DE MORADORA DE RUA PARA AS PASSARELAS | QUEM AMA NÃO ESQUECE 22/05/2026
Dinara
- Maternidade precoce e traumasPrimeira gravidez aos 15 anos · Conselho Tutelar e a perda de Danilo · Luta para recuperar o filho
- População em situação de ruaFuga de casa aos 9 anos · Vida em abrigos e na rua · Fome e privações
- Relacionamentos AbusivosSegundo relacionamento e controle · Expulsão de casa e gravidez · Enchentes e perda de bens · Tuberculose e sequelas
- Autoconhecimento e ResiliênciaSuperação das adversidades · Motivação pelos filhos · Encontrando um novo destino
- Mudanças no Modelo daEncontro com Tânia e Paulo · Descoberta da beleza pela fotografia · Primeiro trabalho e campanhas · Desafios da carreira na moda
Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, tem uma história querendo começar na sua vida. Na Band FM, quem ama não esquece. Tem gente que nasce já precisando aprender a sobreviver antes mesmo de entender o que é a vida.
É que ela não começa igual para todo mundo. Para algumas pessoas ela começa quando surgem os primeiros sonhos. Para outras, começa quando aparece a primeira luta. Comigo foi assim. Eu venho de uma linhagem de mulheres que aprenderam a sobreviver nas ruas.
A minha avó viveu assim. A minha mãe também. E por muito tempo eu acreditei que a miséria não era uma fase. Era uma herança que passava de geração em geração e da qual eu nunca conseguiria escapar. Eu tinha só nove anos quando eu fugi de casa.
Nenhuma criança abandona o próprio lar por vontade, coragem ou só por uma aventura. Uma criança só foge quando ficar dói mais do que qualquer medo que exista lá do lado de fora. Depois disso, a rua virou a minha realidade. Eu passei por vários abrigos, mas eu nunca consegui permanecer por muito tempo em nenhum deles. Eu não me sentia segura em qualquer lugar. Então, eu vivi andando pelo Rio de Janeiro.
Copacabana, Leme, Leblon, Centro, Lapa. Cada noite eu estava num canto diferente. E eu vou falar uma coisa. A rua não te ensina. A rua te quebra. Você aprende rápido que ninguém vai cuidar de você. Aprende a dormir em alerta. Aprende a esconder o medo. Aprende a sobreviver.
Teve fase que eu fiquei cinco, seis dias sem comer. Tinha dias em que tomar um banho era luxo. Dias em que eu só queria um chão seco, um lugar onde o corpo pudesse descansar sem medo. E aos poucos eu fui entendendo que talvez aquilo não fosse uma fase. Talvez fosse a minha vida. Mas com 15 anos eu tive o meu primeiro filho, o Danilo.
E essa foi a primeira vez que eu senti medo de verdade. Porque uma coisa é você passar fome e aceitar o próprio destino. Outra é você olhar para o seu filho e perceber que ele pode herdar exatamente o mesmo fim. Por ele, eu tentei voltar para a casa da minha mãe. Eu tentei conseguir alguma restabilidade na vida. Eu tentei um novo recomeço, uma nova história.
Mas os problemas ali dentro continuavam existindo e eu nunca consegui ficar lá por muito tempo. Então eu fiz o que dava. E muitas vezes o que não dava também. Eu pedi fralda na porta da farmácia, eu pedi leite, eu pedi roupa, eu pedi agasalho. Eu engoli o orgulho tantas vezes que ele deixou de existir, porque a fome do meu filho gritava mais alto do que qualquer vergonha.
Foram dias inteiros vendendo doce na rua, debaixo de sol queimando a pele, de chuva molhando até a alma, só para conseguir pelo menos o mínimo para ele. Naquela época, eu não tinha espaço para sonhar. Eu não pensava em futuro, em felicidade ou em descanso. A única coisa que importava era sobreviver mais um dia.
A vida era acordar sem saber como seria o amanhã. E ainda assim, continuar lutando. Eu juro que eu me esforçava. Eu juro que eu dava o máximo, porque desistir nunca foi uma opção, né? Mesmo assim, mesmo assim aconteceu uma das maiores dores da minha vida. Quando o Danilo tinha um ano,
O conselho tutelar apareceu e levou ele de mim. Eles disseram que eu não tinha condições de cuidar do meu filho e que com eles ele seria amado, ele seria cuidado e que estaria seguro. Mas ninguém me perguntou o que eu já fazia para ele sobreviver. Ninguém viu o que eu dava com o que eu não tinha. Eu era uma boa mãe com o que restava da minha vida. Eu era, eu era mesmo, eu tentava ser. E mesmo assim levaram ele de mim.
Deus do céu, eu lembro disso como se fosse agora. Foi como se arrancassem o meu coração na minha frente e eu tivesse que continuar respirando. Depois disso eu comecei uma luta desesperada. Eu queria recuperar o meu filho.
Justiça, pedido, ajuda, humilhação. Tudo ao mesmo tempo. Eu pedi um lugar para morar, uma chance, qualquer coisa que me devolvesse ele, qualquer coisa. Ninguém me ajudou. Eu só consegui reencontrar o Danilo um ano depois. Um ano! Eu fiquei um ano longe do meu bebê. Ele não me reconhecia mais. Ele me olhou como se eu fosse uma estranha para ele.
Ele chamou outra mulher de mãe. Não existe dor maior do que uma dor dessa. Mas ainda assim era o meu filho e eu não ia desistir dele, imagina! Eu arrumei um lugar para morar numa comunidade e foi nessa época que eu conheci o pai da minha segunda filha, a Maia. No começo eu achei que finalmente teria alguém do meu lado.
Pela primeira vez em muito tempo eu me permiti acreditar que talvez a vida estivesse cansando de me bater. Eu acreditei que ele seria o meu porto seguro. Mas demorou pouco para eu perceber que aquilo não era cuidado. Era controle. Ele queria mandar em mim, ele queria controlar minha vida, decidir tudo por mim.
E mesmo enxergando tudo aquilo, eu continuei. Talvez por carência, talvez por cansaço. Talvez porque quando a gente passa a vida inteira sobrevivendo, às vezes aceita qualquer coisa que pareça abrigo. Só que, quando eu estava grávida de três meses, ele foi preso.
E sem ele ali, os irmãos dele me expulsaram da casa. Mais uma vez eu estava sozinha, grávida, sem dinheiro, sem chão. E naquele momento o meu maior medo já não era voltar para a rua não, era perder outro filho, de novo. Eu fui atrás, eu corri e eu consegui alugar uma kitnet.
Era simples, mas era para eu tentar recomeçar dali. Mas a vida parecia ter uma maneira cruel de testar até onde eu aguentava. Veio uma enchente e levou tudo embora.
Tudo. Roupa, colchão, documento, comida, tudo. Todo pouco que eu tinha. É difícil explicar o que se sente quando você passa a vida inteira tentando construir alguma coisa e vê tudo escorrer pelas mãos outra vez. Chega uma hora que você não chora só pelo que você perdeu, você chora pelo cansaço. É um cansaço de precisar recomeçar de novo e de novo e de novo.
cansa. Eu passei um tempo na casa da minha mãe durante o final da gravidez da Maria. Depois eu consegui um cantinho. Era um quarto na comunidade. Mas era tudo tão precário. E muitas vezes o que eu conseguia oferecer para os meus filhos era só um lugar improvisado para proteger a gente da chuva e do frio.
Dói admitir isso. Dói muito. Porque toda mãe quer dar um mundo para os filhos e eu, eu muitas vezes estava lutando só para conseguir dar um teto. Pouco tempo depois, mais uma vez, mandaram a gente embora.
Quando a Maia tinha três meses, eu reencontrei alguém que conhecia desde a infância e eu queria acreditar que dessa vez as coisas finalmente iam melhorar. Porque depois de tanta dor, você começa a se agarrar em qualquer esperança, mesmo que seja assim, ó, bem pequenininha. E foi ali que eu engravidei pela terceira vez. Mas por incrível que pareça, a vida ainda tinha muita dor guardada pra mim.
Quando a minha caçula, Lia, tinha só cinco dias de vida, eu descobri que estava com tuberculose. Meu corpo começou a enfraquecer muito rápido e eu fui ficando cada vez mais magra, mais fraca. Eu cheguei a pesar 35 quilos. Eu fui internada. Meu cabelo começou a cair durante o tratamento e no quinto mês eu precisei cortar tudo.
Eu olhava para mim e eu quase não me reconhecia. Até hoje eu tenho as sequelas da doença. A minha imunidade ficou baixa. Tiveram momentos em que realmente eu achei que eu não fosse sobreviver. Momentos em que eu pensei, talvez eu não consiga sair dessa. Agora acabou de vez.
Mas aí eu olhava para os meus filhos e eu sabia que eu precisava continuar. Porque mãe, mãe aprende uma coisa que ninguém ensina. Ela continua mesmo quando não sobra mais força nenhuma. Ela continua mesmo quebrada. Ela continua mesmo com medo. Ela continua mesmo quando já não aguenta mais. Ela só continua. Foi no meio desse caos que a Tânia apareceu na minha vida. Ela fazia comida para as crianças e dizia uma coisa que eu nunca esqueci.
que eles precisavam continuar estudando, que eles mereciam uma vida diferente. O filho dela, o Paulo, era fotógrafo, e eu nunca vou esquecer do jeito que ele me olhou pela primeira vez.
porque enquanto eu só enxergava cansaço, dor e uma mulher completamente destruída, ele dizia que via beleza. Eu não entendi aquilo porque eu me olhava no espelho e eu me sentia suja, até invisível, despedaçada. Na minha cabeça uma pessoa bonita não passava pelo que eu estava passando, mas ele. Ele insistiu, gravou um vídeo meu e postou.
E através daquele vídeo eu consegui meu primeiro trabalho como modelo. Pela primeira vez na vida, alguém olhou pra mim e enxergou algo além da menina de rua. E aquilo mudou.
As coisas começaram a acontecer em 2022. Vieram campanhas pequenas, ensaios, oportunidades, até chegar uma campanha grande de Natal para uma loja enorme do Brasil, que acabou se tornando um divisor de águas na minha vida. Mas a verdade é que nada virou conto de fadas. Porque a vida não muda da noite para o dia, só porque uma oportunidade aparece.
E a moda é um mercado difícil. Um mês tem trabalho, no outro não tem. E ainda hoje eu vivo com medo. Medo de perder tudo de novo. Medo de voltar pra rua, medo de não conseguir pagar aluguel. Ainda mais sendo mulher, preta, periférica e mãe solo. Porque quando você já perdeu tudo muitas vezes, o medo não vai embora. Ele fica. Minha vida parecia fazer questão de me lembrar disso o tempo todo.
Em dezembro e fevereiro, eu enfrentei duas enchentes e precisei recomeçar praticamente do zero. Outra vez. Mas se a vida me ensinou uma coisa, foi isso. Eu aprendi a levantar porque chega uma hora em que você cai tantas vezes, que levantar deixa de ser coragem, vira instinto, vira sobrevivência.
Hoje as pessoas me veem trabalhando como modelo, fazendo ensaios, campanhas, entrando em estúdios fotográficos, mas quase ninguém imagina. Quantas vezes eu precisei me reconstruir depois de perder tudo. Quantas vezes eu precisei juntar os pedaços e continuar mesmo quando já não sobrava quase nada.
E talvez seja justamente isso que mais me move, porque depois de tudo que eu vivi, ver meus filhos indo para a escola limpinhos, arrumados, tendo oportunidades que eu nunca tive, já faz toda essa luta valer a pena. O Danilo, a Maia e a Lia são as minhas motivações diárias. E por eles eu acordo. É por eles que eu continuo.
É por eles que eu luto todos os dias. Eles são a razão de eu nunca ter desistido. Durante muito tempo eu achei que o meu destino era morrer na rua. É. Eu acreditei durante muito tempo nisso. Achei que a minha história já tinha nascido escrita e que eu só estava caminhando para o final. Que alguém decidiu por mim lá atrás.
Mas hoje, hoje eu penso tão diferente. Hoje eu entendo que talvez Deus estivesse escrevendo uma outra história para mim o tempo inteiro. Uma história que eu ainda não consegui enxergar, porque depois de tudo que eu sobrevivi, eu me recuso a acreditar que sobrevivi à toa. Deve ter um propósito, deve. Algumas histórias nascem para terminar em dor.
A minha? A minha sobreviveu a ela.
Band FM