#46: O que explica a Cazé TV?
A cobertura da Copa do Mundo de 2026 foi dominada por um assunto inusitado: a cobertura da Copa do Mundo de 2026. O que chamou a atenção de todos foi o fato do campeonato ter sido assistido prioritariamente na internet, num canal famoso por sua linguagem, digamos, exagerada. A Copa na Cazé TV foi um indiscutível sucesso, capaz de colocar a Globo numa postura defensiva bastante rara. O que explica o fenômeno?
Este é o Debate de Bolso, podcast em que Adriano Brandão e Danilo Silvestre conversam sobre temas que saem do bolso e cabem no bolso.
Atenção! Nossa periodicidade mudou: agora o Debate de Bolso é um podcast quinzenal. A cada duas semanas, sempre às quintas, debatemos um assunto diferente.
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O Debate de Bolso é uma produção da AD&D Studio. Conheça nossos demais podcasts em aded.studio. O som das nossas vinhetas é do Jayus Jazz.
- Carreira TV GloboCobertura da Copa do Mundo · Casé TV · MBL · Direitos de transmissão · Hábito de consumo
- Rede Globo - Bastidores e Problemas InternosCrises financeiras da Globo · Globocabo · Pandemia · Renegociação de direitos com a FIFA
- Trajetória na televisãoEsporte Interativo · Live Mode · Pilatos · Google Gemini na Volvo · Twitch e Henrique Antero
- Linguagem e ComunicaçãoLinguagem da Casé TV · Universalidade da transmissão · Público jovem · Profissionalismo na transmissão · GE TV
- Abertura da Copa do MundoFesta popular · Futebol de seleções vs. clubes · Copa do Mundo
Esse é o Debate de Bolso, podcast com ideias que saem do bolso e cabem no bolso. Eu sou o Adriano Brandão, do meu lado tá o Danilo Silvestre. Tudo bom?
Tudo bom, beleza?
Muito, muito bom. O que que é o Debate de Bolso?
Debate de Bolso é esse podcast quinzenal, quinzenal, em que em cada episódio um pede para que o outro debata sobre algum tema aleatório, sortido, diverso.
Sortido, diverso.
Exato, parece que a gente tá sorteando alguma coisa de uma cartola.
No caso, sai do bolso e não da cartola. Exatamente. Senão seria o debate de cartola.
A gente então sorteia alguma coisa do bolso e o outro tenta contribuir ao debate com o seu conhecimento, as suas especialidades, ou o que tiver na sua cabeça. Estamos vindo do fim da Copa do Mundo.
A Copa acabou.
Um assunto que se impõe, né?
Um assunto que foi o monoassunto, né?
Toma não só o tempo das pessoas, mas também toma muito espaço na mídia.
É verdade, basicamente tudo vira sobre a Copa do Mundo, né? Durante a Copa do Mundo, os noticiários. É assim, vamos fazer um mea culpa. Eu falei no Debate Bolso há várias edições atrás que eu tava sem clima de Copa, que sei lá, ninguém tava pensando em Copa e de repente ia começar a Copa.
O clima surgiu, né?
Ridículo. Na segunda semana eu já tava doidaço com Copa, exato, vendo todos os jogos.
A estrutura funciona, né? Toma realmente atenção das pessoas, toma espaço noticiário. Mas dessa vez, além da Copa do Mundo, a gente teve noticiário político sobre todas as questões políticas envolvendo a Copa do Mundo.
A gente falou um pouco sobre isso no episódio passado, né, do debate.
O Trump até pedindo para que um cartão fosse anulado.
Verdade, isso a gente não previu, né? A gente não, a gente gravou aquele episódio antes. E aí de repente essa interferência muito explícita, e ele fala, né, claramente: não, eu liguei lá para FIFA.
E porque achei um absurdo.
Então teve a parte esportiva, teve o Trump também, foi protagonista de uma das cenas mais patéticas da Copa, que foi ele entregando o troféu da Copa do Mundo para o time da Espanha, não querendo sair do palco.
Ele queria ficar na foto, ele tentou arrancar.
Aí o juiz infantil correu para tirar ele de de certo jeito, ele ficou parado, muito constrangedor, num nível absurdo.
Então também teve essa parte política aí nos noticiários, mas também gerou muita comoção popular a transmissão da Copa do Mundo, particularmente no Brasil, porque a gente saiu da televisão, a gente saiu de um monopólio da televisão, da Globo transmitindo todos os jogos, para uma exclusividade da Casé TV. A Casé TV foi a única emissora, podemos dizer assim, acho que sim, né, que transmitiu todos os jogos da Copa. Então o único jeito de assistir alguma dessas partidas era na Casé TV, ou seja, era na internet, né.
Isso envolve uma parte tecnológica, pessoas que não estão assistindo nada na internet vão ter que aprender. Eu tive que ensinar minha mãe a acessar a Casé TV na televisão dela. Sério?
Olha a experiência!
Levou mais de uma hora para conseguir que isso acontecesse. Foi por telefone? Foi por telefone.
Muito difícil fazer por telefone.
Muito difícil. E não rolou via YouTube, aí eu tive que ir via Prime, porque a Prime permitia que você assistisse a Casa TV.
A Casa TV tava em todos os lugares, tava na Prime, tava na Disney Plus.
Então deu um trabalho. E além disso, há uma mudança na maneira de cobrir a Copa, porque a linguagem da Casa TV é muito diferente, é voltada para outro público. Sim, eu passei o tempo inteiro imaginando o que que minha mãe tava achando do formato resenha que a Casé TV tava apresentando.
Eu queria falar sobre isso depois, assim, mas chegue no ponto.
É isso, eu queria a sua opinião sobre essa mudança. O que significa a Casé TV tá transmitindo com exclusividade jogos da Copa do Mundo? Qual o impacto disso? Qual é o futuro das transmissões esportivas pra Casé TV?
Eu tô pensando muito sobre isso desde o começo da Copa, porque quando teve as Olimpíadas de Paris em 2024, A Casé TV também tava transmitindo, e a Copa de 22 no Catar, a Casé também transmitiu alguns jogos, acho que 20 jogos. Foi logo no começo, quando eles foram criados, foi na Copa de 22. E eu não assisti nem nada do Catar e nem nada das Olimpíadas na Casé TV. Eu até tentei ver um pouco da Olimpíada na Casé, eu só não aguentei, não curti a transmissão, não curti a experiência, e só tirei assim, eu não segui assistindo.
Mas a Copa do Mundo ofereceu um panorama muito diferente para todo mundo, porque ao contrário das Olimpíadas, em que tava tudo sendo transmitido pelo SporTV e pela própria TV Globo aberta, na Copa do Mundo metade dos jogos era só na Casé TV. E foi uma Copa muito grande, teve 16 times a mais, e aí isso fez com que tivesse também o dobro de jogos do que costuma ter. E acho que essa é a origem da história toda. O inchaço da Copa do Mundo é o que causa a Casé TV.
Porque se a gente resgatar a história da Casé TV, ela surge através de uma brecha da Globo. A Globo, volta e meia, a Globo encontra problemas financeiros que ela precisa resolver, de dar uma driblada. A gente sempre imagina que a Globo é um mamute invulnerável que está muito acima de tudo e que tem dinheiro infinito. Não é exatamente assim que acontece. Teve duas crises razoavelmente recentes, grandes, que a Globo passou. A primeira foi, e essa eu vivi porque eu trabalhava numa emissora retransmissora da Globo na época, foi em 2001, virando para 2002, na verdade.
Coincidiu com a primeira eleição do Lula, mas não era sobre isso, era sobre uma dívida que a Globo tinha feito para iniciar, para estruturar a operação de TV a cabo no Brasil, a famosa operação da Globocabo. E ela pegou empréstimos gigantescos e não conseguiu pagar. Ela entrou meio que em renegociação de dívida, ela entrou meio que em default, ela caloteou, basicamente. Isso foi em 2001, 2002. E para resolver essa questão financeira, eles tiveram que passar o chapéu em todas as afiliadas, são as emissoras que retransmitem a Globo pelo Brasil todo.
E em 2020, com a pandemia, a Globo entrou num processo mais ou menos parecido, começou a apertar o dinheiro fortemente. A receita publicitária caiu muito durante a pandemia. Porque caiu tudo, caiu muito, né? Então os anunciantes não estavam querendo renegociar os pacotes que eles tinham anteriormente comprado.
Não era um problema específico da Globo, né? Foi um problema de todo o mercado.
Exato. E aí a Globo percebeu que tinha que renegociar os contratos que ela tinha em vigor. E a Globo renegociou, foi renegociar com a FIFA. Ela já tinha comprado exclusividade dos direitos até a Copa de 2030. E aí, com esse problema de dinheiro, ela chegou na FIFA e falou, eu quero renegociar. A FIFA não queria renegociar, inclusive teve uma briga judicial, a FIFA entrou na justiça contra a Globo, mas aí eles se acertaram e fizeram um acordo em que a Globo cedia os direitos digitais da Copa do Mundo de 2022 e só ia comprar metade dos jogos da Copa de 2026, essa que acabou de passar.
Mas são sempre leituras da Globo de que a audiência não corresponde com o investimento feito. Pela emissora, né? Porque por muito tempo a Globo simplesmente fazia qualquer investimento porque o importante é que ela tivesse os direitos.
É, mas os detentores de direitos percebem isso e colocam cláusulas de que se você comprou, você tem que passar.
Isso que a Globo fazia, isso com alguma frequência, comprava filmes e séries para os concorrentes não terem, e eles não tinham nenhum interesse de passar.
Não só isso, os talentos, o termo de hoje, né, é o língua de 2026, é chamar todo mundo de talento. Os talentos a Globo contratava e pagava salário mensal, CLT, mesmo sem pôr no ar, só para os concorrentes não terem.
Põe na geladeira, né? Um monte de talento só para os concorrentes não poderem usar.
Aposentadoria de luxo dessas pessoas.
Exato. Quando o dinheiro começa a dar uma encurtada, aí sim você começa a calcular se faz sentido manter aquele contrato do talento ou se faz sentido manter o contrato do Campeonato Brasileiro de Futebol, Copa do Mundo, etc. Fórmula 1, né? A Fórmula 1 que eles abriram mão.
Vários anos sem Fórmula 1, voltou Volta quando tem mais audiência.
Mas tem que fazer essa leitura, né?
Então, e tem uma segunda leitura que é essa questão de cessão de direitos de campeonatos esportivos. Ela é uma via dupla, porque não é só interessante para o organizador do campeonato vender e fazer dinheiro com os direitos de televisão.
Ele quer divulgar também, ele quer também divulgar o produto dele.
Claro, se ela comprou todos os jogos da Copa do Mundo na TV aberta, ela é obrigada a passar todos os jogos do mundo da Copa do Mundo na TV aberta. Acho que isso gerava um pouco de disrupção na grade. Tem jogos lá, sei lá, Argélia e Nova Zelândia, que não devem dar tanta audiência quanto Ana Maria Braga. Isso, talvez não deem tanta audiência, mas de alguma maneira eles perceberam que eles podiam economizar diminuindo o pacote, foram na FIFA, fizeram essa negociação.
Perfeito. Esse movimento, esse vácuo que a Globo deixou, fez com que dois executivos que eram fundadores do Esporte Interativo Esses caras venderam o Esporte Interativo para a Warner. Então hoje toda a estrutura que era do Esporte Interativo hoje chama TNT Sports. Então tem lá o André Henning. Até hoje eles têm os direitos da Champions League, coisas desse tipo.
É virtualmente a mesma empresa?
É, são as mesmas pessoas, etc. Só que os fundadores venderam o negócio para a Warner e abriram outro negócio chamado Live Mode, que é o mesmo negócio. Eles viram que a Globo deixou os direitos digitais da Copa do Mundo escapar, eles foram lá, negociaram com a FIFA e eles viraram agentes de vender esses direitos, de procurar parceiros no mercado para vender esses direitos. E eles chegaram no Google e ofereceram esses direitos. O Google topou, só que precisava de ter audiência.
Então eles estavam, eram detentores de direitos de transmissão de, sei lá, 20, 30 jogos da Copa do Mundo com uma plataforma já parceira, o Google. Mas sem audiência. Eles não tinham audiência nenhuma.
Tem que encontrar um canal grande o bastante para atrair essas pessoas.
E aí eles encontraram o Casimiro. E é isso, eles encontram os ex-executivos do Esporte Interativo, encontraram o Casimiro. O Casimiro foi um encontro feliz, digamos assim, foi uma boa sacada dos caras do Esporte Interativo, porque o Casimiro, além de já ter trabalhado no Esporte Interativo como repórter antes, ele era um streamer na Twitch muito famoso, tinha milhões de pessoas assinando o canal dele na Twitch, no YouTube, entre os maiores do Brasil.
Ele ficava um dia inteiro reagindo a coisas, aquilo que o pessoal do Twitch faz. Então o Casemiro já tinha uma audiência. Os caras falaram assim, é bom, ele gosta de esportes, ele fala com o público, um público masculino jovem que também tem interesse pela Copa do Mundo, vamos pegar audiência dele. Então eles fizeram, chegaram no Casemiro e falaram, olha, a gente Tem os direitos da Copa do Mundo, a gente quer transmitir via você.
E aí eles ficaram sócios, provavelmente um sócio, o Casemiro é um sócio minoritário. E aí eles criaram a Casé TV em 2022 para transmitir esses jogos que a Globo deixou cair. Funcionou, porque as pessoas começaram a assistir, a ver a transmissão. No começo era uma transmissão exatamente aquela que você descreveu, era transmissão resenha, transmissão um monte de pessoas falando ao mesmo tempo. Eles foram mudando aos poucos, né? Na transmissão das Olimpíadas já deu para ver uma certa mudança.
Nas Olimpíadas, que ao contrário de você eu acompanhei pela Casé TV porque não tinha outro lugar, a Globo não passou tanta coisa assim na TV aberta, não, eles se preocuparam em trazer especialistas que pudessem comentar e explicar os esportes em questão. Ainda tinha muita conversa, muito bate-papo, um clima muito informal, Eles se vangloriavam da possibilidade de que você pode reagir com sinceridade, você pode falar palavrão, você pode ser tomado pelo momento, mas já tinha alguma profissionalização no sentido de que especialistas comentavam esportes específicos.
Exato. As Olimpíadas são um evento importante, mas não são tão populares no Brasil quanto a Copa do Mundo. Nesse vácuo que a Globo deixou quando renegociou os direitos com a FIFA, ela comprou também o direito digital de transmitir pela internet toda a Copa do Mundo, 104 jogos da Copa do Mundo. A estatura da Casé TV mudou de repente. Não é que ela tava competindo pelas transmissões com a Globo, agora ela tinha exclusividade das transmissões e só competia com a Globo em algumas, metade das transmissões.
E aí o público se viu sendo obrigado a ter que assistir vários jogos na Casé TV, e isso gerou um hábito. E é uma das coisas mais importantes, e é o sucesso da Globo. E é isso que me espanta, tenha acontecido, que a Globo tenha deixado isso acontecer, porque a Globo foi fundada no hábito. Essa é uma coisa, uma das primeiras coisas que a Globo percebeu lá nos anos 60, 70, foi que a televisão é hábito. As pessoas querem deixar a TV ligada meio que o dia inteiro no mesmo lugar.
A audiência da Globo é uma audiência da programação, tanto que se você for ler estudos sobre a Globo, etc., Todos falam que o grande mérito da Globo foi criar a grade. Se você for pegar a história da televisão brasileira, inclusive na origem, lá nas primeiras transmissões da TV Tupi, por exemplo, não existia uma grade, existiam programas, que é um modelo de televisão parecido, mais parecido com o modelo dos Estados Unidos. As pessoas são fãs de programas e elas procuram onde o programa está.
Nos Estados Unidos é muito comum, as produtoras fazem programas sem ter nenhum tipo de afiliação com alguma transmissora e vendem para as emissoras locais. E aí o programa da Drew Barrymore tá na ABC em Seattle, mas tá na NBC em Nova York. Isso é uma coisa que as pessoas querem ver, o programa.
A gente vê isso muito bem com canais que não são a Globo, que às vezes a emissora tem 2 ou 3 programas e todos os outros são espaço livre que eles alugam para quem quiser transmitir alguma coisa. E aí você tem aquela esmagadora quantidade de programas de igreja, né?
É, mas mesmo assim, mesmo Se você pensar no começo, nos 60, as televisões às vezes desligavam a programação quando não era no horário do programa. Então, o programa é às 3 e o outro programa terminou à 1, fica um buraco, um preto ali, ninguém se importa porque a emissora é só um meio técnico de transmitir os programas.
Perfeito.
A Globo mudou isso com a ideia da grade, a ideia de uma programação que faz sentido, que é coerente e vai mudando de faixa etária, mudando de público ao longo do dia. Então a Globo foi criada no hábito, foi criada na grade, e ela perdeu isso com a Casé TV tendo todos os jogos, porque as pessoas não querem pensar: esse jogo da Argélia vai passar na Globo ou vai passar na Casé TV? Não, as pessoas simplesmente botavam na Casé TV e assistiam tudo.
Começava o dia, sei lá, meio-dia, uma, acho que era o primeiro jogo da Copa, começava mais ou menos nesse horário, colocava na Casé TV e largava. Ficava— eu cheguei a ver Casé TV em em sala de espera, em bar, passando resenha, os cara conversando, não tinha nem jogo, mas tava lá tocando a Casé TV.
Eu vi que a Globo tinha perdido quando eu comecei a ver nas padarias, porque padaria, exato, você deixa lá no canal na Globo e fica passando todos os jogos da Copa na padaria, na recepção do médico. E agora era Casé TV, era Casé TV.
Eu cansei de ir em lugares que tinha lá uma Casé TV lá funcionando. Tipo, a pessoa só quer, ela quer ter o menos esforço possível. Você já tá tudo passando na Casé TV, enfia na Casé TV.
E eles ocuparam inclusive a madrugada, né? Eles faziam uma live madrugada dentro.
Sim, a pessoa acabou de ver jogo, ficava vendo lá.
Eles estavam nessa lógica. E de manhãzinha já tinha programa de gente lá nos Estados Unidos conversando sobre às vezes coisa nenhuma, mas é só para manter a programação coesa e ininterrupta.
Exato. Então o meu ponto, que é onde eu queria chegar, é que tudo isso que aconteceu sobre a Casé TV tem muito pouco a ver com a linguagem, não tem quase nada a ver com a linguagem. O que a gente tá falando aqui é sobre hábito de consumo. Podia ser padres rezando durante o jogo, mas se for exclusivo, se a Igreja Católica, se a Rede Vida comprar exclusividade da Copa do Mundo, as pessoas vão assistir na Rede Vida a Copa do Mundo.
Eu ensinei minha mãe a acessar Casé TV Primeiro, pensei no fato que talvez ela fosse estranhar a linguagem depois. Mas é que, porque assim, a questão era exclusividade, ela precisa assistir num único lugar, ela não sabe onde os jogos são, fica na Casé TV o tempo inteiro, boa sorte.
Eu percebi que a linguagem da Casé TV diluiu bastante, eu acho que tinha várias transmissões que era muito pouca diferença assim, não tinha muita diferença da Casé TV para o SporTV ou para a própria Globo, sei lá, eram tirando um ou outro locutor, quase todos os outros eram Locutores normais, padrão mercado, comentaristas espertos que eles contrataram pra Copa do Mundo, Rafael Oliveira, Ju Cabral, essa galera que faria esse mesmo comentário na ESPN, no Sport TV, na Globo, onde eles estivessem.
Não tem muita diferença na maior parte das vezes. O Casemiro tem um papel decorativo, né? Ele fica lá na mesa e ele faz assim: legal, pô, massa, né? Ele fica fazendo interjeições monossilábicas a transmissão inteira. Ele não faz diferença. Os quadradinhos que tem lá no canto lá que mostra a reação dos narradores não faz diferença. Nada. Ah, eles estão no estúdio, eles fazem zoeira, não faz diferença. Ah, eles leem o chat, vendem camiseta, vendem para mostrar o QR code, não faz diferença.
O importante é que passava jogo o dia inteiro. É isso que fez a diferença. É isso que eu falo.
A gente tá com 38 milhões de inscritos, a gente quer chegar a 39.
São coisas de linguagem de internet, linguagens de Twitch, linguagem de YouTube, mas Não faz diferença nenhuma. As pessoas não foram ver a Casé TV porque acham Casimiro muito legal, ou porque gostam do modelo de locução, ou porque a linguagem jovem, descolada. As pessoas foram para Casé TV porque era onde tinha os jogos.
Não, é claro, mas a partir desse momento em que as pessoas foram porque tinha os jogos e porque era mais cômodo, porque criou um hábito, as pessoas podem ter gostado da linguagem ou desgostado da linguagem.
Eu acho que aí a gente pode conversar sobre a linguagem. Eu acho que tem problemas formais. Quando eles foram fazer, finalmente, os primeiros jogos in loco, porque eles fizeram toda a Copa do Mundo no estúdio, eles foram para as quartas de final, eles fizeram alguns jogos das quartas, depois todas as semis. A primeira vez que eles aparecem no estádio, a câmera mostra eles, eles estão de frente para o gramado, então a gente via a parede É um erro clássico, né?
Você tem que colocar a câmera voltada pra grama, né? Você quer ver o Everaldo, o Júnior, e no estádio. Você quer ter a sensação de que eles estão no estádio. Então a câmera fica olhando pro gramado, então eles ficam de costas pro gramado olhando pra câmera. Não, a Casé esqueceu disso.
Não, mas não só arrumaram depois, como pediram pizza, comeram pizza com a câmera mostrando o gramado.
Eles querem mostrar que estão lá, mas no começo não. Então, tipo, tem uma segunda coisa também que pelo menos para mim foi muito importante. Não sei se para quem tava ouvindo a gente também tenha sido importante. É a imagem da Casé TV era muito boa, era um 4K de excelente estabilidade e resolução e cores. Tava muito boa a imagem da Casé TV. Quando eu colocava no Sport TV, quando o jogo tava disponível no Sport TV, ou colocava na própria Globo, degradava muito porque a imagem caía para Full HD, por exemplo.
Quando você se acostuma, é muito difícil de voltar. Você se acostumou em ver o jogo em 4K, em que você tá vendo, é tudo crocante, você quer morder a grama de tão bonita que ela fica na tela. Aí quando você muda para Globo na anteninha, ela é um negócio verde sem definição, você fica meio, sério, que a gente acostumou, que a Copa é assim?
O mundo do 4K na internet é muito bom, é muito bom.
Então para mim, eu tinha à disposição o SporTV e tinha disposição a Globo. Em vários jogos, metade dos jogos. E eu não gosto tanto da linguagem da Casé TV, mas a imagem era tão melhor e o hábito era tão fácil de simplesmente largar a Casé TV na televisão que eu fiquei assistindo quase tudo na Casé TV, menos os jogos do Brasil, por causa do lag, por causa do delay. O delay era ridiculamente alto. E eu acho que o advento da transmissão pela internet fez o pessoal da Globo ficar meio desanimado.
Não sei se eu viciei também na gritaria de mil pessoas falando ao mesmo tempo da Casé TV, mas quando eu punha na Globo para ver os jogos do Brasil e da Argentina, eu sentia todos meio borocochô, o Everaldo meio perdido. Ele tava sentindo um pouco, tá lá na Copa fazendo o jogo do Brasil, deu para perceber um pouco ele nervoso, então meio artificial. Pediram para ele falar muita coisa, então tipo toda hora ele falava assim: a gente aqui alcança mais famílias em todo o Brasil.
Brasil desde os anos 70. E você quer assistir com delay? Claro que não, você põe anteninha. Então forçou um pouco a barra para tentar dizer que era melhor via Globo.
Tinha que responder, né?
Tinha que responder. Mas eu senti um desânimo, a equipe tava meio derrotada assim. A sensação que eu tinha é que o ânimo da galera da Globo foi para o chão porque eles não tinham todos os jogos, porque eles tinham metade dos jogos e sabiam que estavam perdendo para o pessoal da internet. Mas isso tudo dito, tem um outro fenômeno que eu acho que a Casé TV também demonstra, que eu acho que é bem interessante. Quando eles decidem mandar uma galera para os Estados Unidos para fazer os jogos in loco, eu percebi isso que tava acontecendo.
O time que foi para os Estados Unidos é o principal, né, é o, digamos assim, é o top da Casé TV. Eram todos homens brancos na faixa dos 30 anos. E aí esse é o espírito da Casé TV. Teve um episódio que meio que deixou bem claro para mim um pouco sobre o ethos da Casé TV, sobre o jeitinho deles, que foi um episódio com o Djalminha. O Djalminha é o ex-jogador da seleção brasileira, jogou no La Coruña muitos anos, e ele é amigo pessoal lá do treinador da Argentina, o Lionel Scaloni, porque eles dois jogaram juntos no La Coruña.
Isso dito, ele tava, ele cobriu a Copa com o pessoal da Casé TV, ele cobriu lá nos Estados Unidos, ele ficava lá nos Estados Unidos e tal. Então, vários jogos ele tava lá na beira do gramado, conversava com repórter e tal, era acionado uma vez ou outra durante os jogos, tudo bem. Aí eles tinham aquela mesa redonda que eles faziam geralmente quando já acabava os jogos e tal, que era o tal do Copazona, que eles chamam a pessoa lá.
E aí eles perguntaram pro Djalminha, no meio da conversa, qual que era o maior medo do Djalminha. E o Djalminha falou, cara, meu maior medo é ser preso. E aí instantaneamente Todos eles, o Luizinho, o Casimiro, o Nando, não sei o quê, rolaram de dar risada, riram muito assim, tipo choraram de rir. O Casimiro, e o Djalminha ficou com uma cara meio assim do tipo, eu tô falando sério, cara, eu tô falando sério. E aí esse episódio me fez dar um estalo de que o grande lance para essas pessoas que fazem a Casa TV é dar muita risada, é o mundo da zoeira, é o zoeira, sabe?
Muito dentro dessa Copa Zona não tinha nada das mesas redondas de debate de futebol que a gente tá acostumado.
Eram eles interagindo de maneira cômica, jogando joguinhos, jogaram 7 a 0, fizeram um monte de coisa, se divertiram. Mas tudo era isso, tudo era haha, tudo era muita risada, tudo é muito legal, muito engraçado e muita zoeira. E quando o Djalminha falou um negócio super sério e triste e que faz todo diante de todo mundo, ele é um homem negro, ele tem medo de ser preso mesmo sendo um ex-jogador de futebol muito famoso.
É muito pesado, né?
É muito pesado. O que ele falou é muito pesado, revela muito sobre o Brasil, sobre as nossas estruturas, etc. E eles acharam muito engraçado, eles morreram de rir, rolaram de rir, tipo a zoeira never ends, entendeu? Mas não dá para ser assim, você tem que ser adulto um pouco. E aí eu cheguei à conclusão de que o grande lance da Casa TV é são meio que adolescentes cuidando de um negócio de adultos. Então, eles estão brincando de fazer televisão, é meio que eles fazem os jogos como se estivessem dublando Feira da Fruta ali, sabe?
Só que, no fundo, aquilo é maior do que eles. Eles não estão meio que à altura da coisa. Eles não conseguiram sacar coisas muito simples, muito básicas, porque eles estão imersos em zoeira, em ruê-ruê, e, tipo, é desconfortável, não é uma coisa que funciona. Se eles não tiverem mais algum... Direito de transmissão, e é muito possível que eles não consigam na Copa de 30, porque essa experiência foi, acho que, formativa para Globo.
Eles não vão deixar perder, não vão perder de novo os direitos. As pessoas vão largar, porque as pessoas percebem que é uma transmissão que não é para elas. A maior parte da audiência não é de jovens homens brancos de 30 anos.
Não é?
Não é. Então é, as pessoas não é dentro desse, tem pessoas mais velhas, tem mulheres, Sabe?
Eu sei, mas o público do futebol não é majoritariamente um público—
Do futebol é, não o da Copa do Mundo. Você teve que ensinar sua mãe como é que assiste a Veroo TV.
Exato, claro.
A Copa do Mundo é um evento muito maior. Uma coisa que me abriu cabeça sobre o que significa Copa do Mundo foi quando eu vi o Vitor Birner, que é um comentarista da ESPN, falando que ele achava que futebol de seleções era sem graça e que o que importava mesmo era futebol de clubes, até o dia que ele entendeu que a Copa do Mundo não é sobre futebol. Que a Copa do Mundo é uma espécie de festa, é uma grande festa que todo mundo participa.
Exato.
E o futebol é o que tem menos importância. Então a Casé TV funciona de alguma maneira para o público que vai ver a Bundesliga, que são essas pessoas muito parecidas com eles. É, funciona para quem vai ver o campeonato francês lá, a Ligue 1, mas eu acho que não funciona para Copa do Mundo. E a gente teve que receber doses de Casé TV meio à força, porque era onde tava passando o jogo.
Sim, eu vi muita conversa sobre a transmissão não ser profissional. Mas esse é um termo muito difícil de definir. E eu acho que talvez nessa conversa tenha ficado mais claro pra mim que a gente diz que não é profissional o fato de que a transmissão não é muito adulta.
Não é universal. Esse é o ponto da transmissão. A Globo, outra coisa, a Globo se fez no hábito e na universalidade. Eles tentam fazer uma TV que não agrida ninguém, uma TV que funciona pra linguagem de absolutamente todo mundo. E isso torna a Globo meio quadrada, meio velha. Ela não fala direito com jovem. Quantas vezes que a Globo tenta falar com jovem, soa meio estranho, fica um pouco quebrado, meio postiço, porque não é o jeito dela. Mas de alguma maneira torna a Globo mais universal. A Casé TV não é universal.
Mas é isso que é ser adulto, né? Ser adulto é saber fazer concessões para que você possa se comunicar com todo mundo.
Sim.
Tem um caráter universalizante nessa comunicação profissional que a Casé TV não fazia. Acontece que a internet é o lugar do nicho. A lógica da universalização, ela é de uma outra era de transmissão, porque tá todo mundo assistindo simultaneamente o mesmo canal de televisão. Então você tá conversando com todo mundo. A pulverização da internet permite que os nichos aconteçam. E aí a gente tem esse paradoxo em que a Casé TV é obviamente um canal de YouTube, portanto um canal de nicho.
Com um bom evento universal, com os direitos universais de transmissão do torneio mais universal possível do planeta.
No Brasil, todo mundo quer ver a Copa. A padaria não tem espaço para zoeira da Casé TV, mas foi obrigada a passar Casé TV por causa do hábito.
Eu não acho problema nenhum que a Casé TV tenha o jeito dela, extremamente nichado de transmissão. O esquisito é que ela esteja transmitindo com exclusividade. Isso é muito esquisito.
Isso foi um erro grande da Globo, é um baita de um erro, erro estratégico gigantesco da Globo.
Mas você não acha que a Casé TV também deveria ter percebido qual era o palco e alterado o seu modo de transmitir? Ou eles precisam ser sempre um canal de nicho? Eu acho que não precisa, porque estão no YouTube.
Eu acho que já era, né? Acho assim, só se a Live Mode splitar o negócio e fazer outro canal mais quadrado, entendeu? Tem um monte de canais quadrados de transmissão esportiva no Brasil, tem vários. Eles têm os direitos. Então o negócio, ou todo o lance do sucesso, é sobre os direitos de transmissão. Se você colocar um Loro José narrando os jogos, vai dar certo porque você tem os direitos, assim, sabe? De alguma maneira vai dar muito certo.
É verdade, Loro José dá muito certo, vai dar particularmente certo. Aliás, eu comparava em casa o Casimiro Miguel ao Loro José, eu falava Ele tem a mesma participação do Loro José.
Tem uma dinâmica parecida.
Aí a minha namorada falou: não, não, o Loro José é muito mais ativo no Ana Maria Braga do que o Casimiro na Casé TV. É verdade. A esse ponto não dá pra voltar atrás, não dá pra eles mudarem a linguagem, mas dá pra Live Mode, pros donos do negócio criarem outro canal mais neutro ou alguma coisa desse tipo. O lance é: tendo os direitos na mão, você consegue resolver tudo. A contraprova que eu tenho é a GE TV. Você assistiu alguma coisa na GE TV?
Não.
Na tua vida assim, não a Copa do Mundo?
Não, nunca.
Então esse é o problema da GE TV. A GE TV foi uma experiência que a Globo tá fazendo, continua no ar, né?
Que é uma experiência de linguagem, né?
É uma experiência de linguagem.
Eles querem que a linguagem seja igual da Casé TV, para os jovens, né?
Eu fiz uma pesquisa, eles mudaram toda a linguagem, eles contrataram lá o Fred dos Impedidos, que também faz o Globo Esporte local aqui em São Paulo.
E que muita gente reclama. Porque não é universal também.
Não é nada universal, mas de alguma maneira é uma experiência já velha, né? O Thiago Leifert que criou isso no Globo Esporte de São Paulo há, sei lá, mais de 15 anos. Enfim, o GE TV foi uma experiência de linguagem da Globo. Eles contrataram pessoas do Esporte Interativo para fazer umas transmissões mais descoladas de futebol, de outros esportes. O que eu descobri é, eles não tinham os direitos da Copa do Mundo no YouTube, era só da Casé TV.
Então eles passaram com jogos da Copa do Mundo no Globoplay, acho que uns 20 e poucos jogos, mas específico no Globoplay. E parece que a única coisa que as pessoas assistem na GE TV é a Liga Mundial de Vôlei, porque só tem na GE TV, claro, porque eles têm os direitos. Então a responsabilidade das audiências é do produto, é do qual é o que que eles estão transmitindo, a linguagem. Se tem lá o cara, ele grita gosta muito e é divertido, tem um estúdio com puffs coloridos, não faz diferença.
Importante é o direito de transmissão. A GE TV passa o vôlei, as pessoas assistem o vôlei. Se ela não passou a Copa porque não podia passar no YouTube, passava só no Globoplay, ninguém foi ver na Globoplay. A GE TV não tem motivo para pessoa ir na GE TV, bem que ele goste muito lá dos comentários do Bruno Formiga. Mas assim, o negócio é sobre direitos. A linguagem é um um acessório, mas um acessório que revela bastante coisa também.
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