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#PartiuPensar 220 - Aristóteles: Poética

16 de junho de 202626min
0:00 / 26:31

Clóvis de Barros explora a relação entre a arte, a mímesis e o pensamento de Aristóteles.

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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou

Participantes neste episódio1
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
Assuntos3
  • O Papel da Arte e da CriaçãoPoética de Aristóteles · Mímesis (Imitação) · Arte como central na vida humana · Poesia vs. História · Tragédia e o Universal · Hubris (Desmesura) · Mythos (Enredo)
  • Tragedias e ImpactosPurificação e Depuração · Piedade e Temor · Dimensão Pedagógica Emocional · Édipo Rei como modelo · Dilemas entre o mal e o pior
  • A importância de viver bemVida agradável vs. Vida boa · Realização e propósito · Maria Denise dos Santos
Transcrição6 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

Voz A:Partiu, partiu pensar, partiu pensar.

Voz B:Por instantes de plenitude, potência e luz.

Voz A:Hoje é terça-feira e terça-feira Você sabe, é dia do #PartiuPensar e Partiu Pensar é um oferecimento da ADV Box. Então, vamos juntos passear pela história do pensamento. Nós estamos agarrados na filosofia de Aristóteles, E hoje vamos fazer alguns comentários sobre a sua Poética. A Poética é um livro que você pode encontrar de autoria de Aristóteles, que reúne textos fragmentados sobre arte. Naturalmente, você deve entender que a Poética é talvez a obra mais relevante sobre arte da nossa antiguidade ocidental. Bem, é claro que a sua importância vai muito além daquilo que Aristóteles fala sobre arte enquanto regras de produção artística. Entendimento de Aristóteles sobre arte é um entendimento filosófico, de um certo modo, que insere a arte na vida humana. E para Aristóteles, isso que é bacana, né? A arte não é um mero ornamento, a arte não é, como muita gente acha que é, a cereja do bolo, não é? A parte graciosa do processo, aquilo que se sobrar tempo a gente pode até se bobear, se interessar, aquilo que algumas pessoas menos preocupadas com dinheiro costumam se dedicar a entender, não é bem assim que funciona, sabe? A arte para Aristóteles Ela é central na vida humana. Por quê? Porque ela está impregnada na natureza humana, ela é, de certo modo, essencial à nossa humanidade. Então, veja, isso é, por si só, já é preciosíssimo, não se trata de entender a arte como: ah, bom, de vez em quando, né, de 2 em 2 anos eu vou na Bienal, né, e olhe lá. Isso os mais sofisticados. Ah, uma vez por ano eu pego um livrinho para ler, ou então quem sabe eu vá me interessar num curso de sábado por fotografia, uma coisa periférica, remota, irrelevante, de diletantismo, de hobby. Nada disso. O entendimento de Aristóteles a respeito de arte coloca a arte numa perspectiva de absoluta centralidade na vida humana. Essa é a primeira ideia que eu acho que precisaria ser destacada. Aristóteles dirá então nesses textos que compõem a Poética que o primeiro passo é a imitação, e a imitação em grego é mimesis, mimesis. Então, muitas vezes usamos em português o adjetivo mimé, mimético, que quer dizer imitativo ou por imitação. Existe a teoria do desejo mimético, que é o desejo por imitação. Então, a arte começa com imitação, mas o problema é você entender que a imitação em Aristóteles, a mimesis em Aristóteles, não é um uma reprodução mecânica do original, né? A mimesis não é uma fotografia, um espelho fotográfico do original, né? Aquele que imita, ele o faz criando, ele o faz recriando. Então, no caso, você poderá entender O artista como aquele que imita a vida humana, mas ele imita a vida humana fazendo o quê? É recriando as ações humanas imitadas por ele de modo significativo, de modo inteligível, de modo coerente, de modo a, a just pô-las, a apresentá-las de maneira a significar alguma coisa para nós. Não é um mero flagrante passivo daquilo que você encontra, mas é uma construção daquilo que você encontra, né? É uma construção criativa que organiza fragmentos observados de realidade em torno de uma ideia, em torno de um entendimento sobre a vida humana, sobre as relações humanas, sobre a natureza humana, etc. Então, ó, poderíamos dizer que o poeta, o artista, não é? Ele, o que que ele faz? Ele, através da sua recriação, ele revela possibilidades universais a partir do flagrante da experiência particular. Há, portanto, aqui um trabalho de imitação, mas que está longe de ser pobre, porque é profundamente criativo. Aristóteles chega a dizer que a poesia é muito mais filosófica do que a história, né? Então, quando a história narra o que aconteceu, a poesia parte da imitação do mundo, mas indica para o seu apreciador aquilo que poderia acontecer, né? Segundo as aparências, a verossemelhança, aquilo que está sendo dado e trabalhado como realidade a partir da imitação. Então acho que você começa a perceber, né, a história ela fala do particular, né, do particular dos fatos, do particular dos acontecimentos, do particular dos episódios, do particular dos personagens históricos, né, enquanto que a tragédia revela, por exemplo, o universal da condição humana. O que a tragédia apresenta é, de certo modo, aplicável a qualquer um, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Razão pela qual uma grande tragédia, uma tragédia finamente construída, ela guarda atualidade em qualquer momento, né? Ela conserva a sua atualidade séculos depois, né? Ela não depende daquele contexto histórico para fazer sentido. Então, se você lê Édipo Rei, aquilo que você lê, né? Se você assiste Édipo Rei, aquilo que você assiste, né, faz total sentido para a vida que você vive hoje, no século 21, e também fará para os que viverem no século 31. Por quê? Porque existe uma atemporalidade da tragédia que transcende os contextos históricos, que transcende a particularidade das sociedades relatadas. Por quê? Porque cuida de questões que são questões absolutamente inerentes a uma humanidade essencial, que portanto não desaparece com o passar do tempo, ok? Então você discute a estrutura do agir humano, a estrutura a estrutura da ambição humana, a estrutura do temor, do temor humano diante do mundo, a estrutura da culpa, do amor humano pelo mundo, pelas coisas do mundo, pelo outro e assim por diante. A tragédia cuida da hubris, que é a desmesura, pretender mais para si do que lhe é devido, etc. Então perceba, são temas que pairam sobre o tempo e que, portanto, devolvem ou conferem à tragédia uma atualidade independentemente do momento histórico vivido. Então eu insisto porque Não poderia concordar mais, quer dizer, a leitura de Sófocles, por exemplo, é uma leitura que nos dá a impressão de que estamos diante de um texto que foi produzido nos dias que correm, tamanha a atualidade dos dilemas, das inquietações, das lamúrias, das devastações vividas pelas personagens muitos séculos atrás. Então, nesse sentido, existe uma filosofia da arte aqui que tem na tragédia um seu momento maior, não é? E, portanto, a poética aristotélica tem na tragédia o seu ponto central, o seu momento mais elevado. Esse é o entendimento de Aristóteles e eu penso que você nos acompanhará nisso. Quer dizer, Aristóteles tem um tratado sobre a arte, mas ele considera a tragédia a manifestação artística do seu tempo mais completa e, portanto, mais esclarecedora do que a arte possa ser, não é? Então, em primeiro lugar, a tragédia imita uma ação, uma ação que converge para uma certa essencialidade, né? E naturalmente nós não estamos falando de personagens isolados que agem isoladamente, mas são ações humanas interligadas, interconectadas, cujo significado é reflexivo. Quer dizer, o entendimento de uma ação é devedor do entendimento de outras ações correlatas e, portanto, de certo modo, há um enredo, há um enredo que costura as ações individuais, não é? E é interessante porque esse enredo que costura as ações individuais Aristóteles chama de "mythos", "mythos", M-Y-T-H-O-S, Mitos é o enredo que costura as ações individuais na tragédia, né? E assim o homem revela quem é por aquilo que ele faz dentro de um contexto, dentro de um cenário específico em que o significado da ação, ele é vinculado ao significado das demais ações integradas nesse mitos, né? De tal maneira que a ação deve constituir uma unidade, uma completude. Então, nesse sentido, a tragédia precisa ter começo, meio e fim, ela precisa costurar as suas etapas de maneira orgânica, não pode haver uma espécie de arbitrariedade em rupturas, em fragmentos, tudo deve decorrer numa sequência necessária de evidências e de episódios, de tal maneira que o todo possa fazer sentido enquanto todo. É preciso poder tirar da tragédia uma conclusão, digamos, harmônica, para a qual todas as suas partes contribuem, né? Portanto, Aristóteles aqui propõe a ideia de estrutura dramática sem a qual nenhuma tragédia ficaria de pé.

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Voz A:Finalmente, uma questão central da poética aristotélica é a questão da catarse, é a questão da catarse. Ora, em que consiste a catarse? A palavra catarse sugere purificação, sugere depuração, e de certo modo, quando assistimos a Nessa tragédia, experimentamos de um lado piedade, de outro lado experimentamos temor, piedade pelo sofrimento, por exemplo, o sofrimento do herói, e temor porque nos damos conta que há algo de semelhante, de semelhantemente devastador poderia também nos ocorrer. Portanto, a tragédia, ela nos atinge emocionalmente, né, porque é— escancara a nossa fragilidade, joga luz sobre a fragilidade humana. Agora, em que medida essa contemplação, essa assistência à tragédia, ela seria prazerosa? Então, Aqui você tem um dos elementos mais interessantes da obra aristotélica sobre a arte. Aristóteles percebe que quando estamos diante de uma tragédia, passa conosco algo de profundamente humano. Temos uma necessidade, ensina Aristóteles, de contemplar o sofrimento alheio, temos uma necessidade de simbolicamente estar diante do sofrimento alheio para compreender a nossa própria vida. A tragédia, de certo modo, organiza o caos do sofrimento, organiza o caos da dor, numa forma que seja significativa, numa forma que seja inteligível, numa forma que seja compreensível. Portanto, a tragédia permite enfrentar emocionalmente aquilo que na vida concreta de carne e osso poderia nos destruir. Então, o que nós estamos dizendo é que a tragédia teria uma dimensão pedagógica, uma dimensão pedagógica emocional. Ela prepara aquele que a assiste para sofrimentos a partir do que quem a assiste observa na própria tragédia, porque a tragédia oferece um programa de significados para as devastações do cotidiano, tornando, portanto, essas devastações mais suportáveis, digamos assim. Poderíamos dizer que o sofrimento adquire um sentido, adquire um sentido dramático. Naturalmente que para Aristóteles, Édipo Rei é um modelo quase perfeito de tragédia, onde Édipo, como costuma acontecer na nossa vida, não é nem totalmente inocente, nem totalmente culpado. Ou seja, ele é muito mais culpado do que os que defendem a sua inocência e é muito mais inocente do que aqueles, do que pensam aqueles que pretendem condená-lo ou simplesmente acusá-lo. Portanto, sua ruína, a ruína de Édipo nasce de uma combinação terrível do seu destino, não é? Da ignorância que ele tem de dados que envolvem a sua realidade e da necessidade de agir, de tomar decisões, de deliberar. Portanto, você tem aí todos os ingredientes de que precisamos para enfrentar situações que são também na nossa vida de grande complexidade. Muito bem, é preciso lembrar que quando pensamos em tragédia não pensamos num enfrentamento do bem e o mal. A tragédia não é um filme de bang bang, a tragédia não é uma telenovela, a tragédia não tem mocinhos e vilões, né? O herói da tragédia ele não é nem completamente bom, nem completamente mau. E ele é obrigado a decidir entre situações que não se deixam categorizar em boas e más. Porque você tem que decidir entre o mal e o pior, ou entre o bom e o melhor. E isso torna as deliberações na tragédia infinitamente mais sofisticadas, infinitamente mais complexas, do que aquelas que separam a bondade da maldade de maneira taxativa e estereotípica. Bom, eu acho que pensei aqui alguns elementos da Poética que me parecem relevantes demais da conta. Nada impede que você pegue o texto para ler, é domínio público, está ao seu alcance na internet gratuitamente, e acho que você vai gostar demais de ter esse contato com a obra de Aristóteles, que também se interessou, como estamos vendo, pela arte. Além de ser um cientista, de ser um filósofo, também era alguém que pensava sobre a arte, fazia uma filosofia da arte. Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes. Vamos aqui responder às perguntas, lembrando que os apoiadores têm prioridade, que você deve mirar no QR code para fazer a sua pergunta. E a Maria Denise dos Santos, ela pede: como diferenciar o viver bem para o bem viver? Bem, Maria Denise dos Santos, preste atenção, independentemente das nomenclaturas que você usa ou que possam ter chegado até os teus ouvidos, até o teu conhecimento, é certo que uma coisa é uma vida agradável, prazerosa, tranquila, uma vida, portanto, sem sobressaltos e com redução significativa de dor, de ansiedade, de luto, de devastação. Isso é uma coisa. A outra coisa, que é a vida boa, essa vai além do simples bem-estar. E por quê? Porque a vida boa não significa só experiências agradáveis e redução do sofrimento. A vida boa para o humano pressupõe realização, pressupõe punjança, pressupõe algum tipo de alinhamento entre a essência e a existência, entre o que somos e como vivemos. Quando eu tô aqui conversando com você, Maria Denise, o que menos importa é se aqui tá agradável, ou se eu tô com frio, ou se eu tô sofrendo, ou se eu tô com dor de cabeça, porque o que importa aqui, e é a régua da vida boa, é a realização de um propósito, é o encaminhamento para um propósito. E isso vai muito além do agradável, isso vai muito além do menos doloroso. Eu acho que você, pelo menos com essas indicações, consegue costurar uma resposta para você. Muito obrigado pela sua excelente pergunta. Esta foi a Maria Denise dos Santos. Lembrando sempre que você, para perguntar, deve mirar no QR code, hein? E ainda por cima, eu não sei, ou é QR code, código, né? Ou QR code. Mas de qualquer maneira, você sabe do que eu tô falando, e isso para mim basta. Lembrando que os apoiadores sem preferência, porque é um modo que eu tenho de agradecê-los pelo apoio. Um beijo grande, valeu! Bem, era essa a nossa reflexão de hoje. Muitíssimo obrigado pela sua atenção. Se gostou, de novo, se gostou muito, convida alguém para nos acompanhar, porque a gente precisa demais do seu apoio. Um beijo grande, voltamos na na próxima terça. Até lá! Lembrando sempre, o patrocínio é da ADV Box. Por quê? Porque é sempre possível uma advocacia ética, uma advocacia criativa, uma advocacia eficiente, uma advocacia que pensa na justiça. Um abraço, valeu!

Voz B:Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, Acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.

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