ESSE FOI O MAIOR ERRO DA MINHA VIDA | QUEM AMA NÃO ESQUECE 21/05/2026
- Abandono socioafetivo paternoA idealização da paternidade · A rotina exaustiva com o bebê · O impacto financeiro da paternidade · A perda da liberdade e espontaneidade · O distanciamento do casal · O sentimento de arrependimento e culpa · A dificuldade em admitir a insatisfação
- Dinâmica familiar pós-divórcioA percepção da incompatibilidade e o afastamento · A confissão de não amar o filho e a vida que veio com ele · O divórcio como consequência · A relação distante com o filho · A aceitação do rótulo de pai ausente
- Relacionamentos antes do casamentoA busca por companhia e o encontro com Fernanda · A vida de solteiro e a insatisfação velada · O início do namoro e casamento · Os primeiros anos de liberdade e tranquilidade
- Fatores que influenciam a decisão de ter filhosA pressão e o desejo de Fernanda · A insistência de Casemiro · A gravidez e os preparativos
- A Paternidade de São JoséA romantização da paternidade versus a realidade · A diferença entre querer a ideia e viver a experiência · Homens que nasceram para ser pais versus os que não
Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, tem coisas que não se deve admitir, nem pensamento. Na Band FM, quem ama não esquece. Existem situações que a maioria das pessoas não tem coragem de admitir em voz alta.
A sociedade perdoa separação, egoísmo e até certas escolhas. Eles dizem que faz parte. Que a vida muda, que ninguém acerta sempre. Mas existem coisas que ninguém perdoa. E quando você percebe isso, aprende a mentir. A omitir. A esconder.
Mas a verdade é que existem decisões que parecem sonhos, só porque você ainda não está vivendo elas.
A Fernanda apareceu na minha vida numa fase em que eu já tava cansado daquela sensação de estar sozinho, passando pelos dias. Eu trabalhava muito. Saía muito também. Encontrava amigos, encontrava uma mulher diferente por fim de semana e fazia tudo que alguém de fora olharia e diria. Esse cara tá vivendo a vida. Mas olha, faltava alguma coisa pra mim.
Eu conheci a Fernanda através de amigos em comum. E desde o primeiro minuto, a gente já se deu muito bem. Naquele mesmo dia, ela foi passar a noite comigo no meu apartamento, pra nunca mais sair. A Fê era tudo que qualquer cara poderia sonhar.
Inteligente, trabalhadora, honesta. Ela era muito divertida também. Simpática com todo mundo e muito bonita, linda. Com ela, pela primeira vez, eu tive a certeza de que tinha realmente encontrado a pessoa certa. Principalmente porque ela também sonhava em ter filhos e construir uma família. Assim como eu.
A gente então se casou e os primeiros anos foram exatamente aquilo que eu imaginava. Talvez até melhores. Nós viajávamos quando dava vontade, saíamos sem precisar planejar nada. Se numa sexta-feira batesse vontade de jantar fora, a gente ia. Se desse vontade de passar o fim de semana em outra cidade, a gente fazia as malas e pronto. Se não quisesse fazer absolutamente nada, estava tudo certo também.
Eu chegava do trabalho e encontrava a Fernanda no sofá. Às vezes a gente jantava tarde, assistia alguma coisa, dormia sem horário. A nossa vida tinha uma tranquilidade boa, daquelas que você acha que vai durar pra sempre, sabe? Só que conforme os meses foram passando, começou a crescer em mim uma ansiedade. Algo que eu nunca tinha sentido.
Estava faltando alguma coisa. Faltava a coisa. Quando que eu vou te promover? Como assim? É, quando é que você vai me promover a pai? Calma, calma. A gente acabou de casar. Acabou? A gente já está casado há nove meses, Fê.
Eu acho que tá na hora. Eu quero também. Você até sabe disso. Eu só queria esperar mais um pouco. Queria viver mais nós dois. Fernanda, contando com o namoro, a gente já tá junto há dois anos. Um filho muda tudo, Casimiro. Tudo. A gente tem que se curtir ao máximo antes. Eu realmente não entendia.
Para mim parecia medo. Parecia que ela estava adiando uma coisa que era óbvia. Eu queria logo construir uma família. E eu insisti tanto, toquei tanto no assunto, repeti tantas vezes que queria aquilo, que uma hora a Fernanda foi cedendo. Eu tinha 34 anos quando a Fernanda engravidou.
E eu comemorei de verdade. Chorei quando vi o teste. E aí, quando foi então pro ultrassom, pro vídeo, aquela emoção, eu postei fotos segurando o sapatinho, recebi parabéns, ganhei abraço, ouvi gente dizendo que ali a minha vida tava começando. E era verdade. Começou ali mesmo. Começou a pior fase da minha vida. Acredita?
A gravidez passou quase do jeito que a gente imaginava. E eu digo quase porque até ali tudo ainda parecia bonito. A Fernanda ficou mais linda ainda quando engravidou. E a gente montou o quarto, escolheu o nome, discutiu a cor da parede. Teve chá revelação, chá de bebê, foto segurando barriga, vídeo pro Instagram. Amigo dizendo que eu ia virar pai babão. Tudo, tudo, tudo.
Eu passava a mão na barriga da Fernanda e imaginava mil coisas. Pensava em futebol, em escola, em viagem, em ensinar um monte de coisa para o meu filho. O parto foi exatamente como aqueles momentos que as pessoas descrevem como inesquecíveis. Eu chorei. Chorei quando ouvi o primeiro choro dele. Chorei segurando aquele bebê minúsculo no meu colo.
Chorei vendo a Fernanda cansada, olhando pra gente com aquele sorriso de quem parecia ter acabado de ganhar o mundo. Na maternidade, parecia que a vida tinha virado festa.
Nós recebemos amigos, família, flores, presentes, gente entrando e saindo do quarto a toda hora, tirando foto, dando parabéns, uma alegria só. Mas aí, né, ninguém mora na maternidade. Uma hora as visitas vão embora. Os parabéns acabam. As enfermeiras param de entrar no quarto para ajudar e aí chega o dia de voltar para casa. Eu, a Fernanda e o bebê.
Pela primeira vez, não tinha médico, não tinha visita, não tinha comemoração. Éramos só nós. E naquela noite, começou uma coisa que eu demorei muito tempo para entender. Porque meu filho chorou, depois chorou de novo, e de novo, e de novo. E sem perceber, o sonho que eu passei anos construindo, começou a fazer um barulho que eu nunca mais conseguiria desligar.
Nos primeiros dias, eu ainda achava que era adaptação. Todo mundo falava isso. Então, eu esperava. Esperava melhorar. Só que as semanas foram passando e o cansaço começou a vir igual ferrugem. Bem devagar. E sem eu perceber, aquilo estava tomando conta de tudo.
Amor, vai lá você agora, olha. Ah, Fernanda, amanhã eu tenho que trabalhar cedo. Vou acordar cedo, vai. Você fica em casa o dia todo, vai lá. Mas eu fico na função dele, né? É tão cansativo quanto trabalhar. Mas eu não posso chegar com cara de zumbi no escritório. Tá complicado assim. Tudo bem, vai. Deixa que eu vou.
O menino chorava toda a madrugada. E eu tinha que trabalhar no dia seguinte. Acabava dormindo duas horas, três, quando dava sorte. Eu levantava muito cansado. Passava o dia inteiro irritado e voltava pra casa sabendo que tudo ia começar de novo. Eu chegava em casa e a Fernanda logo colocava o bebê no meu colo dizendo que ia tomar um banho rápido. Mas nunca era rápido. Era uma fase em que nada era só um pouquinho.
Na maioria das vezes, era eu ficar andando pela sala com a criança no colo, gritando, chorando, enquanto a Fernanda tentava descansar. E tinha choro quase que o dia inteiro ali. Eu sentava pra comer, tinha choro. Ligava a TV pra ver um filme, choro. Eu não conseguia terminar absolutamente nada.
E no meio disso tudo, ainda tinha o dinheiro, hein? Porque ninguém fala sobre isso. Fralda, remédio, médico, exames, consultas, leite especial, pomada diferente, roupa que perdi em três meses. Parecia que eu trabalhava o mês inteiro só pra sustentar uma pessoa que só chorava, dormia e fazia cocô.
Ah, mas é seu filho. Olha, foi exatamente assim que eu comecei a enxergar. A minha casa virou um lugar barulhento, cansativo, completamente diferente da vida que eu tinha antes. E pela primeira vez, começou a surgir um pensamento que me assustou.
eu comecei a sentir falta da minha vida antiga. Tá bom pra você? Durante muitos anos, eu achei que queria aquilo. Eu era aquele cara que falava que família era tudo, que sonhava em ensinar o filho a andar de bicicleta, sonhava em levar o filho pra escola, assistir desenho no sofá com ele, viajar junto.
Eu olhava pai com filho pequeno no shopping e achava bonito. Achava que aquilo dava sentido pra vida. Mas eu descobri na prática uma coisa que ninguém fala. Eu gostava era da ideia, da fantasia. Porque ninguém mostra a parte mais difícil, né? Ninguém fala que você deixa de existir.
Verdade. As pessoas romantizam muito, muito o bebê. Porque elas mostram fotos sorrindo, mostram o primeiro passo, festinha, mostram roupinha pequena. Mas ninguém posta dez noites direto sem dormir. Ninguém posta discussão às três da manhã porque os dois estão exaustos. Ninguém posta o desespero de ouvir choro quando seu corpo inteiro só queria um silêncio.
A verdade é que filho acaba destruindo qualquer espontaneidade da vida. Você não sai mais a hora que quer. Você não dorme mais quando quer. Não come quando quer. Não compra o que quer. Não faz nada quando quer. Tudo gira em torno daquela criança. Tudo. E aí? Ninguém fala sobre isso, né? Porque se reclama, você já vira um monstro.
Eu comecei a sentir alívio quando entrava no meu carro e ouvia o silêncio. Alívio de aceitar a reunião até mais tarde no meu trabalho. Alívio até de ficar parado no trânsito. Alívio quando a Fernanda levava ele pra mãe dela no fim de semana. Olha, teve um dia que eu fiquei sozinho em casa por algumas horas e eu lembro exatamente do que eu pensei quando eu sentei no sofá e eu vi... ouvi nada.
Ai, houve um silêncio maravilhoso. Eu fechei os olhos e pensei, meu Deus, a minha vida era assim, olha isso. Eu também achei que depois desse pensamento viria a culpa. Achei que eu ia me sentir um lixo, que ia olhar para o meu filho, me emocionar e pensar que o problema era eu.
Mas a culpa não veio. O que veio foi mais irritação ainda. Porque todo mundo ao meu redor parecia esperar que eu estivesse vivendo a fase mais feliz da minha vida. Mas eu não. Eu não estava passando por isso dessa forma.
E quanto mais o tempo passava, mais eu olhava para a minha vida antiga como quem olha uma foto de alguém que já partiu. Saudade. Eu tinha muita saudade da minha vida antes disso. Então, conforme os meses foram passando, a Fernanda começou a perceber que alguma coisa estava errada.
Ela dizia que eu estava cada vez mais distante, que eu quando chegava em casa parecia muito desligado. Percebeu até que eu quase não pegava meu filho no colo.
Você precisa participar mais, Casimiro. Precisa dar banho, precisa brincar com ele. Eu não quero. Eu não quero sentar no chão pra montar bloquinho. Eu não quero ouvir e assistir desenho infantil. Ele nem entende nada. O menino tá com dez meses só. Você age como se ele tivesse estragado a sua vida. Mas estragou, Fernanda. Estragou. Você odeia o seu filho, é isso? Quer dizer, você odeia o nosso filho? Eu odeio ele. Eu odeio a vida que veio junto com ele, é isso. Eu... É sério, eu nem sei o que dizer.
Naquela hora, eu não aguentei. Eu soltei. Eu falei.
E a Fernanda não disse nada. Só ficou me olhando como se eu tivesse batido nela. Como se eu tivesse dito alguma coisa absurda. E a partir daquela conversa, eu fui piorando. Fui ficando cada vez mais irritado. Porque depois de meses guardando aquilo, parecia que eu tinha aberto uma torneira dentro de mim que... Olha, eu fiquei sem filtro. Eu já não tinha mais vontade de fingir.
Eu falei que ninguém conta a verdade sobre ser pai. Que filho acaba com o casamento. Acaba com tudo. Com a paz, com a liberdade, com o dinheiro. Falei que as pessoas fazem filho e depois elas não podem voltar atrás. E aí, passam o resto da vida fingindo que foi a melhor decisão do mundo. Porque não podem admitir que talvez tenha sido um erro. Eu falei tudo. Tudo. E a Fernanda começou até a passar mal, sabe? A chorar. E eu lembro que...
Cada vez que a gente conversava sobre isso, era dessa forma.
Mas quanto mais o tempo passava, mais irritado eu ficava. Porque parecia que eu era obrigado a amar aquela vida só porque biologicamente eu tinha virado pai. Parecia que existia um roteiro pronto, sabe? Você tem um filho, você se encanta, depois você sorri, você agradece, você passa por tudo e tem que estar ali, sabe? Sempre sorrindo, sempre disposto. Só que comigo não aconteceu. Pior que isso.
Eu ainda achava que tinha alguma lógica no que eu sentia. E eu só estava sendo sincero sobre uma coisa que todo mundo fingia amar. Numa das conversas, a Fernanda até falou que quem tinha insistido em ter filho era eu. Eu que queria. E ela estava certa. Eu fui o cara que pressionou, que falou que estava pronto, que dizia que sonhava com aquilo.
Mas eu, eu queria um filho e não sabia que eu ia perder a minha própria vida. Olha, nessa conversa, a Fernanda me olhava, sabe, de um jeito como se tivesse deixado de me reconhecer. E talvez a verdade seja essa. Naquele dia, naquela conversa, naquela noite, pela primeira vez, eu também comecei a não reconhecer o homem que estava sentado ali.
Depois daquela conversa, eu comecei a me afastar de vez. Saía mais cedo, voltava mais tarde, inventava reunião, inventava até trânsito, inventava qualquer coisa, qualquer desculpa, para não voltar cedo para casa. E eu percebi que quanto menos tempo eu passava ali, melhor eu me sentia.
O meu filho até começou a estranhar a minha presença. Quando eu chegava perto às vezes, ele já esticava os braços para a Fernanda. Parecia que estava entendendo. Quando eu tentava pegar ele no colo, ele chorava querendo a mãe. E, sinceramente, aquilo me incomodava menos do que deveria. Porque quanto menos ele me procurava, menos eu precisava fingir que queria estar fazendo tudo aquilo.
A Fernanda ainda tentou salvar nossa família por muito tempo. Narcoterapia. Diz que aquilo podia ser cansaço, estresse, depressão, qualquer coisa. Ela ainda tentou acreditar que o homem que insistiu tanto pra ter um filho continuava ali em algum lugar. Mas a Fernanda queria que eu atuasse num papel que eu nunca deveria ter aceitado. Porque essa é a verdade, sabe? Uma verdade que eu demorei tempo demais pra entender.
Eu queria ser pai no Instagram, na foto, no filme, só nos momentos bons. Queria legenda bonita, comentário dizendo, família linda. Mas agora eu sei. Pai de verdade não vive só os momentos bonitos. Pai de verdade acorda de madrugada, renuncia, se doa, aguenta cansaço, aguenta barulho, aguenta perder pedaços da própria vida.
E eu descobri isso tarde demais. Descobri que eu não queria dividir minha existência com ninguém. O casamento acabou pouco tempo depois, lógico. E sendo muito sincero, talvez já tivesse acabado antes. Porque casamento nenhum sobrevive quando uma pessoa está tentando salvar uma família, enquanto a outra está tentando escapar dela.
Eu saí de casa. E com o tempo me afastei também do meu filho. Eu não desapareci completamente. Apareço em aniversário, Natal, uma festa ou outra. Dou presente, pergunto da escola. Sento do lado dele por algumas horas e vou embora. Olha, eu sei exatamente o que isso faz de mim. Aos olhos das pessoas. Um pai ausente. Um péssimo pai. Talvez até um covarde.
Mas hoje, hoje eu até parei de me defender. Porque eu sei que é difícil entender o que eu sinto. Entender o que eu penso. Entender o que se passa comigo. Você ouvindo a minha história agora, talvez não entenda. Mas eu sei também que tem muita gente que passa por isso. E que fica quieta. E que é covarde. Não consegue falar. Passa por tudo em silêncio.
Eu sei que tem. Um pai, uma mãe, que tem o mesmo sentimento que eu.
Porque além disso, tem uma coisa também que ninguém tem coragem de falar. Tem homem que nasceu pra isso. Tem homem que encontra sentido em acordar de madrugada, em renunciar, em viver pela família. E tem homem que não nasceu pra isso. Não adianta forçar. Simples assim. Não adianta casar, ter filho, montar quarto de bebê, postar foto feliz, fingir que o amor aparece porque apareceu uma criança.
Não aparece. Pelo menos pra mim não apareceu. É o meu jeito. Se eu pudesse voltar no tempo, eu não voltava pra consertar. Eu voltava pra não começar. Olha, mais uma vez. Você pode me chamar do que você quiser.
Pode ser o pai ausente, o pai covarde, o pai monstro, egoísta. Mas eu ainda acho que o maior erro da minha vida não foi ter ido embora para recuperar minha vida. O maior erro para mim foi ter insistido tanto em ficar. Porque esse é meu jeito. Essa é a minha essência. E eu não vou mudar por situação nenhuma nesse mundo.
Quem ama não esquece.
Band FM