ACOLHER A DOR DO OUTRO É DEMONSTRAÇÃO DE AMOR | QUEM AMA NÃO ESQUECE 15/05/2026
- Transtorno do Espectro AutistaAutismo grau de suporte 1 · TDAH · Sensibilidade sensorial · Crises de ansiedade · Levi
- AutoconhecimentoAlívio com o diagnóstico · Compreensão das diferenças · Transformação pessoal
- Paternidade e MaternidadeDiagnóstico infantil · Bebê arco-íris · Acolhimento familiar · Lian
- RelacionamentosAcolhimento e paciência · Intensidade e explosividade · Adaptação e ceder
Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, é melhor uma vida bagunçada com amor do que organizada sem sentimento. Na Band FM, quem ama não esquece.
Às vezes o amor da sua vida não é a pessoa que vai tentar te mudar. É a pessoa que permanece até quando nem você consegue se compreender. Eu conheci o Tiago através de uma amiga em comum. E toda vez que a gente se encontrava era muito divertido. A gente se dava bem. Mas também era só isso, viu? Não existia aquele algo a mais.
A vida seguiu, eu vivi alguns relacionamentos, ele também. Até que, depois de alguns anos, a gente acabou se aproximando de novo. Só que dessa vez foi diferente. Quando nós percebemos, já estávamos saindo toda semana. Só nós dois. E tudo acontecia de um jeito muito natural, sabe? A gente amava sair pra jantar, pra conversar, pra rir. E nunca faltava assunto.
Até porque eu sempre falei demais, enquanto o Tiago era o tipo de pessoa que sabia ouvir de verdade. Acho que foi aí que a gente começou a se encaixar sem perceber. Nós tínhamos algumas diferenças, mas mesmo com elas, a gente acabou virando unha e carne. E depois de uns dois meses saindo, ele me pediu em namoro.
Eu aceitei sem pensar duas vezes porque já dava para sentir quem ele era. O Tiago tinha um coração bom, daqueles raros. Ele me queria por perto de um jeito sincero, sem ficar medindo as coisas, sem joguinhos. E isso me ganhou completamente. Quanto mais eu conhecia ele, mais eu tinha certeza de que queria viver tudo ao lado dele.
Só que no começo do namoro a gente também passou a discutir bastante por causa das minhas grosserias. Eu era muito intensa, explosiva às vezes. Eu falava sem pensar. Enquanto o Tiago era completamente diferente de mim. Muito mais calmo, mais paciente, mais equilibrado.
Você não percebe mesmo, né? O quê? Às vezes, do teu jeito. Você... Você é meio grossa. Eu grossa? Como assim que eu sou grossa? Sei lá, parece que você não tem filtro. Fala umas coisas assim, muito na cara. Às vezes isso... Isso machuca, viu? Eu? É você. Toma cuidado. Porque nem todo mundo vai entender seu jeito, viu? Toma cuidado.
Eu nunca tinha percebido isso em mim. Achava que era só o meu jeito, que era algo normal. Não fazia ideia de que muitas vezes eu acabava sendo intensa demais sem perceber. Com o tempo eu fui aprendendo, na convivência mesmo, né? Fui tentando conversar com mais calma, pensar melhor antes de falar qualquer coisa, controlar as minhas emoções. Ai, mas nem sempre eu conseguia, não.
Tinha momentos em que parecia mais forte do que eu. Do nada, eu ficava agitada, explosiva, falava sem pensar. E só depois eu percebia que tinha passado do ponto. Enquanto eu tentava entender a mim mesma, o Tiago também foi aprendendo a entender o meu jeito de funcionar. E aos poucos a gente foi se ajustando um ao outro.
Depois de dois anos, a gente começou a pensar em ter filhos. Ser mãe sempre foi um sonho muito grande para mim. E eu tinha uma ordem na minha cabeça. Primeiro terminar a faculdade e logo em seguida viver a maternidade.
O Tiago sabia disso desde o começo. E quando eu me formei, nós decidimos começar a tentar. Eu fui ao médico, parei com o anticoncepcional, passei a tomar vitaminas e fiz os exames. Nessa mesma fase, a gente também decidiu dar um passo maior. E aí decidimos morar juntos.
Já não tinha mais como esconder as diferenças, né? Era a rotina, era o jeito de fazer as coisas, o tempo de cada um. A convivência faz tudo aparecer com muito mais força. A gente tentava se adaptar, mas nem sempre era fácil, não. Não era. Eu sempre fui muito intensa, muito chorona também. E o acolhimento do Tiago fazia toda a diferença pra mim.
Porque mesmo quando eu exagerava ou me desorganizava emocionalmente, ele quase sempre tentava me entender antes de julgar. Só que, dividindo a mesma casa, tudo ganha uma outra proporção. Eu sempre morei sozinha. Então, na minha cabeça era ou é do meu jeito ou é do meu jeito.
E conviver com alguém quebra isso na prática. Mudar era muito, muito, mas muito difícil para mim. E com o tempo, eu fui percebendo que muitas vezes, mesmo gostando de tudo do meu jeito, a minha rigidez acabava dificultando mais do que ajudando no dia a dia. E até no nosso relacionamento, né?
A gente precisou aprender, na convivência mesmo, que amar também é ceder, é ajustar as coisas e respeitar o tempo do outro. Não era sobre quem estava certo, era sobre fazer dar certo. Então a gente foi se ajudando, se entendendo e aprendendo a ser cada vez mais abertos um com o outro.
Depois de cinco meses tentando engravidar, veio o positivo. E nem teve aquele suspense, porque naquela fase, fazer teste já tinha virado algo muito comum pra gente. A surpresa mesmo ficou pra nossa família. Nós montamos caixinhas com sapatinhos de bebê, adesivos na tampa pra contar a notícia. Foi algo simples, mas muito especial pra nós dois.
O Levi nasceu em 2018 e minha primeira gestação foi tão boa. Foi uma fase maravilhosa para nós dois. A cada dia eu me apaixonava ainda mais pelo meu marido, porque a gente se uniu muito durante esse período. Existia uma expectativa muito bonita em volta da chegada do nosso filho. Mas, conforme o Levi foi crescendo, algumas coisas começaram a me chamar a atenção. Na época eu não desconfiava de nada.
Eu só sentia que ele era um bebê diferente. Ele quase não dormia, chorava muito com qualquer estímulo. Parecia se incomodar demais com o barulho, com muito movimento, com mudança de rotina. Mas como era meu primeiro filho, eu achava que podia ser só o jeitinho dele, né?
Quando ele estava com cinco anos, a gente foi num evento. E aí eu percebi o quanto aquilo estava sendo difícil para ele. O Levi chorava, mas ele chorava. Parecia completamente sobrecarregado com o barulho, com as pessoas, com os estímulos ao redor. E foi ali. Ali eu comecei a observar algumas coisas com mais atenção. Nós procuramos ajuda psicológica e começamos uma série de consultas. Um monte de avaliações para entender o que estava acontecendo.
Só que no meio desse processo, aconteceu algo que eu nunca imaginei. A cada avaliação do meu filho, eu começava a perceber alguns sinais iguais em mim também. Até o Tiago, que convivia comigo todos os dias, começou a perceber as semelhanças.
Ele comentava sobre situações que pareciam pequenas, mas que afetavam muito mais do que deveriam. Em ambientes com muito barulho, por exemplo, eu me sentia completamente perdida. Eu sempre tive muita dificuldade com roupas, tecidos, etiquetas. Tudo isso me incomodava, sabe? O contato com a pele me deixava nervosa. Coisas que pareciam bobas para outras pessoas, mas que realmente me afetavam muito.
eu comecei a perceber o quanto a minha parte sensorial era sensível. E tinha outra coisa que começou a chamar a minha atenção também. Quando eu ia para festas, eu não precisava beber nada para ficar fora de mim. Só a música alta, só as luzes, o excesso de estímulos, já me deixava extremamente agitada, acelerada, eufórica.
Era como se o meu cérebro entrasse naquele estado sozinho. Mas eu nunca imaginei que aquilo pudesse significar alguma coisa. Eu achava que era só o meu jeito de ser. Acho que tudo ficou ainda mais claro em um dos momentos mais difíceis que eu passei. Teve um dia em que eu estava em casa e a ansiedade saiu completamente do controle.
Eu chorava, mas eu chorava sem conseguir parar. Parecia que nada fazia sentido, que nada tinha solução. Eu só queria ficar deitada no escuro, isolada de tudo, de todos. Foi nesse dia que o Tiago conversou sério comigo.
Eu acho melhor eu marcar uma consulta com o psiquiatra, viu? Você não tá bem. Olha aqui. Essas crises que você tem não são normais. Não, não, não. Não, não, não, não precisa. Eu vou melhorar. Eu vou... Deve ser alguma coisa que tá me deixando assim, mas... Daqui a pouco vai passar. Sempre passa, né? Tanara, olha pra mim. Olha aqui. Olha aqui. Eu não vou deixar minha esposa sozinha. Eu não vou deixar você num quarto escuro, chorando, sem saber por quê. Não faz sentido. Tá, você tem razão, Will.
Eu também tenho percebido alguns sinais em mim e eu acho que é melhor mesmo. Pronto, pronto. Eu vou marcar. Nas primeiras consultas, o foco foi tratar a ansiedade, porque era o que mais estava afetando a minha vida. Só que ao mesmo tempo eu comecei a notar várias coisas que eu percebia em mim.
Pequenos comportamentos, manias, sensibilidades, reações, coisas que pela primeira vez pareciam fazer parte de algo maior. Eu fiz uma lista com 10 sinais que já não pareciam mais simples coincidências. E durante uma pré-avaliação, a minha psiquiatra percebeu que praticamente todos os pontos batiam.
Então ela me encaminhou para uma neuropsicóloga para investigar transtorno do espectro autista e TDAH também. Foram várias sessões. Foram testes, perguntas, conversas, um processo longo, muito, muito emocional também. Eu confesso que no fundo, eu tinha medo. Porque uma parte de mim queria respostas, mas a outra tinha medo do que ia ouvir.
Até que, no final das avaliações, veio o diagnóstico. Autismo grau de suporte 1. Eu sei que muita gente imagina que receber um diagnóstico assim traz dor. Mas a verdade é que pela primeira vez em muitos anos, eu senti um alívio.
Sim, um alívio. Porque durante a minha vida inteira eu tentei entender por que eu me sentia tão diferente das outras pessoas. Por que algumas coisas simples pareciam tão difíceis para mim. Por que eu me sentia demais o tempo inteiro.
Muitas reações minhas não faziam sentido nem para mim mesma. Eu me ocupava o tempo todo, eu me retraía, eu achava que existia alguma coisa errada comigo. Então, quando o diagnóstico veio, não foi como receber um rótulo. Foi como finalmente encontrar uma resposta depois de anos tentando me encaixar em lugares que nunca, nunca fizeram sentido para mim. Pela primeira vez, várias peças da minha vida começaram a se encaixar.
Eu comecei a lembrar de muita coisa da minha infância. Situações, comportamentos, dificuldades que naquela época ninguém entendia. E isso mexeu muito comigo porque eu comecei a me colocar no lugar da minha mãe. Ela passou a vida inteira sem diagnóstico para filha, sem suporte, sem informação. E acho que essa é uma das maiores dores que eu carrego quando eu olho para trás.
Desde o começo, o Tiago meio que já percebia tudo aquilo. E depois do diagnóstico, ele até brincava dizendo o quanto eu e o nosso filho éramos parecidos em várias coisas. Nos jeitos, nas manias, nas sensibilidades. Acho que foi justamente isso que deixou tudo menos assustador, sabe?
Com meu filho, demorou um pouco mais para bater em um martelo. Mas ele também foi diagnosticado com um transtorno do espectro autista. E, sinceramente, o diagnóstico trouxe um norte para nossa família.
Muita gente enxerga isso como uma sentença, como se fosse algo ruim. Mas para nós, aconteceu exatamente o contrário. Saber o que era nos abriu caminhos. Trouxe entendimento, trouxe acolhimento e ferramentas para que a gente pudesse oferecer mais qualidade de vida para Ele e para todos nós dentro de casa também.
Inclusive, conforme meu filho foi crescendo, algumas crises começaram a ficar muito frequentes. Na época, ele girava bastante, chorava, se machucava durante as crises e ficava extremamente desregulado. Como mãe, era muito difícil assistir aquilo sem entender exatamente como ajudar, né?
Só que depois do diagnóstico, tudo começou a mudar aos poucos. A gente passou a compreender os gatilhos, começou a adaptar os ambientes, respeitar os limites dele e buscar as terapias certas. Isso transformou completamente a forma como nós lidávamos com cada situação.
Não só eu e o Tiago com o nosso filho, mas eu e o Tiago, um com o outro também. Isso trouxe muito mais respeito, paciência e leveza para a nossa relação. Nossa convivência melhorou tanto. Melhorou muito porque a gente parou de enxergar algumas atitudes como exagero, como drama ou, sei lá, como falta de esforço. E começou a entender que existiam necessidades reais ali. Necessidades que precisavam de acolhimento e não de julgamento.
Hoje, acontece uma coisa que mexe muito comigo. Muitas vezes meu filho percebe as minhas crises antes mesmo de mim. Às vezes eu chego do trabalho cansada, sobrecarregada, achando que eu estou normal. Mas ele começa a notar pequenos sinais. Percebe quando eu começo a passar muito as mãos nas pernas, quando eu fico mais agitada, mais sensível, mais acelerada.
E antes mesmo de eu entender que eu estou entrando em crise, ele já percebe que alguma coisa não está bem. Aí ele chega pertinho de mim e fala para a gente ir para a luz azul. A gente tem uma lâmpada azul em casa que acabou virando o nosso lugar seguro. O nosso jeito de respirar, de se regular e diminuir o barulho do mundo um pouquinho quando tudo parece demais.
É muito emocionante perceber que no meio de tudo isso, a gente aprendeu junto a se reconhecer, a se ajudar, a se cuidar. Meu casamento também mudou muito depois do diagnóstico.
Antes, a gente já tentava equilibrar as diferenças na convivência. Mas depois, muita coisa começou a fazer sentido. Facilitou a nossa relação como casal, a rotina da casa, a comunicação. E a gente aprendeu a respeitar o tempo, o jeito e as necessidades de cada um, sem transformar tudo num conflito. Sem dúvida, tudo isso foi um divisor de águas para a nossa família. O nosso relacionamento estava bem, nosso filho também.
E como eu sempre sonhei em ter muitos filhos, eu brincava que eu queria uns 10. Então nós decidimos tentar mais um bebê. Não demorou muito para o positivo aparecer e foi uma felicidade enorme para todos nós. A gente ficou muito emocionado. Mas desde o começo da gestação eu tive muito sangramento e com nove semanas eu acordei bem cedinho. Sentindo que tinha alguma coisa errada. Quando eu fui para o banheiro eu percebi que eu tinha...
Eu tinha perdido o bebê. Eu tive um aborto espontâneo. Nós fomos pro hospital e eu fiz todos os procedimentos por lá. E olha, foi um momento muito doloroso pra nós dois. Até hoje a gente chama esse bebê de B2.
Depois disso, nós decidimos parar de tentar por um tempo, mas depois eu descobri uma alteração hormonal e fiz um tratamento. Cinco meses depois, num dia completamente aleatório, eu decidi fazer um teste sem criar expectativa, sem avisar ninguém e... E deu positivo. Eu chamei o Tiago pra dar uma volta na praia nesse dia.
O que foi, hein? Que cara é essa que você tá? Você tá me deixando nervoso, vai. Eu preciso te contar uma coisa, mas... Tenta não desmaiar, tá bom? Ai, meu Deus. Para de brincadeira, vai. Fala. Fala logo. O que aconteceu? Eu tô grávida.
O nosso bebê arco-íris tá vindo aí. Eu não acredito. Eu não acredito. Você tá falando sério. Que felicidade. Nossa, eu tô... Meu Deus do céu, eu não tô nem acreditando. Eu vou ser pai de novo. Eu vou ser pai de novo. É sério.
Foi ali, naquele momento simples, olhando o mar, que eu entreguei para ele o exame do laboratório confirmando positivo. Foi um daqueles momentos que parecem pequenos por fora, mas que ficam marcados para sempre dentro da gente.
Hoje nós temos o Levi e o Ilia. E estamos juntos há 12 anos. Acho que se eu pudesse deixar uma mensagem com a minha história, seria sobre a importância do autoconhecimento, do acolhimento e da compreensão dentro de uma família. Porque se o Tiago não tivesse entendido que eu funcionava de um jeito diferente dele, talvez muita coisa tivesse sido muito mais difícil. Muitas pessoas enxergam o diagnóstico como uma sentença.
Mas eu aprendi que não é, não. O diagnóstico não muda quem a pessoa é. O meu filho não deixou de ser saudável por ser autista. Nós só passamos a entender melhor as necessidades dele. E as minhas também. A gente não procura diagnóstico para encontrar problema. A gente procura respostas, caminhos, ferramentas para construir uma vida com mais qualidade, com mais equilíbrio e principalmente mais acolhimento daqui para frente.
No fim, eu entendi que ser acolhido muda tudo. Às vezes, a pessoa não precisava que o mundo dela fosse consertado. Não é isso. Ela só precisava encontrar alguém disposto a permanecer enquanto ela aprendia a se entender. Quem ama não esquece. Band FM
Band FM