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Inédita Pamonha 323 - Um bom humano

25 de junho de 202624min
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Clóvis de Barros fala sobre a ação humana e a vida em comunidade, explicando os conceitos aristotélicos de práxis e poiésis.

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Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros.

Patrocínio: Eastman Chemical do Brasil e INSIDER.

Participantes neste episódio1
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
Assuntos3
  • Virtude e Felicidade em AristótelesVida virtuosa como vida boa · Virtudes éticas e dianoéticas · A virtude de ser um bom humano · Justo meio entre extremos viciosos · Praxis e Poiesis · Poesia e Poiesis · Formação do caráter · Ética como estudo da formação do caráter
  • Ação Humana: Praxis e PoiesisPoiesis: ação que resulta na produção de algo exterior · Praxis: ação que não termina em produção exterior · Exemplos de praxis (casamento, alugar, ler) · Exemplos de poiesis (fazer pudim, sela, cotonete)
  • A Cidade Ideal para AristótelesCidade justa onde se pode tornar virtuoso · Formação ética, dianoética e prática
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CDClóvis de Barros

Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar. Este é o nosso Inédita Pamonha, um oferecimento da Stiman Chemical do Brasil e da Insider, a sua roupa inteligente. Falávamos No episódio passado de Aristóteles, estamos cuidando das suas virtudes. Estamos falando de Ética Nicômaco, os ensinamentos que Aristóteles oferece ao filho a respeito da vida boa. E aí Aristóteles proporá que a vida boa é a vida virtuosa.

A virtude é fazer bem aquilo que se faz. Haverá, nós dizíamos, virtudes éticas, e essas virtudes têm a ver com o fazer, com a ação. É pensamento que tem por consequência a vida prática do humano. E assim o humano, ele pensará em produzir um instrumento para realizar uma ação que considera boa, que lhe traga algum benefício. Entenda que nesse caso estamos falando de uma virtude ética. Mas há também virtudes dianoéticas. Partem da premissa de que na equação da felicidade é possível pensar bem por pensar bem, conhecer pelo prazer de conhecer, aprender pelo prazer de aprender e, portanto, um conhecimento que não precisa de realização nenhuma para assumir o seu valor na vida.

Então, quando nós dizemos que Ética Nicômaco é um livro sobre felicidade e dizemos que a felicidade pressupõe virtude, nós então podemos dar um milhão de exemplos Porque é claro, tem a virtude do carpinteiro, que é aquele que pensa bem para agir virtuosamente na carpintaria. A virtude do nadador, que também pensa bem para agir virtuosamente na natação. E é claro, tem a virtude do flautista, a virtude do arquiteto, do advogado, do explicador, etc.

Porém, Para além dessas virtudes particulares a cada fazer, nós poderíamos pensar na virtude humana propriamente dita, na virtude de viver dignamente uma vida humana. Perceba que nesse caso nós não estamos mais falando de virtudes práticas específicas, Mas estamos falando, na verdade, da virtude de ser um bom humano. Então, quando nós dizemos que a virtude ética e a virtude dianoética, elas ambas podem levar à felicidade, nós ainda temos que dar conta desse desafio.

O que haveria de comum a todos os humanos que permitiria a todos os humanos alguma virtude pelo fato de serem humanos? Porque você haverá de entender: se nós somos humanos, o mero fato de pertencermos à mesma categoria exige que tenhamos coisas em comum. Por outro lado, apesar de sermos humanos, não somos iguais, somos singulares. Nesse caso, há também coisas que nos distinguem dos demais, que nos discriminam dos demais. Então, quando nós pensamos em virtude, podemos pensar em virtudes que nos discriminam, porque no final das contas fazemos bem no interior da particularidade da natureza que é a nossa, como também virtudes que nos jogam no bolo da humanidade, porque são virtudes que nos fazem agir virtuosamente, em comum a todos os demais humanos.

Até aqui eu espero que tenha ficado claro, mas ainda cabe uma pergunta. Fiquemos aqui circunscritos à virtude ética, circunscritos ao pensamento virtuoso sobre a prática do homem, sobre a ação do homem, sobre a conduta humana. Vamos tentar encarar essa virtude de maneira mais particular, mais aguda, mais específica. O que que Aristóteles vai nos sugerir? Proposta de Aristóteles é que as virtudes éticas, elas implicam uma espécie de competência, uma capacidade.

E que competência é essa? Que capacidade é essa? É a capacidade de encontrar um meio que é justo entre dois extremos que não são justos. É a capacidade de encontrar um meio que é virtuoso, que fica entre dois extremos que não são virtuosos. Como o contrário da virtude é o vício, é um meio virtuoso entre dois extremos viciosos. Então veja, nós estamos aqui falando de virtudes éticas, todas elas inscritas naquilo que nós poderíamos chamar de qualidades de caráter.

E quando falamos de caráter, já sabemos disso, estamos nos referindo a uma certa habitualidade. Então veja só, o caráter é um conjunto de virtudes que nos fazem agir com habitualidade, com recorrência, sem precisar pensar muito a respeito. Quando nós estamos falando de um caráter de alto valor, de alto nível, nós pressupomos, pelo menos de acordo com Aristóteles, uma certa capacidade de encontrar o justo meio entre dois extremos em cada uma das virtudes consideradas.

Quer dizer, o que é um indivíduo de caráter elevado? É um indivíduo que tem uma disposição habitual para agir virtuosamente a partir de uma capacidade, que é a capacidade de encontrar o justo meio entre dois extremos que não, que não consideramos justos. Você Olha para mim e diz: "Ainda tá um pouco nas nuvens isso, ainda tá um pouco abstrato." Vamos tentar começar por um exemplo que não tem nada a ver com qualidades de caráter nem com virtudes éticas, mas eu pergunto a você: você pode dizer que o melhor está entre o branco, que é um extremo, e o preto, que é o outro extremo?

Não, isso não faz o menor sentido. Por quê? Porque não há nenhuma superioridade nesse meio termo em relação aos extremos. E eu tô só falando aqui de cor, eu não tô falando de etnia, não. Faz o menor sentido. Você pode dizer que o melhor está entre o doce e o azedo? Também não faz o menor sentido. Então, há uma particularidade nessas questões de caráter. Segundo Aristóteles, o melhor caráter é o caráter que se posiciona entre dois extremos, mas não quaisquer, não quaisquer.

É aqui que a porca começa a torcer o rabo. Lembra quando nós falamos em agir? Em ação, é preciso lembrar que para os gregos havia duas palavras. Eles separavam duas palavras porque consideravam que essas palavras se referiam a coisas diferentes. Usavam a palavra praxis para indicar um certo tipo de ação e a palavra poiesis para indicar outro tipo de ação. Vamos começar pela poiesis. O que é a poiesis? A poiesis indica a ação que resulta na produção de alguma coisa exterior a quem produz.

A poiesis indica, portanto, uma ação que termina na produção de alguma coisa que é diferente não só de quem produz como do instrumento usado para produzir. Portanto, a poiesis é o que equivale à própria produção, é o fazer algo exterior a si mesmo, é fabricar alguma coisa diferente de si mesmo, é fazer, por exemplo, uma obra de artesanato, ou até mesmo, quem sabe, transformar alimento cru num prato excelente. Isto é produzir alguma coisa fora de si.

Isto é poiesis, né? Quando você Faz um pudim, é poiesis. Quando você faz a sela para montaria a partir do couro e do ferro, é poiesis. Quando você põe algodão e plástico de um lado e espera sair cotonete no outro lado, é poiesis, certo? É uma ação que termina na produção de uma coisa outra, tá certo? Que não existia até o momento da ação. Você faz existir aquilo que não existia antes. Pega tecido e vira cueca. A cueca é diferente de quem produziu a cueca.

A ação de produzir cueca é poiesis, né? Poiesis. Mas a ação não é só poiesis, a ação também é praxis. Ora, se a poiesis é a ação que termina na produção de algo diferente de si mesmo, O que é a praxis? É um agir que não termina em produção de nada fora de si mesmo. Professor Clóvis, como assim? Me dê um exemplo imediatamente. Então vamos lá, você se casou, certo? É ação? É. Produziu alguma coisa fora de si mesmo? Por enquanto não.

Você aluga um apartamento. Alugou. Alugar é ação? É. Quem aluga produz algo fora de si mesmo? Nada. O apartamento tava lá sem o aluguel, o apartamento continua lá com o aluguel. Não foi o aluguel que produziu o apartamento. O aluguel em si não produz nada, portanto o aluguel é praxis. Você convida alguém para vir à sua casa. Produz-se alguma coisa diferente? Nada. É praxis. Você vai jogar bola, fica 2 horas chutando a bola daqui para lá e de lá para cá, produz alguma coisa fora disso mesmo?

Nada. É praxis. Você pega um livro para ler, quem lê um livro produz alguma coisa fora? Não, é praxis. Você estuda de manhã, de tarde e de noite, produz alguma coisa? Ah, é praxis. É praxis. Você pega couro, pega ferro e faz uma sela para pôr em cima de um cavalo, é ou "yeses". Você pega um livro de Eça de Queiroz para ler e lê do começo ao fim, é "praxis". Tá perfeito isso ou não? Veja, você pode até: "Professor, e se eu comprar uma mochila?" É "praxis", porque a sua ação não fez existir alguma coisa, não deu causa à existência de alguma coisa.

Quem fez poiesis foi quem fabricou a mochila. Ao comprar a mochila, você faz praxis. Tá perfeito? Há um milhão de exemplos em que a ação não resulta em um produto exterior a si mesmo. Isso é praxis. Espero que você tenha entendido essa diferença, que para Aristóteles é importantíssima, entre praxis e poiesis. Curiosamente, é da palavra poiesis que vai surgir a palavra poesia. Engraçado, né? Porque ninguém assim levanta a mão para relacionar de imediato, né, a produção com a poesia.

Ninguém. Porque Você pensa em produção, você pensa em fábrica, você pensa em fazenda, você pensa em artesanato, você pensa, né, em mão na massa, né? E é gozado, é da palavra poiesis, produção, que vai surgir a palavra poesia. A palavra poesia, portanto, resulta daquela parte da prática que produz alguma coisa exterior a si mesmo. Perfeito até aqui? Olá, eu sou Clóvis de Barros e venho aqui propor a você nos apoiar a manter vivos os nossos conteúdos de filosofia na internet.

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Então, nesse sentido, esse humano nasce, ele não sabe pensar, ele não sabe falar, ele não sabe construir, ele não sabe andar, ele não sabe mastigar, ele não sabe ler. Então, A gente pode dizer que tudo o que pudermos pensar em termos de virtude, de areté, de excelência, de fazer bem o que se faz, na hora da realização de alguma coisa, estamos falando de algo que terá que ser aprendido, terá que ser, digamos, formado ao longo da vida, porque ao nascer não há excelência de tipo nenhum.

Ao nascer não há virtude nenhuma, não há virtude no nascituro, a virtude ela vai surgindo ao longo da vida. Então veja que conjunto de coisas, de afirmações interessantes, né? Porque Aristóteles diz: é um livro sobre felicidade, para falar sobre felicidade eu vou falar sobre Virtude é fazer bem aquilo que se faz. Virtude é um tipo de excelência. Virtude é um hábito, né? Você terá virtudes éticas que têm a ver com ação e terá virtudes dianoéticas que têm a ver só com conhecimento.

Num você pensa para agir e no outro você apenas pensa. Pensa para conhecer, conhece para pensar. E a coisa se restringe ao conhecimento. Daquelas ações você de novo tem uma nova bifurcação: a praxis e a poiesis. A ação que termina em alguma coisa fora de quem age é a poiesis, é a produção. A praxis é toda ação que não termina em nada fora do agente, é a praxis como é. A leitura, como é o casamento, como é o aluguel e todos os exemplos que nós demos aqui.

Então, e aí finalmente a gente diz: a virtude vai sendo moldada ao longo da vida, ela vai sendo formada ao longo da vida, ela vai dependendo da formação, ela vai dependendo da educação, ela vai dependendo do que acontece com o indivíduo virtuoso. Ela vai dependendo das relações que essa pessoa mantém no mundo, né? E aí é que você começa a entender por que que para Aristóteles essa essência humana é também política, de vida na polis, de vida com os outros.

Por quê? Porque a polis justa é aquela Polis, né? O que que é uma cidade boa, né, para Aristóteles, né? Se você perguntar aí para um interiorano se gosta do lugar: a minha cidade é uma maravilha, né? Todo lugar que eu vou diz a mesma coisa, é tudo uma maravilha, um espetáculo, é isso, é aquilo, né? E aí você pergunta por que, a pessoa diz: ah, é uma cidade tranquila, é uma cidade segura, "É uma cidade que apesar de ser pequena tem cinema, tem bons restaurantes, tem não sei o quê, etc." Nada disso passa pela cabeça de Aristóteles, porque uma cidade boa para Aristóteles é uma cidade onde alguém que nasceu zerado de virtude poderá, pelo fato de viver naquela cidade, tornar-se uma pessoa virtuosa, não é?

Excelente do ponto de vista ético, excelente do ponto de vista dianoético, excelente do ponto de vista poético e do ponto de vista prático. Nesse sentido, nós poderíamos, depois de constatar que as virtudes vão surgindo ao longo da vida, nós poderíamos propor uma definição de ética como aquele segmento da virtude, do pensamento, que tem por objeto a vida prática do homem. Portanto, a vida prática do homem poderá ser pensada virtuosamente, virtuosamente, pensar bem a vida e viver de acordo com o próprio pensamento.

Nossa, que maravilha! Que coisa linda! Essa ética será um estudo da formação do caráter de uma pessoa, desde que entendamos por caráter o conjunto organizado das suas virtudes, o conjunto das suas excelências, digamos assim. Por que não dizer também, no caráter, o conjunto das suas fraquezas? O conjunto das suas debilidades práticas, o conjunto da sua falta de virtude, que nós deveríamos chamar sempre de vício. Então, o estudo dos elementos necessários ao caráter de um indivíduo, com vistas a que ele alcance o maior dos bens, a saber, a felicidade, se chama Ética.

Beleza? Temos aqui então uma definição tipicamente aristotélica em que ética e felicidade estão absolutamente vinculadas, costuradas entre si, irmanadas. A ética como a identificação dos elementos de caráter necessários para que alguém possa perseguir a eudaimonia, isto é, o pleno desabrochar da própria natureza, Isto é a felicidade. E naturalmente a pergunta é: que tipo de caráter eu preciso forjar? Que tipo de caráter eu preciso esculpir, seja em mim mesmo, seja nos outros, para estar apto a buscar a felicidade?

Esta é a pergunta que faz o gancho com o nosso próximo episódio. Este foi o nosso inédita pamonha de hoje. Oferecimento de Stimmann Chemical do Brasil e da Insider. Eu espero que você tenha gostado muito, e se você gostou muito, você vai ouvir de novo. E se você gostou demais, você vai chamar o grande Arlindo Negrão Vaz para acompanhar com você. Ou então você chamará a procuradora Serqueira Alves Barbosa ou a desembargadora Gilda Serqueira Alves Barbosa.

Todas essas pessoas que eu tive a honra de um dia conhecer e que fizeram parte com excelência e brilho da minha trajetória. Um beijo grande. Fiquem bem, espero que tenham gostado muito e eu prometo reencontrá-los agora, aqui mesmo nesse canal, quinta que vem, em mais um episódio de Inédita Pamonha cuidando das virtudes em Aristóteles. Valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética. A assessoria oficial do Clóvis de Barros.

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