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ABANDONO, DOR E UM RECOMEÇO INESPERADO | HISTÓRIA DA CLEIDE | QUEM AMA NÃO ESQUECE 18/03/2026

19 de março de 202613min
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A Cleide foi abandonada pela mãe e criada pelo pai junto com o irmão. Aos 9 anos, perdeu o pai após um derrame, então eles foram morar com uma tia, mas começaram a sofrer agressões dos primos e foram obrigados a trabalhar para sustentar a casa. Cansados da violência, os dois fugiram para as ruas e, depois de muitas dificuldades, conseguiram recomeçar a vida. Já adulta, Cleide teve quatro filhos e enfrentou relacionamentos difíceis, marcados por drogas, traições e problemas com a justiça. Mesmo assim, criou os filhos sozinha, com muita luta e trabalho. Hoje vive um casamento de quase 10 anos com um homem que a respeita e a apoia. Aos 49 anos, ainda reencontrou a mãe biológica e descobriu irmãos que não conhecia. Hoje, seus quatro netos são sua maior alegria e a prova de que, mesmo depois de tanta dor, a felicidade pode voltar.
Assuntos8
  • Violência contra a mulherAgressões físicas dos primos · Trabalho infantil forçado · Negligência e fome · Exploração econômica
  • Morte do Pai e TraumasPai sofre derrame aos 9 anos · Impacto emocional da perda · Mudança para casa da tia · Transformação de vida após morte
  • Resiliência pessoal e institucionalForça interior para continuar · Superação de adversidades · Felicidade possível após dor · Importância dos sacrifícios
  • Fuga para as ruasDecisão de escapar da violência · Mãe foge primeiro · Cleide foge depois · Vida nas ruas e sobrevivência
  • Relacionamentos FamiliaresMãe ausente nos primeiros meses · Criação pelo pai · Impacto emocional do abandono · Relacionamento futuro com a mãe biológica
  • Novo casamento respeitoso e de apoioMarido respeitoso e gentil · Dez anos de casamento estável · Respeito aos filhos · Reconstrução de vida a dois
  • Encarceramento de familiarFilho preso por três anos · Visitas à prisão · Esperança de mudança · Aceitação de limites maternos
  • AutoconhecimentoDificuldade em se reconhecer depois de anos · Foco apenas nos filhos · Aprendizado tardio de cuidar de si · Mudança de perspectiva
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Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, pra quem não desiste de lutar, a felicidade ainda vai chegar. Na Band FM, quem ama não esquece. A vida muitas vezes pesa, machuca e coloca à prova a nossa força. Mas pra quem não desiste de lutar, a alegria sempre encontra um jeito de chegar. Eu tinha só alguns meses de vida quando a minha mãe nos deixou.

E o meu irmão também. Quando meu pai chegou do trabalho, encontrou a gente lá, sentadinhos no portão, sozinhos, esperando. A partir dali, éramos nós três contra o mundo. Meu pai, meu irmão e eu. Ele nos triou sozinho e trabalhava muito pra sustentar a gente. Meu pai nunca deixou faltar cuidado, nem amor. E sempre foi um pai maravilhoso. Ele fez tudo, tudo o que podia por nós.

Decidiu ir embora para São Paulo com a gente. E nós fomos morar na casa da minha tia, a irmã dele, que já era casada e tinha dois filhos mais velhos. Por um tempo ficou tudo bem. Mas quando eu tinha uns 9 anos, meu pai sofreu um derrame no trabalho. Naquele dia, ele acordou cedo, disse para minha tia que estava com muita dor de cabeça. Ela pediu para ele ir no médico, mas meu pai respondeu que não podia perder o dia de serviço porque precisava do dinheiro para comprar os nossos materiais escolares.

Foi mesmo com dor. Quando eu cheguei da escola, eu fui até o serviço para ver como ele estava. Mas quando eu cheguei lá, meu pai já estava caído no chão, praticamente desmaiado. Levaram ele às pressas para o hospital e de lá, de lá ele nunca mais voltou para casa. Eu só fui ver meu pai de novo, dentro de um caixão. Eu era só uma menina, só uma criança. E naquele momento eu senti como se o meu mundo inteiro tivesse desabado.

Meu pai era tudo pra mim e pro meu irmão também. Era ele quem cuidava da gente, quem lutava por nós todos. E perdeu meu pai? Daquele jeito ainda foi uma dor enorme pra gente. Uma dor que eu nunca vou conseguir esquecer. Eu e meu irmão ficamos morando com a nossa tia. Mas algum tempo depois ela ficou doente e também acabou falecendo. Com a morte dela, a nossa vida mudou completamente. E eu e meu irmão começamos a sofrer na mão dos nossos primos mais velhos.

que a gente trabalhasse para sustentar a casa. E tudo que a gente ganhava ficava com eles. Nós catávamos frutas e legumes que sobravam na feira e também pedíamos pão de porta em porta para os vizinhos. Algumas pessoas até ajudavam, mas a maioria só xingava a gente. Achava que a gente não queria trabalhar. Ninguém sabia do que a gente passava naquela casa. Ninguém sabia até das agressões físicas que a gente sofria.

Chegou a desmaiar. A gente cresceu naquele ambiente de medo e violência. Até que chegou um momento em que não dava mais pra continuar ali. Então, nós decidimos fugir. Primeiro, meu irmão conseguiu escapar. E eu fiquei lá sozinha, apanhando e sofrendo. Meu irmão foi pra casa de um amigo e algum tempo depois eu também consegui fugir. Mas eu ainda fiquei um tempo vivendo na rua até conseguir encontrar com ele. Depois, meu irmão arranjou um emprego e nós conseguimos uma casa pra morar.

Os anos passaram, eu conheci o pai dos meus filhos e eu fui morar com ele. Mas com o passar do tempo, ele começou a usar drogas e ficou muito agressivo também. Ele queria me bater, queria vender as coisas dentro de casa para comprar drogas e eu não aceitei nada daquilo. Então eu peguei meus filhos e eu fui embora. Graças a Deus! Eu tive a ajuda de uma senhora que me acolheu como filha e com quem eu tenho contato até hoje. A vida também é feita das ajudas que a gente encontra pelo caminho.

eu conheci uma outra pessoa e eu tive o meu filho caçulho. Mas infelizmente essa história também não foi pra frente. Ele fazia um monte de coisa errada, vivia sendo preso. Eu sempre acreditava que ele ia mudar, sempre. Mas a verdade é que toda vez acontecia a mesma coisa. E era cada vez pior. E além de tudo, ele também passou a se envolver com outras mulheres. Uma hora eu cansei daquela vida. Cansei das traições e fui embora pra criar meus filhos sozinha. Não foi fácil, não foi mesmo.

Aliás, eu posso dizer que foi bem difícil. Mas só quem é mãe sabe a força que a gente carrega dentro do peito. Uma força que faz a gente levantar mesmo quando tudo parece perdido. Uma força que faz a gente continuar lutando. Mesmo quando o coração está cansado. Uma força que faz a gente seguir em frente. Mesmo quando a vida parece empurrar a gente para trás. Uma força que faz a gente suportar a dor.

continuar lutando pelos filhos todos os dias. Hoje, todos são adultos. E cada um construiu a sua família. O mais novo é o que mais me preocupa. Assim como o meu ex-marido, ele também foi pra um caminho errado e nunca me perdoou por eu ter terminado com o pai dele. E eu já paguei clínica pra ele três vezes, mas nunca adiantou. E quando eu comecei a me envolver com uma outra pessoa, aí que as coisas pioraram. Eu sei que não é fácil pra ele, Cleide, mas eu nunca quis ocupar o lugar de ninguém.

ele é cadeça dura. Sempre foi assim. Não é quem não gosta de você. Ele só... Ele tem dificuldade pra aceitar mudança. Eu não quero me intrometer na relação de vocês. De verdade. Eu só quero que ele saiba que eu tô aqui porque eu te amo. Eu passei tantos anos só focada nas crianças que às vezes eu acho que eu nem sei mais quem eu sou. Além de mãe. Você não precisa escolher entre ser mãe ou mulher. Eu tô aqui porque eu te amo. E porque eu quero caminhar do seu lado. Eu respeito muito seus filhos.

Respeito o tempo deles. Mas você também merece viver. Merece sorrir. Merece ser feliz. Eu não vou desistir da gente. Por causa da resistência dele. Não vou. Meu filho escolheu o caminho errado. E assim como o pai também terminou o preso. Agora eu só posso visitar o meu filho e ajudar no que está ao meu alcance. Mas no fundo eu entendo que ele só vai mudar quando ele quiser. Não quando eu quiser. Mesmo com tudo isso acontecendo, eu decidi não deixar mais de viver a minha vida.

Fiz de tudo pelo meu filho. Tudo. Ajudei no que eu pude. Paguei aluguel pra ele. Paguei contas de água. Fiz mercado. Nunca deixei faltar nada. E mesmo assim, ele não aceita o meu casamento. Não aceita que depois de tudo que eu passei na vida, eu também tenha o direito de reconstruir a minha história. Eu passei a vida inteira lutando. Sofrendo. Criando meus quatro filhos praticamente sozinhas. Enfrentando tanta coisa difícil que eu nem sei dizer aqui.

Entendi que eu também mereço tentar ser feliz. Meu marido é um homem tão bom. Ele me respeita, ele me ama. Me trata com todo cuidado e carinho. Me apoia e caminha do meu lado. Juntos nós estamos construindo uma nova vida com muito esforço, trabalho e dignidade também. Às vezes a gente acha que não vale a pena acordar às três e meia da manhã pra ir trabalhar, né? Mas olhando pra tudo isso agora, eu vejo que valeu. Eu nem consigo acreditar, sabia? Às vezes eu olho...

E eu ainda nem consigo acreditar. Pois acredite, porque é real. É real e fruto de muito amor, Cleide. Primeiro apartamento, agora essa casa na praia. Ai, às vezes parece até um sonho tudo que a gente conquistou. Toda vez que eu lembro de onde a gente começou, eu tenho mais certeza ainda de que todo sacrifício valeu a pena. Porque a gente nunca desistiu. Nunca desistiu do nosso futuro. A minha vida inteira foi dedicada aos meus filhos.

neles. Eu trabalhei, eu lutei, eu enfrentei tanta dificuldade e deixei muitas coisas de lado pra conseguir. Eu nunca tirei um tempo pra mim, eu nunca parei pra pensar na minha própria vida, nem nos meus próprios sonhos. Minha única preocupação sempre foi cuidar deles, sempre foi garantir que eles crescessem, que tivessem oportunidades que muitas vezes eu nem sonhei em ter. Mas agora, depois de tantos anos vivendo pelos outros, eu tô tentando aprender a olhar um pouco pra mim também.

E não é fácil, viu? Não, não é fácil mudar depois de tanto tempo. Mas eu tô tentando. E eu vou conseguir sim. Quando eu tinha 49 anos, a minha filha resolveu procurar na internet por informações sobre a minha família. E foi assim que ela acabou encontrando a minha mãe. A mãe que me abandonou quando eu ainda era criança. Depois de tantos anos, depois de uma vida inteira praticamente sem saber nada dela, eu finalmente fui conhecê-la. Nesse encontro também conheci irmãos que eu nem sabia que eu tinha.

Hoje em dia, sempre que eu posso, eu vou visitá-la. Nós conversamos, eu a respeito muito e eu peço adenção como uma filha deve sempre fazer. Eu não posso dizer que eu sinto um amor de mãe dela por mim, como um dia imaginei que sentiria. O que existe entre nós é respeito e carinho. Mas não é aquele amor que nasce quando uma mãe cria, cuida e acompanha a vida de um filho, não é. Mesmo assim, eu agradeço a vida que eu tenho porque eu tenho sim muitas alegrias.

Quatro netos. Um de 14, um de 10, um de 3 e o meu caçulinha, que fez 7 meses agora. Eles são a minha alegria, eles são a minha razão de viver. Eles são a minha família, né? Quando eu tô com eles, meu coração se enche de amor. Sabe, é totalmente diferente, é especial. E só de lembrar, eu fico emocionada. Eu amo ver cada um crescendo. Eu amo ouvir a voz deles me chamando de vó. E cada momento que nós estamos juntos é inesquecível pra mim.

Eles trazem uma alegria diferente para a minha vida. E quando eu olho para os meus netos, correndo pela casa, rindo, brincando, me chamando de vó, eu penso em tudo que eu vivi para chegar até aqui. Foram tantos anos de luta, meu Deus, foram tantos anos. Tanta dor. Muitas noites achando que eu não ia conseguir continuar, mas eu continuei. Eu continuei para os meus filhos, eu continuei pela vida. Continuei porque, mesmo quando tudo parecia perdido, eu nunca deixei de acreditar.

Que dias melhores iam chegar? Hoje eu olho pra minha família, hoje eu olho pros meus netos, pra tudo que eu construí. E eu entendo uma coisa. Aliás, uma coisa que é muito importante. A vida pode até machucar. Pode até te derrubar. Aliás, ela derruba a gente muitas vezes, né? Mas pra quem não desiste de lutar, a felicidade sempre encontra um jeito de voltar pra sua vida.

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