#PartiuPensar 209 - Platão e o prazer
Clóvis de Barros analisa diferentes tipos de prazeres que, segundo Platão, contribuem de formas opostas para a vida humana.
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Prazeres e filosofia platônicaTipos de prazeres · Prazer do conhecimento · Prazeres do corpo · Hierarquia dos prazeres · Vida regida pelo apetite
- Democracia e governo dos filósofosMorte de Sócrates · Reação de Platão à democracia
Partiu, partiu, partiu, pensar, partiu, pensar. Por instantes de plenitude, potência e luz.
Senhoras e senhores, estamos no ar. Sejam muito bem-vindos. Esse é o nosso hashtag Partiu Pensar de toda terça-feira, sempre com o patrocínio da ADV Box. A ADV Box que nos permitiu alçar voo. Hoje somos um videocast e você pode nos acompanhar em vídeo.
E essa é uma alegria nossa e eu suponho também sua. Estamos tratando da história do pensamento e tentando nos servir de grandes pensadores.
para nos ajudar a aprender a pensar melhor. Então, no fundo, os temas e os autores são um grande pretexto para que, a partir deles, possamos botar o espírito para funcionar.
a vida do espírito que é a vida da aproximação, da associação, da contraposição entre ideias, entre argumentos e que tanto prezamos, mas que precisa de treinamento, treinamento constante.
E hoje nós vamos tratar de um tema super prazeroso, porque vamos falar do prazer. Vamos falar do prazer. E, é claro, falaremos do prazer dentro do cenário filosófico em que estamos inscritos nesse momento, isto é, o pensamento de Platão. Platão e o prazer.
Platão fala de prazer nos seus diálogos, sim, de maneira muitas vezes explícita, mas também implicitamente, de modo que temos material suficiente para pensar uma ou outra ideia e com isso colocar a nossa inteligência para funcionar um pouquinho. Venha comigo, me dê a mão. Vamos degrau a degrau, devagar, aprendendo a pensar melhor.
Bem, você deve imaginar que há na filosofia e na filosofia antiga pensadores, digamos, mais simpáticos à questão do prazer e pensadores mais hostis à questão do prazer. Ou seja...
O que eu quero dizer aqui é que, para alguns, o prazer é mais relevante na equação da vida boa e, para outros, o prazer é irrelevante ou é mesmo negativo na equação da vida boa. Então, temos um pouco de tudo e, portanto, cabe perguntar e Platão o que tem a nos dizer. Bem...
Se você até aqui acompanhou os nossos episódios, deve ter percebido o quanto Platão desprezava o conhecimento proveniente apenas da experiência empírica, portanto, do encontro do corpo com outros corpos e Platão...
confiava muito no conhecimento em forma de ideias perfeitas, eidos, alcançáveis pela parte superior da alma, pelo que chamamos de mente, fora da caverna, e isso, dito desse modo, poderia nos levar a um aperitivo.
uma espécie de suposição de partida. Se Platão dava tanta bola para as abstrações,
Essa espécie de conversão em que você abandona as aparências e você ruma em direção às essências. Onde você vai dependendo cada vez menos do que você percebe com os sentidos e cada vez mais do que você locubra, do que você pensa, do que você elabora com a mente.
Você está supostamente colocando o corpo numa posição muito acanhada, inferior, reduzida, irrelevante para a vida boa. O corpo, quando muito, não deve atrapalhar a alma, a alça voo e, portanto, o corpo tem um papel periférico, secundário, restrito, limitado, finito, perecível, etc.
Então, ora, diante desta hierarquia clara que Platão estabelece entre o mundo das ideias e o mundo dos sentidos,
Dentro dessa hierarquia clara entre o mundo das ideias e o mundo das percepções sensoriais, com a clara superioridade do mundo das ideias em relação ao mundo dos sentidos, nós poderíamos supor que o prazer não tivesse aqui grande importância ou até que o prazer fosse a condenar. Ora!
É um pontapé, é um início de partida, é um pitaco, é um palpite. Afinal de contas, um filósofo que dá tanta importância às ideias não haverá de dar tanta importância ao toque, por exemplo.
O toque prazeroso, o toque de um corpo no outro, o toque que desperta pelo tato sensações agradáveis, que são sensações de prazer. Veja, é pele com pele, é corpo com corpo, é mucosa com mucosa.
E naturalmente isso tem muito mais a ver com o mundo sensível do que com o mundo inteligível. Então a nossa hipótese de princípio parece razoável. O prazer não deve ter muito prestígio na filosofia de Platão.
Porém, é preciso dizer que talvez não seja bem assim e que talvez estejamos simplificando demais ou quem sabe até equivocados. E por quê? Na filosofia de Platão, o prazer não é demonizado. Na filosofia de Platão, o prazer não é...
reduzido, apequenado, destituído de valor, mas ele é estudado com rigor e, por que não dizer, hierarquizado. Em outras palavras, há prazeres e prazeres. Há prazeres e prazeres e haverá prazeres de maior valor e prazeres de menor valor.
E os prazeres de maior valor são aqueles que contribuem mais diretamente para uma vida humana boa. Os prazeres de menor valor, esses contribuem muito menos. Então, poderíamos dizer que os prazeres não têm o mesmo estatuto para Platão. Os prazeres não têm o mesmo estatuto.
eles não têm a mesma envergadura, eles não têm a mesma origem, eles não têm a mesma materialidade, eles não têm o mesmo valor moral, eles não são conhecíveis ou cognoscíveis do mesmo jeito e, portanto, claro, eles gozam de um estatuto, eu diria, um estatuto de ser, um estatuto ontológico, um estatuto moral.
e um estatuto cognitivo particulares. Então, o que Platão faz é sugerir que tratar os prazeres em bloco como um todo talvez não seja o melhor caminho. Por quê? Porque a reflexão que é pertinente para um tipo de prazer não é pertinente para outro tipo de prazer.
Então essa é uma primeira ideia que me parece importante, né? E nós poderíamos sugerir, então, quem sabe, a partir da nossa suposição inicial, uma...
Sugestão aqui, muito na nossa intimidade, e dizer que haverá prazeres mais ligados ao corpo, não é? E prazeres que decorrem da atividade da parte superior da alma, das faculdades intelectivas, da busca das ideias, etc., que seriam prazeres de outro estatuto e, portanto, superiores hierarquicamente.
Então, esse prazer do toque, do tato, da mucosa, esse prazer do toque labial, esse prazer do beijo, esse prazer da aproximação corpórea, seria claramente um prazer de valor existencial inferior. Ao passo que o prazer da busca incansável...
de verdades absolutas, de eidos, de formas perfeitas, etc. Esse prazer, sim, seria superior e mais contributivo para a vida, para a nossa existência.
Isso foi uma outra suposição. Vamos ver se isso se sustenta. E eu começaria propondo que no Górgias, Platão parece se referir, no Górgias é um diálogo de Platão, Platão parece se referir mais aos prazeres do corpo, aos prazeres da epiderme, aos prazeres de mucosa, aos prazeres de saciedade.
Aos prazeres de pura sensibilidade, comer, beber, sexo, né? E é claro que quando Platão faz isso, ele relaciona o prazer a uma espécie de desregramento da alma, né? Desregramento da alma, ou seja...
Esse tipo de prazer é um prazer inferior porque justamente é um prazer que caminha em paralelo com uma alma desalinhada, desorganizada e em desarmonia com o resto. Então, nesse sentido, haveria aí, digamos, uma denúncia.
de uma vida regida por prazeres desse tipo, como uma vida com alma desregrada. Então, esse tipo de prazer, do sexo, da comida, da bebida, etc., quase sempre é uma mera reação episódica a uma falta. Uma falta e, portanto, trata-se de um alívio, de um ungüento episódico extemporâneo.
restrito no tempo a essa falta. Portanto, uma espécie de redução de carência, redução de dor, redução de ansiedade absolutamente circunstancial e momentânea decorrente de algum tipo de experiência.
Olha, esse tipo de prazer se inscreve numa espécie de movimento cíclico e, portanto, ele não se completa nunca. A saciedade é impossível, porque claramente os prazeres do sexo e da saciedade são prazeres insaciáveis, são sacos sem fundo, que não se deixam preencher e assim por diante.
eles dependem de um mal-estar prévio, um mal-estar de origem que eles buscam diminuir, reduzir. Então, nesse sentido, nós estamos diante de uma vida regida quase que na dependência daquilo que é exterior a ela, alguém que só tem prazer com um certo tipo de bebida, com um certo tipo de comida, um certo tipo de cheiro.
um certo tipo de aproximação, de massagem, de toque, está sempre na dependência desses elementos exteriores para reativá-lo, para reacioná-lo. E aí, claro, essa vida de dependência é uma vida dita heterônoma, ou seja, as regras definidas.
por um elemento exterior a si mesmo e claro uma vida de dependência. Então eu acho que fica claro essa primeira esse primeiro ataque de Platão aos prazeres do corpo que ele realiza no diálogo Górgias.
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No diálogo da República, a coisa muda um pouco, porque Platão vai distinguir três tipos de vida em relação ao prazer. E aqui eu queria muito que você me acompanhasse, venha comigo, de mãos dadas. Um primeiro tipo de vida é uma vida onde predomina o apetite.
Uma vida onde predomina o apetite. Então, é uma vida em que você, no fundo, vive para satisfazer aqueles prazeres descritos no Gorjas, vive para comer, vive para beber, vive para transar, vive para, digamos, se submeter a estímulos externos saciadores de uma certa...
Uma vida regida pelo apetite, onde o apetite predomina. Eu acho que você haverá de conhecer gente de vida assim, de vida apetitosa, de vida, digamos, onde a degustação, a busca de uma saciedade gastronômica, etílica, é às vezes, digamos, a tônica central da vida. Eu não queria...
eventualmente aqui acrescentar outros prazeres eu diria mais contemporaneamente discutidos como por exemplo o prazer que pode trazer depois de uma longa corrida uma certa produção de hormônios que traz um certo tipo de relaxamento ou um certo tipo de sensação etc olha
Isso se inscreve na mesma ordem de coisas, ainda que talvez seja mais saudável correr 60 minutos e obter esse resultado prazeroso do que obter algum resultado prazeroso se entupindo de gordura animal. Mas ainda assim há uma dependência muito clara e, portanto, há sim uma vida apetitosa. Esse é o primeiro tipo de vida.
O segundo tipo de vida é o prazer, o prazer que traz o reconhecimento. Uma vida regida pela notoriedade, uma vida regida pela busca da celebridade, uma vida regida pela busca do aplauso.
da legitimidade, do tapinha nas costas, de gente querendo tirar fotografia, de gente dizendo que você é o máximo, de gente que quer te abraçar, de gente que grita quando você aparece no aeroporto, de gente que quer...
de qualquer jeito, levar um pedaço da sua indumentária para casa. Em som, é toda uma questão de reconhecimento ligado à celebridade, à notoriedade, à glória, ao aplauso. Esse é um segundo tipo de vida. Nada impede, está me acompanhando? Platão discrimina assim?
Vida regida pelo apetite, vida regida pela glória, mas nada impede que haja também uma combinação de ambos. Ou seja, você vive buscando bajulação e encheu o bucho. Nada impede que um indivíduo assim, apetitoso, glutão, seja também alguém ávido.
por uma celebridade que dá acalento, que mostra que os outros sabem que você existe e tome e tira foto, etc, etc. Então, esses são os dois primeiros tipos de vida, os dois tipos de vida, digamos, com predominância de apetite, no primeiro caso, e predominância de glória, no segundo caso.
E o terceiro tipo é a vida, digamos, regida pelo prazer do conhecimento. Prazer do conhecimento. Um prazer, eu diria, de intelecção. Um prazer decorrente do uso do pensamento, da imaginação, das ideias. Um prazer intelectivo mesmo. Então...
Você pode ter uma vida onde predominam os apetites, uma vida onde predomina a busca pela glória e uma vida onde predomina a busca pelo conhecimento. Então, você percebeu?
O que poderíamos chamar de tipos ideais, é claro que não há uma vida 100% voltada para o apetite, como tampouco há uma vida 100% voltada para a glória e menos ainda 100% voltada para o conhecimento, ainda que muita gente radicalize num ou outro desses pontos.
Qual é a proposta que vai fazer Platão na República? É que só o indivíduo capaz de ter prazer de conhecimento, ele pode avaliar os prazeres.
E por quê? Porque aquele que chega num prazer pelo conhecimento e vive para buscar prazer pelo conhecimento, ele conhece também os outros dois, né? Ele diz Platão, diz Platão, diz Platão. Então, quer dizer, de alguma maneira, todo mundo sabe o prazer que traz um mingau de aveia, né?
Todo mundo sabe o prazer que traz um pudim de queijo, né? Um pudim de queijo. Todo mundo sabe o prazer que traz uma ambrosia quando ela vem lá do sul do país. Todo mundo sabe o prazer que traz um doce de abóbora, né? Comido com queijo de ovelha na Serra da Estrela. Isso aí, isso aí tá tudo certo. Agora, o filósofo...
tem prazer com doce de abóbora. O comedor de doce de abóbora, esse não tem acesso ao prazer do filósofo da busca pelo conhecimento. Você entendeu? Quer dizer, o filósofo sabe de todos, mas os de baixo, esses não conseguem sentir o prazer que o filósofo sente na busca do conhecimento.
O filósofo experimentou todos os modos e conhecendo todos pode julgar. E é claro, esse prazer intelectual, esse prazer do uso das ideias, da vida do espírito, ligadas a essa contemplação do ser e da verdade, é superior à vida regida pelos outros dois prazeres.
momento em formar, é superior e é superior por quê? porque é uma vida é uma vida que busca um prazer que não depende do corpo né, e não depender do corpo é uma vantagem, porque o corpo claudica, o corpo adoece, o corpo se estropeia, o corpo isso, o corpo é
Você depender do corpo para ter prazer não pode ter uma luxação completa do ombro com fratura de úmero, ruptura de tendões, manguito e cavidade glenoide. Isso é uma dor infernal. Então o prazer do conhecimento não depende do corpo, diz Platão. Não nasce de uma carência tipo fome ou sede.
E também não gera aquele tipo de arrependimento que decorre da índole insustentável dos prazeres do corpo. E por que insustentável? Porque depois de um certo ponto você pode ir se entuchando de doce de abóbora e o prazer não aumenta, ele não continua, ele não vem mais. Porque...
Aquilo foi, de certa maneira, já atingiu um ponto de saturação que não pode ser vencido. Então, veja que interessante. Há aqui uma constatação, que é o ponto final da minha fala hoje, que é exatamente essa. A ideia de que, para Platão...
O indivíduo que consegue ter prazer na busca do conhecimento, ele tem melhores condições de entender o papel do prazer na sua vida, porque ele também domina o prazer que traz o apetite satisfeito e a glória aplaudida, reconhecida, aclamada aos quatro ventos.
vamos responder as perguntas dos nossos ouvintes. O Rogério pergunta, o governo dos filósofos é uma alternativa real de poder na cidade de carne e osso? Ou é só uma provocação à nossa realidade e atualidade democrática?
Olha, eu entendo, Rogério, que a sua pergunta é excelente. Se você parar na República, você não fica sabendo o final da história. Mas Platão, tardiamente, em diálogo de velhice, escreveu as leis. E ali, Platão diz como ele acha que poderia ser numa cidade concreta de carne e osso.
Ora, se ele mesmo escreve outro diálogo sobre o mesmo tema, propondo coisas diferentes para uma realidade mesmo, é sinal que ele aceita e ele admite que o que ele disse na República é uma mera conjectura intelectiva. Agora, claro, provocando ou desafiando a democracia sempre porque Platão era um antidemocrata. Era isso. Obrigado pela pergunta.
Pergunta do Gustavo. De que forma a condenação de Sócrates ocasionou críticas de Platão sobre a democracia? Gustavo Lemos.
A sua pergunta é ótima também, sabe? E por quê? Porque, veja, Platão era um pensador que, talvez, pela sua origem aristocrática, pudesse ter alguma veleidade política de comando mesmo, de ser governante.
Mas a morte de Sócrates terá sido para Platão de tal maneira violenta, impactante, traumática, que Platão passou a filosofar em função disso, por conta disso, quase que indo a forra, fazendo da própria vida uma manobra de reação.
à morte de Platão e, portanto, é claro que a morte de Sócrates. E por isso é claro que essa mesma morte serviu de combustível para que Platão se opusesse de maneira tão violenta contra a democracia.
Era isso que eu queria dizer pra você hoje. Havia tanto mais a falar. Porém, porém, porém, porém, o tempo é ruge e a sapucaí é grande. Fica bem, estamos com o patrocínio da DV Box.
que nos concede esse magnífico estúdio com todas essas pessoas maravilhosas aqui ao meu lado me ajudando a fazer menos besteira do que normalmente eu faria.
fica bem. Se gostou, ouve de novo, assiste de novo e se gostou muito, aí chama alguém para assistir, dá um like para nós, prestigia. Quanto mais você compartilhar, comentar, falar, espinafrar, pisotear, falar bem, botar coraçãozinho, botar lesma, botar secador de cabelo, manifestar-se a respeito, mais gente será alertada.
para a nossa existência e isso talvez seja o nosso maior objetivo. Então, ajude-nos. Um beijo grande. Valeu!
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