Fio da Meada #17 – Bretton Woods, Encilhamento e Moeda: de Harry White a Rui Barbosa
Neste episódio, o fio conecta História Econômica, Economia e Brasil — exatamente no formato que o CACD cobra:
🌍 O sistema de Bretton Woods, sua criação no contexto do pós-Segunda Guerra, o papel de Harry White e Keynes, e a consolidação do dólar como eixo do sistema financeiro internacional;
💰 O conceito de moeda, suas funções (meio de troca, unidade de conta e reserva de valor) e os debates entre políticas econômicas expansionistas e contracionistas;
🇧🇷 O encilhamento na Primeira República, a atuação de Rui Barbosa, o embate entre papelistas e metalistas e as consequências de uma política de expansão monetária no Brasil.
Ao longo do episódio, discutimos como crises econômicas, decisões políticas e teorias econômicas moldam sistemas financeiros — do cenário internacional ao contexto brasileiro.
🎯 Um episódio essencial para integrar Economia, História e Política Internacional na sua preparação para o CACD.
🎙️ Apresentação: Adler Silva
📌 Podcast IDEG – Fio da Meada #17
Adler Silva
- Sistema de Bretton WoodsCriação no pós-Segunda Guerra · Harry White · John Maynard Keynes · Dólar como eixo financeiro · Padrão ouro-dólar · Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) · Fundo Monetário Internacional (FMI) · Fim da paridade dólar-ouro
- Encilhamento na Primeira RepúblicaRui Barbosa · Papelistas vs. Metalistas · Expansão monetária · Criação de sociedades anônimas · Especulação em bolsas de valores · Crise econômica
- Criação privada de moedaMeio de troca · Unidade de conta · Reserva de valor · O Alto da Compadecida (dinheiro fora de circulação)
- Debate Expansionistas vs. ContracionsitasKeynesianos · Neoclássicos · Papelistas · Metalistas
Olá, sejam bem-vindos a mais um Fio da Meada, um programa do Podcast Deg. No Fio da Meada de hoje, nós iremos conectar Bretton Woods com o Encilhamento, Moeda com o Alto da Compadecida e Harry White com Rui Barbosa. Eu sou Adler Silva e esse é mais um Fio que eu quero seguir com você. Vamos lá?
Só pela introdução, dá pra perceber que o episódio de hoje vai seguir um fio que tem muita relação com a economia. Mas não se preocupe, Cacidista, nós vamos tentar superar o desafio da economia, assim como os países tentaram superar a crise financeira durante a Segunda Guerra Mundial, através de Bretton Woods.
E é por aí que nós vamos começar, pela Segunda Guerra. Ao final do conflito, o sistema financeiro internacional se encontrava fragmentado, pois havia mais atenção para os assuntos militares do que para os assuntos econômicos. E também porque os países adotaram políticas protecionistas para superar as mazelas herdadas da Grande Depressão de 1929.
É nesse contexto que, em 1944, acontece a Conferência de Bretton Woods, quando 44 países enviaram seus representantes para os Estados Unidos na tentativa de recuperar o capitalismo mundial e estabelecer um sistema de regras que regulasse a política econômica internacional.
Cabe ressaltar que foram várias reuniões, e não se trata de apenas um acordo, mas de acordos, no plural, de Bretton Woods que levaram à formação de um novo sistema financeiro internacional. E para essa história acontecer, nós precisamos de personagens, e nesse processo nós podemos apontar duas figuras essenciais.
Harry White, secretário assistente do Tesouro Norte-Americano, e John Maynard Keynes, assessor do Tesouro Britânico e diretor do Banco da Inglaterra. Sim, o famoso Keynes, conhecido pela teoria keynesiana. Antes mesmo das negociações de Bretton Woods acontecerem, White e Keynes já identificavam problemas com as políticas econômicas no período entre guerras.
Por exemplo, o excessivo individualismo nas democracias liberais era um caso de problema para eles, assim como a reintrodução do padrão ouro no pós-primeira guerra e outras medidas consideradas como erros que mitigaram o sistema financeiro. Embora eles possuíssem ideias em comum, a forma de combate à crise não era nada semelhante.
White acreditava que deveria haver um sistema baseado no dólar e com paridades cambiais fixas, ajustáveis em relação ao ouro. Enquanto Keynes propunha uma moeda internacional chamada de Bancor.
e um banco internacional de compensações, além de um sistema de paridades cambiais fixas sem lastro em relação ao ouro. A partir daqui, a gente já sabe qual a ideia ganhou destaque, porque um dos resultados da conferência foi a substituição do padrão ouro pelo padrão ouro-dólar. Cada país manteria as taxas de câmbio da sua moeda congelada ao dólar e o dólar, por sua vez, estaria atrelado a uma base fixa do valor do ouro. Música
Foram também criadas instituições para acompanhar o nosso sistema multilateral, que estava se formando, o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, o BIRD, e o Fundo Monetário Internacional, o FMI. Um fato interessante é que o Brasil estava presente nessas negociações.
e o chefe da delegação, Arthur de Souza Costa, presidiu um dos comitês que tratava sobre o FMI. Pensando de modo panorâmico, esse novo sistema refletia uma ideia liberal que valorizava o livre mercado e a liderança dos Estados Unidos. Todavia, entre 1950 e 1970, alguns problemas começaram a surgir. Nos anos 60, por exemplo, ocorreu a evasão de capitais dos Estados Unidos durante a reconstrução da Europa.
Ocorreu também um forte índice de inflação devido à criação de moeda durante a Guerra do Vietnã. Além disso, houve o crescimento japonês e o surgimento do mercado de euro-dólares. Essas questões levaram alguns países a adotar o ouro como reserva de valor.
e a criação do direito especial de saque, uma moeda definida pelo FMI em paridade com o ouro. Nesse cenário de incertezas, muitos estados perderam a confiança no dólar e o presidente Nixon determinou o fim da paridade dólar-ouro em 1971 e, consequentemente, do sistema Bretton Woods. Contudo, não se pode negar que o sistema conseguiu elevar a importância do dólar.
Inclusive, o tema é tão importante para a gente ser assidista que a prova de primeira fase de 2004 teve um item sobre como alguns economistas consideram domínio da moeda estadunidense nos últimos 75 anos como uma anomalia histórica. Mas o que faz uma moeda ter tanta importância e outras nem tanto? Espera aí que eu vou puxar um pouco mais esse fio.
Bom, adquirir bens e serviços a partir do pagamento de um valor em dinheiro é uma prática cotidiana. Se a gente quer um alimento, uma roupa ou um curso, nós só vamos usufruir porque houve uma transação financeira.
Mas antes da presença da moeda, como a gente entende, a economia era baseada em trocas de bens que os agentes econômicos produziam. Por exemplo, eu produzo maçãs e troco com você por bananas que você cultiva. Contudo, esse método pode não ser viável quando a gente acrescenta mais agentes econômicos e nem sempre a quantidade de objetos trocados é compatível.
Por exemplo, você quer trocar 12 bananas por 24 maçãs, mas eu não considero que seja uma troca justa. Não é compatível essa quantidade de maçãs e bananas. E mesmo que seja uma troca favorável, como a gente pode medir se é vantajoso ou não? É aí que a moeda se torna importante.
A moeda desempenha três funções fundamentais. A primeira é basicamente isso que a gente acabou de falar, um meio de troca, uma forma de eu dar dinheiro e aquele agente econômico me retorna à mercadoria. Já a segunda função é a de unidade de conta, que significa que a moeda funciona como uma medida de valor, ou seja, mercadorias podem expressar seus valores a partir de certa quantidade daquela moeda.
A última função é a de reserva de valor, que basicamente é a capacidade de guardar a moeda no decorrer do tempo e ela perder pouco da sua funcionalidade. Para essa função, você pode sempre lembrar que é possível guardar 100 reais e depois de dois meses você ainda pode ter os mesmos 100 reais para gastar.
Mas é impossível guardar maçãs no valor de 100 reais durante esse mesmo dois meses pela obviedade de que elas vão apodrecer. Apesar da reserva de valor ser uma das funções da moeda, o sistema financeiro pode falhar e resultar na perda completa da capacidade dessa função. Um exemplo para os cinéfilos ocorreu no filme O Alto da Comparecida, quando Rosinha, Chicó e João Grilo conseguem adquirir um cofre cheio de dinheiro que a avó de Rosinha deixou para ela.
Ele descobre, entretanto, que o dinheiro saiu de circulação. Então, mesmo que o cofrinho, que no filme era um porquinho, estivesse lotado de dinheiro, não teria como comprar nada, perdeu-se o valor daquele dinheiro. Deixando um pouco de lado as nossas telas de cinema e pensando nos dias atuais, as reservas internacionais nos bancos centrais de cada país seguem a lógica de tentar evitar o que aconteceu com João Grilo e Chicó.
Procuram manter reservas de moedas que são mais confiáveis e valorizadas no cenário internacional. Isso é, moedas que têm menor possibilidade de desvalorização, que são mais estáveis e até aquelas que são aceitas por mais países nas trocas comerciais. É preciso que essas três funções sejam simultaneamente desempenhadas para a gente considerar um bem como uma moeda.
Por exemplo, uma nota de R$ 20 só é moeda porque ela serve como meio de troca, expressa o valor de alguma mercadoria e porque você sabe que amanhã ela vai poder ser usada do mesmo modo que pode ser usada hoje. E é importante lembrar que a moeda pode ser criada, assim como os Estados Unidos fizeram na Guerra do Vietnã e tiveram que arcar com as consequências relacionadas à inflação.
Mas, muitas vezes, injetar moeda é um modo de acelerar a economia e criar valor. Esse é um conflito que todo país passa e que perdura por anos. Essas duas perspectivas de políticas contracionistas ou expansionistas que já falamos aqui no Fio da Meada também acabam gerando uma dicotomia entre keynesianos e neoclássicos, papelistas e metalistas. E o que me faz lembrar é uma coisa, mas vamos puxar um pouco mais esse fio.
Antes mesmo do Brasil virar república, a moeda que circulava no país não era compatível com a nova realidade da sociedade brasileira, pois o ingresso de imigrantes e a adoção do trabalho assalariado demandavam mais moeda para conseguir prestar conta com os novos trabalhadores. É uma conta simples, mais gente comprando e recebendo salários significa maior necessidade de moeda para ser usada.
É nesse cenário que o conflito entre papelistas e metalistas nascia. Os papelistas defendiam uma maior emissão de moeda no mercado para suprir tais necessidades. Argumentavam que a economia sofria de uma, abre aspas, inelasticidade do meio circulante, fecha aspas.
Rui Barbosa foi o maior defensor dessa vertente no início da República. Enquanto os metalistas representavam a visão conservadora e ortodoxa, acreditavam que se o Estado realizasse essa política expansionista de mais papel moeda, iria ocorrer um desequilíbrio em relação à reserva de ouro do país e que o governo deveria reduzir a oferta monetária para valorizar o câmbio e manter a paridade legal.
Os principais expoentes dessa corrente foram ministros como Francisco Belisario e Joaquim Murtinho.
Enfim, quando o Brasil se tornou república, o ministro da Fazenda do Governo Provisório, Rui Barbosa, baixou vários decretos que permitiam aumentar a oferta de moeda por meio da emissão e facilitar a criação de sociedades anônimas. O ministro queria expandir o crédito para instigar a criação de negócios durante a república. E deu certo. Muitas empresas foram criadas e a especulação nas bolsas de valores cresceu.
As 90 companhias listadas no início de 1888 se tornaram 450 em 1891. Esse período foi conhecido como encilhamento. Mas tudo tem seus ônus e bônus.
O preço das ações caíram, estabelecimentos bancários e empresas faliram e o valor da moeda nacional despencou. E foi assim que a animação do encilhamento foi substituída pelo pânico de uma crise econômica na jovem República Nacional.
E aqui termina mais um Fio da Meada. Eu espero que você tenha gostado desse episódio. Não se esqueça de seguir o podcast Degg na sua plataforma de áudio favorita, de avaliar esse episódio e de deixar um comentário sobre o que pode ser o próximo Fio da Meada. Lembre-se também que o podcast também está disponível no YouTube e lá na parte de baixo também tem espaço para os comentários.
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