Episódios de Antinomia

Antinomia # 158: Congresso da IFA e anarquismo na Grécia

27 de abril de 202631min
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Entre os dias 3 e 5 de abril aconteceu em Atenas o 13º Congresso da IFA. O evento ocorreu na histórica ocupação Lelas Karagianni 37, um dos principais espaços de resistência anarquista na Grécia. O Congresso contou com delegações da Argentina, França, Eslovênia, Sérvia, Itália, Reino Unido, Bulgária, além de dois coletivos convidados: a Biblioteca Terra Livre e o @col.anarcopunk_aurora_negra
O Congresso abordou temas como: organização; totalitarismo; insurreições; Sudão; antimilitarismo; avanço da extrema direita; patriarcado e violência de gênero; reestruturação educacional e propaganda digital. Em meio ao congresso, ainda foi possível caminhar pela cidade e conhecer alguns pontos centrais como o bairro de Exarchia, as homenagens à Alexis Grigoropulos, além de participarmos em uma manifestação em solidariedade à ocupação @saveprosfygika

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Participantes neste episódio2
A

Adriano

Co-hostJornalista
V

Vi

Co-host
Assuntos4
  • Temas discutidos no CongressoTotalitarismo · Antimilitarismo · Avanço da extrema direita · Patriarcado e violência de gênero · Reestruturação educacional · Propaganda digital
  • Congresso da IFAHistória do anarquismo na Grécia · Ocupação Lelas Karagianni 37 · Participação da Biblioteca Terra Livre · Delegações internacionais
  • Experiência em AtenasBairro de Exarchia · Manifestação em solidariedade
  • Antimilitarismo e guerraConflitos no Oriente Médio · Serviço militar obrigatório
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Antena Zero. No ar. Antinomia. Programa em parceria Antena Rebel e Biblioteca Terra Livre.

Saudações camaradas do Antinomia, estamos aqui neste programa que em tese seria quase semanal, mas se tornou mensal. Quase mensal. E aí Adriano, como é que você tá?

Fala, Vi. Eu tô exausto, parece que, a gente tava conversando antes, parece que é um eterno novembro, eu tô destruindo dor de cabeça, essas coisas todas, mas, apesar de tudo isso, eu tô muito feliz de estar de volta gravando. É, voltamos, né, nessa apocalipse, né, que tá macetando com a nossa vida, mas estamos aí, seguindo filmes e fortes, nesse ano que a gente só quer que acabe.

É meio desesperador, né? Eu tava pensando nisso, assim, falei, nossa, a sensação que eu tenho é que 2026 é tipo um 2025 que não acabou, então esse era o 16º mês, assim, do ano, e...

Por um instante, nas semanas que passaram, eu tive a vislumbre de que talvez 2026 estivesse começando, mas foi só voltar pra escola, voltar pro trabalho, que eu percebi que tava tudo igual e tava fudido do mesmo jeito. Pois é, então, né? Acho que é isso. Se a gente fica na perspectiva do trabalho, a gente só adoece, né? A gente só sofre. Por isso a gente faz outras coisas também, né?

A gente dá uns Pelé no trabalho. Vamos aí então falar sobre o que você está fazendo aí, dando esses Pelé no trabalho aí, Adriano.

Muito bem, Congresso da IFA foi o que você fez fora do trabalho, certo Adriano? Como é que... Me conta aí, o Congresso da IFA que foi realizado nos dias 3 e 5, a 5 de abril, a Biblioteca Terra Livre esteve no Congresso, que se não me engano acontece de 3 a 4 anos, por volta...

desse tempo, e esse ano foi na Grécia, em Atenas, né? Tivemos aí o encontro de várias federações, entre elas a Federação Italiana, a Federação Francófona, a Federação da Bulgária, a galera da Sérvia, da Croácia, né? E também com os camaradas da Grécia.

recepcionando todo mundo e fazendo esse congresso. E conta um pouquinho para a gente aí qual foram as suas impressões. Primeiro, acho que contextualizar as pessoas. No ano passado, a gente organizou o encontro de geógrafos e geografias anarquistas. E nesse encontro veio um companheiro da Federação Italiana, que é o Federico Ferretti. E ele tinha apontado que ocorreria esse congresso da IFA, da Internacional das Federações Anarquistas.

E que seria legal se alguém da biblioteca participasse, porque a gente tem já um histórico, uma aproximação com outras federações e com grupos que estiveram, estão vinculados à IFA desde 2011, mas diretamente, quando a gente organizou a primeira Feira da Narquista, a gente fez esse convite.

para o próprio Federico participar, o Felipe Littier, que é um companheiro também da Federação Francófona, enfim. A gente estabeleceu vínculos com essa galera e aí eles fizeram esse convite formalmente no começo do ano para alguém da biblioteca poder representar o coletivo e participar do congresso, estar junto ali. A gente fez um debate interno para conseguir decidir quem iria.

E acho todo mundo fodido com o trabalho E eu falei assim, bom, foda-se Não imagino quando eu vou conseguir ter a oportunidade de ir pra Grécia Ainda mais com os companheiros da França Pagando a nossa passagem, né Então aí eu falei, foda-se Vou abandonar o trabalho por uma semana E vou pra lá

E foi muito louco, porque chegar na Grécia é um lugar que é meio esquisito. Acho que todo mundo que já ouviu falar da Grécia tem essas referências históricas, clássicas. E para a gente do movimento anarquista, a biblioteca mesmo, em 2009, quando era fundada, uma das primeiras atividades que ela faz é um debate em torno da crise econômica que estava acontecendo na Grécia em decorrência da crise de 2008 e todos os levantes sociais estavam surgindo.

Então, acho que tem um imaginário forte da organização anarquista lá, e a oportunidade de ir foi legal para exatamente conseguir se aproximar disso. O congresso acontece numa ocupação, Lelas Carigianis 37, que é a ocupação mais antiga que existe na Grécia atualmente, que é uma ocupação que se iniciou em 1988.

E é um espaço que é um espaço de moradia e um espaço também cultural, né? Que tem as atividades do coletivo que organizou o encontro, o congresso. Para quem é aqui de São Paulo, uma analogia que eu fiz, que eu acho que talvez tenha algum tipo de proximidade, é pensar na ocupação 9 de julho, só que numa escala muito menor.

Porque esse modelo de ocupação de prédios que a gente tem aqui em São Paulo, ou de ocupação de terrenos para construção de barracos, isso não tem precedente lá na Europa como luta social. Talvez o mais próximo que tem a isso são os ciganos, mas ainda assim é uma organização política bem distinta dessa que a gente tem de ocupações e centros culturais, ocupação por moradia e centro cultural. E essa ocupação ela mantém um pouco desse espírito.

Então, os dois primeiros andares da casa são andares grandes, assim como muitos quartos. É uma casa que pertencia a um empresário que doou, na década de 40, 50 do século passado, esse prédio para...

pras universidades, e ele ficou abandonado por 30 anos, até que ele foi ocupado, e desde então, moradia de famílias e também um espaço político, que toda semana tem atividades. E aí foi interessante isso, que eu cheguei na madrugada do dia 3 lá, duas da manhã, tinha gente lá pra me receber, então achei super...

gentil, o pessoal está de madrugada lá sabendo que no dia seguinte ia começar o congresso e o congresso foi uma paulada, foi das oito da manhã às sete da noite todos os dias, com uma programação bem extensa de debates, tiveram oficinas, tiveram plenárias abertas.

A gente foi convidado e teve a possibilidade de participar de todas as atividades oficiais, então isso foi uma das coisas legais, que apesar de não sermos uma federação, a gente estava lá podendo participar com direito de voz e também com a possibilidade de ouvir todos os debates, sejam eles debates de análise conjuntural ou debates internos mesmo, organizativos, que eu acho que isso foi bem rico.

Legal, Adri. Eu acho que seria interessante também, se você puder falar, porque como é muito distante da gente essa realidade, a IFA, que é a Internacional das Federações Anarquistas, elas se encontram, e essa foi a 13ª edição.

E aí eu queria que você falasse um pouquinho qual que é a importância desse evento, a importância política desse evento e como que isso foi para você. Como é que você percebeu essa relevância da articulação desses grupos aí?

É uma coisa que talvez quem vive a experiência sindical mais de perto, dentro das organizações sindicais ou das lutas dos movimentos, eu acho que tem um pouco esse vislumbre do que é um congresso como esse, que de fato é um espaço de algumas deliberações, mas que o centro da...

do encontro, não está propriamente nas deliberações, ainda que tenham alguns indicativos, algumas questões que são centrais ali para organizar o Congresso, mas também tem esse espaço da sociabilidade e da troca, de informações, de como estão as lutas, de como as ações estão sendo feitas, quais são as dificuldades dentro de cada território, enfim, tem um pouco essa...

essa dimensão política de conseguir afinar um pouco os vínculos e apresentar outros projetos ou outras organizações que também estão agindo nos territórios e poder abrir possibilidade de conexões. Então, acho que tem isso.

Uma das coisas mais massas, que eu acho que para mim foi pelo menos ver projetos que têm alguma similaridade, mas que desenvolvem ações diferentes das nossas aqui. Então isso faz com que a gente consiga imaginar, pô, será que dá para fazer aqui? Quais são os desafios? E também trocar experiência mesmo, né? Então sempre rola muito contato assim de...

de participar de grupos, enfim, estar mais conectado mesmo com essas práticas que estão acontecendo em outros lugares. Então isso dá uma instigada de a gente entender que a gente não está sozinho, que a gente não está num delírio aqui isolado.

mas também acho que tem uma coisa que são as relações interpessoais. Então, um desses congressos aconteceu aqui no Brasil em 2016, 10 anos atrás, e isso é legal de a gente pensar que naquele momento tinha uma organização, uma tentativa de organização federativa que estava sendo realizada por outros grupos.

E aí lá em Campinas teve um encontro e alguns companheiros que estiveram presentes lá na Grécia também estiveram aqui. Então foi o momento de reencontrar, enfim, de estabelecer, reconstruir vínculos. E isso é muito bom, assim, que mesmo com 10 anos de distância a gente continua tendo a alegria de estar junto, né? Mas o que me chama sempre a atenção numa articulação como essa é também a diversidade das formas de estrutura e organização que as federações têm. E aí

E aí acho que isso é uma das coisas que politicamente mostram uma diversidade, a gente pode fazer uma análise da relevância, da importância de ter estruturas tão diversas, mas também acho que tem uma, acho que poderia ser um espaço de crítica, de a gente pensar o que é que está se entendendo para o federalismo e quais são esses pactos que estão sendo construídos. Um dos aspectos que a gente aqui na biblioteca tem pensado desde a...

desse período, desde 2011, e que, bem ou mal, a gente foi tentando avançar em algumas ações, era pensar um federalismo pelo trabalho e não só um federalismo ideológico, no sentido de a gente não federa só coletivos que pensam, têm uma ideia.

relativamente comum do que anarquismo, senão a ideia de que a gente constrói coisas e a gente pode se ajudar. E aí o federalismo como uma estrutura organizativa de grupos que estão construindo projetos, projetos similares e que podem se apoiar.

E aí pensar que uma confederação seria essa possibilidade de estar junto em territórios, com grupos que estão agindo de maneira diferente, enfim, ganhar uma força política. Mas eu acho que quando a gente olha para os grupos que estavam lá presentes, por exemplo, você comentou, a Bulgária é um...

É um grupo que tem uma ação social e aí, por conta disso, eles entendem essa prática como uma prática federalista. Mas quando a gente pensa na França, quando a gente pensa na Itália, são federações que, de fato, têm associações locais, que têm os grupos locais que vão criar as bases efetivas dessa organização. Então, são formas de estruturas federalistas que têm muitas...

diversidade entre si, mas é isso, eu acho que ao mesmo tempo isso não dificulta o processo de construção desse momento que é o Congresso, tanto para entender as particularidades dos territórios, como também para imaginar quais articulações são possíveis se fazer a partir do encontro.

É, pelo que você relata, a questão da federação é um princípio que todos seguem, todos buscam construir essa organização federativa, mas que quando ela é aplicada na prática local de cada um dos territórios, ela vai se construindo de formas diferentes, de maneiras diferentes. Assim como, por exemplo, a gente tem a FLA aqui na América Latina, a Federação Libertária Argentina, que estava presente também.

no evento, né? Sim, é, eu acho que a FLA é um desses grupos, né, que eu acho que era uma federação histórica, né, que sofreu processos de transformação ao longo do tempo e como todo mundo sabe, né, no movimento anarquista, como qualquer movimento político tem os processos de...

divergência, de dissidências, de rupturas, assim como de criação, de, enfim, não são só não é só desgraça, né, que acontece, mas o que aconteceu com a FLA é que a FLA, ela ao longo, principalmente, agora dessa última década, acabou

diminuindo a sua atuação e a quantidade de pessoas envolvidas, de frentes envolvidas, e se tornou um grupo que tem uma perspectiva de articular diferentes projetos. Então o bachillerato, que é o projeto pedagógico que eles tocam...

É o projeto mais visível, mas eles mantêm o arquivo também, mantêm atividades públicas. E aí, ainda que seja um coletivo, ele busca articular pessoas e espaços a partir da perspectiva federalista. Então, nesse sentido, a FLA tem essa dupla característica que não é uma federação, mas tem uma forma de organização.

que potencializa ou que busca criar relações federalistas com outras pessoas e espaços. Então, aí é interessante pensar nisso, porque no caso, o que a gente faz na biblioteca tem muitas semelhanças com o que a FLA faz, ainda que a gente entenda os projetos com características distintas.

Sim, e você falou também que ao longo do congresso tiveram várias falas, eventos, palestras, atividades, oficinas, queria que você comentasse um pouquinho quais foram os temas que te chamou a atenção, que você pôde participar como ouvinte, mas também pôde participar ativamente na fala, na intervenção, nesse processo, nesse congresso aí.

É, eu acho que como não podia deixar de ser, né, um dos temores e uma das preocupações é a questão da guerra, acho que a guerra tem sido, né, um...

Ao longo do século XXI, ainda que ela não se universalize, a gente está vivendo um século que a gente também não deixa de ver guerras eclodindo e algumas potências à frente desses conflitos. A Grécia é bastante próxima do Oriente Médio, a gente da Península Arábica, então a gente...

tinha uma certa preocupação, porque, por exemplo, os Estados Unidos têm enviado os navios para reabastecerem em algumas regiões da Grécia, então tem uma questão estratégica de ser membro do OTAN, de ter que dar suporte e tudo mais. Então se discutiu um pouco isso, o papel de cada um dos estados nesse contexto da guerra, tanto da guerra...

em curso pelos Estados Unidos e Israel ali no Irã, mas também do avanço de Israel sobre os territórios palestinos e do Líbano também. Então o que a gente viu foi como a resistência tem acontecido nos territórios.

Foi um comentário muito interessante, principalmente dos franceses e dos companheiros italianos, de como as sessões locais têm feito uma série de atividades antimilitaristas, mas também como eles têm trazido estratégias, dentro dessa perspectiva antimilitarista, de boicote prático às empresas israelenses de arma, como também ao fornecimento de insumos que eventualmente vão abastecer os exércitos.

ação direta de fechar ferrovias, de conseguir ter as informações privilegiadas de quais cargas estão sendo movidas, cargas estratégicas para a guerra ou para alimentar a máquina militar. Então, como que ele estava conseguindo...

ou fechar portas ou fechar ferrovias e com isso atrasar algumas ações estratégicas que tanto os Estados Unidos quanto Israel ou mesmo os Estados Europeus estavam levando adiante. Um dos temas que nessas conversas sobre o antimilitarismo apareceram foi que na Europa quase todos os países aboliram o serviço militar obrigatório. E aí isso é uma coisa muito chocante, porque a gente que supostamente não está em guerra é uma coisa muito chocante.

a gente tem o serviço militar obrigatório com todas as suas particularidades mas tem um serviço militar obrigatório e isso foi uma coisa que pra eles foi uma novidade o debate lá é a reintrodução do serviço militar obrigatório enquanto aqui a gente tá não se discute tanto, mas acho que é um dos temas de pensar como que essa máquina de

produzir conservadorismo, produzir um militarismo enquanto um valor, ou essa disciplina militar enquanto algo supostamente positivo, como isso está arraigado e como o processo do fim da democracia, ou o fim da ditadura.

Opa, ao ato falho. Não resolveu, né? Então a gente vive uma sociedade democrática, só tem a casquinha ali, porque as estruturas de poder elas continuam muito arraigadas nesse modelo militar, né?

Então, foi legal poder participar da conversa nessa perspectiva. Depois a gente teve uma outra sessão falando sobre educação, e aí, de novo, foi importante que a gente conseguiu, naquele espaço, conversar sobre tanto as mudanças neoliberais que estão acontecendo na educação, e isso é bizarro, porque é geral, né?

da gente começar a conversar, a gente estava conversando exatamente sobre isso, sobre a nossa miséria dentro dos ambientes escolares e como isso está generalizado. Mas também a gente conversou, teve a oportunidade de conversar lá no Congresso sobre esse processo de militarização do ensino.

que essa é uma realidade que não está sendo vivenciada ainda. Então, a gente está, de alguma forma, para a alegria geral do povo brasileiro, na vanguarda desse processo que junta neoliberalismo com militarismo e aí testando esse processo de vigilância e controle.

Esse foi um outro tema, o tema das tecnologias, das big techs e da vigilância e controle. Então, esse processo de reconhecimento facial tem tido impactos bastante diretos dentro das sociedades europeias. Prisão por precaução.

tem sido uma coisa que está sendo implementada, então se você participa de manifestações, se você já foi pego numa manifestação, no geral a polícia vai e prende você temporariamente, antes da manifestação acontecer, para você não ser um agente provocador ali, então você passa um, dois, três dias detido, até que a manifestação acaba e aí eles te liberam, então tem tido uma série de ações desse tipo.

O pessoal também relatou experiências muito similares àquilo que a gente está vivendo aqui em São Paulo com o Smart Sampa, então, de uso das imagens capturadas pelas câmeras de rua e como que isso tem servido de base para essa intervenção policial. Então, essa distopia que a gente está vivendo aqui em São Paulo, ela está difundida, não é só aqui, e ela tem servido...

como a gente sabe, para perseguir pessoas que atuam politicamente, imigrantes, enfim, o alvo tem sido sempre bem delimitado, né? Então, acho que foram assuntos que eu pude participar, não consegui participar de tudo, tiveram outros temas que estavam presentes no Congresso, mas foi um pouco essa...

acho que esse horizonte de pensar como que a gente vive esses processos de transformação e também como que isso está acontecendo nas suas singularidades dentro dos territórios. Muito bem. Nesses últimos minutos aqui que nos restam, acho que seria legal também você contar um pouquinho...

da sua experiência na cidade, em Atenas. Rolou até uma manifestação que você pôde ali dar uma passada por ela. Conta pra gente como que foi isso. Então, a gente tinha, como eu falei, esse horário super extenso de congresso, mas a gente tinha uma hora e meia de almoço ali das duas e meia até as quatro horas da tarde. E aí, todos os dias eu estava com o Johnny, inclusive, da Aurora Negra, aqui de São Paulo, companheiro de longa data.

E a gente aproveitou para dar pernada na cidade, e um dos territórios que a gente visitou foi ali o bairro de Exárquia, que é um bairro histórico também, de ocupações depois da ditadura. É um dos principais espaços de resistência à ditadura grega, que houve, que pouquíssima gente sabe da história da Grécia, ela tem uma história relativamente semelhante à nossa, em relação a ditaduras, luta contra a ditadura. E esse bairro de Exárquia fica entre as três principais faculdades que existem lá no centro de Atenas.

E foi um lugar de resistência estudantil, ocupações e de presença de imigrantes muito forte. E que mantém ainda esse espírito, né? E aí, em 2015, eu acho, 16, a gente até traduziu um documentário que fala sobre a Exárquia, que chama Não Vivamos Mais Como Escravos. E o...

uma das características desse bairro era que não tinha polícia a polícia não entrava porque a galera fazia autodefesa e expulsava a polícia na marra do território e aí em 2019 com as políticas de austeridade, com o aumento da brutalidade policial enfim, com a infiltração de pessoas associadas ao tráfico de drogas, a polícia começou a entrar no bairro e aí o bairro tem sofrido um processo de gentrificação meio brutal e aí eu fui dar um rolê lá com E aí

companheiro argentino e com o Johnny, a gente deu uma volta, mas quando eu perguntei ao pessoal da ocupação que a gente estava se tinha alguma dica de espaços para ir, ou enfim, algum conselho, eles falaram assim, tem polícia aqui, aqui, aqui, então tinham quatro pontos onde tinha presença ostensiva da polícia e que na semana anterior mais de 100 pessoas tinham sido detidas ali no bairro.

Então, que o bagulho ali tá meio tenebroso. Então, a gente foi pra lá, mas foi atento com essa presença policial e tentando evitar o máximo possível, né? Mas lá a gente tem, foi nesse bairro também que teve, em 2008, o assassinato de um jovem anarquista que desencadeou, né? Esse contexto das resistências ali no território. Então, foi uma experiência foda também de...

de ver como que a memória é mantida, a memória da luta e da luta recente, como é mantida. E no dia seguinte, então isso foi no sábado e no domingo, a gente teve uma manifestação, que foi uma manifestação em solidariedade a uma ocupação que está sofrendo o risco de despejo. É uma ocupação maior, com 400 famílias, e era originalmente uma ocupação anarquista, mas que ao longo dos últimos anos...

por conta do risco do despejo, tem buscado caminhos estratégicos mais oficiais, então tem se aproximado de grupos e partidos de esquerda. Então foi curioso porque o pessoal comentou que as manifestações na Grécia, no geral, elas são muito radicais, a presença anarquista é muito forte, a gente tem um movimento insurrecionalista lá, que também é muito presente, e quase sempre tem conflito com a polícia. A polícia...

fica em cima dos manifestantes, enfim, é muito brutal. E aí, por conta dessa mudança de posicionamento dessa ocupação, que é uma outra ocupação, não foi a que a gente teve o Congresso, dessa outra ocupação, a presença policial foi minúscula, foi ridícula. Tinha a presença de imigrantes, e aí foi legal, porque tem uma comunidade curda grande lá, então, algumas bandeiras do APO, né, do... do...

do Calã, mas tinha também, enfim, uma quantidade relativamente grande de pessoas. Lembrar que era o domingo de Páscoa, então não sei se os polícias também estavam com as famílias, mas foi estranho a ausência de polícia para reprimir ou para acompanhar a manifestação. A manifestação foi bem tranquila.

Então, lembrou um pouco essas manifestações de frente ampla que a gente tem em São Paulo. Mas a galera falou assim que não são assim. E os anarquistas, a maior parte deles não colou. Tinham grupos bem pontuais de anarquistas. Por conta disso, a gente tinha uma divergência estratégica. Porque lá tem uma perspectiva de você, se você é anarquista, você não vai negociar. E aí, se a galera está negociando, significa que eles já perderam a radicalidade.

Então tem uma tensão ali, política e ética, em torno do que estava acontecendo. Muito bem, muito bom. Sua viagem foi, parece que, rica na Grécia, mas ela não terminou na Grécia, né? Ela se estendeu aí para outros lugares da Europa, e aí no próximo programa a gente continua essa conversa aí. Boa. Maravilha. Então vamos para o nosso próximo bloco, o Fuego de Vida.

Fuego de vida.

Muito bem, foi a gravida de hoje, então a gente tem dicas culturais. Dri, você tem alguma dica? Ah, para não fugir, eu já citei, mas vou reforçar. Quem quiser assistir esse documentário, é um documentário muito bom sobre o movimento anarquista contemporâneo na Grécia. Chama Não Vivamos Mais Como Escravos. A gente que legendou está disponível no nosso...

nossa página no YouTube, então entra lá youtube.com.br biblioteca Terra Livre, e aí rolando a página lá você consegue encontrar, você consegue saber um pouco dessas ações, né, acho que uma das grandes potências do movimento anarquista na Grécia é a pluralidade de ações, então tem muita imagem do insurrecional que reverbera, né, do combate a...

às extrema-direita, mas principalmente a gente tem ações comunitárias, criação de bibliotecas, ocupações, ações que efetivamente mudam o território. Então, acho que é legal pra gente se inspirar. E você, Vi, tem dicas?

Então, como eu não sei quando a gente vai voltar aqui a gravar, eu vou dar uma dica de alguns eventos que vão acontecer no começo do mês de maio. Então, no dia 1º de maio, acho que todo mundo já está vendo que tem muitas coisas que vão acontecer no 1º de maio, várias atividades espalhadas por vários territórios ocupados pelo Estado brasileiro.

Mas eu vou dar uma dica que vai acontecer no Rio de Janeiro, no espaço Caetés, no Morro do Timbal, na Maré. Vai ter a inauguração da base da ATB, que é a Associação de Trabalhadores de Base, na Maré, Rio de Janeiro. Colem lá, às 16 horas vai ter esse evento. E nos dias 8 e 9 de maio vai rolar a nova edição da CryptoRave na Biblioteca Mário de Andrade. Aqui.

em São Paulo. Estaremos lá com atividade no dia 9 às 8 horas da manhã, então ou fica direto ou madruga pra encontrar a gente. Muito bem, então vamos aí ficar lá amanhã, à madrugada falando sobre hacker ativismo e outras coercitas mais bom, então pra você que quer ajudar a Biblioteca Terra Livre, Antinomia e a Rádio Antena Zero

colabore com a gente, mande o seu pix no nosso e-mail, que é bibliotecaterralivre.com, só que a gente tem outras formas de financiamento. Uma delas é você apoiar comprando livros, e aí você pode ir nas atividades, ou então pelo apoia.se, que é o apoia.se.btl, e aí você consegue fazer uma contribuição recorrente para fazer com que esse projeto dê frutos e continue adiante.

Muito bem, então nos siga nas redes sociais, coloca aí o sininho, vocês sabem tudo o que tem que fazer para impulsionar a gente a chegar em outros lugares, tanto nós aqui da Biblioteca Terra Livre, quanto a Rádio Antena Zero. Eu espero que vocês nos encontrem em algum momento nessas andanças da vida, mas fica aí até a próxima, valeu, tchau, tchau.

So long, so long You kept me waiting So long, so long Let me serenade you With one last song You're back where you belong So long, so long, so long Goodbye, goodbye, goodbye Você ouviu na Antena Rebel Antinomia, programa em parceria Antena Rebel e Biblioteca Terra Livre Produzido e apresentado por Edu, Vitor e Adriano

So long, so long. You kept me waiting. So long, so long. Let me serenade you with one last song. You're back where you belong. So long, so long, so long. Você está na antena zero.