O mistério e a poesia das alcunhas
O episódio 16# do podcast “Diálogos sobre o Património”, debruça-se sobre a história das alcunhas portuguesas.
Imagine-se o cenário: Portugal, algures no século XVII. Um oficial de justiça ou um cobrador de impostos caminha pesadamente por uma estrada de terra batida, carregando debaixo do braço o seu enorme calhamaço de registos. Ao chegar à aldeia, depara-se com um labirinto antropológico. Abre o livro e lê: o pai chama-se António Luís, o filho Domingos Gonçalves e o neto responde por Domingos Borges. Oficialmente, para o Estado, não partilham um único apelido; são três perfeitos estranhos unidos pelo sangue, mas separados pela burocracia.
Para o oficial, este é um pesadelo logístico. Se ousasse perguntar aos vizinhos pelo paradeiro de Domingos Borges, receberia apenas um encolher de ombros. No entanto, bastaria uma pequena correção na pergunta: "Onde mora a família dos Grilos?". Imediatamente, dez dedos apontariam para a porta certa. Este universo paralelo — onde o nome no papel é uma abstração e o rótulo da comunidade é a verdade absoluta — revela a força da antroponímia informal em Portugal.