O INCÊNDIO QUE MUDOU A MINHA VIDA - HISTÓRIA ESPECIAL DIA DA MULHER 06/03/2026
- Medo de IncêndiosCasa pegando fogo em 2016 · Morte das duas filhas pequenas · Filho João gravemente queimado · Sobrevivência e resgate · Sequelas físicas e cirurgias
- Recuperação e Reabilitação do JoãoSeis meses em coma · 23 cirurgias reparadoras · Perda da mão direita e outras mutilações · Terapia e acompanhamento contínuo · Retorno à vida normal
- Força maternal resiliênciaMaternidade solo antes do incêndio · Escolha de não desistir · Sustentação emocional do filho · Superação do medo e insegurança · Empoderamento através da dor
- Desafios PessoaisMorte das duas filhas · Processamento do luto interrompido · Aceitação da perda · Perdão da irmã responsável · Saudade contínua das filhas
- Relacionamentos FamiliaresCriação das três crianças sozinha · Prioridade absoluta nos filhos · Sacrifício materno · Conexão emocional profunda · Legado das filhas falecidas
- O Papel da Fé e EspiritualidadeConfiança em Deus durante crise · Oração de mãe no hospital · Aceitação e perdão · Propósito na dor · Milagre da sobrevivência do filho
- Aceitação da nova identidadeCicatrizes físicas visíveis · Luto pela aparência anterior · Preconceito e Discriminação Social · Terapia para aceitação · João como criança alegre e comunicativa
- Proposito e SignificadoViralização da história nas redes sociais · Ajuda a pessoas com depressão · Mensagem de esperança e força · Transformação da dor em salvação · Mensagem para o Dia da Mulher
- Reabilitacao FisicaConhecimento no samba · Apoio durante a crise · Auxílio com documentos e caixões · Suporte emocional constante · Casamento após sete anos de namoro
- Trauma Pós-IncêndioPesadelos recorrentes · Gatilhos com cheiro de queimado · Fobia de novo incêndio · Superproteção do filho · Tratamento psicológico contínuo
Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, às vezes a gente não escolhe a batalha, mas escolhe a vitória. Na Band FM, quem ama não esquece. Acordar, trabalhar, cuidar das crianças e dormir. Essa era a minha rotina. Eu, Jamile, Jasmine e João. A nossa casa não era grande, a vida não era fácil. Mas era nossa. E não, não, não era cansativo. Era um privilégio.
pelo sustento da minha família e precisava ser mãe e pai 24 horas por dia. Tinha dias difíceis, claro, claro que tinha. Mas cada sorriso deles quando eu chegava do trabalho, cada braço apertado, valiam mais do que qualquer cansaço. Cada segundo ao lado deles era ouro pra mim. Eu já tava solteira há um ano quando eu decidi me permitir conhecer alguém. A minha amiga tinha acabado de perder o pai e pediu pra eu ir num samba com ela pra distrair a cabeça.
Eu fui. E foi lá que eu conheci o Haroldo. A gente começou a conversar e no fim da noite, eu dei o meu número de telefone pra ele. As coisas foram acontecendo e quando eu percebi, a gente já tava até namorando. Foi tudo muito rápido, mas de um jeito leve e tranquilo. Só que, com sete meses de namoro, o nosso amor foi colocado à prova de um jeito que eu nunca poderia imaginar. Em 13 de outubro de 2016, tava chovendo muito.
Saí do trabalho, passei no mercado e voltei pra casa. Mas a região tava toda sem energia. Eu deixei as compras e pedi pra minha irmã, que morava na casa de baixo, pra ficar com os meus filhos enquanto eu ia até a minha sogra tomar um banho, já que não dava pra tomar em casa. Mas aí, quando eu ia voltando, ainda de longe, eu sentia um cheiro tão estranho. Era cheiro de queimado. Eu comecei a andar mais rápido e, quando eu me aproximei da minha casa, eu vi. Eu vi tudo. Tudo pegando fogo.
Tudo com muita fumaça. Eu fiquei paralisada por alguns segundos. Ali, na minha frente. O fogo tava acabando com tudo. Tudo que eu tinha levado uma vida inteira pra construir. Mas o que realmente me apavorou não foi isso, não. Naquela hora, só vinha uma coisa na minha cabeça. Meus filhos? Eu preciso tirar os meus filhos dali. Eu corri pro portão, mas ele tava trancado. Eu comecei a sacudir, a empurrar, a bater.
Foram segundos, mas pra mim parecia que o tempo tinha parado. E depois de tanto forçar, eu consegui abrir. Eu entrei no meio daquela fumaça toda, daquele calor, sem nem pensar em nada. Peguei minha filha mais nova, que tinha 4 anos no colo. E eu vi que ela já estava muito machucada. Eu gritava por ajuda, mas a minha voz não saía. Era um desespero que eu nem consigo explicar aqui. Os vizinhos ouviram e vieram correndo. E a gente conseguiu tirar os meus filhos, minha irmã,
e minhas sobrinhas de dentro de casa. Mas eu já sabia que alguma coisa tava muito errada. Eu vi a pele da minha filha se desfazendo no meu corpo. Eu nunca vou esquecer essa cena. No caminho pro hospital eu tremia. Eu tremia muito, o coração parecia que ia sair pela boca. E no meio daquele desespero todo eu liguei pro Arudo. Juliana, tudo bem? Eu tô jantando ali. Eu preciso de ajuda. A minha casa tá pegando fogo, me ajuda. Como fogo? Sua casa? Eu tô indo aí, eu tô indo aí.
Minha filha agora. Que hospital? Juliana, me fala. Eu tô tremendo, Roldo. Eu não tô conseguindo. Por favor, calma. Eu vou te encontrar. Me fala onde você tá indo. Assim que eu cheguei no hospital, pegaram a minha filha do meu colo e levaram direto pra emergência. Eu fiquei ali parada sem saber o que fazer, pra onde olhar ou o que pensar. Parecia que eu estava fora do meu próprio corpo. Os meus outros filhos não estavam comigo. Cada um tinha sido levado pra um hospital diferente
tinha vaga no mesmo lugar pra todo mundo. E cada um foi com um vizinho. Mesmo naquele caos todo, eu tinha confiança. E acima de tudo, esperança de que tudo ia ficar bem. Apesar de ter sentido a pele da minha filha derretendo e se desfazendo na minha mão, eu tinha fé. E era nisso que eu ia me agarrar. Eu não conseguia raciocinar direito, não conseguia entender o tamanho do que estava acontecendo. Era como se minha mente estivesse tentando me proteger e eu só fui realmente me dar conta
Tudo no dia seguinte. Quando a minha irmã me contou o que realmente tinha acontecido. Ela tinha acendido uma vela porque a casa estava sem energia. E foi para o quarto da frente amamentar as filhas. E foi ali que o fogo começou. Ela só acordou quando eu cheguei. Já com a casa praticamente tomada pelas chamas. Quando eu ouvi aquilo. Eu já estava vivendo a pior dor da minha vida. Mas mesmo assim. Eu entendi que tinha sido uma tragédia. Que tinha sido um acidente. E eu nunca.
Eu nunca culpei a minha irmã. Eu sei que ela já carregava uma culpa enorme dentro dela e eu não queria ser mais um peso. Eu não senti ódio porque, no meio de tudo, eu sempre acreditei que o perdão liberta. Eu já estava presa demais na dor para ainda me prender na revolta. Não foi fácil. Os médicos vieram falar comigo e disseram que 80% do corpinho da minha filha tinha sido queimado e que eles tinham feito de tudo. Tudo o que era possível.
Mas ela não tinha resistido. Eu lembro deles falando. Eu lembro. Lembro de cada palavra. Mas parecia que eu não entendia o que aquilo significava. A minha filha tinha morrido. A minha menininha. De só quatro anos. Eu não pude fazer nada. Eu saí daquele hospital sem chão. Sem ar. Tendo que escolher caixão e resolver assuntos que nenhuma mãe deveria ter que lidar.
Quando eu tentava me manter de pé, o telefone do corpo era do outro hospital pedindo para que eu fosse correndo. Porque minha outra filha não estava bem. Eu larguei tudo que eu estava fazendo e eu fui. Eu só pensava, não, não, não, não pode ser, não pode, não pode acontecer de novo, claro que não. Mas quando eu cheguei lá, eles já tinham desligado os aparelhos. Eu nem consegui me despedir. A minha filha mais velha, de seis anos também, tinha ido embora.
dia. Em um dia eu tinha três filhos. No outro eu tinha um filho internado lutando pela vida e duas filhas mortas. Duas. Perder um filho e enterrar junto um pedaço do próprio corpo que continua doendo mesmo que depois já nem esteja mais ali. Eu enterrei minhas filhas na segunda-feira. O Haroldo esteve comigo o tempo inteiro. Me ajudou a resolver documento, correr atrás de caixão, falou com quem eu não tinha
forças para falar. Mesmo estando comigo há só sete meses e mesmo não tendo tanta convivência com as crianças, ele não saiu do meu lado. Ele foi meu braço direito, o meu ombro, o meu colo. Eu confesso que eu mal tive tempo de chorar. Eu nem consegui viver o luto pelas minhas filhas direito porque eu ainda tinha um filho que estava vivo, que estava lutando pela vida. O João precisava de mim.
de enterrar duas filhas. Mesmo sem entender como eu ainda estava respirando, no dia seguinte eu fui para o hospital com a força que me sobrava. O meu filho estava sedado, ele estava em coma, pequeno, quietinho. Ninguém sabia se ele ia aguentar. Os médicos foram bem sinceros comigo. Disseram que ele provavelmente não sobreviveria e que se sobrevivesse. Poderia ficar em estado vegetativo porque parte da calota craniana tinha
O fogo podia ter atingido o cérebro dele. Você consegue imaginar o que é ouvir isso? Depois de enterrar duas filhas, ouvir que seu único filho vivo talvez não acordasse de verdade nunca mais? Você consegue imaginar? Eu senti como se Deus estivesse me pedindo tudo o que eu tinha. E eu fiquei desesperada. Ali mesmo, no hospital, eu ajoelhei. Eu não fiz oração bonita, não. Eu não fiz.
E eu disse, Deus, Deus se for para ele ficar preso numa cama, sofrendo, se for para o meu filho não ter consciência, não ter vida, leva ele, porque eu não quero que o meu filho sofra. Foi a frase mais difícil que eu já disse na minha vida. Mas eu disse porque amar também é querer poupar da dor. Mas eu também prometi que se ele permitisse que meu filho sobrevivesse,
que fosse até o fim. Foram dias, depois semanas, depois meses, esperando João sair do coma. Ele teve quase 30% do corpo queimado e passou por muitas cirurgias. Meu filho perdeu a mão direita, o nariz, uma das orelhas e um dos dedos do pé. Toda vez que ele entrava naquele centro cirúrgico, parecia que arrancavam meu coração e levavam junto. Eu ficava na sala, olhando por uma porta fechada,
Tentando me preparar para o que vinha depois. E quase sempre o que vinha não era fácil de ouvir. Era medo. Era medo o tempo inteiro. Medo de perder. E no meio de tudo isso, o Arudo tava ali. Olha aqui, olha aqui pra mim. Tá tão difícil. Parece que colocaram um peso em cima de mim que eu não vou conseguir carregar. O João vai sobreviver. Você precisa ter fé, acredita. Eu tenho fé, eu tenho.
Eu não quero que ele sofra. Eu não quero. A gente vai fazer de tudo para ele ter qualidade de vida. Tudo, tudo. Eu vou estar com você. Eu ainda vou jogar bola com ele um dia. Você vai ver. Eu tenho fé. Eu acredito. Ele não era pai do meu filho. Ele não tinha obrigação nenhuma de estar ali. Não tinha obrigação de passar o dia no hospital. A gente estava junto há só sete meses. Ele podia ter ido embora. Mas ficou e mostrou o que era amor de verdade. Ele me dava força.
quando a minha faltava e repetia que tudo ia ficar bem. E isso fez toda a diferença. O João ficou seis meses em coma. Seis meses. Passou por 18 cirurgias, enfrentou enxertos curativos dolorosos, tratamentos que pareciam não ter fim. Cada pequena evolução era uma batalha vencida e nada era simples. No começo foi difícil aceitar que a pele dele nunca mais voltaria ao normal e que o corpinho dele carregaria-se
Cicatrizes pra sempre. Mas depois de tudo que eu tinha perdido, depois de enterrar duas filhas, só o fato dele estar vivo já era um milagre. O dia em que ele abriu os olhos, o dia em que eu ouvi a voz dele de novo, ai, não tinha preço, aquele dia não teve preço. As marcas ficaram sim, mas ele tava ali, ele tava respirando, ele tava vivo. Isso pra mim era... Quando ele teve, autotratamento continuou.
acompanhamentos. Ao todo ele fez 23 cirurgias, muitas delas reparadoras. Na pele, no rosto, nas áreas que foram mais atingidas pelo fogo e ainda continua. Eu não vou dizer que foi fácil porque não, não foi. Além do luto pelas minhas filhas. Eu vivi um outro tipo de luto. O luto pelo filho que eu nunca mais veria sem cicatrizes. Pelo rostinho que eu conhecia, pela mãozinha que não estava mais ali. Era o meu filho.
Eu tinha medo de sair na rua com ele, medo dos olhares, dos cochichos e principalmente medo de alguma coisa ruim acontecer de novo. Eu só queria ficar dentro de casa, tentando proteger ele do mundo como se eu tivesse esse poder, né? De madrugada eu acordava desesperada. Eu sentia cheiro de queimado o tempo todo, achando que a casa estava pegando fogo. Eu demorei muito para aceitar que não tinha mais meus três filhos comigo.
Hoje, qualquer cheiro de queimado já me traz gatilhos. Em 2018, eu comecei a fazer terapia para conseguir liberar o João para ir para a escola. Eu tinha muito medo do preconceito, de como ele ia se sentir no meio das outras crianças. Até que eu entendi que, na verdade, o preconceito estava mais em mim do que nos outros. Eu não podia ficar escondendo meu filho. Hoje, onde o João Vitor vai? Ele faz amizade. É uma criança alegre e comunicativa.
quem encare, quem olhe diferente, mas a gente aprendeu a lidar com isso. Um dia eu publiquei um vídeo nas nossas redes sociais e viralizou de uma forma que eu nunca imaginei. Eu ganhei muitos seguidores, muitas mensagens, pessoas dizendo que a nossa história ajudou na luta contra a depressão. E foi aí que eu entendi que a nossa dor não foi em vão. A nossa história salva vidas. Existe um propósito no João estar aqui. Eu sinto muita falta, claro, das minhas meninas. Falta de brincar com elas,
de pentear os seus cabelinhos, de colocar as roupas. O João também sente. Às vezes ele olha as fotos, ele fica quieto, diz que queria ter as irmãs aqui com ele. Isso corta meu coração. Tem coisas na vida que a gente não escolhe viver. Eu não escolhi passar por nada disso. Mas eu precisava ficar bem pelo meu filho, mesmo quando eu não estava bem. Eu não tive tempo de viver meu luto, de chorar com calma,
Eu fui direto para o hospital ver o meu filho. Eu precisei ser forte por ele, resiliente por ele. Hoje eu acredito que estamos vencendo essa luta que já dura nove anos. Meu filho ainda faz duas consultas psicológicas por semana. É acompanhado pela equipe de cirurgias plásticas uma vez por semana. Isso tudo por causa das queimaduras. A caminhada continua. Mas é ele quem me dá forças. É ele quem me faz levantar todos os dias.
Eu lembro dos seis meses em que ele ficou internado em coma. Eu lembro de toda a dor que eu atravessei para chegar até aqui. E isso me dá forças para continuar lutando. Depois de sete anos de namoro, eu e o Haroldo estamos noivos. Ele me pediu enoivado e agora estamos nos programando para casar ainda esse ano. A mensagem que eu quero deixar com a minha história é sobre a força que eu precisei encontrar dentro de mim.
escolha sobre o que eu vivi. Não escolhi o luto. Não escolhi a dor. Não escolhi enterrar duas filhas. Mas eu precisei passar por tudo isso pra conseguir dar forças pro meu filho. Não tive tempo de chorar como eu queria. Não tive o luxo de desabar. Eu tive que escolher ser forte. Forte por ele. Forte pra sustentar ele mesmo estando quebrada por dentro. Quando eu olho pra trás, eu entendo que mesmo sem ter escolhido a dor,
Eu escolhi não desistir. Eu escolhi ficar, eu escolhi lutar, eu escolhi levantar todos os dias, mesmo sem vontade nenhuma. E foi essa a escolha, repetida dia após dia, que nos trouxe até aqui. Nessa semana de Dia da Mulher, eu quero dizer que ser mulher é isso também. É ser forte quando ninguém vê. É sustentar o mundo com o coração em pedaços e ainda assim continuar.
fé e cicatriza em história. Se você está passando por algo difícil, saiba, você é mais forte do que você imagina. Às vezes a gente não escolhe a batalha, mas escolhe não se entregar. E essa escolha já é uma vitória.