Episódios de Debate de Bolso

#49: Inteligência artificial já existe. E agora?

03 de setembro de 202635min
0:00 / 35:09

Inteligência artificial, ou pelo menos os geradores baseados em grandes modelos de linguagem, existe há pelo menos quatro anos. É tempo suficiente tanto para pertencer ao cotidiano de muita gente quanto para ser odiada por muita gente. Há muitos motivos para achar a IA revolucionária e também muitos motivos para criticá-la ou mesmo temê-la. O que não há é meio de desinventar a IA ou fazer com que ela desapareça. E agora? Como conviver com uma das tecnologias mais disruptivas que a humanidade já criou?

Este é o Debate de Bolso, podcast em que Adriano Brandão e Danilo Silvestre conversam sobre temas que saem do bolso e cabem no bolso.

Atenção! Nossa periodicidade mudou: agora o Debate de Bolso é um podcast quinzenal. A cada duas semanas, sempre às quintas, debatemos um assunto diferente.

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Participantes neste episódio2
A

Adriano Brandão

Host
D

Danilo Silvestre

Co-hostApresentador
Assuntos6
  • A percepção negativa da Inteligência Artificial e o backlash socialJosh Weilerstein·Segunda Guerra Mundial·ChatGPT·Malignidade da IA
  • Os impactos apocalípticos da IA e a crise do capitalismoExtinção humana·Singularidade da IA·Revolução das máquinas·Crise climática·Desemprego·Capitalismo
  • A IA na educação e o risco de emburrecimento versus aprimoramentoLição de casa·Provas·Gaokao·Lousas inteligentes chinesas·Centauro reverso
  • Comparação da IA com avanços tecnológicos históricos e seus perigosTecnologia a vapor·Automatização das fábricas·Eletricidade·Energia nuclear·Apocalipse nuclear
  • A visão chinesa sobre a IA como força produtiva e a necessidade de regulaçãoXi Jinping·Conferência Mundial de Inteligência Artificial·Xangai·Planos quinquenais·Regulação da IA
  • O potencial da IA para resolver problemas cotidianos e democratizar o acesso à informaçãoDiagnóstico médico·Saúde·Ferramentas de programação·Produtividade
Transcrição96 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
ABAdriano Brandão

Esse é o Debate de Bolso, podcast com ideias que cabem no bolso e saem do bolso. Eu sou o Adriano Brandão, do meu lado tá o Danilo Silvestre. Tudo bom?

DSDanilo Silvestre

Tudo bom, beleza, maravilha.

ABAdriano Brandão

O Debate de Bolso é o quê mesmo? É um podcast quinzenal em que a gente oferece um para o outro temas a serem debatidos, temas a serem debatidos dos mais diversos tipos e tamanhos e cores.

DSDanilo Silvestre

Exatamente, o que a gente sonhar dos nossos Devaneios? A gente joga na direção do outro e vê se o outro se vira.

ABAdriano Brandão

A única coisa que tem em comum os temas do Debate de Bolso é que a gente não consegue falar muito bem sobre eles, a gente não entende desses temas.

DSDanilo Silvestre

Exato, mas como a gente tenta acrescentar coisas do nosso conhecimento, eu sinto que eles são todos muito diferentes, mas muito parecidos.

ABAdriano Brandão

Dessa vez você que vai conversar hoje sobre um tema que eu trouxe aqui. Outro dia eu tava escutando um podcast, eu já comentei esse podcast em outros podcasts aqui da casa, da Didi Studio. Tava escutando o Sticky Notes, o podcast de música clássica lá do Josh Weilerstein, que você adora. Eu adoro, falo sempre sobre esse podcast e tal. Eu fiquei um tempo sem escutar, tô voltando a escutar agora. E aí ele tava comentando uma obra que foi escrita na Segunda Guerra E que tem um trecho lá que, a princípio, pro compositor era pra representar a marcha dos idiotas, dos estúpidos.

Então ele cria uma coisa meio mecânica, meio ameaçadoramente mecânica. E aí o Josh Weilerstein fala que quando ele escuta hoje em dia essa peça, ele não consegue não pensar na IA como essa marcha da estupidez, como essa marcha do robô mecânico que te ameaça. E eu fiquei com isso na cabeça, porque o que eu tô vendo cada vez mais frequente, manifestações como a do Josh, a IA como maligna, digna de ser comparada à Segunda Guerra Mundial, assim.

Casos como qualquer pessoa que aparentemente faz alguma coisa com ChatGPT ou com algum outro tipo de IA leva porrada no Instagram, leva porrada no Twitter. A IA virou o inimigo público número 1. Tá acontecendo um movimento mundial anti-IA. Você que estuda isso, me explica o que tá acontecendo. Boa.

DSDanilo Silvestre

É curioso porque tá rolando mesmo uma espécie de backlash assim, né? As pessoas muito indignadas que a IA existe. Várias dessas reclamações, essas acusações fazem sentido, são realmente problemas que a IA nos traz. Mas eu acho que várias dessas reclamações não dão conta do que a IA traz ou pode trazer de positivo. E eu acho que tem um pouco a ver com as reações que a gente já teve ao longo da história com grandes avanços tecnológicos.

A gente teve reações populares muito negativas com a tecnologia a vapor, com a automatização das fábricas, com a descoberta da eletricidade, com energia nuclear.

ABAdriano Brandão

Sim, estabelecimento de usina nuclear sempre foi uma questão, né?

DSDanilo Silvestre

Sempre foi.

ABAdriano Brandão

Quando instalaram as usinas no litoral do Rio de Janeiro, em Angra dos Reis, nos anos 70, 80, um monte de gente foi lá abraçar a praia, porque imagina, você vai instalar uma usina nuclear aqui no paraíso tropical, o que tá acontecendo, né?

DSDanilo Silvestre

E eu acho que o surgimento da energia nuclear talvez seja a melhor metáfora para o que a gente tá vivendo. Já vi gente falando que na verdade é a descoberta da eletricidade. Outra vez, né? Foi a metáfora que o Xi Jinping usou inclusive recentemente da eletricidade, sobre eletricidade. Mas eu acho que tem mais a ver com a energia nuclear, porque a energia nuclear, quando ela surge, a primeira coisa que a gente tem contato são os perigos, é a sensação de que o mundo tá sob um fio.

A energia nuclear pode destruir tudo e todos. A gente teve que lidar com a possibilidade do apocalipse nuclear assim que a tecnologia foi anunciada.

ABAdriano Brandão

Exato.

DSDanilo Silvestre

E eu acho que a gente tá nessa fase apocalíptica com a IA, a sensação de que a IA pode levar à extinção humana por vários âmbitos diferentes, porque ela pode criar uma singularidade.

ABAdriano Brandão

E porque por singularidade, entenda-se, ela pode ser independente da gente.

DSDanilo Silvestre

Isso, ela pode criar o que as pessoas chamam de fato inteligência, ela pode se rebelar e a gente pode ter a revolução das máquinas, que o que não falta é literatura a respeito, né, ficção científica a respeito. Mas também tem o ponto de vista climático, o fato de que os data centers bebem muita água, de que a gente já estava lidando com uma situação muito delicada, crítica e talvez inevitável de apocalipse climático, e que a ASEAN só torna essa situação ainda mais crítica, o uso da água.

A gente passou décadas aí ouvindo que a água ia ser o bem mais valioso do mundo.

ABAdriano Brandão

E agora a gente usa água para resfriar computador.

DSDanilo Silvestre

Exato. E agora a gente usa água para gerar a imagem que você faz aí da sua tia, o folder da padaria, que agora todo mundo faz o mesmo folder, né? E os data centers têm outras questões, além de beber muita água, fazem barulho terrível, e aí afastam os animais dos locais. E ainda tem a questão econômica. O fato de que a IA substitui trabalhadores e que o capitalismo, que já estava em crise, que a gente já tava vendo o capitalismo soltar fumaça, à beira do colapso, agora a gente ainda cria uma tecnologia que torna os trabalhadores obsoletos e desnecessários.

Então, de fato, a parte apocalíptica lembra o surgimento das bombas nucleares, das usinas nucleares. A questão é que levou um tempo a ter energia nuclear ter algum efeito benéfico e real, concreto, na vida, no cotidiano, no dia a dia das pessoas. Porque primeiro bombas nucleares, né? Depois usinas nucleares que permitiam que a gente tivesse energia, a mesma energia que a gente tinha antes.

ABAdriano Brandão

Esse é o ponto, né? Invisível, né?

DSDanilo Silvestre

Ela é invisível, mas ela é uma energia extremamente eficiente e limpa.

ABAdriano Brandão

Ela é limpa. Mas as usinas, elas só soltam vapor de água.

DSDanilo Silvestre

Exato. É que você tem que lidar com os resíduos que têm que ser armazenados de uma maneira adequada. E aí a gente teve alguns casos de vazamento, Chernobyl e depois Fukushima.

ABAdriano Brandão

Exato, né?

DSDanilo Silvestre

Então os momentos em que deu errado foram suficientes para a gente ter um monte de movimentos ecológicos contrários ao uso de usinas nucleares, o que hoje em dia assim, olhando com um pouco mais de frieza, as usinas nucleares pareciam soluções para uma série de questões que a gente tá vivendo hoje.

ABAdriano Brandão

O Brasil, por exemplo, tem um caso de amor longo com geração de energia hidrelétrica. Isso é tão internalizado no Brasil que a gente repete sempre que a usina hidrelétrica é incrível, a energia é muito barata, é muito limpa. Mas não é verdade. A energia realmente é abundante e relativamente barata, mas não é nada limpo. Você, quando você constrói uma usina hidrelétrica, você causa um desastre ecológico gigantesco.

DSDanilo Silvestre

E essa foi uma questão ao longo do desenvolvimento do Brasil, que é o impacto ecológico e social que essas usinas hidrelétricas criavam. O fato de que a gente teve que alagar regiões em que existiam povos originários, né, tribos inteiras que têm que ser realocadas e saem do seu contexto geográfico. Não é simples gerar energia, não é simples, nunca é. Não cai. Existe um custo gigante. Hoje em dia parece que as usinas nucleares eram mais limpas e mais simples e mais seguras do que a gente imaginava.

A gente acabou perdendo oportunidades até os acidentes acontecerem, né? Exato. E aí, com IA, eu acho que a gente tá realmente focado na parte apocalíptica, que é séria, é grave, precisa ser imediatamente abordada. E eu acho que a gente talvez esteja perdendo noção de quais são as oportunidades que as IAs possam apresentar. Eu acho que a gente tá vendo uma visão inclusive muito progressista, gente de esquerda achando que a gente tá lidando com um desastre, que as IAs precisam ser combatidas, aniquiladas.

E há uma confusão entre o que a IA é como tecnologia e as empresas que acabaram criando as IAs que a gente tem nesse momento. E elas são empresas capitalistas, estão na mão de bilionários. E eu acho que as duas coisas acabam se confundindo.

ABAdriano Brandão

Exato, acho que a posse das empresas é um fator muito importante para essa imagem que a IA tem.

DSDanilo Silvestre

Uma imagem de que ela tá na mão dos bilionários, da elite econômica.

ABAdriano Brandão

Americana principalmente, né? E eu acho que isso é uma outra questão.

DSDanilo Silvestre

Mas ela não precisaria estar. A melhor sacada sobre isso que talvez coloca um pouco de perspectiva nessa conversa foi a Conferência Mundial de Inteligência Artificial, que aconteceu agora em julho em Xangai. A conferência, ela foi aberta por uma fala do Xi Jinping, que é o presidente da China, né? E eu acho que o fato de que ele foi falar lá já significa muita coisa.

ABAdriano Brandão

Não foi um emissário dele, foi ele.

DSDanilo Silvestre

A gente tem que fazer esse adendo de como é que funciona o o modelo chinês, porque o presidente chinês, né, o Xi Jinping, ele é muito mais um cargo simbólico do que um cargo prático, porque o modelo político chinês é muito pulverizado e muito atrelado a especialistas. Então a parte de eletricidade, de distribuição de energia no país, é cuidado pelo ministro lá da energia que é um especialista nisso e que vem de uma grande árvore de especialistas nisso que vão subindo no partido até assumir a responsabilidade com isso.

Então nunca que o Xi Jinping vai falar numa convenção de energia. Quem fala é o ministro responsável por isso, porque é o especialista. A mesma coisa em economia, em direito internacional, em comércio. É por isso que nos eventos internacionais dificilmente é o Xi Jinping quem é o responsável.

ABAdriano Brandão

Ele não aparece.

DSDanilo Silvestre

E aí parece que estão diminuindo, né? Parece que a China não leva a sério esses eventos. Mas não, eles mandam os especialistas adequados. O Xi Jinping fala quando parece uma questão de Estado. É para demonstrar a importância que o Estado dá para um determinado assunto. Ele falar é um posicionamento simbólico de importância, não de especialidade. Então ele abriu a Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai Porque é uma questão central para a China.

A China solta planos quinquenais, né, a cada 5 anos o governo determina o que vai ser feito, né, nos próximos 5 anos. É um planejamento totalmente centralizado. E a IA é um dos pontos centrais desse novo plano quinquenal que acabou de ser apresentado. A China quer que a inteligência artificial esteja em todos os aspectos da vida pública, e do governo, da governança chinesa. Então sim, ele estava lá para falar, né, para abrir essa conferência, para bancar a conferência, para falar: é importante esse assunto, é essencial, essencial.

E a fala dele foi: uma vez que a IA está inserida na vida, uma vez que a IA está inserida no dia a dia do mundo, o que é que podemos fazer? Como é que podemos pensar essa questão? Não é se a inteligência artificial se tornar uma força, se a inteligência artificial acabar entrando na vida. Não, é um atestado de que já foi. Você não desinventa alguma coisa. Você não desinventa a eletricidade, você não desinventa a energia nuclear.

ABAdriano Brandão

É, a expressão batida é: você não põe o gênio de volta dentro da garrafa, né?

DSDanilo Silvestre

Sim, já foi. A caixa de Pandora já está aberta. Eu sinto que a gente ainda tem um movimento muito grande de pessoas querendo desinventar a IA. Tentando enfiar de fato o ludismo, né, o ludismo digital. Exato, né, o ludismo, né, movimentos de trabalhadores tentando quebrar a automação nas fábricas, né. Isso, eles queriam quebrar as máquinas.

ABAdriano Brandão

É menos dessa coisa ideológica, super ideológica, que a gente pensa, ou o medo da tecnologia, e mais uma estratégia de luta sindical. É, nós vamos quebrar, vamos empastelar as máquinas do patrão aqui. É mais isso do que o medo da tecnologia.

DSDanilo Silvestre

Não é um medo, é uma resposta prática ao fato de que trabalhadores perderão seus empregos, de que eles vão ser substituídos por essas máquinas. E aí o que a China tá propondo é: já foi, já tá inventado, já está em ação, já funciona.

ABAdriano Brandão

E agora?

DSDanilo Silvestre

E agora? E agora como é que a gente pensa um modelo em que isso não tire empregos? Como é que a gente vai lidar com o desemprego? Como é que a gente vai lidar com o avanço das forças produtivas tendo a IA na nossa frente? Sim, não é sobre você atacar o uso de IA, é entender que o uso de IA já existe, é inevitável, e que a gente precisa juntos, coletivamente, pensar em estratégias de regulação e de uso. E como você bem disse, quando a gente descobriu energia nuclear O que ela oferece para o cidadão comum é invisível. É invisível, é a mesma energia que ela sempre teve.

ABAdriano Brandão

Da termoelétrica. A única coisa é que a termoelétrica desligou e o ar está mais limpo. E talvez a conta seja mais barata. Mas são poucos sinais de que aquilo existe. A energia nuclear, ela está aí e você não percebe.

DSDanilo Silvestre

Os sinais são de longuíssimo prazo.

ABAdriano Brandão

Mas a IA, eu acho que ela tem uma presença muito mais marcante do que a energia nuclear.

DSDanilo Silvestre

Exato, ela aparece no dia a dia das pessoas. O Nicodélis acabou de falar, né, de que a gente tem que pensar a IA nos termos de que ela não está no dia a dia da maior parte da população. Primeiro que eu não acho que a gente possa testar isso. Eu acho que a IA aparece mais do que a gente percebe. Não sei se de uma maneira necessariamente positiva, porque a gente tava acostumado a procurar as coisas no Google e agora uma IA te dá a resposta automática no Google.

ABAdriano Brandão

Esse é o primeiro efeito que eu tenho visto, é Google antes era uma ferramenta que trabalhava para eles. Você fazia o seu site e trabalhava para o Google encontrar o teu site para ele te mandar visitas. Agora o Google não te manda mais visitas. E aí, para que que eu tô lá? Por que que eu trabalho para o Google? Antes tinha uma compensação, agora não tem compensação alguma. Muitos sites, inclusive, olha só que engraçado, estão começando a ver aumentos significativos nos relatórios de audiência da origem ser o ChatGPT ou o Cloud.

DSDanilo Silvestre

É ele que tá apontando para lá, né?

ABAdriano Brandão

É porque ele mostra como referência e a pessoa quer checar o IA. Ela clica e vê a referência. Ele usa para dar resposta, mas ele oferece, ele oferece, olha, tá aqui a fonte.

DSDanilo Silvestre

Mas é um efeito que a gente, que as pessoas já estão, já estão tendo, é esse de procurar coisa na internet e ao invés de chegar a internet você chega numa IA. Mas para além dessa aparição imediata, a IA tem um potencial muito grande de resolver problemas do dia a dia e tem gente já descobrindo isso E a gente não pode ignorar o impacto que isso tem na vida de pessoas que têm menos recursos para resolver problemas. Gente que tem pouco acesso, por exemplo, à saúde, a informações sobre saúde.

E você vai lá e faz o seu diagnóstico com uma IA, você fala quais são os seus sintomas e ela vai te dizer quais são as possibilidades de doença e quais são os tratamentos possíveis. E dá um pouco de desespero porque A pessoa não deveria estar conversando com uma IA, a pessoa deveria estar indo no médico.

ABAdriano Brandão

Sim.

DSDanilo Silvestre

Mas é que esse é o ideal, né? Em geral, as pessoas não têm acesso, não têm acesso imediato a esse tipo de atendimento. Eu acho que grande parte das reclamações que não são apocalípticas sobre IA, são sobre o produto em si, reclamam do fato de que as respostas são de péssima qualidade, de que essas IAs generativas que usam linguagem Elas alucinam e respondem coisas que não fazem mais sentido. É uma sensação que veio do uso do produto assim que ele foi apresentado, alguns anos atrás.

Sim, o nível das respostas hoje mudou muito, é muito superior, a ponto de que essas IAs podem ajudar médicos. E de que a gente tá descobrindo agora que o melhor diagnóstico de imagem que a gente pode ter não é humano, é feito por IAs. Acho que tá vindo descobertas em como a gente pode lidar com a medicina e com vacinas e com análise de células e moléculas e vírus que a IA é infinitamente superior ao olho humano.

ABAdriano Brandão

Sim, ela é muito mais rápida e consegue perceber muito mais padrões.

DSDanilo Silvestre

Exato, então um diagnóstico que você faz numa IA não é tão ruim quanto as pessoas pensam e muitas vezes pode ser uma resposta crítica que uma pessoa tem e que convence ela, por exemplo, a ir num hospital que ela não faria de outra maneira. A IA pode funcionar como uma democratização de acesso a não só informações, mas também ferramentas que as pessoas não tinham acesso antes.

ABAdriano Brandão

Sem dúvida.

DSDanilo Silvestre

Você pode pedir que a IA programe para você ferramentas que vão resolver problemas que você enfrenta no dia a dia.

ABAdriano Brandão

Sim.

DSDanilo Silvestre

E do ponto de vista das forças produtivas, a IA pode ajudar você a trabalhar menos, a trabalhar melhor. A resolver problemas que você teria que fazer de modo meio braçal e repetitivo, com soluções muito práticas, rápidas. A IA vai lá e faz pra você, e você só gerencia o que ela tá fazendo.

ABAdriano Brandão

Eu acho que um ponto mais fascinante da IA é transformar todo mundo em gerente de projeto. As pessoas não são mais só executores a vida inteira, A IA te dá a possibilidade de você levar aí um pouquinho do teu trabalho. Você vai deixar de ser uma pessoa que executa e virar uma pessoa que planeja, que bola, que sabe pedir, que sabe avaliar, sabe pedir correções. É um trabalho de gerente de projeto que não é muito comum, na real.

E aí ela te dá esse gostinho, porque quando você entra na IA e pede qualquer coisa, uma receita de bolo, você tem que saber pedir. Você tem que saber olhar, você tem que pedir correções, checar. É, você tá lidando como se você fosse um gerente de um mini projeto ali naquele negócio. O que é interessante, na verdade, porque você não tá abdicando do teu trabalho gerencial, você tá exercendo o teu trabalho gerencial e abdicando do trabalho braçal, que é, sei lá, pesquisar a receita de bolo ou escrever um programa do zero, por exemplo.

DSDanilo Silvestre

Exato. É até para pesquisa, né? Você pode se ater muito mais na relação das ideias, na construção da ideia. E ao invés de ficar checando página a página alguma coisa, ou lembrar, né, como que a ABNT faz citação, isso, encontrando necessariamente aquela citação que eu preciso para amparar esse texto, é como se tivesse um estagiário, ele vai lá e faz para você. Sim, dá para trabalhar menos e melhor. Essas ferramentas podem aumentar a nossa capacidade, aumentar a nossa produtividade.

Então ela pode ter um efeito imediato na vida de todo mundo, de qualquer um, de qualquer um que trabalha, de qualquer um que estuda. A possibilidade de que a IA funcione como médico ou professor talvez seja um problema para médicos e professores, mas democratiza esse acesso a esse conhecimento para pessoas que teriam muita dificuldade de encontrar médicos ou professores para lidar com situações muito específicas do dia a dia. Sim, então o impacto é imediato.

Para todo mundo. E conforme as IAs vão ficando melhores, mais impacto elas vão ter. Os efeitos apocalípticos continuam aí, continua uma questão. O que a gente vai fazer com os data centers? Qual vai ser o impacto ecológico? Como é que vai ser a regulação disso? Como é que vai ser a questão do trabalho? Assim, me parece que a gente chegou no momento crítico em que o capitalismo não dá conta de lidar com o fato de que as existem.

ABAdriano Brandão

Sim, é verdade.

DSDanilo Silvestre

De que a gente vai aumentar as forças produtivas de um jeito tal, a gente vai ser capaz de construir, de produzir nas fábricas de uma maneira tal que a ideia de que você tenha que pagar um salário pras pessoas fica quase impossível, porque as coisas estão abaixando de preço e os funcionários estão sendo substituídos por máquinas que são muito mais baratas e eficientes. Como a gente vai lidar com isso no mundo que só consegue pensar o capitalismo?

E como você disse, a gente não tá preparado para ser gerente de projeto, a gente não tá muito preparado para pedir coisas, para ser agente ao invés de ser a pessoa que faz o trabalho braçal. Existem muitas preocupações sobre o fato de que o uso de inteligência artificial emburrece.

ABAdriano Brandão

Eu vejo isso o tempo inteiro.

DSDanilo Silvestre

E aí saiu um estudo grande que não é um estudo chinês, mas usa alunos chineses. Eles tiveram acesso aos dados de milhares de escolas chinesas para analisar qual era a rotina de uso de IA por alunos, o que que eles delegavam para IA, o que que eles não delegavam e quais eram as notas que eles tinham nessas atividades. E o resultado é muito interessante. Os alunos passaram a usar IA principalmente para lição de casa. Porque a IA faz a lição de casa pra você.

ABAdriano Brandão

Faz a lição pra eles, é, trapaça.

DSDanilo Silvestre

E como a lição de casa ela tem que ser postada online num sistema das escolas, né, você faz em casa, depois você posta ali pra que os professores recebam ainda em casa, dá pra saber qual é a velocidade que os alunos respondem as lições com o Insinia. Sim. Ainda que os alunos finjam que estão fazendo, né, eles atrasam um pouco, eles têm a resposta instantânea, mas eles esperam uns minutos antes de postar, dá para ver que eles gastam muito menos tempo com a IA fazendo a lição de casa para elas.

E aí a nota delas de lição de casa aumenta muito, eles vão muito melhor nessas tarefas de casa, a nota dispara. Mas o problema não é na lição de casa, é nas provas. Os alunos que usam as IAs para fazer as lições de casa vão muito mal nas provas e as notas deles despencam. E os alunos que não usam IA na lição de casa tiram notas piores na lição de casa, mas vão muito melhor nas provas. E na China, né, o Gaokao, que é o grande vestibular deles, é muito importante.

E é isso que importa no fundo, os alunos têm que estar preparados para essa grande prova. Então, de fato, usar IA para responder as suas perguntas escolares, simplesmente fazer a lição para você, é contraprodutivo, te emburrece de fato. Daí que o plano quinquenal chinês quer banir o uso de IA nas escolas nesses moldes. O aluno não pode usar IA para responder esse tipo de coisa, ele tem que usar IA como ferramenta de estudo para criar perguntas para ele responder e testar os conhecimentos.

Viralizou recentemente as lousas inteligentes chinesas, não sei se você viu. Não vi essa. São lousas que contêm IA. E aí você faz a conta e ela dá o resultado, ela dá o resultado, ela corrige em tempo real. Você desenha formas geométricas, ela constrói essas formas geométricas e faz as parábolas. Usar como ferramenta de aprendizado, não para responder automaticamente a lição que você recebeu. Então exige uma nova educação pensada com IA para que você não seja refém da IA.

É a ideia de que a IA precisa melhorar a sua capacidade, aumentar a sua capacidade, não limitar a sua capacidade de você ficar completamente imprestável a não ser que uma IA faça aquilo para você. Tô achando que tá tentando criar uma nova geração de alunos universitários e futuramente profissionais que possam usar IA para melhorar a sua capacidade produtiva, para que eles possam trabalhar menos e melhor.

ABAdriano Brandão

Mas como é que faz isso?

DSDanilo Silvestre

Então, primeiro é você colocar a IA na educação. A gente tem que usar IA para ter alunos melhores, não alunos piores. E aí é uma questão de você pensar quais são os usos, quais são os lugares que a IA pode ou não pode estar durante toda a formação de um aluno. Permitir que um aluno use a IA simplesmente para responder a lição de casa dele é furada. Então você tem que repensar qual é a lição de casa. Porque se a lição de casa pode ser respondida assim, já era, deu ruim.

Sim, essa lição de casa já não tem mais função. Agora, você criar ferramentas via IA que ajudem o aluno a memorizar, que ajudem o aluno a entender. Se você tem ferramentas de IA que tiram dúvidas do aluno em casa em tempo real, porque aí depois ele pode chegar na aula e falar, olha, eu conversei com a IA e a IA me respondeu isso. São outros usos possíveis para isso.

ABAdriano Brandão

Acho que passa, a gente fez um episódio sobre a educação, né? Passa por uma espécie de repensar o modelo da nossa educação mesmo. A IA, ela é disruptiva a ponto da gente ter que repensar como que a gente trabalha na escola. O modelo de avaliação, lição de casa e avaliação fica muito fragilizado com a ideia da IA aparecendo como uma ferramenta de trapaça mesmo, como um Zé Moleza super turbinado.

DSDanilo Silvestre

Exato. E ela não deveria ser uma ferramenta de trapaça, ela deveria ser uma ferramenta de ampliação de pesquisa, né, de raciocínio, de aprofundamento das coisas.

ABAdriano Brandão

Sugerir naquele episódio que a educação voltasse a uma coisa mais de acompanhamento do progresso do aluno, etc. Eu entendo que sejam coisas muito utópicas, né? Quantos alunos na turma pode aluno precisa ter para eu conseguir dar conta, um professor conseguir dar conta de observar progresso individual de cada um? 20, 15, sei lá, 10, não sei. Fazer prova é o que dá para fazer quando você tem uma turma de 70 alunos, certo? Ou mandar lição de casa, ou pedir trabalho, sei lá.

O que tá acontecendo bastante é os professores adotando provas em papel, né, pedindo trabalhos manuscritos, coisas assim, que, por exemplo, um trabalho de casa manuscrito você pode fazer na IA do mesmo jeito, só vai ter o trabalho de anotar depois com a tua própria letra no papel, certo?

DSDanilo Silvestre

Perfeito.

ABAdriano Brandão

Então talvez não seja a melhor tática, não sei qual que seria a melhor tática, mas talvez o ensino teria que acontecer num jeito diferente. Talvez aí a IA force a gente a ter que repensar as estratégias de ensino.

DSDanilo Silvestre

É, mas eu acho que o que é importante é a gente perceber que a IA pode ser uma ferramenta de trapaça e que ela pode ser criticada por isso, mas que ela pode e deve ser uma ferramenta de auxílio. Ela tem que ser uma ferramenta que— uma tecnologia que nos torna mais aptos de assistência mesmo, né? O Edgar Doctorow, ah, sei, que é um romancista que escreve ficção científica, ele tem uma metáfora que eu acho fantástica. Que é a metáfora do centauro.

O centauro, tradicionalmente, ele tem a metade de baixo cavalo, animal, e a metade de cima humano. Então ele é um humano com a inteligência, a compreensão, a sensibilidade humana, mas a potência de um cavalo. Então fisicamente ele é muito mais hábil, muito mais apto às grandes tarefas do que um humano convencional. O que o Dr. diz é que a gente tem que tomar cuidado para não virar um centauro reverso, que é a cabeça de cavalo com pernas humanas.

E que usar IA para o que a gente tá chamando aqui de trapaça é se tornar um centauro reverso. Sim, a gente não entende nada, a gente não compreende nada, a gente não sabe o que tá acontecendo, e você fica extremamente dependente dessa tecnologia. Porém aí pode tornar um centauro.

ABAdriano Brandão

Isso parece coisa de curso, né? Compre agora o curso para que a IA te torne um centauro.

DSDanilo Silvestre

Isso dá para ser. É que exige que a gente repense educação, que a gente repense provavelmente o modelo econômico. Quanto mais eu estudo IA, quanto mais eu estudo o que que a China tá fazendo, como é que a China tá lidando com IA, mais parece que o nosso modelo ocidental não tá pronto para lidar com isso. Acho que as pessoas estão criticando o IA, reclamando da IA, justamente porque a IA vai roubar emprego, destruir a nossa chance de bons salários e tá na mão de empresas bilionárias.

Ou seja, tudo que a gente conhece por capitalismo ocidental é colocado em xeque frente a um avanço tecnológico desse nível. Curiosamente, quem tava preparado para lidar com isso é quem nunca temeu o avanço das forças produtivas. A China, que tá dentro de uma teoria marxista, eles acham que o que eles imaginam como um mundo utópico só pode acontecer se as forças produtivas, se a tecnologia se desenvolver de tal modo que você crie fartura, que a fartura seja tal que a possibilidade de você ficar pensando como é que funciona a propriedade privada dos meios de produção e o pagamento de salários não faça mais sentido.

É um mundo de fartura. E é curioso que a IA promete um mundo de fartura. A IA promete uma possibilidade de que a gente produza coisas de uma maneira nunca antes vista. A gente tá vendo fábricas na China que são totalmente 100% automatizadas na produção e na distribuição do que é produzido, em fábricas que funcionam 24 horas por dia no escuro, porque não precisa de luz na fábrica, não tem gente humana ali, só tem máquina. E aí, como é que você lida com o desemprego que isso causa? A gente tem que repensar toda a nossa visão de sociedade, né?

ABAdriano Brandão

E é um assunto fascinante. Dá para pegar a cerveja e ficar aqui horas falando de inteligência artificial. A inteligência artificial vai ficar cada vez mais onipresente, vai estar em dispositivos muito pequenos e sem acesso à internet. Ela vai— há um momento a inteligência artificial vai se divorciar da internet.

DSDanilo Silvestre

Essa conversa sobre data center, ela é muito historicamente posicionada. Daqui a pouco não tem data center, vão ficar IA para quem vai usar IA em grandes laboratórios para descobrir coisas de física.

ABAdriano Brandão

Aí, do nosso consumo todo dia, vai estar no teu computador.

DSDanilo Silvestre

Isso, você vai rodar localmente, tudo local.

ABAdriano Brandão

Você vai instalar o Windows e vai estar uma IA já pronto.

DSDanilo Silvestre

Acho que o grande cerne dessa conversa é: eu entendo porque as pessoas estão tão receosas, porque que as pessoas têm tanta raiva da IA, porque sim, tem gente virando centauro reverso. Tem gente empurrecendo e o apocalipse climático tá na nossa porta. Não percamos de vista o fato de que a IA resolve problemas e ela resolve problemas do dia a dia, de pessoas comuns, assim, do Zé da esquina.

ABAdriano Brandão

Ele fez o folder de vender figurinha em 3 segundos no ChatGPT, muito mais bonito do que ele saberia fazer no Word. Como é que desfaz isso?

DSDanilo Silvestre

É assim, e um monte de gente publicando música com IA. Ah, sim, que é simplesmente um sintoma do nosso modo de produção. Como é que você ganha dinheiro com música hoje em dia? Você coloca um monte de coisa no Spotify, aí você torce para alguém ouvir porque dá poucos centavos. Eu adoro um podcast, chama Weird Work, que é um cara, é um cara na gringa que entrevista gente com trabalho estranho. E ele entrevista nos primeiros episódios um cara que vive de fazer música.

Como é que funciona isso? Ele escreve música sobre todos os temas que você imaginar, sobre todos os nomes que você quiser.

ABAdriano Brandão

Ah, porque é para o nome específico de mulher, por exemplo.

DSDanilo Silvestre

Isso. E aí ele vai lá e coloca no Spotify. Então tem a música do Parabéns Para Você para o Adriano, tem a música do Parabéns Para Você para o Danilo, tem a música do Parabéns Para Você para o Paulo. Ele ganha no volume. Por quê?

ABAdriano Brandão

Porque o modelo de negócio é esse.

DSDanilo Silvestre

O modelo de negócio é esse, é assim que funciona. Então ele coloca um monte de lixo um atrás do outro.

ABAdriano Brandão

Eu já vi muitas. Agora tem a IA, né? Ele fazer isso ele mesmo, né? Parabéns para você, Paulo.

DSDanilo Silvestre

O World Work é um podcast pré-IA, é bem antigo.

ABAdriano Brandão

Agora a IA faz isso, aí você vai no YouTube, tem lá 14 horas de Jéssica Suave para você estudar, e é a Jéssica Suave Feito por IA.

DSDanilo Silvestre

Isso é IA fazendo o que eles chamam de lo-fi.

ABAdriano Brandão

Aí tem lo-fi, tem de tudo, aí fica lá. Aí eu achei um negócio que tá gerando para sempre ali, é tudo IA.

DSDanilo Silvestre

E assim, é claro que tudo isso é horroroso, mas isso tudo é sintoma de uma outra coisa. A IA em outro modelo social, em outro modelo econômico, seria usada com outras funções.

ABAdriano Brandão

Exato.

DSDanilo Silvestre

Esse momento é um momento crítico. O Xi Jinping já avisou, né? Ele falou, aí já tá inventada, já foi, gente. A gente tem que começar a pensar o que a gente faz com ela. Sim, a recusa não vai levar a gente a lugar nenhum. A gente tem que fazer parte desse debate e desassociar IA do modelo econômico, das megacorporações, dos bilionários com discursos horrorosos sobre fim do mundo, entendeu? Existe um outro jeito de usar essa IA, e é isso que a gente deveria estar disputando agora.

Exato. E ar virou um campo de disputa. É muito melhor que a gente use, resolva nossos problemas e dispute um uso ético e sustentável de ar do que a gente simplesmente fingir que não existe ou pedir para o gênio voltar de volta para lâmpada, né?

ABAdriano Brandão

Exato. O Debate de Bolso é uma produção da ADD Studio, uma parceria entre mim, Adriano Brandão, o Denis Botani e o Danilo Silvestre. Você pode seguir a gente no X, no Blue Sky e no Instagram, no @debatedebolso, tudo junto, e acessar nosso site em debatedebolso.com. Atenção que a nossa periodicidade mudou, novos episódios agora saem quinzenalmente, sempre às quintas-feiras. A gente se vê daqui a 2 semanas. Tchau!

DSDanilo Silvestre

A D&D Studio.

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