ISSO É AMOR? EU ME LIBERTEI DE UMA PRISÃO - HISTÓRIA DA LILIAN | QUEM AMA NÃO ESQUECE 04/03/26
- Processo de libertaçãoBusca por terapia · Reconhecimento da prisão emocional · Tomada de coragem · Fuga da relação · Saída com apenas roupas do corpo · Ameaças após separação
- Relacionamentos AbusivosControle comportamental · Isolamento social · Monitoramento de celular · Controle financeiro · Monitoramento de terapia · Ameaças e manipulação
- Pilares da Saúde EmocionalDepressão · Perda de identidade · Medo e ansiedade · Recuperação emocional · Redescoberta de si mesma · Sensação de prisão
- Definição de amor saudávelAmor não controla · Amor não machuca · Preservação da identidade · Autonomia pessoal · Respeito mútuo
- Mediação InternacionalAfastamento de amigos · Separação da família · Perda de vínculos · Vida reclusa no lar
Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, relacionamento abusivo nem sempre começa só com tapa. Na Band FM, quem ama não esquece. Quando eu conheci o Ronaldo e a gente começou a namorar, ele parecia diferente de todos os outros homens. Ele simplesmente se importava, sabe? Ele era presente, ele tava ali pra mim. Perguntava onde eu tava, com quem eu tava, que horas eu voltaria. Se não era melhor ele me buscar.
Eu achava bonito e pensava que finalmente tinha encontrado alguém que se preocupava. Já as minhas amigas diziam que aquilo era ciúme. Ciúme até demais. Nada. Imagina, pra mim era só carinho. O namoro foi rápido e em menos de um ano a gente já se casou. E aí sim, depois do casamento as coisas foram se mostrando com mais força. Ainda não era nada muito assustador. Era meio sutil, mas era. Ali tinha alguma coisa.
Ô Lilian, pelo amor de Deus! Essa roupa! O que que tem? O que foi? Tá feia? Não, feia não. De jeito nenhum. Você tá sempre linda, meu amor. Mas a gente tá indo pra uma festa de um amigo meu. Precisa ser um vestido tão justo desse jeito? Mas você acha que é muito justo? Eu acho não. Com certeza é. Você não precisa disso, vai. Mas não era agressivo. Era cuidadoso. E eu, pra agradar, sempre acabava fazendo as coisas como ele queria.
Conforme eu ia fazendo, ele ia aumentando. Era uma régua que sempre subia. Eu só não gosto daquele cara. Ele olha diferente pra você. Eu não falava mais com o sujeito. Sua mãe se mete mais no nosso casamento. Sabe, fica insuportável. E aí, eu preferia me afastar por um tempo da minha família. Eu demorei anos pra entender que não era amor. No começo, eu insistia em chamar de cuidado.
mais sozinha. Não respondia mensagens sem mostrar pra ele. Não usava certas roupas. Não encontrava certas pessoas. E ainda assim, eu me sentia culpada por não ser uma esposa melhor. Quando eu via casos de mulheres até mais próximas a mim, que sofriam agressões, eu ficava horrorizada. O Ronaldo nunca, nunca faria uma coisa dessas. Imagina! Ele podia ter qualquer tipo de defeito, mas ele jamais levantaria a mão pra mim. E só por isso, eu
que eu deveria agradecer a Deus, o marido que eu tinha. Uma época eu perdi o emprego e eu fiquei tão triste. Mas aí o Ronaldo me incentivou a trabalhar de casa pra não ficar parada. Como eu sempre fui boa em trabalhos manuais, ele me ajudou a montar um negócio pequeno de ateliê de costura. Eu fazia bolsas, panos de prato, essas coisas, sabe? Mas infelizmente não deu muito certo e eu comecei a pensar que seria melhor voltar a procurar um trabalho. Só que o Ronaldo foi totalmente
E disse que era melhor eu continuar em casa. Eu acho que foi de tanto tédio que a depressão acabou chegando. Não foi uma coisa que veio do nada, não. Ela foi chegando aos poucos. Depois de cinco anos de casamento, eu já quase não tinha amigas. Vivia presa dentro de casa e dependia do dinheiro do Ronaldo até pra fazer a mão. Isso quando eu fazia. Quando eu percebi, eu não queria mais sair da cama.
um aperto no peito e eu tinha medo. Eu tinha medo de tudo. Medo de falar qualquer coisa. Medo de brigar com o Ronaldo. Medo dele arrumar outra e me largar. Eu engordei tanto. Eu me descuidei e eu fui... Nossa, foi horrível pra mim. Um dia eu criei coragem e eu decidi conversar com meu marido. Psicóloga? Por que isso? Eu não ando me sentindo bem. Você sabe que eu tô estranha.
isso. Eu não quero... Eu não quero ser essa esposa pra você. Isso é fase, Lilian. Fase. Eu amo você como você é. Eu acho que eu preciso de ajuda. Por favor. Eu já vi uma. Não é caro. É... E eu posso fazer aqui de casa mesmo online. Isso é bobagem. Bobagem. Eu não concordo. Eu não concordo. Mas se é isso também que você quer, tá bom. Vai. Faz. Eu posso pagar por um tempo. Mas olha, só por um tempo, hein?
Por semana. E eu costumava fazer à tarde, quando eu estava sozinha em casa. Aí eu fui percebendo que depois de duas semanas, o Ronaldo passou a voltar para casa mais cedo nos dias em que eu tinha psicóloga. Então eu ia para o quarto e fazia a minha sessão. Sempre quando eu saía, ele queria saber sobre o que a gente tinha falado. E por mais que eu falasse, ele ficava perguntando se tinha mais e mais e mais e mais.
Eu estava gostando de fazer terapia. Eu estava gostando de conversar com alguém e de ser ouvida. Eu nem sabia quanto tempo eu não conseguia falar com alguém. Até que um dia, quando eu saí do banho, o Ronaldo estava sentado na cama com o meu celular na mão e uma cara vermelha. Eu conhecia aquela cara.
Era a cara que ele fazia quando ele não gostava de alguma coisa. O que é isso? O que foi que aconteceu? Como saber se eu tô num relacionamento abusivo? O quê? Você pesquisou isso por quê, Lilian? Tá aqui, ó. Tá aqui, no histórico das suas pesquisas. Eu só tava lendo. Você tá dizendo que eu te abuso? Não, Ronaldo, eu não. Quem é que colocou isso na sua cabeça, hein? Aquela pilantra daquela psicóloga, é?
Eu sou abusivo. Eu vou embora. Pronto. Se vira você sozinha. Logo eu que pago tudo pra você. Que te trato como uma rainha. Logo eu que não traio. Que não agrido. Logo eu que não olho nem pra outra mulher. Você tá sendo ingrata. Se devia ver como os homens são por aí. Aí você ia dar valor. Eu fiquei apavorada. O Ronaldo sabia como me ter na mão dele.
se tornou um inferno. Se é que ainda já não era, né? Eu só sei que piorou. Piorou muito. A terapia que estava me fazendo tão bem, eu só pude continuar com uma condição. Ele teria que acompanhar. Isso mesmo. A partir daquele dia, sempre que eu entrava em sessão, eu ficava com o celular em chamada de vídeo. E ele do outro lado, sem que a psicóloga visse pra ver o que a gente estava falando. Quando eu disse que era melhor parar, ele já me acusou de estar escondendo alguma coisa dele.
continuar. Continuei fazendo terapia com o Ronaldo, no mesmo quarto que eu estava, ouvindo tudo. Se a psicóloga perguntasse ou falasse alguma coisa que ele não gostasse, ele me olhava com tanta raiva e eu logo já ia mudando de assunto com ela. Ele começou a dizer que eu estava mudando, que eu estava distante, que a terapia estava destruindo o nosso casamento. E eu comecei a acreditar nisso. Talvez eu estivesse mesmo
Talvez eu fosse mesmo ingrata. O Ronaldo era um homem bom, trabalhador, que me amava, que me respeitava. Sabe, o pior tipo de prisão é quando você começa a duvidar da própria percepção. E eu já não sabia mais o que era real. Depois foi o celular. Ele me proibiu de ter. Eu só podia usar quando estivesse do lado dele. E olha que eu nem tinha rede social há muitos anos. Mas nem celular mais eu poderia ter.
a controlar o dinheiro de um jeito mais rigoroso, se eu pedia 50 reais pra ir no mercado, eu tinha que mostrar notinha e explicar porque que não tinha o troco, mesmo que fosse 5 reais. Se eu comesse um chocolate na rua, por exemplo, e não tivesse a nota, ele já criava motivo pra desconfiar. Se eu conseguisse, por milagre, fazer alguma venda dos meus produtos, ele queria saber exatamente onde que eu ia gastar o dinheiro e às vezes, mesmo sem precisar,
deixar com ele. E se eu precisasse, eu que pedisse. Mas o pior mesmo. O pior foi que ele passou a me expor para os outros. Se a gente encontrava algum familiar ou conhecido, mesmo que não fosse próximo, ele dizia que eu estava em depressão, que minha cabeça estava doida, que eu andava misturando as coisas, que eu estava confusa com tudo. Ele dizia que eu esqueci umas coisas e criava histórias. Eu ficava em choque. E eu nem conseguia me defender.
Depois, se eu falasse no assunto, ele dizia que estava só explicando para o meu bem. Porque, como eu estava em depressão, poderia ter algum surto por aí. E eu comecei a acreditar nisso também. Acreditar que eu estava confusa, que eu podia estar em surto. Até quando a gente tinha qualquer discussão, ele começou a gravar. Ele passou a gravar para mostrar para os outros o estado que eu ficava. Dizendo que eu ficava nervosa demais.
Ele só gravava depois que eu tinha sido provocada até o limite. Depois de horas me testando. Ele me chamava de agressiva, de louca, de perturbada. E dizia que só ele mesmo pra conseguir me aguentar. Eu fui ficando apavorada. Eu não me conhecia mais. Eu comecei a falar mais baixo. Depois eu comecei a falar menos. Depois quase não falava. Eu murchei. Eu adoeci. E talvez, talvez eu tenha mesmo enlouquecido.
Acordou três horas da manhã. Acorda, Lilian. Acorda, levanta. O que foi? O que foi? Eu sonhei que você tava me traindo. Deixa eu ver seu celular. Daqui, daqui. Meu celular tá com você. Eu só uso quando você me dá o celular. Ele não fica comigo. Deve ter alguma coisa aqui. Você deve ter usado sem eu saber. Eu não mexi, Ronaldo. Eu juro, eu não mexi. Amanhã eu vou cancelar a internet aqui de casa. É melhor assim. É melhor assim. Sem internet. Sem dinheiro. Sem trabalho. Sem amigos.
Eu sabia de verdade. Eu estava isolada numa bolha e cada vez mais deprimida. O Ronaldo chegou a dizer que talvez fosse melhor eu tomar remédio para ficar mais calma. E eu comecei a ter medo dele me internar qualquer dia desses. Eu pedia desculpa para tudo. Até pelo que eu não tinha feito. Isso só para não desagradar ele. Ele sabia que tinha entrado na minha mente. Sabia. Sabia que fazia comigo o que quisesse.
Eu já não existia sozinha. Até que uma noite eu sonhei com a minha avó. A mulher que me criou enquanto minha mãe trabalhava. A mulher forte que criou sete filhos sozinha. A mulher que me ensinou a nunca baixar a cabeça. Ela apareceu chorando. Disse que não tinha me criado pra viver daquele jeito. Ela falou que eu precisava voltar a ser quem eu era. A Lilian. Que ria alto. A Lilian. A Lilian.
permissão para existir. E eu acordei com o meu rosto todo molhado e uma sensação tão diferente no meu peito. Não era medo, era vergonha de ter me abandonado. Na manhã seguinte, alguma coisa rompeu. Eu estava sentada no chão da cozinha quando eu entendi. Eu entendi que já tinha perdido quase tudo. E ainda assim o Ronaldo continuava achando pouco. Se eu ficasse, eu não ia enlouquecer.
desaparecer. E pela primeira vez em anos eu senti raiva. Eu senti tanta raiva. E não dele, não. Não era dele. Era raiva de mim. Eu não estava doente, não. Eu estava aprisionada. E aquilo tinha nome. Quando eu disse que eu ia embora, ele riu. Depois ele chorou. Depois ele gritou. Disse que sem mim não ia conseguir viver. Disse até que ia se matar. Pegou uma faca. Encostou no próprio braço. Fez cena.
que eu corresse, que eu implorasse, que eu assumisse a culpa. E eu? Eu fiquei parada. Pela primeira vez eu fiquei parada. Se ele queria se machucar, era escolha dele, não era? Eu passei anos me encolhendo pra salvar um homem que nunca tentou me salvar. Eu não chorei. Eu não pedi desculpa. Eu só disse que eu não era responsável pelo que ele fazia. E aí eu saí. Saí com a roupa do corpo, sem celular, sem dinheiro, sem plano nenhum.
inteira pela primeira vez em muito tempo. Ele ainda tentou gritar atrás de mim que eu não era nada sem ele. Talvez eu realmente não fosse nada daquilo que ele dizia. Mas eu ainda era eu. Eu. E isso já era mais do que ele conseguia tirar. Relacionamento abusivo não começa com tapa. Começa com controle disfarçado de cuidado e ciúme chamado de amor. A violência mais cruel é aquela que manipula e faz você duvidar de si mesma.
Amor não diminui, não isola e não te enlouquece. Amor não precisa de medo para existir. Amor é para ser saudável, alegre e companheiro. Qualquer coisa diferente disso, tenha a certeza, para a sua vida, não vai valer a pena.