Episódios de Quem Ama Não Esquece

EU PERDOEI ESSE SEGREDO | HISTÓRIA DO FABRICIO | QUEM AMA NÃO ESQUECE 02/04/2026

02 de abril de 202619min
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O Fabrício conheceu a Camila em um momento de fragilidade e acabou se tornando dependente dela. Eles se casaram, mas com o tempo, surgiram sinais de distanciamento que ele preferiu ignorar. Até ele descobrir uma traição, mas fingiu que não sabia de nada. Com medo de ser abandonado, ele aceitou a situação e tentou melhorar como marido para não perder a Camila. Hoje, ele vem desabafar porque ainda vive preso a um relacionamento que não tem mais respeito, só medo de ir embora.
Participantes neste episódio2
F

Fabrício

HostEstudante, Poeta, MC de Batalha
E

Elan

Convidado
Assuntos2
  • Relacionamentos TóxicosDependência emocional · Traição · Medo de abandono
  • Amor sem condiçõesVulnerabilidade emocional · Busca por conforto
Transcrição48 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Hoje, no podcast do Quem Ama Não Esquece da Band FM, o pior cego é aquele que não quer ver. Na Band FM, quem ama não esquece.

Às vezes, a gente tem vergonha do tipo de pessoa que se tornou. E mesmo assim, escolhe continuar sendo. Mas no começo de tudo, eu juro pra você que eu não era assim. Esse homem que hoje eu sou, eu tenho vergonha. Ou pelo menos, é nisso que eu gosto de acreditar.

Eu conheci a Camila numa fase em que nada da minha vida estava no lugar. Não que fosse o fundo do poço, mas também estava longe de ser uma vida que eu tivesse orgulho de mostrar para alguém.

Eu vivia meio no automático. Trabalhando, dando duro pra pagar as contas, infeliz com o meu emprego, ainda sofrendo por uma ex-namorada que tinha me largado e me sentindo muito mal com a minha aparência. Depois de ter engordado 20 quilos.

A verdade é que nessa época, eu já tinha desistido de muita coisa sem perceber. Mas foi nesse estado, meio cansado de tudo, que ela chegou na minha vida. E por algum motivo ela olhou pra mim. Alguma coisa que eu mesmo não via mais. Alguma coisa que pra minha sorte, ela gostou.

Aos poucos, então, ela foi ocupando todos os espaços. E quando eu percebi, ela já era importante demais para mim. Importante a ponto de eu começar a moldar minha vida em torno dela. Ela me tirou daquele estado triste, do vazio. Ela me devolveu a sensação de estar vivo outra vez.

Ela apareceu na minha vida no momento exato em que eu mais precisava de alguém. E talvez tenha sido esse o começo do problema. Porque quando você conhece alguém estando inteiro, você escolhe. Mas quando você conhece alguém estando quebrado, estando mal, você se agarra. E eu me agarrei nela como se fosse a única coisa que eu tivesse nesse mundo.

No começo, tudo pareceu tranquilo. A Camila era muito cuidadosa, atenciosa, fazia questão de estar perto, de saber como tinha sido meu dia, de participar da minha rotina. E aquilo pra mim era tudo.

Eu vinha de um relacionamento frio, distante. Então qualquer demonstração de cuidado já parecia muito maior do que realmente era. E eu comecei a querer estar com ela o tempo todo. E qualquer tempo longe já parecia demais pra mim. Se ela demorava pra responder, eu ficava olhando no meu celular meio que desesperado.

Eu começava a imaginar coisa, criando ansiedade onde talvez nem tivesse motivo. Mas quando ela aparecia, quando respondia, quando me chamava, quando dizia que estava com saudade... Ah, meu Deus do céu, tudo se resolvia na hora. E eu me acalmava. Ela tinha esse poder. Um dia eu cheguei na casa dela depois de um dia pesado no meu trabalho. E ela percebeu na hora.

Você não tá bem. Tô sim, é que eu tô cansado. Vem, vem cá. Não precisa fingir comigo, tá bom? É que esse trabalho, sei lá, eu acho que... Eu tô meio perdido, sabe? Então fica aqui comigo um pouquinho. Não precisa pensar em resolver tudo hoje.

Simples assim. E de alguma forma, aquilo bastava. Aos poucos, eu fui então deixando de lado coisas que antes faziam parte da minha vida. Amigos, hábitos, até os planos que eu tinha, tudo foi ficando de lado. Sem perceber, eu comecei a organizar tudo em função dela. Se ela podia, eu também podia. Se ela não podia, eu também não.

Na minha cabeça, aquilo era só vontade de estar junto. Mas hoje eu vejo que já era outra coisa. Mas naquela fase eu só achava que finalmente tinha encontrado alguém que valia a pena.

Não demorou muito então pra gente se casar. Foi tudo muito rápido. E na época, tudo fazia sentido, sabe? A gente já vivia junto praticamente todos os dias. Então, oficializar parecia só um passo natural. E eu queria aquilo demais. Eu queria ela. Queria minha vida com ela. Queria não voltar pra aquele vazio de antes.

O começo, então, do nosso casamento foi muito bom. A gente se dava bem, se entendia, ainda tinha carinho, cuidado. E tinha também aquele jeito dela que me fazia sentir seguro.

Mas com o tempo, algumas coisas começaram a mudar. Nada escancarado. Pequenos detalhes. Ela começou a ficar mais no celular e mais distante em alguns momentos. Às vezes parecia presente. Mas ela não estava totalmente ali, entende? E foram coisas pequenas. Tão pequenas que, se eu quisesse, dava para ignorar.

E foi exatamente isso que eu fiz. Eu ignorei. Porque no fundo, eu não queria enxergar nada que pudesse estragar aquilo que eu tinha construído com ela. Eu preferia acreditar que era só coisa da minha cabeça. E talvez tenha sido nesse ponto que eu comecei a me perder de verdade.

Eu lembro exatamente no dia. No dia em que a primeira coisa realmente estranha aconteceu. Não foi nada absurdo. Não foi nenhum flagrante, não foi escancarado. Foi só um detalhe. Mas foi o suficiente. A gente estava sentado no sofá, com o celular assim por perto. E o dela vibrou.

Ela pegou o celular, olhou rápido na tela e na mesma hora virou o aparelho para baixo, escondendo alguma coisa. Pode parecer pouco, mas aquele não era o jeito dela.

É coisa do trabalho. A essa hora? É, bem chato, não tem horário, né? São dez da noite, Camila. Pois é, um saco, né? Eu vou responder pra ele rapidinho, tá? Agora? É, rapidinho, meu amor, rapidinho. Depois eu prometo que eu faço aquela massagem, tá bom?

Ela foi pro quarto, fechou a porta e eu fiquei ali sozinho no sofá, totalmente sem reação. Naquele momento, eu tive duas opções muito claras.

Levantar e ir até lá, abrir aquela porta e acabar com qualquer dúvida. Ou ficar sentado e fingir que aquilo não era estranho. Eu lembro que o meu corpo até deu um impulso, sabe? Como se fosse levantar. Mas eu não levantei. Fiquei ali parado, tentando me convencer de que eu estava exagerando. De que era coisa da minha cabeça e, principalmente, que ela nunca faria isso comigo.

Até porque acreditar nisso era muito mais fácil do que descobrir que não era exatamente assim. E foi dessa forma que tudo começou. Não com uma traição escancarada, mas com uma escolha minha. A escolha de não querer saber.

E a partir daquele episódio, não foi só uma vez. Aconteceram outras tantas. E eu tava vendo. Eu tava vendo tudo. As mensagens, os sorrisos dela olhando pro celular.

O jeito diferente. É, olha, a gente percebe. Mas continuava eu fazendo a mesma coisa. Nada. E aquilo começou a me consumir cada vez mais. Estava acabando comigo. Mas eu não fazia nada. Eu já nem dormia direito. Mas eu preferia não falar nada.

Um dia eu tive uma insônia horrível. Sem aguentar mais aquela angústia, eu resolvi fazer o que eu tinha prometido pra mim mesmo que não. A Camila tava dormindo. E aí... Aí eu decidi mexer no celular dela. Eu queria descobrir, de uma vez por todas. O celular tava lá.

Na mesinha da cabeceira. Como sempre. Até porque, na verdade, ela nunca fez questão de esconder nada de mim. Eu levantei. Peguei o celular, bem devagar. Ainda pensando que era melhor desistir. Mas aquela altura não dava mais tempo. Eu peguei o celular. E fui pra sala.

Meu coração tava disparado. A minha mão tremia. Eu suava. Eu tava com medo, sabe? Mas eu desbloqueei o celular e comecei a olhar. E aí... Aí eu não precisei procurar muito. Eu não precisei fuçar. Nem tentar descobrir nada. Foi desbloquear a tela. Que tava tudo ali.

Conversas, áudios, fotos, até vídeos. E o mais ridículo foi que o que mais me doeu não foi ter a certeza da traição. Foi ver o jeito carinhoso como ela falava com ele. As palavras, sabe? As palavras que ela estava usando com ele. As coisas que ela estava prometendo para ele. As fotos que ela estava mandando. Fotos que ela nunca, nunca mandou para mim.

Naquele momento, alguma coisa aqui dentro. Aqui, ó. Alguma coisa se quebrou. E não foi raiva. Foi uma dor absurda. Uma dor pesada que veio junto com uma sensação de vazio que eu nunca tinha sentido antes. Eu então sentei no sofá.

Com o celular ainda na minha mão e fiquei ali olhando pra tela. Sem conseguir nem ler direito tudo que tava escrito. A minha visão embaçou e eu comecei a chorar que nem uma criança. Um choro doído, sabe? Um choro de quem percebe que perdeu, mesmo que ela não tivesse ido embora. Ela tava ali. Ela tava no quarto. Mas eu entendi que ela já não tava mais comigo.

Quando eu voltei e vi ela deitada. Tão linda, tão tranquila. Aquela mesma mulher que um dia olhou pra mim e disse que eu não precisava fingir. Aquela mulher que me acolheu quando eu tava perdido. A mesma mulher que me fez acreditar que eu finalmente tinha encontrado alguém que valia a pena. Ela. Ela tava ali. E mesmo descobrindo tudo.

A única coisa que passava pela minha cabeça era... Eu não posso perder essa mulher. Não posso perder ela. Eu sabia o que estava acontecendo. Sabia quem era ele. Sabia o que ela fazia quando não estava comigo. Mas ainda assim, o que mais me desesperava... Não era a traição. Você me entende, né? O que me desesperava era a ideia de ficar sem ela.

E aí eu entendi uma coisa sobre mim que eu nunca quis admitir. Eu não tinha medo de ser enganado por ela. Eu tinha medo era de ser deixado por ela. Você imagina que eu não dormi mais naquela noite, né? Fiquei deitado ali na cama, de olhos fechados, enquanto a minha cabeça não parava um segundo. Quando o despertador tocou, eu já estava de pé.

Bom dia, meu amor. Oi, bom dia. Hum, você não tá bem, Fabrício. Eu tô, é que eu dormi mal. Você sabe, né, que pode falar comigo sempre que quiser. É insônia, sabe, foi insônia mesmo. Você deveria ter me acordado. Eu podia ter feito companhia pra você, ficar sentada no seu lado, passar um café bem forte. Camila, olha aqui, olha aqui pra mim. Promete uma coisa. Promete que você nunca vai me deixar, por favor.

Mas que ideia é essa? Nunca, mas nunca tinha. Como que eu poderia viver sem meu ar? Como? Você é minha casa. Eu fechei os olhos. Respirei fundo e quis acreditar. Fiquei assim por alguns minutos enquanto ela ia fazendo café.

Como se eu não tivesse visto tudo o que eu vi naquela noite. Como se ainda fosse possível voltar pra versão da gente que eu... Que eu tinha na minha cabeça. Só na minha. E não era possível, né? Eu sabia que... Não tinha jeito. E mesmo assim eu escolhi. E eu ia fingir. E foi naquelas palavras dela que eu me segurei.

Nunca, nunca vou te deixar, nunca tinha. Eu escolhi acreditar. Porque no fundo era tudo o que eu precisava para continuar fazendo o que eu estava fazendo há bastante tempo. Fingi. Fingi que estava tudo bem, fingi que nada estava acontecendo. E aí com o passar dos dias a Camila voltou a ser a mesma.

carinhosa, presente, atenta. Talvez, não sei, porque tenha desconfiado alguma coisa, por culpa, por consciência pesada, ou talvez porque comigo ela ainda gostasse de ser daquele jeito.

É, ela voltou a perguntar do meu dia, a me abraçar, assim sem motivo, me ouvir, me fazer surpresas. E pra qualquer pessoa de fora, parecia mesmo que tava tudo bem. Mas eu sabia, né? Eu sabia de tudo. Sabia que ele ainda existia.

Sabia que as conversas não tinham parado. Sabia que em algum momento do dia, ela ia ficar com ele. E mesmo assim, aquilo começou a ser suficiente para mim. Porque de alguma forma doentia, eu comecei a pensar que se ela ainda voltava para mim daquele jeito, então eu ainda tinha alguma coisa. E em vez de brigar, em vez de confrontar, em vez de exigir respeito, eu fiz o contrário.

Eu comecei a tentar ser um marido melhor. Mais presente, mais paciente, mais cuidadoso. Eu fazia de tudo e mais um pouco por ela. Eu evitava qualquer briga, qualquer desgaste, qualquer coisa que pudesse me afastar. Qualquer coisa que pudesse afastar ela de mim.

Como se sendo melhor, eu pudesse fazer com que ela não tivesse motivo pra ir embora. Como se o problema fosse eu. Entende? Eu acho que eu preferia acreditar nisso porque é mais fácil. Mais fácil do que aceitar a verdade. Porque enquanto eu tentar, eu ainda posso fingir. Fingir que eu não perdi a Camila completamente. E no final das contas é isso que eu faço, sabe?

Eu continuo fingindo. É isso. Eu finjo que não sei, eu finjo que não vejo, eu finjo que não dói. Continuo acordando do lado dela. Continuo ouvindo eu te amo. Continuo acreditando só o suficiente pra eu não desmoronar de vez. Eu sei que tem outro. Eu sei que em algum momento do dia, ela sai de mim e vai pra ele.

Mas eu penso que depois ela vai voltar. E ela volta. Como se nada tivesse acontecido. E eu continuo tendo medo. Medo de que no dia em que eu falar, no dia em que eu olhar pra ela. E disser que eu sei de tudo. Ela simplesmente vai embora.

Eu não sei viver sem ela. E eu sei que isso diz muito mais sobre mim do que sobre ela. E talvez seja exatamente isso que dói tanto, sabe? Porque no fundo eu tenho vergonha do homem que eu me tornei. E eu só tô dividindo essa história. Porque eu sei que tem muita gente que passa por isso também. Não sou só eu. Eu sei que não sou só eu.

E eu queria te ouvir. Você está passando por isso. Conhece alguém? Conhece alguém que vive isso também? Divide aqui. Divide a mesma história comigo. Para pelo menos, sei lá, eu ter um pouco de conforto. Não sou só eu nesse mundo. Eu sei que não. E esse meu desabafo serve também para isso.

Pra entender que essa covardia não é só minha.