O TIRO QUE ME DEVOLVEU A VIDA | HISTÓRIA DA ELAINE | QUEM AMA NÃO ESQUECE 13/03/2026
- Bala perdidaTiro no rosto · Quase morte · Deficiência Visual Infantil · Dor física extrema · Momento de transformação
- Transformação PessoalRessignificação do trauma · Vocação em Psicologia · Ajuda a outras pessoas · Resiliência · Renascimento pessoal
- Reabilitacao FisicaCirurgias múltiplas · Dor pós-trauma · Processo de cicatrização · Aceitação da realidade · Recomeço
- Casamento precoce e relacionamento abusivoCasamento jovem · Controle e isolamento · Oposição familiar · Construção de vida em comum · Solidão no casamento
- Luto familiarMorte prematura · Saúde Emocional · Isolamento · Dificuldade de comunicação · Trauma prolongado
- Aprendizado contínuoLeitura em braille · Educação formal · Formação em Psicologia · Superação de limitações · Retorno aos estudos
- Timidez e superaçãoDificuldade em falar com pessoas · Deslocamento profissional · Isolamento no trabalho · Falta de palavras · Retraimento
- Relacionamentos FamiliaresSeparação · Independência · Tomada de decisão · Coragem para mudança · Reconstrução pessoal
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, você é capaz de reconstruir a sua vida. Na Band FM, quem ama não esquece. Quantas vezes você já deixou de fazer algo que gostava? Por achar que não era capaz. Eu, pelo menos, já fui essa pessoa. Por muitos anos me escondi dentro de mim mesma. Me diminui, me calei. Até que a vida me deu um chacoalhão e me fez renascer. O clarão veio antes do barulho.
Segundo, o mundo inteiro explodiu diante de mim. Eu não tive tempo pra entender, pra reagir, pra correr. Tudo era só um branco forte. E depois, o escuro total. Eu ouvi alguém gritando, eu senti o sangue escorrendo pelo meu rosto. Mas o mais estranho é que o medo não me dominou. Naquele instante eu tive uma sensação diferente como se de repente alguma caixa tivesse se aberto dentro da minha cabeça.
apagar, eu me vi caminhando em direção a uma porta. E de certa forma, eu tava mesmo. Naquele dia, uma parte de mim morreu. Mas essa não foi a primeira vez que eu desapareci. Eu já vinha sumindo há muito tempo. Eu tinha oito anos quando eu perdi meu pai. Ele era meu chão. Trabalhava muito, mas sempre dava um jeito de ter um tempo só comigo. Um tempo que eu amava. Quando ele morreu, alguma coisa em mim se fechou.
Eu tinha muita dificuldade para falar com as pessoas. As palavras não saíam. Eu travava. Eu me enrolava e eu me sentia completamente deslocada. Por causa disso.
E eu fui pra uma salinha pequena. Só com mais três meninas. Era mais quieto, era mais reservado. E pra mim... Ai, era um alívio. Mas depois de cinco anos eu comecei a sentir que eu precisava crescer. Foi nessa época que surgiu uma vaga em outra empresa. E com a experiência que eu já tinha, eu consegui um emprego. No meu primeiro dia de emprego novo, eu descobri que de mulher só tinha museu e a faxineira. O resto, todos os funcionários eram só homens.
Eu já tinha dificuldade de falar. Imagina naquele ambiente então. Olha, foi tão difícil que eu pensei até em desistir. Mas com o tempo eu vi que não precisaria interagir muito com ninguém. Então eu ficava mais na minha sala, bem quieta. E no fim, foi mais tranquilo do que eu podia imaginar. Só que foi ali, da janela da minha sala, que eu comecei a reparar no Luciano. Ele era diferente. Educado, respeitoso.
rosto. Aquilo me chamou a atenção. Um dia eu acabei comentando até com a faxineira que tava reparando nele fazia tempo. E no dia seguinte, ele apareceu na minha sala me chamando pra sair. E eu fiquei morta de vergonha. Mas eu aceitei. Pode vir. Pode entrar no carro. Você tá maluco? Você perdeu a noção, é? Primeiro que esse carro é da empresa e segundo que eu não vou, não, não. Não vou sair rodando por aí com homem nenhum, não. Meu Deus! Não pode ser. Você tá falando
Tô. Quer sair comigo? Então vai ter que ser a pé. Não. Ser assim, tá bom. Espera que eu vou estacionar. O Luciano estacionou o carro e a gente saiu andando sem rumo. Conversa vai, conversa vem. Quando eu percebi, já era noite. E foi tão especial. Com o passar dos dias, a gente foi se aproximando cada vez mais. Ele começou a ir lá em casa, mas minha mãe, infelizmente, implicou com ele desde o início. No Natal, ele me deu uma aliança com pedrinhas de rubi.
Ela falou em casamento pela primeira vez. Estava tudo acontecendo muito rápido e eu sabia que minha mãe era contra. Mas eu escolhi ouvir o meu coração. Eu queria, queria viver aquilo. Eu ainda nem conhecia a família dele e só no dia do noivado ele me levou na casa da mãe dele. Em menos de um ano a gente tinha namorado, noivado e já ia se casar. A gente começou a organizar o casamento do jeito que dava.
Eu fui fazendo meu enxoval aos pouquinhos. Mas a casa a gente só ia procurar depois. Quando eu marquei a data e convidei a minha mãe, ela disse não. Aliás, ela disse um não bem grande na minha cara. Não importava o que o Luciano fizesse, ela não aceitava. Tinha ciúme, implicava com tudo. Eu também tentei chamar meu irmão e ele não quis também. Mesmo com todo mundo contra, eu decidi casar. Eu amava o Luciano.
E seguir em frente, mesmo doendo. No dia do casamento, eu me arrumei sozinha. Eu coloquei o meu vestido, eu fiz o meu cabelo, eu me maquiei. E o Luciano passou pra me buscar. Foi tudo tão simples, sabe? Eu tinha casa? Não, não tinha. Não tinha nada certo. Mas naquele momento, a gente tava feliz. Nossa lua de mel foi no sítio pequeno de um tio dele, bem improvisado. Mas era o que tinha. Quando nós voltamos ainda na rodoviária,
uma cena que eu nunca esqueci. O Luciano estava andando na minha frente e, de repente, veio uma voz muito clara dentro de mim dizendo que a minha vida ia ser muito difícil. Eu ouvi. Ouvi mesmo. Eu respirei fundo e escolhi fingir que não era comigo. A gente morou um tempo com a minha sogra e depois alugou uma casa simples no interior. Eu não conhecia ninguém lá e o Luciano não queria muito que eu trabalhasse. Ele saía cedo, voltava só à noite, enquanto eu passava o dia inteiro
sozinha. Eu comecei a me fechar de vez. Eu fui me encolhendo, me isolando até quase desaparecer. A Elaine tava sumindo e eu nem percebia isso. Às vezes eu tinha vontade de comer um pão, de tomar um leite, coisa simples, e eu não tinha como. Todo o dinheiro ficava nas mãos dele e eu me sentia dependente até pra comer. Nos finais de semana, quando a gente ia pra casa da mãe dele, eu ficava no meu canto, quietinha,
Porque mesmo sendo esposa, eu não me sentia parte da família. Era como se eu estivesse ali, mas não pertencesse. Depois de um tempo vivendo assim, a gente se mudou. Mas poucos dias depois, o teto da nossa casa desabou. E aquilo foi um choque. Nós tivemos que morar de favor na casa da minha mãe por um tempo e recomeçar a nossa vida. Nessa época eu consegui um trabalho como secretária e eu fiquei muito animada. Eu precisava daquilo. Mas o ciúme do Luciano começou a me sufocar de um jeito.
boa, minha maquiagem era exagerada, trabalhar aos sábados era um problema pra ele. Nada tava bom. E isso refletia em mim. No fim do período da experiência, eu fui mandada embora. E lá estava eu outra vez. Trancada, desempregada, me apagando por dentro. Eu engolia frustração pra manter a minha paz. Eu vivia medindo cada palavra e com medo das reações dele. Eu já tava tão exausta. Até que a vida me deu um chacoalhão daqueles que
Doem. Mais doem. Só pra me lembrar de quem eu era. Um dia eu e o Luciano fomos pra casa da mãe dele. E nós passamos por uma feira. A rua tava cheia de barraca. Muita gente, muito movimento. Ele estacionou. Nós entramos, conversamos um pouco. E na hora de ir embora, o Luciano ficou no portão se despedindo enquanto eu fui andando até o carro. E aí, aconteceu uma coisa muito estranha. A rua que tava lotada minutos antes tinha ficado vazia.
Silenciosa demais. Eu abri a porta do carro. Puxei o banco. E quando eu me inclinei para entrar, eu senti. Senti alguma coisa me atingir. Uma explosão. Um clarão muito forte, como se uma luz tivesse estourado bem na minha frente. Depois tudo ficou escuro e aí foi como se um telão se abrisse diante de mim. Eu me vi usando uma camisola longa, dourada.
Eu sabia que estava indo para algum lugar. Faltavam dois passos. Só dois passos para eu chegar. Eu estava quase. Você levou um tiro. Entra logo no carro. O quê? O tiro? Onde? Entra, Elaine. Rápido, entra. O que está acontecendo? Você levou um tiro e eu vou te levar para o hospital agora. Entra logo. Eu sentia o sangue quente escorrendo pelo meu rosto e eu não entendia nada. Eu tentava olhar para o Luciano, mas a minha visão estava toda embaçada.
Tudo se apagou de vez. Ele me colocou no carro desesperado, saiu acelerando. Quando nós chegamos no hospital, o médico perguntou meu nome e eu respondi. Eu falei normal, totalmente consciente, totalmente lúcida. Eles fizeram os primeiros atendimentos e depois eu fui encaminhada para outro lugar para fazer uma tomografia. Foi aí que perceberam que a situação era muito grave. A bala tinha entrado no meu rosto, atravessado a região do olho e parado dentro da minha cabeça.
Eu fiquei internada alguns dias, mas depois eu recebi alta. Eu fui para casa achando que eu ia melhorar, mas só piorou. A dor começou a crescer de um jeito que eu não sei explicar. Quando eu deitava, era como se eu estivesse flutuando dentro da minha própria cabeça. Como se eu não estivesse inteira dentro do meu corpo. Eu sabia que tinha alguma coisa muito errada comigo. Meu irmão me levou de volta para o hospital. Quando eu cheguei e contei que tinha sido baleada há cinco dias, o médico ficou em choque.
Na mesma hora, decidiu me internar e foi ali que eu ouvi o que ninguém está preparado para ouvir. Que talvez precisassem retirar um dos meus olhos. Que o outro estava com o nervo atingido e que provavelmente eu não voltaria a enxergar. Me levaram para a cirurgia no dia seguinte, quando eu acordei. O médico entrou no quarto, retirou o tampão e apontou uma luz nos meus olhos. Eu esperei e ele não disse nada.
Saiu do quarto. A minha mãe foi atrás dele no corredor desesperada. Perguntando se ainda existia alguma chance, qualquer chance, qualquer coisa que pudesse fazer eu voltar a enxergar. Mas ele foi tão direto. Ele disse que não. Não, eu nunca mais ia enxergar. Foi ali naquele momento de dor e de medo que começou a nova fase da Elaine. Porque a Elaine que tinha paz, essa já tinha ido embora.
Que começou a nascer uma nova Elaine. Porque a Elaine que tinha medo, a que se escondia, a que se calava pra manter a paz, essa já tinha ido embora. E mesmo sem enxergar o mundo pela primeira vez, eu comecei a me enxergar por dentro. No quarto do hospital, por mais estranho que pareça, eu era a mais bem-humorada. Eu brincava, eu ria, eu dizia pros médicos que tava tudo bem, mesmo depois de ouvir notícias tão duras.
dentro de mim e estivesse decidido que eu não ia me entregar. Depois veio uma outra cirurgia, longa, mais de 12 horas. E quando eu acordei, a minha mãe estava ali, segurando a minha mão. Não foi fácil. Aliás, foi bem sofrido. Durante a internação, minhas veias estouravam fácil. Os remédios ardiam, doíam. E quando operei a cabeça, voltei com o Breno.
uma saúde muito boa. Que meu corpo reagia bem. Era pra eu ficar 15 dias internada, mas com 11 ele já me deu alta. Voltar pra casa me trouxe uma outra realidade. Minha mãe tinha mudado os móveis de lugar, colocou minha cama na sala pra facilitar. E aí começou um novo processo, né? O da recuperação. Luciano foi retomando a rotina dele. Saía, trabalhava e vivia entre consultas e exames. Eu tirei os pontos da cabeça,
De orelha a orelha. E aguentei a dor em silêncio. Mas vieram outros problemas. Eu não conseguia movimentar o meu maxilar. Não conseguia mastigar. Minha boca não abria mais. Eu precisei fazer exercícios, fazer fono e tudo doía. Doía muito. Foram 11 meses até eu conseguir voltar a mastigar normalmente. Minha mãe queria muito ajudar. Mas a verdade é que ela já convivia há muitos anos com uma depressão forte.
Entendi que eu precisava dar conta da situação. Então eu voltei a fazer as tarefas da casa. Lavava a louça, varria o chão, tudo, tudo. Eu tava reaprendendo a viver. Eu também fui pra cozinha e eu voltei a cozinhar. Eu ia pelo cheiro, pelo som das panelas, pelo toque. E pra falar a verdade, eu até cozinhava bem. Aquilo me devolvia um pouco de mim, sabe? Algum tempo depois do acidente, eu já sabia que o meu casamento tinha acabado já fazia tempo, né? Só faltava coragem pra admitir.
Eu queria que o Luciano fosse embora, mas o medo me prendia. Medo da reação dele, medo de mudar outra vez. Medo. Medo de tentar me reconstruir. Eu ensaiei essa decisão tantas vezes. Voltei atrás todas as vezes. Até entender que continuar ali também era uma escolha. E era a que mais estava me machucando. Cara, é essa, Elaine? O que você quer conversar? Eu tenho que trabalhar?
você fique preso a nada. Desembucha, fala logo. Olha, você é muito novo, você tem muito pra viver ainda. Minha vida agora é isso aqui, Luciano. É pesado, é difícil e por isso é melhor você ir embora. Vai seguir sua vida? Peraí, por que isso? O que as pessoas vão falar de mim? Fica tranquilo, fica tranquilo. Eu mesma vou dizer que eu falei pra você ir embora. Você jura? Se é isso que você quer, então eu vou. Ele foi morar com a mãe dele e eu fiquei com a minha mãe.
No começo ele ainda ligava, insistia para eu passar os finais de semana lá, mas eu recusava. Com o tempo, até as pessoas que diziam se importar foram sumindo. Fiquei só eu e uma vida inteira para reconstruir. Eu segui. Reaprendi a viver. E foi justamente na escuridão que comecei a descobrir uma força que eu nem sabia que existia dentro de mim. Eu aprendi a usar bengala, eu fiz curso de informática para deficiente visual e comecei a lembrar ele.
aprendi a me virar sozinha, minha mãe só piorava. Eu a levava ao médico, organizava os remédios e ainda enfrentamos juntas um câncer de mama. Ela fez cirurgia, acompanhamento e eu estava com ela em todas as consultas. No fim, nós duas vencemos. Ela venceu o câncer. E eu mesmo, sem perceber, também estava vencendo a minha própria história. Depois de alguns anos, eu resolvi estudar. Prestei vestibular e comecei a cursar psicologia.
esse curso porque sempre amei ouvir, conversar, acolher. Eu me identificava de verdade. Passei na faculdade e mesmo enfrentando preconceito, as dificuldades, as dependências em algumas matérias e todos os desafios que uma pessoa cega tem que enfrentar dentro de uma universidade, eu fui até o fim. Meu TCC foi sobre o luto de quem perde a visão na fase adulta e eu me formei. Depois eu fiz massoterapia, comecei a atender de forma voluntária e criei um projeto
chamado Abra Seu Coração. Um grupo onde as pessoas podem falar dos seus sentimentos sem medo de julgamento. Hoje eu tenho meus pacientes, meus projetos e a minha independência. O tiro deixou marcas no meu corpo e limitações na minha vida também. Mas não levou a minha alegria. Não levou minha vontade de viver. Não levou meu propósito. Eu poderia ter parado naquele dia. Poderia ter escolhido a revolta, a tristeza, o isolamento. Mas eu escolhi continuar.
Eu não morri naquele dia, não. Eu renasci. Eu renasci. E se eu conseguir me reconstruir no escuro,
qualquer pessoa também pode encontrar a própria luz. É isso que eu quero que você que está ouvindo a minha história tenha em mente. Você é capaz de reconstruir a sua vida.