Inédita Pamonha 321 - O agente e o resultado
Clóvis de Barros reflete sobre as virtudes morais e a ação humana à luz do pensamento aristotélico.
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- Virtude e Técnica em AristótelesTeoria das virtudes · Aristóteles · Vida boa · Excelência técnica vs. virtude moral · Aquisição de virtudes pela prática · Condições para a ação virtuosa · Diferença entre ato justo e justiça
- Ação Humana e VirtudeAção técnica · Ação virtuosa · Intenção e escolha na virtude · Convicção firme e imutável · Virtude como qualidade da alma
- Exemplos de Virtude e TécnicaBom flautista · Bom nadador · Ato corajoso vs. virtude da coragem · Devolução de dinheiro por medo vs. justiça
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Voz A:Pois muito bem, meus amigos, estamos cuidando do pensamento de Aristóteles, estamos cuidando das virtudes em Aristóteles, da sua teoria das virtudes. E é claro, eu espero você tenha desfrutado do nosso primeiro episódio sobre esse tema de quinta-feira passada. Hoje daremos prosseguimento a toda essa potentíssima teoria das virtudes que é proposta pelo nosso querido Aristóteles para falar da vida boa. Aristóteles, ele fala de virtude e aí ele costuma apresentar um paralelo entre o indivíduo que é bom flautista "bom arquiteto", "bom engenheiro", "bom desenhista", "bom cirurgião", "bom advogado", "bom professor". E aí ele se serve desses exemplos de uma certa competência técnica para tratar das virtudes propriamente ditas. E ele propõe um autêntico paralelo estabelecendo pontos de semelhança entre essa excelência técnica e as virtudes ditas morais, mas também pontos de separação, pontos de diferença. Veja, por exemplo, eu abro aspas em Ética Nicômaco, no seu livro 2: quando ele diz assim: as coisas que devemos aprender antes de fazer, aprendêmo-las fazendo. Por exemplo, os homens tornam-se construtores construindo, sitaristas tocando sitar. Assim também nos tornamos justos praticando atos justos, temperantes praticando atos temperantes, e corajosos praticando atos corajosos. Ora, o que acabou de acontecer aqui? Aristóteles estabeleceu uma comparação do modo como nos tornamos alguma coisa a partir da prática, a partir da repetição, a partir do treinamento, digamos assim. Então ele diz: do mesmo modo que aprendemos a fazer fazendo, do mesmo modo que aprendemos a construir construindo e aprendemos a tocar tocando, assim também aprendemos a ser justos praticando atos justos, aprendemos a ser corajosos praticando atos corajosos. Então, veja, nesse ponto de como é que nós chegamos lá Aristóteles aproxima a excelência técnica da virtude moral, mas isso não significa que ele as equipare completamente. Esse trecho que eu acabei de ler mostra a semelhança entre técnica e virtude pelo modo como são adquiridas, pelo exercício, pela repetição. Do mesmo modo que ninguém nasce flautista, mas se torna flautista tocando flauta, ninguém nasce corajoso, mas se torna corajoso praticando atos corajosos. Mas logo depois Aristóteles apresenta uma diferença importante, e aí é que você percebe a nuance em alguns aspectos Ele aproxima, em outros aspectos ele distancia. Nas artes, e eu aqui já abri aspas, nas artes a excelência da obra está na própria obra, basta que ela possua determinada qualidade. Nas virtudes, porém, não basta que os atos tenham determinada qualidade, é preciso que quem os pratica esteja em determinada condição. Veja que aqui, embora ainda não saibamos direito o que que ele quer dizer com determinada condição, já percebemos que há uma diferença importante. Se o modo de se tornar excelente e virtuoso são parecidos, a essência de uma excelência técnica e de uma virtude moral Essas não são as mesmas. Para que haja uma excelência técnica, é preciso simplesmente que haja uma certa perfeição da própria obra, da própria realização. Basta que ela possua determinada "quality", diz Aristóteles. Ora, nas virtudes é diferente. Não basta que o ato justo tenha determinada "quality", Nós dependemos para a virtude de algo mais da parte de quem age. Se o músico executa uma sonata perfeitamente, o assunto está liquidado, a obra está perfeita. Pouco importa se ele estava alegre ou triste, se ele é honesto ou desonesto, se ele é generoso ou mesquinho. Já uma ação justa não é verdadeiramente justa apenas porque a execução e o resultado parecem justos. É preciso considerar quem age, é preciso considerar as razões pelas quais age. Aristóteles então especifica três condições. Primeiro, que o agente saiba o que está fazendo. Segundo, que ele escolha aquele ato e ele o escolha por ele mesmo, ou seja, pela sua própria decisão, pela sua própria vontade. E em terceiro, que ele faça essa escolha a partir de uma convicção firme, de uma convicção imutável. Ele não pode hesitar a ponto de fazer o contrário no dia seguinte ou se arrepender logo em seguida de ter feito o que fez. Perceba o quanto esse momento da explicação é fantástico. Um homem pode devolver o dinheiro que não é seu, e ele pode fazê-lo por medo da polícia, O ato de devolução é o mesmo ato do homem justo, mas a razão pela qual a devolução é realizada é totalmente outra. Por isso Aristóteles diria que um realizou um ato aparentemente justo. Na sua parte visível, para quem tá olhando de fora, a devolução de um é igual à devolução do outro. Os dois estão devolvendo o que não é seu, mas a virtude da justiça exige muito mais do que simplesmente devolver. Exige uma deliberação que não se confunde com o medo da polícia. Exige uma convicção a respeito do acerto daquela devolução que obviamente não se encontra naquele que constrangido devolve para não apanhar ou não ser preso. Além disso, a técnica ela pode alcançar o seu momento maior de perfeição num instante ocasional. A virtude, essa não, ela exige uma estrutura permanente de caráter. Então, Observe como, embora o modo para adquirir a excelência técnica e a virtude moral, do ponto de vista mesmo formativo, é o mesmo, os dois, a excelência técnica e a virtude moral, apresentam diferenças significativas no que diz respeito à sua essência.
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Voz A:Vamos então retomar o exemplo de Aristóteles, que é o exemplo do bom flautista. Quem toca flauta muito bem possui uma excelência técnica. Assim também acontece com quem nada muito bem. O bom flautista domina uma atividade específica, o bom nadador também. Para quem já praticou natação, a coisa pode ser ainda mais destrinchada. Haverá, por exemplo, quem nos treinamentos tenha extraordinária competência na batida de perna. Quando o exercício isola o treinamento das pernas, por exemplo, como na batida do nado livre, as pernas intercaladas, ele alcança enorme vantagem em relação aos demais. Trata-se de uma excelência técnica. A habilidade é avaliada pelo resultado produzido. Não há dúvida, o sujeito sai batendo perna e ganha enorme vantagem sobre os demais. O mesmo vale para um escultor, vale para um cirurgião, um arquiteto, etc. Agora, a coragem, a temperança, a justiça, a generosidade não são excelências que se deixam reduzir a uma atividade específica. São, portanto, atributos do próprio ser humano. Nós poderíamos, então, concluir que você pode pensar num bom flautista, você pode pensar num bom arquiteto, você pode pensar num bom nadador, mas você também pode pensar num bom ser humano. O indivíduo é bom na técnica da flauta, Ele é bom na técnica da natação e ele também pode ser bom na hora de existir como humano. Portanto, as virtudes não dizem respeito a uma produção específica, dizem respeito a um modo mais abrangente de viver e de agir. Aristóteles observa que Nas artes, por exemplo, basta saber fazer. Lembrando que a arte para o grego tem um sentido muito mais amplo do que as belas artes para nós. Não é só o pintor de museu, o escultor de museu ou o diretor de cinema. A arte tem a ver com todo tipo de ofício, como por exemplo aquele que hoje nós chamamos de artesanato. Um músico pode executar uma peça magistralmente, mas é importante lembrar que essa excelência técnica nada tem a ver com ele ser egoísta ou canalha. A excelência da técnica nada tem a ver com o caráter do agente. Agora, quando falamos das virtudes morais, para que uma ação seja verdadeiramente virtuosa, nós já vimos, é preciso que o agente saiba o que está fazendo, ele tenha consciência da própria conduta, ele tenha consciência do seu agir corajoso, do seu agir generoso, do seu agir honesto, do seu agir justo. Ele entenda de modo consciente a natureza da sua ação. Em segundo lugar, como vimos, a sua escolha deve ser livremente deliberada, livremente escolhida. Ela não pode resultar de uma opressão de circunstância, de um constrangimento daquele cenário específico de vida. Em terceiro lugar, ela deve, como dissemos já, resultar de uma disposição estável, ou seja, a disposição de um indivíduo que tende a agir daquele modo dia após dia. Não se trata, portanto, de uma atitude excepcional, mas de uma atitude recorrente, uma atitude habitual. Então, uma pessoa não é corajosa do ponto de vista de virtude apenas porque realizou um ato corajoso. E aqui é importante que você me acompanhe. Imagine alguém que vê alguém se afogando. Na praia. Então, levado pelas circunstâncias do momento, como por exemplo pessoas ali à volta esperando que ele faça alguma coisa, dado que ele é o único a ter condições atléticas para enfrentar o mar, não é? Ele acaba um pouco premido por essa, por esse incentivo ou até mesmo por essa expectativa determinada pelo olhar dos demais, ele acaba tirando parte da roupa, pondo-se em indumentária a mais natatória possível e acaba se projetando no mar. E ele o terá feito, nesse caso, muito mais para não passar por medroso, passar por covarde aos olhos do outro. Então, essa ação episódica de um indivíduo que acaba se jogando no mar para salvar o outro por conta desse tipo de situação, nada tem a ver com a virtude da coragem. Então aqui é importante que você entenda A virtude é uma qualidade da alma, uma qualidade da alma que é esculpida a fogo, é uma qualidade da alma que é talhada com profundidade e que faz com que o indivíduo se disponha a agir daquele modo por uma questão de caráter, por uma questão de ser aquilo que o faz agir. Uma última observação para o episódio de hoje: nas excelências técnicas, o aperfeiçoamento depende de repetição exaustiva. Quanto mais um pianista toca, tende a tocar melhor. Já as virtudes morais, elas dependem da prática até um certo ponto. Porque, como são sempre meio-termo entre dois vícios que não são virtuosos, por óbvio, dado que o vício é o oposto da virtude, o comportamento virtuoso ou a disposição virtuosa de ação, ela depende, claro, de uma certa prática, mas de outros requisitos de disposição de alma que vão muito além da simples repetição. Esta foi a sua inédita pamonha de hoje. O patrocínio é de Eastman Chemical do Brasil e da Insider. Olha, ficamos juntos bastante tempo apresentando essas semelhanças e diferenças entre a excelência técnica e a virtude moral no pensamento de Aristóteles. Quinta-feira que vem a gente retoma E eu espero que você tenha a curiosidade de ouvir novamente isso que estamos propondo, porque isto será extremamente relevante para você. Aristóteles é um dos grandes pensadores da história da humanidade e a sua teoria das virtudes é certamente um ponto alto do seu pensamento. Muito obrigado pelo carinho, pela atenção, pela fidelidade na audiência, e a gente volta amanhã com mais Reflexão Matinal. Valeu!
Clóvis de Barros:Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.
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