Inédita Pamonha 324 - Harmonia com o todo
Clóvis de Barros discute a relação entre o indivíduo e a comunidade política segundo o pensamento aristotélico.
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- Bonificação de policiais em São PauloIndivíduo e comunidade política · Humanidade pressupõe a vida na polis · Polis organizada para a virtude · Responsabilidade do indivíduo na polis · Policiamento anti-excelência
- Virtude e excelência moralVida boa aristotélica · Felicidade pressupõe virtude · Harmonia com o todo · Excelência de viver · Mediocridade
- Relação com o PaiAristóteles e Nicômaco · Dificuldade de convívio com pessoas estudiosas · Ensinamentos vs. Vivência
Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar. Este é o meu, seu, nosso Inédita pamonha, oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Pois muito bem, estamos tratando de Aristóteles, estamos tratando das virtudes em Aristóteles, estamos no coração da obra Ética Anicônea. Nicômaco. E Nicômaco é o filho de Aristóteles. Ética Nicômaco é um conjunto de ensinamentos a respeito da vida boa e Aristóteles dirige, endereça a seu filho.
Pois muito bem, muito legal. Fico sempre pensando, é preciso realmente ter muita sorte para ter um pai com esse tipo de lucidez. Quisera eu ser Aristóteles para orientar e educar meus filhos como o estagirita talvez tenha feito. Também não sabemos porque, apesar de todos esses maravilhosos ensinamentos, às vezes as pessoas no trato, no convívio, na relação diária, não são fáceis, né? Sobretudo essas que pensam muito, que estudam muito, que se dedicam muito.
Às vezes são pessoas angulosas e de relacionamento complicado, difícil. Não sei até que ponto todos esses ensinamentos tenham se traduzido num convívio amistoso, amoroso, harmônico e feliz. Não tenho ideia, mas posso lhes garantir que não é automático. Uma coisa elaborar um tratado. A outra coisa é viver a vida de acordo com o que está sendo ensinado nesse tratado. É por isso que eu não tenho ideia se o filho de Aristóteles curtiu tanto assim ser filho de um dos maiores pensadores da história da humanidade.
Pois muito bem, vamos deixar de enrolação e vamos direto ao assunto, porque no final das contas precisamos muito avançar, avançar nessas nossas reflexões. Então, por favor, vocês me acompanhem, não me deixem só. Falamos de ética e estamos aqui propondo de maneira incisiva que a ética para Aristóteles tem muito mais a ver com a vida boa do que supomos nós. Agora, é claro, essa vida boa aristotélica, ela não tem necessariamente a ver com conforto, prazer, regozijo, amenidade, tá de boa, porque Ela não acontecerá se o pretendente à felicidade não alcançar alguma excelência, alguma excelência de viver.
São as virtudes. A felicidade pressupõe virtude. E essa felicidade pressupõe virtude porque é só através da virtude, da excelência, que nós nos harmonizamos no todo. E não haverá felicidade sem harmonia com o todo. Portanto, o todo espera de nós excelência. O universo espera de nós vida virtuosa. Perceba a potência da tese, porque poderíamos pensar: e como seria se desse errado? Ué, a vida humana daria errado, segundo Aristóteles?
Na falta de virtude. E a falta de virtude corresponde à falta de excelência. E a falta de excelência significa ficar aquém das possibilidades. A falta de excelência significa aceitar um teto mais baixo daquele teto que a natureza previu em termos de talento. É poder fazer melhor e não fazer. Então veja a gravidade disso, porque cada um de nós sabe muito bem, em muitas das atividades da vida, e se contentar com alguma coisa mais ou menos é bem reconfortante.
Cada um de nós sabe a dedicação e o empenho em qualquer ramo de atividade, eu diria, para que possamos progredir, para que possamos ir além, para que possamos de fato melhorar, para que possamos nos superar. E o que está sendo dito é que a vida vivida no conforto da mediocridade é uma vida infeliz. E aqui nós acrescentamos um elemento: essa excelência, essa vida virtuosa, ela será aprendida e implementada na polis. Em outras palavras, um indivíduo que não vive na polis, ele não é nem humano, quanto mais um humano feliz.
A felicidade, que é um atributo da vida humana, pressupõe humanidade, e a humanidade pressupõe a vida na polis. Portanto, é na polis que construiremos uma vida virtuosa, é na polis que conseguiremos esculpir o nosso caráter enquanto conjunto de virtudes que podemos mobilizar ao longo da vida. É na polis que tudo isso é possível, é na cidade, é com os outros, é nas relações, é nas interações, é nas instituições, é nas organizações e assim por diante.
Portanto, perceba, estamos lidando com valores extremos. Por quê? Porque se tivermos uma polis organizada de tal maneira a incentivar, a facilitar, a permitir a busca de uma vida virtuosa, onde cada um é motivado a buscar a excelência do seu próprio ser e a plena, o pleno desabrochar da sua natureza, então tudo vai ficar mais fácil e teremos uma polis que, de certo modo, permite, incentiva, facilita a construção de um caráter, uma vida virtuosa, uma vida feliz.
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Mas é claro que nós podemos nos perguntar: "E se der errado? O que acontece para dar errado?" Ora, A partir do momento que cada um que nasce já nasce numa polis que já existe, veja que a responsabilidade é enorme, porque esse indivíduo que nasce, ele está muito, digamos, determinado por essa presença nessa polis. Uma criança que nasce, sai da maternidade, não pode dizer "shi". "Eu acho que essa sociedade aqui não tá legal, é melhor eu mudar de lugar e tal." Ele começará a ter alguma lucidez nesse sentido depois que a vaca já tiver ido pro brejo.
Se você nasce numa pólis onde não há muita preocupação com a excelência, não há nenhuma preocupação com o caráter, não há muita preocupação com as virtudes, aonde o melhor de você mesmo não é uma preocupação central, aonde, eu diria, uma massa majoritária medíocre persegue quem busca excelência, faz bullying, ataca, agride, ridiculariza, né, apequena. Então, nesse caso, você tem uma cidade que joga contra a virtude. Você tem uma cidade que joga contra o caráter, você tem uma cidade que joga contra a felicidade.
Porque pare para pensar, se a felicidade pressupõe o pleno desabrochar da própria natureza, portanto uma eudaimonia, e se traduz em excelência, em dar o melhor de si, em agir da maneira mais perfeita que se pode, em superação, em busca de perfeição, incansável, e você tem uma cidade, um grupo, um espaço que condena isso, que não vê valor nisso, que não incentiva isso, então nesse momento você vai ter uma cidade na contramão da felicidade, uma cidade que patrocina a infelicidade.
Uma cidade que patrocina a mediocridade, uma cidade que bloqueia a superação de si, uma cidade onde você só vai ser bem aceito e aplaudido se você se juntar na mediocridade coletiva. Entende o que eu tô dizendo? Perceba você, você que é educador, você que é pai e mãe de filho pequeno, Você que tem preocupações mais amplas do que o próprio umbigo, você que gosta de refletir sobre as coisas da vida feliz, seja lá a vida feliz de quem quer que seja, poxa vida, você haverá de concordar comigo, é muito difícil você buscar a excelência.
Agora, é muito mais difícil ainda você buscar a excelência Num lugar onde quem busca excelência é mal visto. E você sabe do que eu tô falando. Você sabe muito bem que existem espaços de policiamento anti-excelência. Você sabe que existem espaços onde o estudante que busca a nota máxima, ele é atacado, ele é agredido, ele é alvo de chacota, ele é alvo de ridicularização. Você sabe muito bem que o colaborador, o trabalhador que busca excelência pode ser taxado de não solidariedade com os colegas, pode ser taxado até de traição, traição face à mediocridade estabelecida.
Então, eu gostaria muito que esse final de episódio do Inédita Pamonha de hoje nos fizesse refletir sobre a nossa sociedade. Você que me ouve do Brasil, você que me ouve em Portugal, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, por favor, reflita sobre até que ponto a tua presença no mundo político, na polis em que você vive, é facilitadora de uma excelência da busca de um caráter virtuoso ou perturbadora dessa mesma busca.
Meus queridos amigos, este foi o meu, o seu, o nosso Inédita pamonha desta quinta-feira, um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil.
Eu te agradeço muito por ter ficado aqui até esse momento. Espero que você tenha adorado. Se você gostou, ouve de novo. Se você gostou demais da conta, convida alguém que você gostaria que buscasse a excelência, a virtude e a vida feliz para ouvir com você. Um beijo grande, valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.
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