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Fernando Pessoa e o ocultismo

08 de maio de 202611min
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A busca espiritual de Fernando Pessoa atravessa toda a sua obra e identidade fragmentada. Poeta de múltiplas vozes, ele não se limitou a escrever versos: fez de si mesmo um campo de experiências místicas, filosóficas e esotéricas. Pessoa se interessou profundamente pelo ocultismo, pela astrologia, pela cabala e pela tradição hermética, vendo nelas não apenas curiosidades, mas tentativas de decifrar o enigma do ser.

Participantes neste episódio1
F

Fernando Pessoa

ConvidadoPoeta
Assuntos7
  • Ocultismo e MisticismoA busca espiritual e a identidade fragmentada · Interesse por astrologia, cabala e hermetismo · Experiências místicas e esotéricas
  • Pessoa e o esoterismo portuguêsInteresse por teosofia, espiritismo e maçonaria · Elaboração de mapas astrais para heteronômios · Estudo de Blavatsky e Allan Kardec · Herança templária e Ordem de Cristo · Contato com círculos rosacrucrusianos e maçônicos
  • Pessoa e a missão espiritual de PortugalVisão de Portugal como centro de renascimento espiritual · O Quinto Império · Sebastianismo
  • Ocultistas e correspondentes de PessoaAntônio de Melo de Alvarenga (Barão de Olivença) · Augusto Ferreira Gomes · Eduardo Brazão
  • Heteronômios de Fernando PessoaConceito de heteronômio · Alberto Caieiro · Ricardo Reis · Álvaro de Campos · Bernardo Soares
  • Legado e morte de Fernando PessoaMorte por cirrose hepática · Últimas palavras escritas · Enterro e translação para o Mosteiro dos Jerônimos · Obra como literatura, filosofia e misticismo
  • Infância e formação de PessoaNascimento em Lisboa e presságios · Mudança para Durban, África do Sul · Educação inglesa e influência literária · Dupla identidade: aplicado e exilado
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Fernando Pessoa é daqueles homens que parecem ter vivido muitas vidas dentro de uma só. Seu destino foi o de ser um poeta múltiplo, fragmentado em heteronômios, mas também o de um buscador espiritual mergulhado em símbolos, sociedades discretas e mistérios do oculto.

Uma trajetória entre a vida oficial e a subterrânea adoe esoterista. Fernando Antônio Nogueira Pessoa. Ele nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888, dia de Santo Antônio, o santo popular da cidade. Algo que sempre foi visto como uma espécie de presságio.

Seu pai, funcionário público e crítico musical, morreu cedo e sua mãe casou-se novamente, mudando-se com o Fernando para Durban, na África do Sul, onde o jovem recebeu educação inglesa. Ali teve contato profundo com a literatura inglesa, Shakespeare, Milton, Poe, o que o marcaria para sempre.

Ainda menino, ele já escrevia poemas em inglês e demonstrava interesse pelo invisível, pelo metafísico. Em Durban, viveu também uma espécie de dupla identidade. O jovem aplicado, que estudava no sistema britânico, e o português exilado, apegado à sua terra e à sua cultura. Aos 17 anos, voltou a Lisboa, tentou ingressar na universidade, mas não concluiu o curso.

Ele viveu sempre de forma modesta, trabalhando como correspondente comercial e tradutor de cartas em inglês e francês. Passava o dia em escritórios e a noite escrevendo. Pessoa nunca se casou. Teve apenas uma relação amorosa conhecida com Ofélia Queiroz, mas o romance se dissolveu. O poeta dizia que tinha uma missão mais alta a cumprir.

O aspecto literário mais famoso de pessoa foi a criação dos seus heteronômios. São personalidades literárias completas, com biografia, estilo, filosofia e até mapas astrais próprios. O que é um heteronômio? É um pseudônimo, ou um nome falso usado por um autor para criar uma obra, mas com uma distinção importante.

O autor não se limita a assinar a obra com outro nome. Ele cria uma personalidade literária completa e distinta, com biografia, estilos de escrita, ideias e até mesmo a visão de mundo própria. A ideia é que o heteronômio seja mais do que um disfarce, ele é um outro eu.

um outro eu do autor, uma voz que ele encarna para explorar diferentes estilos e temas. O autor não apenas assina um livro como Fernando Pessoa, por exemplo, mas o escreve como se fosse uma pessoa completamente diferente, com uma história e personalidade próprias. Entre os mais célebres de Fernando Pessoa estão Alberto Caieiro,

mestre da simplicidade, quase um Buda pastoril. Ricardo Reis, o médico clássico, estoico, seguidor de Horácio. Álvaro de Campos, o engenheiro futurista exaltado, moderno.

Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros, autor do livro do Desassossego. A multiplicidade dos heteronômios refletia algo profundo. A pessoa não era apenas um poeta, era um médium de si mesmo, um canal para diferentes vozes. Esse fenômeno literário se mistura com a sua experiência espiritual.

Desde jovem, Pessoa se fascinou pelo ocultismo, lia avidamente autores ligados à teosofia, ao espiritismo, à maçonaria e à astrologia. Eis alguns pontos centrais.

Elaborava mapas astrais para si e para seus heteronômios. Cada um tinha data e hora de nascimentos calculadas, reforçando sua realidade simbólica. Estudou Blavatsky, Anne Bessin e Charles Letbiter, principalmente suas ideias sobre reencarnação, clarividência e evolução espiritual. Conhecia os textos de Allan Kardec e tinha curiosidade sobre mediunidade.

Em Portugal, pessoa se interessou pela herança dos templários e pela ordem de Cristo, vendo nela uma missão espiritual para a nação portuguesa.

Há indícios de que teve contato com círculos rosacrucianos e maçônicos, ainda que sua filiação formal seja debatida. Pessoa chegou a se corresponder com ocultistas portugueses ligados a ordens discretas. A vida de Fernando Pessoa, para além da sua genialidade literária, foi profundamente marcada por um intenso e metódico interesse pelo ocultismo.

Pessoa não estava isolada em suas investigações, ele se comunicava com outros nomes do esoterismo em Portugal, formando uma rede de troca de ideias e conhecimento. Dentro deles destacavam-se.

Antônio de Melo de Alvarenga, o barão de Olivença, um teósofo e ocultista que trocou correspondências com pessoa. Alvarenga era um entusiasta da teosofia de sua fundadora, Helena Blavatsky, e foi através dele que pessoa aprofundou seus estudos sobre o tema. As cartas entre eles revelam debates sobre mediunidade, astrologia e as tradições esotéricas.

Augusto Ferreira Gomes, figura central no ocultismo português, Ferreira Gomes era um maçom, teósofo e roça-curciano. Ele editava a revista A Veiga, na qual pessoa chegou a publicar alguns poemas. A relação entre os dois era de mestre e discípulo.

Ferreira Gomes forneceu à pessoa textos e ensinamentos sobre a maçonaria e a Ordem da Rosa Cruz, influenciando diretamente a visão do poeta sobre o simbolismo e as sociedades secretas.

Eduardo Brazão, também teósofo e ocultista. Brazão era amigo e colega de trabalho de pessoa. Juntos eles estudavam a astrologia e a teosofia, com Brazão sendo uma fonte de referência e discussão para o poeta. As anotações de pessoas sobre astrologia, magia e rituais muitas vezes fazem referências às suas conversas com Brazão.

O fascínio de pessoa pela maçonaria e pela Ordem Rosa Cruz era mais do que uma simples curiosidade. Ele via nessas organizações os guardiões de um conhecimento ancestral e de uma linhagem iniciática, que poderia, em sua visão, revitalizar Portugal.

Ele mesmo afirmava em seus escritos que acreditava ser um iniciado, ou pelo menos alguém que buscava um caminho de iniciação. Em seus papéis encontrados após a morte, havia centenas de páginas esotéricas, tratados de astrologia, notas sobre magia, esboços de ordens secretas, planos para sociedades místicas lusitanas. Encontrado um projeto de fundação de uma ordem templária portuguesa,

que uniria simbolismo cristão, esoterismo e missão nacional. Esboços de sociedades secretas, onde combinava cabala, astrologia e nacionalismo espiritual. Experiências de escrita automática, que seria uma psicografia, em que afirmava sentir-se tomado por outras vozes. Pessoa parecia, sim, oscilar entre o papel de escritor e o de médium. Há alguém aberto a forças invisíveis.

Fernando Pessoa morreu em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, em Lisboa, vítima de cirrose hepática, agravada pelo consumo excessivo de álcool, especialmente aguardente. Suas últimas palavras escritas em inglês foram I know not what tomorrow will bring. Não sei o que o amanhã trará.

Foi enterrado no Cemitério dos Prazeres e, décadas depois, transladado para o Mosteiro dos Jerônimos, junto aos grandes nomes da cultura portuguesa. A pessoa tinha alguns fatos curiosos ligados a ele. A pessoa escrevia horóscopos para amigos e clientes como um astrólogo de confiança. Criou os heteronômios, já falados, com datas de nascimento calculadas astrologicamente como se fossem pessoas reais.

Em momentos de inspiração, dizia sentir forças invisíveis, ditando seus versos. Sonhava com uma missão espiritual para Portugal, o Quinto Império, uma ideia messiânica, segundo a qual Portugal teria um papel espiritual de liderança no mundo. Teve uma obsessão pelo sebastianismo, a crença de que o rei Dom Sebastião, desaparecido em Alcácer, Kibir,

Voltaria como salvador. Fernando Pessoa foi poeta, mas também buscador, iniciado e visionário. Viveu discretamente como empregado de escritório, mas por dentro arquitetava templos invisíveis, ordens secretas e universo de símbolos. Sua vida espiritual não foi apenas leitura, foi prática, astrologia.

psicografia, rituais simbólicos e projeto. A ideia de Portugal como centro de um renascimento espiritual. Morreu cedo, mas deixou uma obra que é ao mesmo tempo literatura, filosofia e misticismo. Pessoa foi um poeta do visível e do invisível, alguém que viveu a beira entre a razão e o mistério.