#PartiuPensar 223 - Aristóteles: As ações
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Trabalho voluntário em presídios e humanizaçãoForça externa · Ignorância · Édipo
- Situação de Autoridades IntermediáriasIgnorância parcial · Coação extrema · A bolsa ou a vida
- A moral da honra versus a moral da responsabilidadeÉtica a Nicômaco · Vida boa · Virtudes e hábito
- Sucesso e FracassoFracassos contributivos · Derrota como aprendizado · Guilherme Batista
Partiu, partiu, partiu pensar, partiu pensar por instantes de plenitude, potência e luz. Senhoras e senhores, estamos no ar! Este é o o nosso hashtag #PartiuPensar, um oferecimento da ADV Box. Estamos flutuando sobre as ideias do Ocidente, sobre o pensamento ocidental, e estamos enfrentando um dos gigantes desse pensamento ocidental, que é Aristóteles. E estamos trabalhando em Aristóteles, a sua obra mais importante em filosofia moral, Ética a Nicômaco.
Lembrando sempre que ética para Aristóteles tem mais a ver com vida boa do que para nós. Então, Nicômaco é o nome do filho de Aristóteles. Então, né, vida boa para o meu filho, ensinar meu filho a viver bem, isso seria o que Aristóteles pretende com Ética a Nicômaco, ensinar meu filho a viver bem. O livro 1, nós comentamos da Eudaimonia, do bem supremo. No livro 2, nós comentamos de como chegar lá, as virtudes, a repetição, o hábito.
Agora estamos no livro 3, e o livro 3 vai falar de responsabilidade. O que é que cai na nossa conta quando nós agimos? Quais são os limites da nossa responsabilidade? Até que ponto somos responsáveis por nossas ações? Eu, por exemplo, aqui tô falando com vocês e é claro, eu tô definindo aqui discursos, escolhendo algumas ideias em detrimento de outras, enfatizando certas coisas em detrimento de outras. Portanto, o que eu tô fazendo aqui poderia ser infinitamente diferente do que está sendo.
Ora, o que é que define a minha responsabilidade pelo que eu estou fazendo? A minha responsabilidade pelo que eu estou fazendo, ela se define pelo que eu poderia ter feito de diferente? Ela se define pelo que as pessoas entendem? Ela se define, digamos, pela clareza do que eu estou dizendo? Ela se define pelo quê? Sou responsável pelo quê? Então essa é uma pergunta que Aristóteles enfrenta, né? Porque ela nos interessa também.
Então talvez pudéssemos começar nos perguntando o seguinte: quando é que alguém pode ser considerado culpado pelo que fez? O que significa deliberar? O que significa escolher? Então acho que essas coisas, elas merecem a nossa análise, e Aristóteles nos ajudará muito nisso. O livro 3, portanto, é um grande tratado aristotélico sobre a responsabilidade moral. E claro, Aristóteles entende que essa responsabilidade moral é inseparável da ideia de coragem.
Vamos tentar ver por quê. Aristóteles começa propondo uma distinção que faz sentido, que é a distinção entre ações voluntárias e ações involuntárias. É claro, toda a ética acaba dependendo dessa distinção. Não faria o menor sentido avaliar a responsabilidade de alguém louvar, condenar, quando esse alguém agiu sem nenhuma possibilidade de controle sobre a sua ação? Quando essa ação não resultou de uma manifestação de vontade? Faria o menor sentido?
Imagina que A empurra B, B toma um empurrão e o seu corpo é deslocado de forma abrupta para uma direção onde está C. B esbarra em C e C vai ao solo, bate a cabeça, sofre lesão, vai a óbito. A verdade é que se C caiu e bateu a cabeça foi porque B esbarrou nele. Ah, então B é responsável? Pois é. Mas o problema é que se B esbarrou nele, não foi por uma decisão voluntária, foi por um acidente, um acidente sobre o qual ele não tinha nenhum controle.
Veja só que interessante, né? Então Aristóteles dirá que uma ação involuntária ocorre principalmente em dois casos: por força externa que é o caso que eu acabei de citar, ou por ignorância. E aí é aí que o bicho pega. Eu não sabia, eu só disse isso porque eu não sabia, eu só fiz isso porque eu não sabia. E assim, Édipo se casou, Édipo se casou com a mãe. Dele. Mas você percebeu o problema? Ah, é, tipo, se casou com a mãe e tal, ele não sabia, por ignorância.
Sabia que a mulher com quem ele estava se casando era também sua mãe, ela também não sabia, certo? Então você vê que ou a ignorância ou a força maior, digamos assim, força externa que que determina aquele movimento, aquela conduta, né, aquela intervenção sobre o mundo. Se um vento arrasta alguém, é óbvio que essa pessoa está sendo compelida pelo vento. Então o seu movimento não nasce dela mesma, o seu movimento não surge de um ato de vontade. O princípio da ação está fora do seu controle.
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E aí Aristóteles percebe imediatamente que A vida real é complexa no que tange à questão da vontade e da não vontade. Existem situações intermediárias, situações aonde a ignorância é parcial, a consciência é parcial, situações em que de fato houve força externa Mas essa força externa é apenas parcialmente responsável por aquele movimento. Ou seja, Aristóteles entende que a coisa não é assim categoricamente decidida. Pá, isso aqui é um ato de vontade.
Pá, isso aqui é força externa. Às vezes Não fica claro, não fica claro, né? É possível que haja ignorância, mas que haja desconfiança que tem alguma coisa de errado, né? É possível que haja indícios de que, sabe, ali tem alguma coisa esquisita, e você pode perfeitamente fingir que não se deu conta. e aí, né? Tem um exemplo clássico de Aristóteles: um tirano ameaça matar a família de alguém caso esse alguém pratique uma ação vergonhosa.
Então, a pessoa age voluntariamente? Em certo sentido, sim, porque decidiu agir não vergonhosamente ou decidiu agir vergonhosamente. Mas em outro sentido, não, não plenamente, porque age mediante coação extrema. Se você fizer isto, eu vou matar a sua família. Então, claro, né? Vamos lá, ó, se você for em tal lugar, eu vou matar a sua família. Então fulano não vai em tal lugar, e não indo em tal lugar, digamos, Fulano não salva quem poderia salvar.
Agiu voluntariamente? Agiu. Ele decidiu: não, não vou. Ora, voluntariamente até que ponto? Porque se ele fosse, o tirano mataria a sua família. Você vai dizer: ah, mas ué, ele poderia ter decidido por deixar o tirano matar sua família. É, no limite sim. No limite, sim, é de fato, né? Claro que existe alguma manifestação de vontade na tomada de decisão, mas uma coação desse tipo, ó, a bolsa ou a vida, né? A bolsa ou a vida. Quer dizer, é, eu entreguei a bolsa.
Ué, por quê? Porque o cara tava ameaçando me matar. Vamos imaginar que dentro dessa bolsa tivesse um remédio único que salvaria a vida de uma criança, né? A boa ou a má vida? Pô, o cara disse que ia me matar. Bem ou mal, você decidiu, você decidiu continuar vivo, foi um ato de vontade, né? Poderia ter decidido: não, então a vida. Mas até que ponto essa decisão formalmente voluntária, ela é de fato voluntária? Então Aristóteles mostra, digamos, a enorme complexidade que os dramas morais, eles, digamos, atravessam a existência de carne e osso de cada um de nós.
Nós poderíamos dizer que o tempo inteiro nós tomamos decisões que comprometem algum bem em proveito de um outro bem, ou que optam por um mal para evitar outro mal. E até que ponto tudo isso é francamente voluntário? Então eu penso que há aqui questões que Aristóteles propõe e que obviamente nos dizem respeito, sobre as quais eu gostaria que você refletisse. Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes. O Guilherme Batista pergunta, e para você perguntar também, QR code, é não, QR código.
Guilherme Batista pergunta: Professor Clube, diante das derrotas inevitáveis da vida, o senhor acredita que é mais virtuoso ser um bom perdedor ou um mau perdedor? A ideia do bom perdedor, de fato, ela é curiosa, né? Eu acredito muito que os fracassos episódicos, eles são contributivos, ou eles podem ser contributivos. Às vezes uma vitória esconde fragilidades e uma derrota ilumina fragilidades. Às vezes um time ganha do outro jogando mal, às vezes os dois jogaram mal.
O time que perdeu, por uma circunstância qualquer, esse troca o técnico, contrata, se reforça, meu rapaz. O outro que ganhou acha que tá tudo bem. E aí você percebe que o fracasso foi mais contributivo do que o sucesso. Talvez eu entenda o bom perdedor nesse sentido. Não o bom perdedor que só no fair play aplaude o ganhador e bola. Não, o bom perdedor que tira da derrota conclusões contributivas, positivas, enriquecedoras. Já o ganhador tem motivos para achar que a mera Repetição basta para novas vitórias.
E às vezes o encaminhamento dos fatos mostra que ter perdido num determinado momento foi positivo para o desfecho do campeonato. Era isso, Guilherme, Guilherme Batista. Obrigado pela ótima pergunta, um grande abraço e até a próxima. E eu vou ficando por aqui, eu e a ADV Box, porque terça-feira que vem tem mais. E como terça-feira que vem tem mais, nós, havendo vida, estaremos por aqui. Um beijo grande, valeu!
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