Letramento em Saúde e Educação Integral para a Sexualidade: Percepções e Desafios de Professores em Formação Continuada
Hoje estamos enfocando o tema Letramento em Saúde e Educação Integral para Sexualidade: Percepções e Desafios de Professores em Formação Continuada. Trata-se de uma pesquisa realizada na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNOESTE). Quem nos fala sobre esta são as Professoras Doutoras Francielle Brustolin de Lima Simch (Doutora em Educação em Ciências, enfermeira, autora datese e especialista em Letramento em Saúde) e Alessandra Cristyan Engles Reis (Doutora em Educação em Ciências, enfermeira obstetra e especialista em saúde sexual)
Informações e link para a tese, na íntegra:
Letramento em Saúde e Educação Integral para Sexualidade: Percepções e Desafios de Professores em Formação Continuada
FRANCIELLE BRUSTOLIN DE LIMA SIMCH
Tese de Doutorado em Educação em Ciências e Educação Matemática
https://tede.unioeste.br/bitstream/tede/8415/2/Francielle%20Brustolin%20de%20Lima%20Simch.pdf
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Helena Sampaio
Alessandra Cristyan Engles Reis
Francielle Brustolin de Lima Simch
- Letramento em saúde e educação integral para a sexualidadesexualidade como pilar da saúde ampliada·professor como agente legítimo para ensinar·gravidez na adolescência e gestação infantil·proteção da infância e direitos sexuais reprodutivos
- A diferença entre letramento em saúde e educação em saúde tradicionalletramento em saúde como autonomia·educação em saúde tradicional focada na doença·letramento em saúde e determinantes sociais
- Impacto da formação continuada na prática pedagógica dos professoresvirada de chave pedagógica·perda do medo e acolhimento da sexualidade·uso de metodologias ativas·empoderamento da consciência de cidadania
- Análise da BNCC e os determinantes de saúde abordados ou ignoradosênfase na camada individual e biológica·silêncio sobre dimensão social e comunitária·lacuna na diversidade humana e de gênero·saneamento básico e habitação digna desvinculados
- Despreparo de professores para abordar saúde na sala de aulaconceito patologizado de saúde·falta de reconhecimento como agente legítimo·ausência de formação para transversalidade
Olá, amigos e amigas ouvintes! Eu sou Helena Sampaio e falo em nome da REBRAUS, a Rede Brasileira de Letramento em Saúde. No episódio de hoje, vamos falar sobre letramento em saúde e educação integral para a sexualidade, no que tange a percepções e desafios de professores em formação continuada. E temos duas convidadas para falar sobre isso: a professora doutora Franciele Brustolin de Lima Simchi e a professora doutora Alessandra Christian Engels Reis.
A Franciele é professora doutora em educação em ciências, enfermeira, autora da tese e especialista em letramento em saúde. A Alessandra é professora doutora em educação em ciências, enfermeira obstetra e especialista em saúde sexual. E a pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Educação Matemática da Unioeste, a Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Então, professoras, muito bem-vindas aqui na nossa conversa de hoje.
Bom dia, Helena, é um prazer, né, estarmos aqui novamente contigo. Tentando, né, trazer algo significativo aí em questão de saúde da escola e partilhar os caminhos e descobertas dessa investigação que nós realizamos.
Bom dia, Helena! É uma satisfação estar aqui com você e junto aí com a Franciele. Então é uma alegria, é uma alegria, uma satisfação E também uma temática muito importante para a gente poder aí estar divulgando de forma ampla para a saúde da população.
Obrigada. Eu tô muito entusiasmada, é um tema que nós não exploramos aqui ainda nos podcasts, nos episódios do podcast, então vai ser muito legal. Bom, eu vou começar com você, Franciele. Lembrando que a Franciele, se vocês procurarem aí nos nossos episódios passados, ela já esteve duas vezes conosco aqui colaborando com o podcast da Hebraus. Então, Franciele, na sua pesquisa você adota uma perspectiva abrangente de letramento em saúde que vai muito além de ler a bula de um remédio ou memorizar anatomia humana.
Como é que nós podemos explicar para os nossos ouvintes, principalmente para os que estão chegando agora, o letramento em saúde e de que forma ele se diferencia da educação em saúde tradicional centrada apenas na prevenção de doenças?
Certo, Helena. Eu falo que essa é a chave de tudo, né? Para colocar de forma bem simples, é saber ler uma bula de remédio ou memorizar os nomes dos órgãos do sistema digestório é o equivalente à alfabetização básica, né? Mas o letramento em saúde é saber usar essa leitura para transformar a sua realidade e a realidade da sua comunidade. É o que nos traz, né, a Organização Mundial em Saúde no seu glossário de 2021. Então é ler o mundo através da lente da saúde.
Teoricamente falando, né, e nos apoiando nos autores como Plômipo e pesquisadores ali nessa pesquisa, o LS ele vai muito além de reter conteúdos, né? Tanto que os autores eles relacionam LS com a educação em saúde e alfabetização científica. Por isso, né, esse conceito abrangente do letramento em saúde. Então eles tratam como um conjunto de conhecimentos, motivações e competências individuais e coletivas, né, para acessar, compreender, avaliar e aplicar informações sobre saúde no dia a dia, que é o que nós já conhecemos sobre letramento, né.
Então o objetivo ele não é decorar regras, mas tomar decisões conscientes, autônomas e socialmente responsáveis. Aí muitos podem estar se perguntando, tá, e como isso contrasta com abordagem tradicional da escola? Bem, vamos resgatar um pouquinho que nós já sabemos, né, e que nós acompanhamos historicamente. A educação em saúde tradicional do Brasil, ela sempre teve uma forte marca higienista, prescritiva e focada na doença. Então ela trabalha no modelo do faça isso, não faça aquilo, lave as mãos, né, coma saudavelmente, não pegue dengue, ou seja, o pode, não pode, o devo, não devo, né.
E essa visão, ela parte de um pressuposto equivocado, né, de que basta eu dar a informação biológica para que a pessoa, por mera vontade individual, mude seus hábitos. Então, letramento em saúde, ele rompe com isso Porque ele reconhece os determinantes da saúde. Então não adianta a escola dizer para um estudante que ele precisa comer frutas e vegetais frescos se a família dele vive num deserto alimentar ou não tem renda. Não adianta prescrever e passar informação para ele: olha, você tem que lavar as mãos a todo momento Se a comunidade onde o aluno mora não tem saneamento básico nem água encanada.
Então o LS, ele desenvolve esse pensamento crítico, né, autonomia e o exercício da cidadania. Então ele capacita, né, essas pessoas, esses sujeitos, não apenas a cuidar do seu corpo, mas a exigir seus direitos sanitários, seus direitos de saúde, né, navegar criticamente no sistema de saúde e combater as infodemias e fake news que estamos sendo inundados hoje em dia por meio das redes sociais, né. Então, basicamente, né, seria isso nessa, nesse primeiro questionamento aí sobre essa pesquisa, Helena.
Muito bom. E assim, para os nossos ouvintes, é interessante fazer essa diferenciação porque Porque muitas vezes as pessoas só ficam pensando que é fazer educação do jeito certo, mas do jeito certo no sentido de usar palavras fáceis de compreender só. E o letramento, você mostrou aí para eles que é muito mais do que isso, e tem a questão realmente dessa autonomia, dessa criticidade. Muito legal. Vou continuar com você ainda, Franciele.
A sua pesquisa, ela fez uma análise documental minuciosa da Base Nacional Comum Curricular, né, na área de ciências da natureza, que é a BNCC. Quais foram os achados mais gritantes? Quais determinantes da saúde aparecem com frequência no documento e quais foram praticamente ignorados?
Pois é, Helena, eu digo assim que essa análise do currículo, né, da base curricular, ela foi essencial Ela deu o pontapé inicial para essa pesquisa maior, tá? Nós analisamos todas essas habilidades e competências do eixo de ciências da natureza, né, que consta dentro da BNCC, do currículo da BNCC. Então, usando a lupa, né, das camadas dos determinantes sociais da saúde, E assim, os resultados foram muito reveladores e preocupantes ao mesmo tempo, tá?
Porque algumas coisas sobressaíram e outras ficaram invisíveis. Então a BNCC, ela enfatiza fortemente a camada individual e biológica ainda, né? Há uma presença massiva de habilidades voltadas para anatomia, fisiologia do corpo humano, microrganismos e hábitos de higiene, estilo de vida. Em segundo lugar aparece os determinantes ambientais, tecnológicos e econômicos, né, como a poluição, uso de combustíveis, impactos de tecnologias.
Ou seja, a saúde na BNCC ela é muito corpo e meio ambiente ainda. Então isso que foi aparecendo com maior frequência. Porém nós temos alguns gargalos gritantes aí, como você mesmo mencionou, né? Então quando nós olhamos para essa dimensão social e comunitária, o documento é extremamente silencioso. Então, por exemplo, trabalho, emprego, quase não há articulação entre as condições de trabalho O esgotamento laboral, a saúde da população.
Aí outro ponto também que aparece, que não aparece, né, a questão da diversidade humana e de gênero. É uma lacuna, essa lacuna crítica, né, omitindo essas discussões sobre como a desigualdade de gênero e o preconceito afetam a saúde, né, das pessoas. Outra questão foi as redes de apoio social e comunitário que não aparecem. Pouquíssima menção à solidariedade comunitária, né, esses equipamentos sociais que são existentes hoje, e bem como a saúde mental, né, acaba não aparecendo.
Um outro ponto também, né, que eu deixo muito enfático ali na pesquisa: saneamento básico e uma habitação digna, tá? Esses temas vitais para a realidade de milhões de brasileiros aparece desvinculados no conceito ampliado de saúde dentro da BNCC, tá? E vamos além, né? Além de tudo isso que nós falamos, os termos letramento em saúde ou educação em saúde sequer aparecem explicitamente no texto da BNCC para essa etapa, né? Então o tema da saúde, ele fica fragmentado.
Cabendo inteiramente ao professor fazer o milagre de puxar esses fios sociais para dentro da sala de aula. Então, existem esses gargalos preocupantes que nós precisamos refletir, começar a refletir a respeito, né? Quando pensamos em saúde escolar, não tem como nós não pensarmos nesses pontos cruciais que são inexistentes no nosso currículo.
Exatamente, exatamente. É muita coisa mesmo, é muita coisa. Eu vou enveredar agora por uma pesquisa com a minha doutoranda. Ela vai tentar ver a formação específica em nutrição no Brasil, e com certeza quando ela for consultar o geral, ela vai acabar encontrando algum gargalo parecido com esse que você viu no geralzão, sabe?
De fato, é, o currículo ele traz essa inexistência, né, em vários, em vários aspectos ali dentro do módulo das ciências da natureza, que é o módulo que quando nós vamos trabalhar letramento em saúde é uma, é o módulo que mais se aplica, né, a nossa realidade do tema. E com certeza vai ser muito perceptível sensível, né, ainda mais quando se trata de alimentação e nutrição. Com certeza ela vai perceber esses gargalos e ela vai, e ela vai ter que atuar de frente aí, né, a respeito disso.
Exatamente, exatamente. Bom, agora vamos conversar um pouquinho com a Alessandra. Alessandra, o estudo aponta que embora as professoras tenham um bom conhecimento em saúde básica, muitas se sentem despreparadas para abordar temas de saúde em sala de aula. Por que que os cursos de licenciatura, que é a formação inicial, ainda falham em preparar os docentes para essa demanda?
Helena, nós temos, como bem colocou a Franciele, ainda um conceito muito centrado na saúde de forma patologizada. Na realidade, nós temos aí um equívoco ao conceituar saúde olhando para aspectos de saúde quando existem ausências de doença, né? E isso, né, todo esse conceito e esses aspectos que são sociais, culturais, eles são também incorporados pela escola, pelos professores. E sendo assim, a saúde ela acaba estando em um campo que é um campo bastante, digamos, especializado tecnocraticamente e de posse de um conjunto de profissionais que estudam saúde.
Enquanto que a educação fica em outro campo e sendo aí, né, trabalhada pelo professor. O professor, ele não se sente e ele não é preparado em sua formação, desde o seu início, né, de formação, para esse contexto de trabalhar saúde enquanto uma transversalidade, né, saúde também num aspecto amplo, é em sala de aula, porque ele traz consigo, né, essa incorporação que é cultural de que saúde não se trata do professor ensinar. E aí isso é um grande equívoco.
Ele não se reconhece como um agente legítimo para trabalhar saúde. E quando ele acaba trabalhando saúde, ele acaba sendo aí mais superficial nos aspectos relacionados ao corpo, a biologia desse corpo, e também às situações patológicas que acometem esse corpo de uma forma mais local, epidemiológica, né? E pouco se compreende então a saúde enquanto transversal e sim legítima de ser tratada pelo professor. O professor, nessa insegurança de trabalhar saúde, ele acaba se eximindo né, de apropriar-se da saúde enquanto uma estratégia de inclusive letrar os seus alunos, letrar os estudantes nos aspectos gerais para o cuidado do seu corpo, para o acesso à saúde, acesso aos serviços de saúde, acesso a direitos que geram, como no caso do direito reprodutivo, do direito sexual, né, e reprodutivo.
Então falta uma comunicação, inclusive tanto do setor saúde quanto do setor escola, para que a gente tenha uma formação continuada, inclusive, do professor. Porque nós temos no Brasil já há alguns anos o Programa de Saúde do Escolar, sendo o primeiro componente uma avaliação mais geral da saúde do escolar. O terceiro componente é a educação em saúde. O profissional de saúde daquele território, da unidade de saúde daquele território, com o professor da escola daquele território.
Bom, você falou uma coisa muito importante, Alessandra, que é a questão da escola e da preparação do professor. Você sabe que eu tenho, eu tive acesso a um livro sobre letramento em saúde na escola, um livro antigo já, também ligado à enfermagem, os autores são enfermeiros. E eles davam uma série de estratégias adequadas ao ambiente. Acho que o livro era dos Estados Unidos. Eles davam uma série de estratégias que as pessoas, os professores, podiam adotar em sala de aula para cobrir exatamente essa lacuna que você disse.
Eu não sei até que nível isso daí era encampado na formação do professor, né? Mas pelo menos incapacitação era. E é uma coisa interessante, porque como você disse, é uma lacuna bem, bem importante nesse aspecto. Então, Alessandra, eu vou aproveitar em cima da sua fala para lhe perguntar: a gente sabe que a sexualidade é um pilar central da saúde ampliada. Como é que o letramento em saúde pode então instrumentalizar a educação integral em sexualidade sexualidade para ir além da mera explicação sobre ESDs e métodos contraceptivos?
Bom, Helena, pergunta importantíssima, né, já que a gente tem aí a sexualidade sim como um pilar central da saúde, da saúde ampliada, em que a educação integral, né, em sexualidade ela vai contribuir para essa saúde ampliada. Bom, partindo do princípio que desde que o mundo é mundo as pessoas se reproduzem e que nós precisamos adquirir conhecimento sobre o como nos reproduzimos, aí vai, vão caindo as fichas, né? A gente, enquanto professor, E aí o papel desse professor, e esse professor assumir o papel que é dele legitimamente de ensinar sobre esse corpo e das relações desse corpo, se sentindo empoderado para isso, porque a estrutura não empodera, ele tem medo de falar sobre, né, ele tem medo de falar sobre o corpo uma vez que a família pode reclamar, a família pode dizer que ele avançou.
E ele também às vezes manda até um bilhete, né, para poder pedir autorização para família. Mas espera aí, por que que eu vou pedir autorização para família para falar sobre esse assunto se eu não peço autorização para família para falar sobre coração, pulmão, sobre o tato, e de forma geral sobre todas as estruturas anatômicas e sobre a fisiologia dessa, desse funcionamento corporal, né? Então eu não estou avançando, eu não devo pedir autorização para família.
Por quê? Porque a escola é de minha competência. Na escola ensinar, né, é de minha competência enquanto professora ensinar. E ensinar o quê, né? Ensinar a concepção. Mas até mesmo antes, nos nos primeiros anos, ainda nos centros maternos e infantis, solicitando a criança licença, pedindo para criança licença para poder higienizá-la na sua intimidade, né, despila, porque o corpo dela não é um corpo que vai andar nu. E colocar isso para ela, quem que pode tocar, em que momento tocar e como tocar.
Né, então é muito lúdico e faz todo sentido quando a gente ensina o semáforo do toque, mostrando num bonequinho onde eu posso tocar, em que momento, para que a criança inclusive seja uma criança que tenha instrumentos para identificar quando ela é vítima de uma violência, de uma violência sexual. E ela poder manifestar, ela entender que ela está sendo vítima dessa violência, porque senão ela também naturaliza. Será que isso é assim mesmo, né?
Porque o corpo, Helena, ele é um corpo que dá prazer, ele é um corpo de prazer. Só que esse prazer, que ele é um prazer construído ao longo do tempo como algo que é pecaminoso e que ele não pode ser desfrutado, ao mesmo tempo, no mundo dos adultos, no mundo dos jovens, ele é. E é isso que acontece para que as pessoas se reproduzam, né? Existe um desejo, existe um prazer. Então, a concepção desse prazer, de como lidar com esse prazer e e como lidar com as relações entre as pessoas, e que permeadas por esse prazer, é importante que seja desde pequena, né, a pessoa instruída sobre: mas espera aí, qual é a lente que eu vou usar?
Com que vocabulário eu vou falar? É claro que o meu entendimento é um e o entendimento daquela de criança é muito diferente. Então eu tenho, eu não posso ter ansiedade em ensinar coisas muito antes das suas condições racionais, intelectuais. Então ensinando o semáforo do toque é uma ótima estratégia. Quem tocar, em que momento tocar, de que forma tocar, né? Então para que essas crianças percebam sejam vítimas de violência, por exemplo.
Mas voltando, né, a questão ainda da sexualidade enquanto um pilar na saúde sexual e reprodutiva, e de forma ampliada, né, a gravidez ela é um fato materializado no corpo da menina. Que pode acontecer. A gravidez na adolescência, ela tá aí, e os números ainda são números que são alarmantes, não é verdade? Eu não sei se você tem acompanhado, Helena, mas a gente ainda tem um número muito expressivo de gravidez na adolescência no Brasil.
Tem diminuído, mas a gente tem inclusive aí a adolescência, no âmbito da Organização Mundial da Saúde, ela é classificada como a segunda— classificada não, conceituada como a segunda década de vida da pessoa. Então, se a gente for pensar, segunda década de vida, a gente tem de 10 a 19 anos, certo? E aí eu tenho também no Ministério da Saúde, lá no DataSus, que é alimentado pelos dados de declaração de nascidos vivos. Quando a criança nasce, né, o profissional da saúde preenche uma declaração, isso vai para o Ministério, e lá a gente tem como acessar esse dado.
A gente tem um dado da SUS, né, e que esse dado também foi um dado estudado pela Rede Feminista de Saúde, Rede Nacional Federal, né, feminista de saúde, em que uma menina, pasme, mas uma menina de 10 a 14 anos, ela é mãe a cada 20 minutos no Brasil. Esse foi um dado levantado de 2010 a 2019. Mas quando a gente vai olhar para o Estatuto da Criança e do Adolescente, 10 11 até 12 anos ainda é criança. Ela é criança até 12 anos. Então a gente está tendo uma gestação infantil.
E como eu olho para essa gestação infantil? O que acontece com essa menina quando ela fica grávida dentro da escola? Veja que são São várias problemáticas que partem de situação, né, de uma situação que a criança que não foi cuidada devidamente, que não foi protegida devidamente pelo Estado, pela família, pela professora, pelos professores, pela escola, pois professores e a própria escola é o Estado, né, território não protegeu.
E aí essa criança engravida, essa criança normalmente, o que as pesquisas mostram, é que ela evade a escola, ela não volta para escola, ela passa a assumir um papel que era antes de escolar, agora ela passa a assumir um papel de dona de casa, de mãe. E como que fica vida jovem e adulta dessa pessoa pode estar comprometida, principalmente nas questões relacionadas à sua própria saúde, porque pode desenvolver situações importantes como diabetes, hipertensão.
A estrutura do corpo que vai gestar e que vai carregar um peso que é um peso importante para estrutura óssea, para pelve, que é quem segura, né, todo o peso abdominal. Enfim, então veja, ela sai do papel de escolar, ela assume um papel de mãe e por vezes de esposa, de dona de casa, muito precocemente. E ela tem aí toda uma situação de enfrentamento ao mundo do adulto que a ela é dado apenas a culpa de ter engravidado. Mas ela engravidou por quê?
Por que que ela engravidou, né? Então a gente, enquanto profissional, tanto profissional da escola quanto o profissional da saúde, né, tanto os agentes escolares, professores, quanto os profissionais da saúde de forma muito geral. Nós precisamos proteger a infância, nós precisamos resguardar a infância. Afinal, criança não namora. Inclusive, nós temos isso no Código Penal desde 1940, né, é relação sexual com crianças abaixo de 14 anos é estupro de vulnerável.
E aí a gente naturaliza uma gestação de uma menina de 12, 13, 14 anos, simplesmente abre o pré-natal, essa menina sai da escola, e como fica, né? Então assim, o olhar vai olhar vai para onde? O olhar vai para onde? O olhar vai para a menina que despertou, que teve o desejo, a menina que engravidou. Mas espera aí, será que essa gravidez foi uma gravidez de uma gestação consentida, de uma relação sexual consentida? E aí que tá, abaixo de 14 anos, mesmo que consentida, não se entende como consentida, porque essa pessoa não tem discernimento racional para consentir esse ato.
E isso é um letramento, né, integral em saúde sexual e reprodutiva. E nós, como adultos da relação que somos com essa criança, por vezes fazemos vista grossa diante disso. Mas veja que trabalhar esse assunto na escola não é ensinar relacionar-se sexualmente, muito pelo contrário, é ensinar que a relação sexual ela vai acontecer e deve acontecer mediante sim as condições de assumir esta relação. E quando isso vai acontecer? Quando existe uma racionalidade bem estabelecida, um manejo do desejo bem estabelecido.
Então, quando eu não, não preparo a pessoa, e aí vamos falar tanto de meninas quanto de meninos, quando não existe essa preparação, quando nós acabamos erotizando essa temática, e ela não é uma temática que deve ser erotizada, muito pelo contrário, ela deve ser sim uma temática naturalizada do âmbito do desenvolvimento humano e das relações humanas que ao jovem, ao adulto, né, e não a criança. Então assim, é sim uma naturalização que deve ser construída pelo profissional da educação, mas também pelo profissional da saúde, porque parece parece que é algo que não existe, mas mesmo profissionais da saúde— parece que pode ser contraditório isso que eu vou dizer— mas mesmo profissionais da saúde, eles podem não ser profissionais letrados em saúde sexual e reprodutiva, né?
Quando o olhar dele não é um olhar que parte dessa concepção fisiológica humana, né, de nossa existência, e parte só para o olhar estigmatizado, preconceituoso, né, é dessa, de toda essa vertente que é falar sobre sexualidade e reprodução. Ou seja, trabalhar a saúde ampliada, e nesse caso, como é ampliada, ela vai contemplar a sexualidade como um pilar, é transcender ou mostrar uma figura de uma genitália toda cheia de feridas, com a intenção de causar o medo e que esse medo seja um medo pedagógico.
Não, não dá, né? Eu tenho que avançar isso. As infecções sexualmente transmissíveis, elas devem ser sim trabalhadas, mas como uma consequência de uma relação sexual que foi desprotegida. E aí ela foi desprotegida por quê? Quais os métodos que podem ser implementados? Como que é o acesso a esse método? A gente falou bastante até agora, eu falei bastante até agora sobre a questão dos 10 aos 14. A partir dos 14, o método contraceptivo deve ser implementado se existe uma relação sexual ativa, se já acontece uma vida sexual ativa, né?
E aí você pode me falar, né, Helena, não, Alessandra, mas não é precoce? Mas os números estão mostrando que as meninas estão engravidando. Então será que é precoce ou será que a gente tá deixando de ensinar o que nós precisamos ensinar e por isso as meninas e os meninos, né, estão se relacionando precocemente de forma não protegida. Porque esse acesso ao método, ele é direito, ele é um direito sexual reprodutivo. Então ele é do âmbito do Sistema Único de Saúde, inclusive tem nas unidades de saúde.
Mas aí a gente tem uma outra situação. Informação, como são as barreiras a esse acesso, desde a barreira dentro da escola com o falar sobre, o ensinar sobre e legitimar que o adolescente, o adolescente a partir de 14 anos, se já tem uma vida sexual, que ele sim deve utilizar de um método contraceptivo. E não simplesmente é colocar essa barreira ao acesso e lá na unidade de saúde ter sobre o balcão da unidade de saúde, logo na recepção, um cesto cheio de camisinhas, né, de métodos contraceptivos de barreira, seja feminino, masculino, ou hoje mais usualmente usado como interno e externo.
E a pessoa ter vergonha, ter pudor em acessar o método, porque ela vai ser olhada de forma diferente, né? Então nós precisamos buscar essa intersecção entre escola, que é o campo legítimo da educação, do ensino, formal, e do campo saúde, que é o campo legítimo de cuidar da saúde quando já também precisa de alguma intervenção, né? Porque saúde transversalmente é do âmbito de todos. E aí, quando temos essa intersecção, fica mais nítido o campo saúde e o campo escola como territórios importantes para promover saúde, para prevenir gravidez na adolescência, para prevenir IST, mas também para prevenir situações de violência sexual.
Para prevenir situações que lá na vida adulta são reflexos desta fase, né, que é a criança, a fase da infância, a fase da adolescência, e que tá realmente bastante concentrada com a sua vivência, o seu tempo de vida dentro da estrutura escolar. Então, profissional da educação, principalmente professores que são professores das ciências, professores da biologia, né, das ciências biológicas, devem sim usufruir do seu papel e se encher de forças, né, se encher de— e quando eu digo forças, forças pedagógicas, né, instrumentos pedagógicos, naturalizando o ensino sobre saúde sexual e reprodutiva no seu fazer como profissional da educação.
Buscar formas. E aí, né, Helena, você pode perguntar, mas de que forma, né? Você, de que forma, de que forma ensinar isso? Primeira naturalizando a temática. Primeira coisa, naturalizar, como eu já disse. Segunda, os métodos, que são métodos, né, implementados de forma lúdica, de forma que a criança, o adolescente, tem aí, né, a conversa entre seus né, dividir a sua rotina, revelar como os seus medos podem acontecer. Então, nas metodologias, sim, que nós colocamos como metodologia, entendemos como metodologias ativas, é uma ótima forma.
Porque assim, professores que trabalham, já trabalharam essa temática na sala de aula sabem muito bem que essa temática é uma temática que envolve muita participação dos alunos. Eles gostam de falar sobre. E também, na hora que nós vamos abordar, é importante a gente colocar a seriedade da temática, né? É porque vai acontecer do escolar começar com riso, com piada, mas importante do professor colocar seriedade sobre o assunto.
Assim como existe seriedade em trabalhar como funciona o coração, também, também existe a seriedade em trabalhar com a saúde sexual e reprodutiva, né? E as piadinhas, elas acontecem por quê? Porque já existe entre as crianças e adolescentes um conhecimento prévio. E esse conhecimento, ele tá sendo trazido de que forma? Por quais fontes? Quais vias? E é por isso, inclusive, que deve ser sim abordado pelo professor na sala de aula.
Exatamente, Alessandra. Fica assim uma reflexão super importante, né? Para necessidade de nós termos professores que assumam esse protagonismo na escola, né? Para além do que vem sendo discutido mesmo, eu ainda vou mais além. Não é só o limite dos conteúdos que são dados hoje. Você falou uma coisa muito importante: dá uma fotografia horrorosa para ver se educa pelo medo, que vai totalmente contra o que os fundamentos do letramento em saúde, né?
E nós temos perdido, né, um tempo incrível agora, desde a gestão Bolsonaro até a gestão Lula. Não estou aqui fazendo nenhuma política partidária, estou falando dos dois tipos de governo. A comunidade, a comunidade discute a questão das cartilhas, se vai ou não vai privilegiar a população LGBT, mas na verdade tem muito mais coisa para ser discutida, né? O que é importante são esses aspectos que você falou, são esses aspectos que precisam ficar claros, né?
Então eu acho que é um alerta para os nossos governantes, seja direita, seja esquerda, seja o que for, é um alerta para os nossos governantes se debruçarem para essa questão da interseção entre a saúde geral, a saúde na escola e o papel do professor nesse contexto, né? Não, muita coisa para reflexão. Muita coisa para além do que tem sido discutido, muita coisa. E agora vou para você de novo, Franciele. Nesse contexto todo que a Alessandra discutiu, vocês promoveram um curso de formação continuada com professores da rede pública e voltaram 6 meses depois para fazer entrevistas e acompanhar o impacto.
O que que de fato mudou se mudou, né, na prática pedagógica desses docentes, Franciele?
Então, Helena, eu digo para você assim que na minha concepção foi uma das partes mais emocionantes e gratificantes, sabe, da pesquisa, acompanhar essas professoras 6 meses após o término do curso, né, da formação continuada. Ela foi muito emocionante quando você percebe assim que a professora fala assim: nossa, agora eu entendo o porquê que precisa de um questionário sociodemográfico, o preenchimento do questionário sociodemográfico.
Lógico, é para sabermos a questão dos determinantes de saúde que aquela criança enfrenta. Sabe, isso, um exemplo, isso foi um dos exemplos que eu gosto muito de citar, mas que é tão gratificante, né, o entendimento daquele instrumento que é tão rotineiro na questão escolar ou em qualquer outro setor, mas que às vezes as pessoas não entendem a importância que tem, né, a leitura que se faz daquele instrumento. E quando a formação continuada ela é reflexiva e centrada no diálogo, ela transforma a escola.
Porque a pesquisa científica, ao meu ver, ela só faz sentido se ela transformar vidas no cotidiano, né? E aqui eu destaco para vocês 4 mudanças observadas aí no chão da escola. Que foram depois desses 6 meses que essas professoras tiveram a formação. E uma delas foi a virada de chave pedagógica que elas tiveram. Então, as professoras, elas relataram que abandonaram a visão puramente biologicista, né, ao ensinarem esses tópicos, por exemplo, como nutrição, viroses ou sistema imunológico, elas passaram a integrar os determinantes sociais da saúde.
Então as aulas passaram a debater por que certas doenças atingem mais as periferias, né, o impacto do saneamento e a importância do SUS, por exemplo, porque nós pontuamos também nessa transposição didática as redes assistenciais que nós tínhamos. Outra questão é a perda do medo e acolhimento na sexualidade. Então a postura em relação à sexualidade mudou radicalmente pelo relato delas. O tema deixou de ser um tabu evitado, como bem diz a professora, né, Alessandra, e ou empurrado para o final do ano, né, aquele conteúdo que sempre você deixa para frente, vamos deixar, né.
Então as professoras, elas relataram maior segurança técnica e emocional para responder atender as dúvidas dos alunos com empatia, né, sem julgamento moral, criando um ambiente seguro de escuta na própria sala de aula. Uma outra questão também que foi bem pontuada pelas professoras: o uso de metodologias ativas, né. Então elas começaram a aplicar em suas turmas aquilo que nós conduzimos lá na formação continuada, que foram exemplos de como aplicar desse letramento em saúde baseada no currículo que elas têm, que fora a questão dos situações-problemas que nós utilizamos, né?
Então, é análise de notícias para ensinar os estudantes a identificarem esses fake news que nós temos hoje no cotidiano, a buscarem as fontes de dados confiáveis. E outra coisa também foi empoderamento da consciência de cidadania, Então a formação ela permitiu que as docentes se reconhecessem como agentes promotoras de saúde e cidadania na escola e não meras repassadoras de conteúdo de livro, né, ou repassadoras de pontos ali, né, de eixos de diretriz curricular.
Então elas relataram que seus alunos eles passaram a engajar mais questionando a realidade do seu próprio bairro, do seu próprio cotidiano, né? E aí eu quero deixar aqui um destaque muito especial, que se nós coletamos esses frutos ali, colhemos esses frutos, foi porque uma equipe esteve por trás, né? Esteve por trás e à frente dessa pesquisa, né? E tudo que ela profundo. Nós tivemos, por exemplo, a professora Fernanda, que é a bióloga que estava nos acompanhando, né, foi a orientadora da tese.
Nós tivemos a professora Solange Conterno, que é pedagoga especialista em saúde escolar, né. Então nós tivemos aí uma equipe que permitiu e conduziu para que essa pesquisa se com diversas percepções, diversas visões, diversas leituras ali sobre a saúde na escola.
Muito legal isso, viu, Franciele? Muito legal mesmo. Eu tô muito entusiasmada com essa temática de vocês. É assim, coisas que a gente não para para pensar, porque a gente também pela mídia a gente acaba centrando naquilo que a mídia discute em relação ao ensino da sexualidade na escola. Então a gente também fica por fora, né? E é um trabalho belíssimo aí, porque pode ser estendido a nível de Brasil, né? E por falar nisso, o trabalho tá disponível para que os nossos leitores possam ver detalhes do que vocês estão trazendo para gente?
Com certeza, Helena. Ele se encontra, né, no banco de dados de tese, dissertações aí da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, a Unioeste, né? Então ele tá ali na íntegra para quem quiser ver o passo a passo da nossa pesquisa e replicá-la, né? Ficaremos felizes, né, se essa realidade também for utilizada para outros contextos aí, né, do letramento em saúde escolar.
Eu vou colocar na descrição do episódio o link de acesso para o pessoal poder acompanhar e ver mais detalhes, né? Vocês foram muito claras, mas é claro que o pessoal quer ver como é que bota a mão na massa, né? Vamos dizer assim, né? Como é que faz realmente, né? E assim, para ir além das discussões que estão sendo feitas, né, como eu tinha comentado agora há pouco, né, a gente discute algumas coisas e deixa discutir as mais importantes, que até essas que a gente discute estariam embutidas nessas maiores, né?
Como eu citei o exemplo de discutir ou não se é o papai e a mamãe, ou se são dois pais, ou se são duas mães. Essa questão, logicamente, quando eu digo que ela não tem, não é importante, é claro que ela é importante, mas não é importante sozinha, ela é importante contextualmente falando, né? A hora que você tá trabalhando o corpo das pessoas, trabalhando as ideias, trabalhando a saúde no global, né? E a gente que é fora dessa área de ensino, a gente só acompanha esses grandes debates que acontecem e a gente deixa de prestar atenção que aquilo que não tá sendo debatido é muito, muito, muito importante, né?
E vocês estão trazendo essa experiência belíssima aí de tentar preparar o professor para que ele possa ir mais fundo nessa abordagem, né? E assim, o mais importante que eu acho é porque vocês têm uma, tem uma visão já do pós, né, do pré e do pós. Então vocês têm uma intervenção que apontou que valeu, né, que foi, que foi bem, bem recebido e que foi aplicado. Isso que é uma coisa muito importante, né? Então eu acho que isso pode dar muito subsídio vídeo para quem tá interessado nisso.
Até porque o próprio, a própria legislação agora de envolvimento do enfermeiro nas escolas, pela primeira vez coloca aí na resolução do COFEM o letramento em saúde escrito com todas as letras, né? Não, aí é bom, né?
Não, isso. E uma prática que já é utilizada em muitos países, né? Esse destaque do enfermeiro escolar, que nós estamos um pouco atrasados nesse, nesse quesito, né? Mas a gente sabe que existe essa, esse destaque do enfermeiro escolar em diversos, né, países, e que é uma prática que dá muito certo.
Exatamente, exatamente. Eu tô achando que essa resolução do conselho de vocês, que já foi até falada essa resolução aqui no um dos nossos episódios. Eu acho que a enfermagem saiu na frente na discutir essa questão da inserção na escola, principalmente incluindo aí a abordagem letrada em saúde, né? Então é uma coisa que é realmente um marco, um marco divisório aqui para nós da saúde escolar, a inserção do enfermeiro com a obrigação, vamos dizer assim entre aspas, de desenvolver ações que levem em consideração o letramento em saúde, promovam o letramento em saúde do público-alvo, né?
Muito legal, muito legal, gente. Eu tô muito contente com a vinda de vocês. Queria saber se vocês ainda querem complementar alguma coisa antes da gente encerrar a nossa entrevista. Daria para passar o dia aqui conversando, né?
Certo, Helena. Eu gostaria de deixar uma mensagem final, sim, para todos os pesquisadores, né, principalmente aqueles que pesquisam letramento em saúde, é de não ter medo de humanizar a ciência, né, que a biologia em si ela não é feita de conceitos isolados, ela ganha vida quando ela toca a realidade social e emocional, por exemplo, dos alunos da escola, como como nós comentamos aqui. Então, promover o letramento em saúde é dar a esses estudantes as ferramentas para que eles vivam com dignidade e autonomia, né?
E não simplesmente pesquisar por pesquisar. Essa pesquisa, ela precisa fazer a diferença, né, no cotidiano dessas pessoas.
Exatamente. Quer acrescentar alguma coisa, Alessandra?
Eu agradeço, Helena, agradeço, Franciele, a oportunidade, a Franciele, de estar aqui comigo hoje compartilhando desta, do resultado desta pesquisa, que foi uma pesquisa muito, muito rica em seu fazer, porque a gente faz trabalho, fez trabalhando com professores, com agentes escolares, e houve essa devolutiva do resultado positivo. Então agradeço, Helena, a oportunidade, me coloco à disposição para estarmos em outros momentos falando sobre essa temática, que é uma temática que que ao mesmo tempo é uma temática que é tão antiga, mas que ainda precisa ser naturalizada entre nós como matemática da saúde ampliada.
E o Brasil precisa caminhar muito para isso, porque os números mostram resultados que não são resultados muito bons ainda. Acabei não falando falando mais de forma geral, não entre adolescentes e crianças, mas de forma geral, mulheres brasileiras engravidam sem o desejo de engravidar. São as relações, são as gestações não intencionais. Ou seja, né, Helena e Fran, essa temática não é uma temática que está somente como necessária, e que é somente necessária entre crianças e adolescentes, mas também para o mundo adulto, e que deve começar desde que nós nos entendemos como pessoa e levaremos para o resto de nossas vidas, da criança até a idade aí mais avançada, né, a melhor idade, né, desde aí, porque também sexualidade está presente entre o idoso.
O idoso tem a sua sexualidade e que também não falamos sobre isso, também ocultamos. E aí a gente também tem uma crescente nessa faixa etária de infecções sexualmente transmissíveis, né. Então veja, Apontam os números de uma pesquisa bem importante feita no Brasil, que é Nascer no Brasil. Foi um inquérito nacional realizado aí inclusive pela Fiocruz. E esse inquérito nacional, ele apresenta que mais de 50% das mulheres em 2010, 2011 2011, e foi um inquérito feito nas capitais brasileiras, mais de 50% tiveram seus filhos sem o desejo, sem o devido planejamento de tê-los naquele momento.
Ou seja, falamos pouco, entendemos pouco, somos pouco letrados em saúde reprodutiva. Não implementamos os métodos contraceptivos de forma adequada, não utilizamos, não temos o acesso, ou como tá esse acesso, não implementamos, enfim, de maneira adequada. Esse número internacionalmente ele é de 40%. Precisamos entender aí que internacionalmente estamos levantando números da África, inclusive, né, de países que têm o seu desenvolvimento muito ainda a desejar em relação ao nosso desenvolvimento econômico, social, e que o nosso está assim, né, num desenvolvimento que É, hoje nós somos em números, mortalidade materna, infantil, muito melhores do que fomos na década de 70, da década de 80, mas nós precisamos avançar muito porque ainda temos uma morte materna alta, ainda temos uma mortalidade infantil que não deveria existir.
E aí, no caso da morte materna, esse número ele tá relacionado sim às desde a pré-concepção. Veja que então ele é do mundo da saúde ampliada totalmente. Sexualidade e reprodução é do âmbito da saúde ampliada. Então eu agradeço, agradeço a oportunidade por estar aqui, por poder trazer essa temática para esse canal, que é um canal tão importante. Parabenizo você, Helena, pela condução aí desse canal e me coloco à disposição. Meu muito obrigada, muito obrigada, Franciele, também por compartilharmos juntos desta experiência. Um abraço a todos, aos ouvintes e a vocês. Muito obrigada.
Maravilha. E olha, se vocês quiserem ter outra entrevista conosco abordando um outro aspecto da pesquisa, Nós estamos aqui é para isso. A obrigação da Hebraus é exatamente socializar esses conteúdos e dar ferramentas para que as pessoas possam avançar no letramento em saúde no país. Então agradeço, agradeço nossos ouvintes porque eles constroem a permanência do nosso podcast, e agradeço principalmente hoje a vocês duas que vieram aqui tão generosas para compartilhar esse conhecimento que vocês adquiriram, essas experiências que vocês tiveram e esses resultados maravilhosos que vocês tiveram.
Então, muitíssimo obrigada e aguardamos aí todos para o nosso próximo episódio. Tchau, tchau, gente!