OS PEQUENOS PASSOS DA SUPERAÇÃO | QUEM AMA NÃO ESQUECE 20/05/2026
Elan
Fabrício
Lauro
Edson
Rayssa
- A sobrevivência e recuperação de Mary VincentRayssa · Mais de vinte cirurgias · Perda da perna · Reaprender a viver
- Acidente de motoRayssa e Edson · Acidente de moto · Carro fugiu sem prestar socorro
- Inspiração e ExecuçãoTransformação da dor em força · História para inspirar · Vida depois da perda
Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM. Mesmo com dor, ainda existe vida. Na Band FM, quem ama não esquece.
Tem dias que começam com uns demais pra gente imaginar que serão lembrados pra sempre. E talvez seja justamente isso que mais assuste na vida. Ela não avisa quando tudo está prestes a mudar.
Aquele fim de semana na minha cidade parecia só mais um. Eu tinha ido resolver algumas coisas, rever a minha família, matar um pouco de saudade da casa e nada além disso. Mas foi naquele sábado comum que eu reencontrei uma pessoa que eu não via há 13 anos.
Eu já morava na praia há algum tempo e sentia que minha vida finalmente tinha se estabilizado. Eu gostava da rotina simples que eu tinha construído. Gostava de acordar com o cheiro do mar, da brisa batendo no rosto, do barulho das ondas ao anoitecer. Eu estava organizando a minha vida por lá. Criando memórias novas, realizando sonhos que durante muito tempo pareciam distantes demais da minha realidade. Era como se, enfim, existisse muita paz dentro de mim.
Eu só não imaginava que aquilo estava prestes a mudar. Naquele fim de semana na minha cidade, eu e meu irmão tínhamos combinado de encontrar alguns amigos no barzinho. E foi lá, no meio daquela bagunça, que eu vi o Edson pela primeira vez depois de 13 anos.
No começo eu nem reconheci, mas ele começou a se aproximar devagar, olhando como quem também estava tentando ter certeza. Até que os nossos olhos se cruzaram. Raíssa, é você? Edson! Meu Deus, quanto tempo! O quê? Uns 10 anos? 13.
Treze anos que a gente não se vê. Mas olha, você continua a mesma pessoa, sabia? Você tá igualzinha. Me conta, me fala, como é que você tá? O que você anda fazendo da vida? Ah, eu tô morando na praia. Eu tô aqui só pra resolver algumas coisas. Vim pra ver minha família também. Puxa, que legal. Eu fico feliz por você. Mas olha, senta aqui. Vamos pedir alguma coisa? Eu quero saber de tudo o que aconteceu com você nesses anos todos. Vamos conversar.
Aquela noite teve alguma coisa difícil de explicar. Nós conversamos sobre tudo, sobre a vida, sobre as lembranças antigas, sobre caminhos que cada um tinha seguido naquele tempo. E ao lado do Edson, as horas simplesmente passavam diferente. Parecia que aqueles 13 anos, sem nos vermos, nunca tinham existido.
Em algum momento da conversa, eu o convidei para jantar no dia seguinte e ele aceitou na mesma hora. Aí eu lembrei que meu irmão tinha combinado de fazer um bate-volta na praia de moto com alguns amigos na manhã seguinte. E perguntei se ele também queria ir. O Edson topou e aí, sem querer, a gente acabou combinando um dia inteiro juntos. Naquela noite, eu fui dormir pensando em como seria o domingo.
Imaginava os lugares para onde a gente iria, as conversas que a gente ia ter, onde iríamos almoçar. Quanto tempo passaríamos juntos? Fazia muito tempo que eu não ficava tão animada para um dia simples. Eu estava mesmo ansiosa para passar mais tempo com ele. Mas na manhã seguinte, alguma coisa dentro de mim parecia estranha. Quando eu olhei para a moto...
Eu senti o meu estômago embrulhar na mesma hora. Eu nunca gostei de moto, nunca me senti confortável. E naquele dia, apesar de estar empolgada com o nosso passeio, por algum motivo, essa sensação estava pior. Como se meu corpo estivesse tentando me avisar de alguma coisa que a minha cabeça ainda não estava conseguindo entender.
Eu até tentei ignorar aquela coisa ruim, eu fiquei repetindo para mim mesma que era só um passeio rápido, que a gente ia até a praia voltar. Nada demais, era um bate-volta simples com os amigos. Mas aquele pressentimento não ia embora. Nós saímos em comboio pela estrada com várias motos seguindo juntas.
Eu e o Edson estávamos na frente, liderando o grupo. Atrás devia ter uns, sei lá, umas 15 motos, cheia de amigos nossos. Meu irmão vinha logo atrás. E por alguns minutos, tudo parecia normal. Parecia. Nós estávamos em alta velocidade na estrada.
E de repente um carro tentou fazer uma ultrapassagem e eu me lembro de tudo. Lembro do carro vindo na nossa direção rápido demais. Lembro do instante exato em que percebi que aquilo não ia dar tempo. Do barulho da batida. Do impacto violento contra a moto.
Lembro do Edson tentando estabilizar a moto, tentando segurar a moto por alguns segundos, como se ainda existisse alguma chance de evitar o pior. Não existia. Depois disso virou caos. Os nossos corpos foram arrastados pelo asfalto enquanto a moto destruía junto com a gente.
Eu lembro da sensação da pele queimando no chão. Eu lembro da velocidade, da falta de controle. Depois nós fomos parar num mato totalmente sem controle. Rolando entre as pedras, galhos, terra. Sem conseguir entender onde era céu, onde era chão. Parecia que tudo tinha virado de cabeça para baixo, em questão de segundos.
Raíssa, olha aqui. Olha pra mim. Olha pra mim, Raíssa. Você tá me ouvindo? Tô. Fica acordada, por favor. Não feche os olhos. Fica acordada. Eu acho que eu não desmaiei. Você tá bem? Meu Deus do céu, me desculpa. Meu Deus do céu, olha o que aconteceu. Edson, calma. Respira. Tá tudo bem. A gente tá vivo. Não tá bem não, Raíssa. Me perdoa, por favor. Me perdoa. Ei, olha pra mim. Eu tô aqui. Tá tudo bem?
Foi só um susto. Olha, eu tentei evitar, eu juro pra você. Eu tentei, mas eu não consegui. Me desculpa, por favor, me desculpa. Mesmo machucado, mesmo em choque sangrando, a única coisa que ele conseguia fazer era pedir perdão. Como se a culpa fosse dele, como se ele tivesse provocado tudo aquilo. Quando eu consegui olhar pra estrada de novo, o carro tava bem longe. Tinha simplesmente ido embora.
As motos estavam todas paradas no acostamento. Alguns amigos corriam na nossa direção desesperados. E no meio de tudo aquilo eu só conseguia ouvir a voz do meu irmão gritando meu nome. O Edson estava completamente em choque. Ele tremia. Tremia e chorava. Tentava falar comigo o tempo inteiro, mas voltava sempre para a mesma frase. Ele me pedia desculpas, me pedia perdão, como se aquilo tivesse sido culpa dele.
E o mundo inteiro parecia estar em câmera lenta.
Meu irmão gritava desesperado para alguém chamar os bombeiros. As pessoas corriam de um lado para o outro tentando ajudar e o Edson chorava sem parar, repetindo que sentia muito, que perdoasse ele, que tinha tentado evitar. E eu só olhava para os meus ferimentos sem conseguir entender o que estava acontecendo de verdade. Parecia que a minha mente ainda não tinha alcançado a gravidade de tudo aquilo.
Minha perna inteira tinha sido arrastada no asfalto. A pele estava destruída. Meus braços queimavam. Meus joelhos, meu cotovelo estavam totalmente abertos, expostos. Eu via tudo. Via o sangue espalhado pelo meu corpo. Eu via a pele rasgada.
Vi as pessoas correndo ao nosso redor desesperadas. Mas parecia que a minha mente tinha desligado completamente. Era como se o meu corpo estivesse ali, mas eu não. Eu olhava para aquele experimento sem sentir dor de verdade, sem conseguir reagir. E sem conseguir acreditar que aquilo estava realmente acontecendo com a gente. O socorro demorou uma hora e vinte minutos para chegar. Foi tempo demais.
Tempo demais pra sentir medo. Tempo demais pra enxergar o desespero no rosto das pessoas. Tempo demais pra ouvir o Edson chorando e pedindo desculpa sem parar.
Quando os paramédicos finalmente chegaram, colocaram eu e o Edson em ambulâncias diferentes. E mesmo de longe, mesmo em choque, eu ouvia a voz dele. Ele continuava pedindo perdão. Pedia para eu perdoá-lo e repetia que sentia muito, como se carregasse sozinho a culpa daquela tragédia toda e eu...
Eu queria conseguir gritar de volta que a culpa não era a dele. A culpa era do motorista que bateu na gente e fugiu. Fugiu sem olhar para trás, sem descer do carro, sem prestar socorro. Quando nós chegamos ao pronto-socorro, foram levando a gente para salas diferentes no meio daquela correria toda. Médicos passando rápido, enfermeiros falando ao mesmo tempo, marca cruzando pelos corredores e foi ali, naquele caos, que eu ouvi a voz do Edson mais uma vez.
Aissa! Aissa! Eu tô aqui, Edson! Aissa, me perdoa. Por favor, me perdoa, viu? Me perdoa por tudo. Me perdoa. Me perdoa, vai. Aquela foi a última vez que eu ouvi a voz dele. Quinze minutos depois, o Edson morreu na mesa de cirurgia.
Morreu acreditando que precisava ser perdoado por uma coisa que nem foi culpa dele. E eu só consegui descobrir isso uma semana depois. Ninguém tinha me contado onde ele estava. Ninguém teve coragem de me explicar o que realmente tinha acontecido naquela noite. Enquanto eu segui internada, decidiram esconder a morte dele de mim para me proteger.
Talvez porque ninguém soubesse como dar uma notícia daquelas para alguém que também estava lutando para sobreviver. Mas nem todos os médicos sabiam daquela decisão. E um deles entrou no meu quarto durante um exame e falou sobre a morte do Edson como se eu soubesse. Eu fiquei em estado de choque. Eu olhava para aquele médico sem conseguir entender o que ele tinha acabado de me dizer.
Como se aquelas palavras não fizessem o menor sentido, porque na minha memória, o Edson estava vivo. Ainda ele estava gritando o meu nome na estrada, ele estava chorando dentro da ambulância, ele estava me pedindo desculpa sem parar. Mas enquanto eu também estava lutando para sobreviver naquele hospital, ele já tinha partido. Depois que eu descobri a morte do Edson,
Parecia que eu tinha entrado num pesadelo do qual eu nunca mais ia conseguir acordar. O meu corpo estava destruído. Eu tinha fraturas, escoriações por toda parte, ferimentos profundos nas pernas, nos braços e na barriga. Eu passei por mais de 20 cirurgias.
20. Eu tive infecções graves, sepsis e em vários momentos também eu fiquei entre a vida e a morte. Teve dias em que os médicos já não sabiam mais o que fazer. Até que em algum momento, a equipe foi sincera comigo e falou que a minha perna nunca mais voltaria ao normal.
Eles disseram que eu ainda poderia passar mais um ano internado enfrentando as cirurgias, as dores, infecções, tratamentos. E que mesmo assim talvez nunca mais conseguisse andar direito. Só tinha uma coisa a fazer. Coisa que para muita gente teria sido a decisão mais difícil da vida, mas para mim não.
Eu estava cansada, cansada da dor, cansada do hospital, eu estava cansada daquela cama, cansada de sobreviver um dia de cada vez sem saber se todo aquele sofrimento realmente teria resultado algum. Então eu pedi para amputar a minha perna, porque nem os próprios médicos conseguiam garantir que o plano para salvá-la ia funcionar. Eu não aguentava mais aquele hospital e aquela cama.
Dois dias depois eu contei para minha família. E por mais dolorosa que aquela escolha aparecesse, foi ela que acabou salvando a minha vida. A amputação aconteceu no dia 20 de janeiro de 2025. Mas perder a perna não foi o fim da batalha, foi o começo de outra.
Eu precisei aprender tudo de novo. Aprender a sentar, a levantar, a ficar em pé. Aprender a olhar para o meu próprio corpo sem desabar emocionalmente. Aprender a lidar com a prótese, com as dores, com os olhares das pessoas e com o preconceito que ainda existe contra pessoas com deficiência.
Eu cheguei a ter certeza de que eu não conseguiria continuar. Mas minha mãe ficou 45 dias ao meu lado sem sair do hospital. Meus irmãos me ligavam todos os dias e a terapia acabou me salvando emocionalmente quando eu senti que estava quebrando por dentro. Aos poucos eu fui reaprendendo a viver.
No começo eu comecei a mostrar minha rotina na internet só para atualizar os familiares e os amigos. Era uma forma de dizer que eu ainda estava ali, ainda tentando seguir em frente, mas sem perceber. A minha história começou a alcançar outras pessoas. Clínicas começaram a entrar em contato comigo. Pessoas amputadas passaram a me mandar mensagem contando as suas histórias, dizendo que se sentiam representadas ao me ver tentando reconstruir a vida.
E foi aí que eu entendi uma coisa que durante muito tempo parecia impossível de acreditar. A minha vida não tinha acabado naquele acidente. Hoje eu trabalho, eu treino, eu viajo, eu estudo fisioterapia. E sonho em ajudar outras pessoas que também estão tentando reconstruir a própria vida depois da dor. Ainda tem cicatrizes. Ainda tem trauma. Tem dias difíceis, lembranças que doem.
Feridas que talvez nunca desapareçam completamente. Mas existe vida também. Existe futuro, existe recomeço. Até hoje, quando penso no Edson, eu lembro que aquele domingo era para ter sido só um passeio. Depois da praia, a gente ia jantar. Era apenas um reencontro. Apenas um dia feliz depois de 13 anos.
Vai saber o que poderia ter acontecido. Vai saber o que a vida reservava para a gente, né? Mas tudo mudou em questão de segundos. Olhando para tudo o que eu vivi, eu entendo que perder uma parte do corpo não significa perder a vida inteira, não. Existe vida depois da amputação. Existe vida depois da dor.
E de alguma forma eu sinto que eu continuo vivendo por mim. E também por ele. Quem ama não esquece.