#PartiuPensar 222 - Aristóteles: Os meios
Clóvis de Barros avança para o Livro II da Ética a Nicômaco, no qual Aristóteles apresenta os caminhos para a formação das virtudes e a conquista da vida virtuosa.
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Confúcio e a VirtudeEudaimonia como realização da natureza · Virtude como potência que se torna hábito · A prática de atos justos para se tornar justo · Aristóteles
- Prazeres e filosofia platônicaEidos como essência única em meio à pluralidade · Platão · Prazer
Partiu, partiu, partiu pensar, partiu pensar.
Por instantes de plenitude, potência e luz.
Senhoras e senhores, estamos no ar. Este é o nosso #PartiuPensar de toda terça-feira. Estamos patrocinados pela ADV Box. E aí, nossa tarefa é passear pela história do pensamento. Por ora, nos encontramos em pleno Aristóteles e na sua Ética Anicômaco. Nós vimos no episódio anterior aquilo que consta do livro 1, o bem supremo na filosofia aristotélica é a tal eudaimonia, e a tal eudaimonia é a plena realização da própria natureza.
Claro que isso se dá Por conta de um ajuste ou de uma integração da parte no todo, da nossa integração no cosmos. E aí há eudaimonia, quando a nossa natureza desabrocha em punjança. Ah, uma samambaia desabrocha em punjança, pode desabrochar, você vê, linda fica. Um animal desabrocha em punjança, pode desabrochar e fica lindo, né? E o flautista desabrocha impunjança? Claro que desabrocha impunjança. Deixa ele tocar para você ver, né?
O pintor desabrocha impunjança? Nossa Senhora, deixa ele pintar para você ver, né? E o humano desabrocha impunjança? Claro, deixa ele pensar para você ver como ele pensa bem. Então, claro, essa foi a preocupação, né? A felicidade É uma felicidade de realização mesmo, é uma felicidade de execução, é uma felicidade de fazer bem aquilo que você faz, mas é fazendo mesmo, né? Não é uma felicidade inerte, é uma felicidade ativa mesmo, prática, né?
No livro 2 do Ética Nicômaco, Aristóteles vai falar mais carinhosamente conosco de virtude. Em outras palavras, como é que nós nos tornamos capazes de viver bem? Se no livro 1 Aristóteles discute o bem supremo e o daimonia, no livro 2 Aristóteles discute os meios necessários para chegar lá. E é exatamente aqui que a discussão sobre as virtudes ganha corpo, né? Na verdade, a virtude, para Aristóteles, ela não está pronta dentro de nós ao nascer, né?
Isso é que é bacana, porque dentro de nós, ao nascer, há uma possibilidade, há uma potência Mas essa potência, ela ainda não é virtuosa propriamente. Essa potência é só alguma coisa que pode permitir virar virtude. Bom, de tal maneira que um ovo de galinha tem a potência de gerar um pinto, né? Mas de lá não sai um jacaré. Não sai. Então, claro, é evidente que nesse sentido a virtude requer mais do que aquilo que temos ao nascer, muito mais, muito mais.
Ninguém nasce violinista campeão, ninguém nasce professor espetacular, Ninguém nasce arquiteto niemariano, ninguém nasce virtuoso como ninguém nasce corajoso, ninguém nasce justo, ninguém nasce magnânimo, ninguém nasce temperante, nada disso. Então, se ninguém nasce nada disso, De onde é que isso surge? Porque se de fato o cara não nasceu um violinista incrível, ele hoje é um violinista incrível. Poderíamos então dizer que ele se tornou um violinista incrível, um nadador incrível, um flautista incrível, um professor incrível.
Como também ele se tornou corajoso, ele se tornou temperante, ele se tornou magnânimo, ele se tornou justo. E como é que isso aconteceu? E é exatamente aqui que vem a ideia mais legal, porque mais pé no chão possível da filosofia aristotélica. E qual é? Nós nos tornamos justos praticando atos justos. Olha que loucura! Quer dizer, de uma certa maneira, o caminho é do fazer embrionário ao fazer repetido, ao fazer que vira hábito, ao fazer que vira ser.
Quer dizer, você começa agindo corajosamente em pequenas situações, quando você menos percebe você age corajosamente de novo, E de novo, de repente você percebe que a coragem é um hábito e você já tá corajoso sem precisar pensar muito, né? No começo não, você tem como agiria alguém corajoso? No começo você pensa, depois de fazer isso várias vezes você não precisa mais pensar, virou um hábito. Do mesmo jeito que você conduz o seu carro, que no começo você pensa, depois vira um hábito, né?
Vira um hábito. Da mesma maneira, o flautista que no começo se esmera pensando tampar direitinho cada buraco, e depois de repetir muitas vezes, aquilo vira um hábito. É o hábito da excelência em tocar flauta. Vira um hábito. E depois que vira um hábito, esse hábito ele tá de tal maneira impregnado em você que você já não consegue mais distinguir esse hábito de quem é você. Quer dizer, você é aquele que tem aquele hábito. Então você passa do agir corajosamente de modo pensado para repetir o agir corajosamente de modo pensado, para o agir corajosamente de modo habitual e repetido sem pensar, para depois ser corajoso.
O hábito virou ser. Então, da mesma maneira, você dá uma aula caprichando e pensando em cada detalhe, Aí você repete essa aula caprichando e pensando em cada detalhe. De repente você dá uma aula excelente sem precisar pensar muito em cada detalhe, até que o hábito de dar uma excelente aula se introjeta e de repente você é um excelente professor. Você se tornou um excelente professor a partir de um certo hábito. A partir de uma certa repetição.
Então perceba o quanto Aristóteles é pé no chão nesse quesito. Eu acho que você, ao perceber isso, poderá aproveitar muito disso na sua vida. Por quê? Porque no começo depende da sua vontade. Deixa eu caprichar aqui. Depois Repetir aquilo também depende da sua vontade. Deixa eu continuar caprichando aqui. Quando vira hábito, já não depende mais da sua vontade. Você faz sem precisar pensar em caprichar muito aqui, mas você faz caprichadamente, você faz esmeradamente.
Eu disse caprichadamente, não caprichosamente, porque caprichosamente pode fazer pensar numa noção de caprichoso, de capricho, que não é. Aqui é o quero, eu quero busca do melhor de si, né? E não frescura. E de repente você tem o hábito de fazer esmeradamente e esse hábito se impõe, esse hábito define a sua prática sem precisar pensar a respeito. E desse hábito você tem um pulo para o ser. De tal maneira que o hábito se tornou habitual, que ele já é você. Ele é constitutivo do teu ser. Nossa, que ideia! Que ideia!
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Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes. Ô turma, para fazer pergunta é no QR code. QR code. E aí, claro, os apoiadores tem primazia. O Douglas Lima Daniel pergunta: o eidos de prazer na visão de Platão possui segregação de importância? Ó, Douglas, chega mais, é, a gente volta na galinha lá, tem a galinha 1, a galinha 2, a galinha 3, a galinha 4, Elas todas são diferentes entre si, porque não há igualdade na natureza.
Igualdade é uma questão matemática. Porém, são todas galinhas, sem dúvida. E por quê? Como é que eu sei disso? Porque todas elas contêm o "eidus" de galinha, a essência de galinha. E esse "eidos" de galinha é um só. Você tem uma ação justa, outra ação justa, outra ação justa, são todas diferentes e por que é que eu sei que elas são justas? Porque existe um "eidos" de justiça, é uma essência da ação justa. Tem mesa, mesa 1, mesa 2, mesa 3, mesa 4, são todas diferentes, mas eu sei que são mesas porque existe um "eidos" de mesa, Aquilo que toda mesa tem que ter para ser mesa, ainda que ela seja diferente uma da outra, o certo é que todas elas são mesa, porque nesse ponto todas elas contêm algo em comum.
Eidos de mesa. Então, como você percebeu, no mundo sensível, no mundo das sombras, Você se depara com uma realidade cheia de pluralidades. Agora, no mundo inteligível só há um Eidos. Assim também deve ser com o prazer. Você tem o prazer 1, prazer 2, prazer 3, prazer 4, hedone, né? Você tem o prazer de degustar um porco à milanesa, você tem o prazer de degustar, vamos botar um, sei lá, uma berinjela, para o pessoal que não come porco não ficar falando mal de mim, berinjela, você tem prazer em ouvir uma música, prazer em acompanhar um jogo de futebol, prazer em transar, prazer em deitar cansado para dormir.
Você tem uma pluralidade infinita de prazeres, mas se são prazeres é porque o 'eidos' de prazer é um só. Ficou claro isso? Como é que eu sei que aquilo é prazer, porque eu tenho uma ideia do que um prazer tem que ter para ser prazer. E é por isso que eu sei que, apesar de tão diferentes, são todos prazeres, assim como as galinhas.
Beleza?
Então, o "eidos" é sempre um só. Era isso. Eu espero que tenha satisfeito sua curiosidade. Douglas, muito obrigado pela sua pergunta, excelente. Convido a todos a perguntar também. Terça-feira que vem tem mais. Então a gente vai ficando por aqui. Se você gostou, você ouve de novo. Agora, se você gostou demais da conta, aí o que você faz é convidar alguém para assistir com você de novo. E aí você pode até discutir com esse alguém sobre o que eu disse, sobre o que Aristóteles ensinou.
Lembrando que terça-feira que vem o #PartiuPensar estará de volta. E de novo, com o patrocínio indispensável, inalienável, da ADV Box. Um beijo grande, até terça que vem. Valeu!
Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética. A assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.
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