Inédita Pamonha 325 - O equilíbrio do meio
Clóvis de Barros aborda a ideia aristotélica de que os extremos comprometem a vida boa.
Torne-se apoiador de nossos podcasts: https://apoia.se/ineditapamonha
- Virtude e Felicidade em AristótelesVirtude como equilíbrio · Evitar extremos · Vida boa
- Construção da CoragemGestão do medo · Covardia · Valentia desajuizada · Circunstância concreta
- Ataques EUA e IrãRaiva excessiva · Impassibilidade · Raiva circunstancial · Jesus
- EstoicismoAtaraxia · Blindagem emocional · Indignação justificada
Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar! Hoje é quinta-feira, hoje é dia de pamonha. Inédita pamonha, oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Meus amigos, estamos estudando Aristóteles, estamos estudando as virtudes em Aristóteles, e isso não é pouca coisa. Estamos no coração de Ética a Nicômaco, que é o livro que Aristóteles dedicou ao seu filho para falar da vida que vale a pena ser vivida, para falar da vida feliz, para falar da vida com valor.
Naturalmente não foi um livro escrito como se escreve um livro, são aulas reunidas, agrupadas, e que acabaram muito mais tarde virando um livro. Mas não importa, na hora que a gente vai estudar em forma de livro que a gente tem com todas essas aulas reunidas. Pois muito bem, o certo é que Aristóteles apresenta a virtude, né, aqui em Ética a Nicômaco, e é no âmbito da vida prática que essa virtude aparece como a capacidade de encontrar uma espécie de justo meio entre dois extremos.
Mas veja, é o justo meio entre dois extremos que nós não queremos. É um meio virtuoso entre dois extremos que não são virtuosos. Isso significa que há uma sabedoria em encontrar aquilo que não é nem um extremo nem o outro extremo. Como sendo a forma ideal de viver. Entenda que nesse caso nós não estamos falando de uma solução meia-boca para vida. Não é o meio termo entre 0 e 10, quer dizer, o ideal seria tirar nota 5. Não, não é isso.
É o meio termo entre 0 e 0. É uma nota 0 que a gente não quer, uma outra nota 0 que a gente também não quer, e a gente quer no meio, que aí sim é virtude, aí sim é conduta justa, aí sim é vida, é vida boa. Então é que às vezes dá a impressão, quando se fala em justo meio, numa solução morna, numa solução que não é, digamos, a solução aparentemente mais radical, mais potente, mais atrevida, mais audaz, mais, e de jeito nenhum, né?
Não, não é isso de jeito nenhum. No final das contas, o que nós estamos pensando mesmo é numa solução ótima em meio a duas horríveis, né? Então eu acho que é isso que tem que estar sempre na nossa cabeça quando pensamos no justo meio. Alguns exemplos talvez ajudem a esclarecer esse. Vamos considerar em primeiro lugar a vida prática diante de uma situação de raiva. A pergunta neste caso é: o que Aristóteles diria sobre uma disposição virtuosa diante da cólera, diante da raiva?
Um indivíduo que tem a raiva como traço dominante do seu caráter, isto é, um indivíduo que se encoleriza com facilidade, e age guiado por essa raiva não possui uma disposição favorável à felicidade. O raivoso, o nervosinho, o irritadiço representa, portanto, um dos extremos que nós não queremos. No outro extremo, você encontrará o indivíduo que tende ao impassível, aquele que aconteça o que acontecer ele não se abala nunca, nem mesmo diante de situações absurdas, nem mesmo diante de situações inaceitáveis, nem mesmo diante de situações obviamente injustas.
Ora, essa postura de total impassibilidade também não constitui uma boa disposição para alcançar a felicidade. O sujeito que tá o tempo inteiro irritado, nervoso, com raiva, indignado, e o sujeito que não fica indignado nunca são dois extremos que não queremos. Portanto, fica evidente que a virtude está entre um extremo e outro. A virtude está entre a raiva excessiva e a falta excessiva de raiva. Trata-se de uma raiva circunstancial, uma raiva episódica, uma raiva seletiva, Uma raiva que não cega, uma raiva que não leva a condutas desajuizadas.
Portanto, a disposição daquele que só se encoleriza em situações suficientemente justificadas. Veja, se você se lembrar de Jesus expulsando os vendilhões do templo, Você encontrará ali um momento de raiva numa vida que não foi nem zero raiva nem 100%, né, 100% raiva. Não, foi uma vida em que a raiva apareceu no momento em que era preciso se indignar, era preciso manifestar oposição. Era preciso declarar a própria posição de contrariedade.
Puxa vida, que legal! A virtude, portanto, ela se situa entre um extremo que não queremos, o raivoso, e o outro extremo que não queremos, o impassível. Perceba que Essa formulação, embora eu tenha citado aqui o exemplo de Jesus, ela é um pouco diferente, né, de outras éticas, de outras sabedorias de vida. A título de exemplo, os próprios estoicos, a própria ideia de ataraxia, É uma sabedoria que aconteça o que acontecer, você não se abala.
Então, o projeto de virtude é um projeto de impassibilidade, é um projeto de blindagem, é um projeto de autocontrole tal que você não se deixa colerizar nem, nem em situações extremas em que muitas vezes a notícia pode se revelar devastadora. Vamos imaginar que alguém chegue e diga: olha, entraram na sua casa, fizeram mal à sua família, desgraçaram a sua vida. Agrediram, maltrataram, mataram, violaram gente que você ama. Então eu tô pegando um caso extremo para mostrar que numa sabedoria estoica, a ataraxia deve prevalecer, e ela só é séria quando ela consegue resistir às situações desse naipe.
Desse calibre. Porque camarada fala: não, eu sou totalmente blindado desde que nada de grave aconteça. Você é um fanfarrão, você é um palhaço, né? A ataraxia justamente serve para você tá protegido nas situações de maior gravidade, nas situações de maior devastação. Ora, Então, um estoico recomendaria, né, a sabedoria estoica indicaria para que assim você não se abala nem mesmo nesse cenário mais grave. É claro que o estoico também proporá que, do mesmo jeito que você não se abala para o pior, também não se abala para o melhor.
Ou seja, também não há euforia. Né, também camarada pega, vira para mim e diz: olha, o seu livro foi vendido aí para rede pública estadual, né, do Paraná. E aí então você vai ganhar uma bolada para quem trabalha com educação, né. Se sou eu, saio pulando, né. Mas um estoico, ah, Né? Mataram a sua mãe, tá tudo bem. Ah, você ganhou uma bolada, tá tudo bem também. Não é a mesma coisa. Não importa o que venha do mundo, nem para cima nem para baixo, você não se abala.
Ora, na sabedoria aristotélica que estamos propondo através do exemplo da ira, né, o que Aristóteles proporá É que num cenário de violência, de agressão, de violação, de devastação, de ruína e de morte imposto a pessoas que você ama, é mais do que hora de se indignar, é mais do que hora de se enraivecer. E não se trata de ser um nervosinho o tempo inteiro. Até para que a raiva ganhe relevância e densidade, ela precisa ser seletiva.
Ela precisa ser pontual, ela precisa ser justificada. Então eu acho que você entendeu um pouco a diferença, né? O que Aristóteles está propondo com essa sabedoria do meio termo, com essa virtude no meio termo, não é a mesma coisa de outras sabedorias antigas, tal como eu acabei de explicar agora No caso dos estoicos, né? E mesmo se compararmos com a proposta cristã, não é? A proposta cristã, ela é muito mais exigente no sentido de tolerância em relação ao outro do que a sabedoria do meio-termo aristotélico.
Então eu peço a você para considerar essa hipótese com seriedade e com, digamos, o alcance que ela tem.
Olá, eu sou Clóvis de Barros e venho aqui propor a você nos apoiar a manter vivos os nossos conteúdos de filosofia na internet. Para você participar com uma singela colaboração, você deve entrar em apoia.se/ineditapamonha. Repetindo, apoia.se/ineditapamonha. Você pode nos ajudar demais a honrar os nossos compromissos, pagar nossos editores, as nossas plataformas e manter nosso conteúdo vivo para que ele continue impactando as pessoas como tem feito.
Vamos então dar Agora um exemplo mais tradicional. E o exemplo mais tradicional é o exemplo da coragem. Para Aristóteles, uma vida boa requer coragem, e a coragem é a gestão do medo. Como toda virtude, é um meio termo, e é um meio termo entre dois extremos que nós não queremos para nós. Quais são esses dois extremos? Um é a covardia, é o indivíduo que é dominado pelo medo o tempo inteiro. O outro eu vou chamar aqui de sem noção, é o valentão desajuizado, que é aquele que sem prudência, sem cautela, sem autoproteção, parte para o enfrentamento sem nenhuma chance de êxito.
Então nós não queremos nem o covarde, que tem medo de tudo o tempo inteiro, nem o desajuizado, sem noção, que enfrenta aquilo que não deveria enfrentar, porque qualquer pessoa lúcida sabe que não há chance nenhuma de êxito. Então o corajoso, ele está no meio termo. Agora, Você pergunta: aonde é esse meio termo? Aonde fica? Como identificá-lo na vida prática? E aqui vai um esclarecimento sem o qual nada faz sentido. E qual é o esclarecimento?
É que esse meio termo aristotélico, ele só é identificável na situação concreta de vida de uma pessoa. Ele não é matemático, ele não é uma mediatriz fria, ele tem que ser considerado num cenário concreto de existência. A título de exemplo, você é ofendido por alguém que você poderia enfrentar, mas você se acovarda. Muito bem, perceba que esse alguém que você poderia enfrentar depende muito das tuas próprias condições. Então vamos imaginar um lutador profissional de boxe ou de MMA.
É claro que objetivamente o que se espera dele como ato de coragem é muito mais do que um indivíduo despreparado para a luta, um indivíduo idoso ou um indivíduo diminuído físico. Então, é claro que a avaliação ela não pode ser objetiva, né? O corajoso enfrenta 2, o corajoso não enfrenta 3. Não, essa conta é uma conta que não se faz desse jeito. Por quê? Porque o Mike Tyson, um Mike Tyson da vida, num ato de coragem pode encarar 5 indivíduos normais.
Mas por quê? Há uma proporcionalidade de meios. Então entenda, essa avaliação é uma avaliação circunstanciada, é uma avaliação situada. É uma avaliação que considera a concretitude da vida vivida no mundo. O corajoso não é o sem noção que sai encarando o mundo. O corajoso não é o indivíduo tomado pelo medo. O corajoso está no meio dos dois. E a melhor vida possível para Aristóteles está no meio dos dois, porque o covarde, esse estará sempre diminuído, humilhado, apequenado, e o sem noção estará muito provavelmente morto.
Então veja que a solução melhor é o meio termo entre esses dois extremos. Bem, nós apenas começamos a tratar da virtude como meio termo, e hoje foi importante destacar que esse meio termo não é uma, uma água morna, não é uma água suja, mas é a maior excelência possível dentro de, entre dois extremos que são horríveis. E o segundo ponto que nós destacamos hoje: esse meio termo só pode ser identificado através da ponderação concreta da vida no mundo.
Meus queridos amigos, este foi o meu, o seu, o nosso Inédita Pamonha desta quinta-feira, oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Era isso que eu queria dizer pra você hoje, eu espero que você tenha gostado, se você gostou Ótimo, aí ouça de novo. Agora, se gostou muito, aí você pega alguém pela mão, ou pelo pé, ou pelas bochechas, ou pela orelha, e você convida para assistir junto com você, perto de você. Porque no meio de tanta gente no mundo, haverá quem goste de pensar com lucidez sobre A vida. Um beijo grande, fica bem, valeu!
Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.
Eastman Chemical do Brasil
Espaço Ética
Cursos, livros e palestras