orientação do sol, a gente lembra da escola, isso é um fototropismo, se eu não me engano, mas eu descobri que as plantas se mexem de maneiras um pouco mais apaixonantes, muito mais interessantes.
Pois bem, então vamos falar primeiro de dois milagres. O primeiro milagre aconteceu há uns 3 bilhões de anos atrás, quando uma bactéria engoliu outra bactéria, na verdade não foi uma outra bactéria, foi uma prima das bactérias que se chama Arquea, e ao invés de digerir a Arquea, o que acontece é que a Arquea olhou em volta e falou nossa, eu estou aqui dentro, que ótimo, muito bom.
vou ficar por aqui, não preciso mais me preocupar com alimentação, estou com casa, comida, roupa lavada, e a bactéria falou, bom, já que você está aí dentro, como é que você pode me ajudar? E a gente deve a esse encontro, que aparentemente só aconteceu uma vez, o surgimento da vida mais complexa, porque essa bactéria que passou a ser uma hóspede,
ela é a origem da mitocôndria, a mitocôndria é quem produz a energia, várias criaturas por aí hoje em dia, você tem um monte de mitocôndria aí trabalhando que nem uma louca, essa mitocôndria na verdade não faz parte de você ou de qualquer célula sua, ela é uma hóspede, ela tem seu DNA próprio, então você, por assim dizer, é uma quimera, você é um misto de várias criaturas.
E isso começou há 3 bilhões de anos, muito bem, se chama endobiose, isso se eu não me engano, quando uma criatura entra dentro da outra e as duas desenvolvem uma relação, se bem que isso ficou um pouco sexy, mas é uma relação bastante fecunda para ambas as partes, como diria Celso Roussoumano.
Mas isso não aconteceu só com as mitocôndrias, isso aconteceu também com criaturas muito peculiares, micro-organismos, que um belo dia descobriram que tinha luz do sol na superfície do mar, e essa luz do sol estava dando bobeira, era grátis, o que eu posso fazer com essa luz do sol? E elas descobrem como fazer fotossíntese, elas descobrem como transformar sol em açúcar, sol em puxa vida, em combustível.
Então essas criaturas estavam felizes e contentes, até que um dia uma engole a outra e de repente é um cenário muito parecido, mais uma endobiose. Você tem ali agora essas criaturinhas que fazem fotossíntese, chamam cloroplastos.
Elas estavam dentro de uma outra criatura. E pronto, agora, assim como as mitocôndrias fornecem energia para as nossas células, os cloroplastos, melhor ainda, eles fornecem energia a partir da luz para o seu hospedeiro.
Então, aí surgem o que as plantas? As plantas surgem desse outro milagre, que também aparentemente só aconteceu uma vez, quando de repente um que sabia produzir comida a partir da luz vira, assim como hei de dizer, mão de obra escrava, de uma criatura um pouco mais, que aliás pode ter agora mais energia, tem energia grátis, pode crescer, e aí as plantas transformaram o planeta. Isso não é novidade para quem ouve o radinho?
Mas o que eu não sabia é que dentro de uma planta, você tem, aliás, eu não fiz biológicas, eu não entendo nada de biologia, mas eu vi hoje um videozinho, eu vou dar o link para vocês como sempre, um videozinho muito interessante, mostrando a célula de uma planta, a célula de uma planta parece efetivamente uma célula, aliás, se eu não me engano, a palavra célula, para descrever essa unidade dos organismos,
Ela vem da cela de monges em mosteiros. A primeira vez que alguém com microscópio, eu não vou lembrar o nome claro, estava olhando ali uma planta, ele observa que a planta tem uns quadrados, como se fossem uns cubículos, uns quartinhos fechados. E quando ele pensa em quartinhos fechados, com coisas dentro, o que ele pensa no quarto de um monge? Um quarto de um monge é uma cela que vem célula.
Mas eu estava vendo um vídeo ali de várias células de uma planta cheia de bolotinhas verdes indo para lá e para cá, se mexendo loucamente com um estranho padrão e tal. O que eu estava vendo ali? Eu estava vendo células de uma planta, as bolotinhas verdes eram os cloroplastos, são justamente aquelas coisinhas que fazem fotossíntese.
e elas andam de lá para cá dentro da célula. Por que elas não ficam paradas? Por que elas se dão o trabalho de ir para lá e para cá, de ficar dançando? Parece um baile. Pela simples razão de que a luz do sol, a rapadura é doce, mas não é mole, né? A luz do sol...
ela tem essa fantástica capacidade de produzir, de fomentar uma série de reações químicas, etc. que podem ser positivas, mas também que podem não ser tão positivas assim, porque se a luz tiver energia demais, a vida padece.
Então, se o sol for forte demais, se o sol estiver na medida certa, o cloroplasto fica felicíssimo, está todo mundo feliz, ele vai ficar ali no meio da sala, tomando sol que nem um louco, mas se a luz do sol aumenta demais...
Ele vai fazer o quê? Não estou brincando, o cloroplasto vai para a sombra, ele vai procurar as paredes da célula, não um, mas todos. Então, na hora que o sol aumenta muito, vamos imaginar que de repente, mesmo aqui em casa, que a tarde bate um sol danado.
Ao longo do dia, uma luz meio indireta, os cloroplastos devem estar felizes. A hora que o sol bate para valer, que vem inclusive muito ultravioleta, é uma coisa que é bastante nociva a qualquer forma de vida, os cloroplastos se movimentam para justamente se proteger, porque senão eles não aguentam. Quem já matou alguma planta sensível aqui com excesso de sol sabe disso. Então veja só, tem toda uma coreografia acontecendo muito rapidamente.
porque essas mudanças de luz são muito rápidas, de repente o sol estava atrás de uma nuvem, aí o sol apareceu, depois o sol voltou dentro da nuvem, então não é uma coisa lenta como, sei lá, uma planta de maracujá, uma trepadeira enroscando, não, não, não, é rápido, tem que ser bastante rápido, você vê no vídeo, está acelerado, mas você percebe que é um movimento bastante visível.
Mas isso é muito interessante porque, puxa, será que isso é um processo casual? Será que isso evoluiu de que maneira? Que bacana, os cloroplastos conseguem se proteger ali, ficam num cantinho, vão para o outro, vão otimizando. E um cientista que tem uma formação curiosa, porque ele estudou física e biologia, e ele é um biofísico,
Ele resolveu entender isso do ponto de vista matemático, para ver se aquilo tinha alguma lógica, se era um processo eficiente. Então ele resolveu criar um modelinho, uma simulação matemática computacional, em que ele fez ali essas celulinhas, ele ficou tentando mexer, já que você tem que ter um cloroplasto, por que você não faz um cloroplasto que enche a sala toda, que enche a célula toda?
Bom, mas se ele se encher a célula toda, quando tiver sol demais, ele não tem como se mexer. Hum, então tá bom. Então é bom você ter vários, mais ou menos, menorzinhos. Mas menorzinhos quanto? Se eles forem pequenininhos demais, eles também não conseguem capturar tanta luz assim. Então deve ter um tamanho razoável. A hora que eles se mexem, a hora que eles se socam para algum lado da célula, é uma coisa tumultuada ou isso segue alguma lógica ou é um processo eficiente?
Esse tipo de problema de como que as coisas se organizam, se empilham, é um problema clássico de matemática, centenas de anos, o problema do empilhamento. E o que ele descobriu? Os cloroplastos, através de longos centenas de milhões de anos de evolução, descobriram como ter o tamanho exato para conseguirem se mexer e se organizar e se proteger da maneira mais eficiente possível, inclusive concordando bastante bem com a simulação por computador.
respeito. Agora, toda vez que eu olhar as minhas plantinhas, eu vou falar, puxa, parabéns, eu não tinha ideia de que tudo isso estava acontecendo debaixo dessa verdura toda, e já que eu estou falando de verdura, tem um artigo que eu não sei se eu comentei com vocês, tempos atrás, eu guardei para comentar, eu não sei se eu estou comentando pela segunda vez.
mas é da internet da floresta. Como assim internet da floresta? Eu já tinha comentado de alguma coisa parecida, que na verdade quando a gente olha para uma floresta e vê árvores, elas não são árvores isoladas, normalmente elas estão conectadas por redes de fungos embaixo da terra.
Então esses fungos transportam não só nutrientes, mas praticamente informações de uma árvore para outra. Então tem ali um cabeamento de fungos entre as árvores, então elas estão todas conectadas. Mas não é disso que eu estou falando agora, eu estou falando de uma internet sonora.
O que acontece é que numa floresta bastante densa e com bastante vida, vamos imaginar que apareça um predador, uma águia, seja qualquer coisa parecida. O primeiro que descobrir, pode ser um pássaro, por exemplo, ele emite um sinal.
Esse sinal é, obviamente, quem for da mesma espécie, os outros passarinhos que entendem esse sinal vão perceber que alguma coisa está acontecendo e vão se esconder. Isso é comum a várias espécies. Então, por exemplo, existem primatas que têm vários tipos de grito. Um grito para cobra, um grito para pantera, um grito para, sei lá, gavião.
Isso é interessante porque se você gritar gavião e o cara ouvir pantera, ele vai olhar para baixo. Se ele entender errado, ele vai olhar para baixo e o gavião pega. Então, as ameaças vêm de lugares diferentes. Pois bem, então, quando um pássaro vê algum tipo de predador, seja no céu, seja na terra,
ou no meio de nós, ele emite um grito. E o que é muito interessante é que esse grito é entendido por outras espécies. Então, é como se tivesse ali uma língua franca, um esperanto. É como se os outros, de repente os primatas, os mamíferos e os pássaros, falassem pelo menos porcamente a língua um do outro. Eles todos reagem da mesma maneira.
É como se tivesse ali, nem sei, é como se fosse um grupo, um WhatsApp, em que nem todo mundo é igual, mas pelo menos algumas coisas são transmitidas e todos se protegem. Eu achei ótimo, isso tem um pouco a ver, inclusive, com a minha presença no país, cuja língua eu não domino muito, mas que felizmente agora eu começo a entender os rudimentos e como consigo me manifestar.
Mas eu gostei dessa história, e eu vou conectar isso, só para encerrar, esse vai ser um episódio realmente mais curto, aliás, ontem eu me excedi, desculpe, porque eu estava assistindo, adivinha o quê? Mais um episódio do Religion for Breakfast, e dessa vez ele está, eu não vou entrar agora em questões de crença ou descrença, tanto faz, eu sei que esse é um tema delicado, a última vez que eu me aprofundei demais nisso, eu acho que eu perdi uns três super raríssimos, eram 17, agora são 14.
Realmente acho que eu pisei no calo e não tive a consideração devida, desculpe. Mas dessa vez ele está falando de um tema que para mim é bastante próximo, que é os pesquisadores estão descobrindo que existe uma diferença entre você, você não acredita, você não é religioso, não. Mas existem dois tipos, a pessoa que era religiosa e deixou de ser,
e a pessoa que nunca foi religiosa. E aí os caras perceberam que, veja, mesmo quem deixou de ser religioso, continua preservando alguns hábitos. O cara provavelmente não vai entrar de chapéu na igreja, o cara não vai querer falar, ai meu Deus, ou vai falar qualquer coisa parecida. O cara vai ficar talvez um pouco assustado quando alguém chutar uma santa, que já aconteceu na televisão brasileira, não sei se vocês se lembram.
Agora, quem nunca foi religioso, não nos importa muito. Mas o que é interessante dessa história é que isso acaba sendo um gancho para ele introduzir uma noção de funcionamento da mente humana que eles estão chamando mais ou menos de esquemas. Esquema significa o seguinte, eu estava viajando, certo?
Então, está na hora do almoço. Então, eu tenho que encontrar um restaurante, certo? Certo. Eu vou, estou numa cidade que eu nunca visitei e eu vou entrar num restaurante que eu nunca entrei. Mas eu sei o esquema. Eu sei como funciona o restaurante. Normalmente é um estabelecimento que tem mesas, que você tem alguém te esperando, alguém na porta que você pergunta se tem uma mesa livre, o cara te indica uma mesa.
Você se senta em algum momento, alguém te traz um cardápio, em algum momento vem um garçom, aí você pede, aí vem a comer. O restaurante funciona assim, certo? Normalmente sim. Tirando algumas variações estranhas, rodízio, etc. Mas, veja bem, você tem na sua cabeça um esquema. Então, não é tudo novo. Não é que você caiu de paraquedas numa coisa completamente diferente.
Quer ver uma outra coisa parecida? Vamos imaginar que você alugue um carro, que é uma coisa que eu detesto, porque eu acho que carro foi uma invenção infeliz e eu detesto estrada, mas tudo bem. Você vai alugar um carro? É um carro.
Não é que o cara te soltou um Citroën e você vai ficar apavorado porque você nunca dirigiu um Citroën. Não, um carro é um carro. Você não sabe muito bem onde liga, onde desliga, mas depois disso é basicamente um carro. Então você vai dirigindo a estrada e a estrada também você conhece o esquema. O que quer dizer conhecer o esquema? Significa que à medida que você vai crescendo, vai se expondo ao mundo,
você percebe regularidades. Você percebe uma geral de como algumas coisas funcionam. Os detalhes podem variar, mas no geral você realmente se acostuma com essas coisas todas. E isso vale para muitas coisas. Para um carro, você já tem um esquema de como é um carro, na sua mente, na sua cabeça. Você aprendeu isso, está arraigado. Você tem um esquema, é como andar de bicicleta. Também teu corpo aprendeu um esquema.
como é que você se movimenta, como é que você se equilibra, um carro, um restaurante, mas também pode ter, você pode ter, dependendo da cultura que você cresceu, ou da sua história pessoal, você pode ter feito na sua cabeça um esquema de como é uma amizade.
Houve um esquema de como é uma relação, um esquema de como é que é trabalhar junto, certo? O que é muito interessante é que esse tipo de esquema é muito profundo, ele é muito arraigado, é muito difícil de você mudar, inclusive é um aprendizado muitas vezes muscular, um aprendizado físico.
E isso se estende também, inclusive, a comportamentos culturais. Você está acostumado com uma certa maneira de, sei lá, de comemorar o Natal, uma certa maneira de comemorar o futebol. Quando você vai para outros lugares que tem um esquema diferente, cara, aquilo para você é uma dificuldade, você está com um peixe fora d'água. Mas isso vale também para crenças. E o que é muito interessante, que até ajudou a me auto-entender, por assim dizer,
é que, veja, quando a gente fala de religiosidade, de crença, não é uma coisa essencialmente racional. Não é que você parou, estudou, deliberou, analisou das 500 mil religiões e seitas e denominações qual era aquela que te oferecia mais vantagens.
Muito provavelmente, é o que eu vejo em pessoas muito religiosas que eu conheço, você cresceu dentro de um ambiente onde você via pessoas que você confia investindo um tempo bastante expressivo em fazendo coisas que você acabou incorporando como sendo relevantes. Então, se você tem uma família que reza antes de almoçar.
Então, isso é um comportamento que você está sacrificando, você está investindo tempo em uma coisa que não tem benefício imediato. A comida está lá, por que você está rezando? Mas, de qualquer maneira, você vê pessoas que você confia e a gente tem uma tendência, que provavelmente é muito antiga, ancestral, de aprender por imitação, de aprender por osmose, de aprender pelo contato, de aprender pelo exemplo.
Então você acaba incorporando esses hábitos e você cria um esquema, inclusive físico. Quem é católico já sabe que tem que ajoelhar e levantar e fazer o sinal da cruz e vai fazer o sinal da cruz o tempo todo. Quantas pessoas que eu conheço que quando passam diante de uma igreja, meu pai era assim, faz o sinal da cruz automaticamente. É uma memória muscular, é uma memória muito profunda.
E é muito interessante porque quem cresceu, quem acabou criando esquemas...
de corpo, esquemas de afeto, esquemas de memória ligados à religião, mesmo quando você, por alguma razão qualquer, se desilude, você acha que realmente a sua expectativa foi frustrada, suas preces não foram atendidas, se olha em volta e não entende por que existe miséria no mundo e nem esses deuses não fazem nada, e aí você meio que racionalmente, meio afetivamente, você se afasta. Isso não quer dizer que os seus esquemas desapareçam. Eu me lembro disso...
porque eu não fui criado numa família com práticas religiosas dignas de nota, por assim dizer. Meu pai tinha uma religiosidade muito dele, muito fechada, mas ele não passava recibo. Então, passou reto. Isso talvez explique essa minha relação um pouco diferente com crença hoje em dia. Mas, de qualquer maneira, você cresceu num país predominantemente católico. Você sabe...
que existem orações, que existem isso, que existe bem, que existe mal, que existem pecados, que você conhece esse universo todo. E mesmo que você pare de acreditar, que é o que acontece comigo, o que acontece é que o esquema demora a desaparecer. Então, eu me lembro há muitos anos...
eu estava fazendo um áudio curso, na época era uma empresa muito conhecida, que se chamava Os Grandes Cursos, The Great Courses. Eu resolvi fazer um áudio curso sobre a história das religiões. Tudo muito bom, tudo muito bem, algumas são muito interessantes, religiões de povos originais aqui das Américas.
religião ou qualquer coisa parecida com isso na Ásia, e assim vai. E até tudo bem, algumas são peculiarmente criativas, outras são completamente incompreensíveis, o universo nasceu do sovaco de alguém, não sei. Mas aí começou o capítulo sobre crenças de matriz africana.
E eu comecei a ficar um pouco perturbado, porque tinha figuras ali que eram figuras que, em princípio, eram brincalhonas, eram legais, eram bem-fazejas, mas, ao mesmo tempo, elas eram más, elas podiam ser perigosas. Como um amigo bad boy que você tem, que pode ser encantador, mas provavelmente é tóxico. E eu comecei a ficar muito perturbado. Falei, pera, eu não estou vendo aqui uma noção de bem e mal.
Eu não estou vendo aqui uma noção do que é certo e o que é errado. Então você tem um personagem aqui que tem uma conduta que é fluída. Eu não estou entendendo isso. Eu parei o curso e estava muito perturbado. E eu acabei comentando isso com um amigo meu que segue religiões de matriz africana. E ele falou, não, mas está certo, porque é isso mesmo, porque o bem não existe, o mal não existe, as coisas são relativas. E isso para mim foi muito difícil de processar.
na verdade eu nunca mais continuei o curso porque mesmo não acreditando mais em absolutamente nada transcendente, em sorte, horóscopo tarô, fala o que você quiser não passa batido durante um bom tempo o esquema estava dentro de mim, o esquema é
Imaginar que existe o bem e imaginar que existe o mal. Imaginar que você mentir é errado, imaginar que você fazer certas coisas é absolutamente errado. E algumas outras coisas são absolutamente valorosas. Isso acaba sendo um esquema moral dentro de você e que persiste durante muito tempo.
É muito interessante que esse esquema, nesse vídeo fica claro, que ao longo do tempo ele pode ir se diluindo. A pessoa pode começar a perder um pouco essas restrições ou essas reações devidas a um esquema muito incorporado. Mas, de qualquer maneira, é uma coisa muito interessante, porque isso quer dizer que nunca existe alguém 100% ateu.
a não ser que o cara nunca tenha visto religião nenhuma, mas normalmente o cara pode ser um ex-católico, ele pode ser um ex-evangélico, ele pode ser um ex-judeu, mas provavelmente ele guarda dentro de si algum tipo de esquema. E, aliás, essa noção do esquema, voltando aqui, esquecendo um pouco a questão religiosa,
É muito interessante para a gente entender também até a força da cultura. Quando a gente viaja para um país e se estranha muito, quer dizer, aquilo que para você era natural ali é completamente esquisito e vice-versa, quando o comportamento dos outros tem coisas que para você são completamente inimagináveis, é simplesmente porque o seu cérebro está tentando sempre.
prevê, está tentando sempre criar modelos, ele está tentando sempre criar regularidades, ele criou um esquema que é praticamente a moldura do seu mundo moral, a moldura de como o seu corpo funciona. E aí você vai ver um alemão tentando dançar o samba, não vai dar muito certo.
você vai tentar ver e assim vai. Eu gostei dessa percepção de quanto que a nossa cognição vai se estruturando com o tempo, mil perdões, uma chamada aqui que eu tive que interromper, ela vai se estruturando e pode inclusive se engessar. Quando a gente imagina que de repente você está perfeitamente à vontade no mundo, você está à vontade dentro de um esquema que você criou, que não necessariamente ele pode estar ainda funcionando e pode haver esquemas melhores e você não está prisioneiro dele mesmo.
raríssimas, raríssimos e raríssimos esses pequenos telefonemas que apareceram aqui são sinais de que eu tenho que encerrar deixo vocês com os passarinhos de peruja espero que essas coisas que eu acabei trazendo tenham provocado em vocês sei lá, alguns questionamentos alguns caminhos novos, tem dado asas de passarinhos da peruja a sua imaginação, um grande abraço e até amanhã
E aí
Colab55
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