Inédita Pamonha 320 - Em busca da felicidade
Clóvis de Barros começa uma nova jornada, desta vez analisando as principais ideias da obra Ética a Nicômaco, de um dos maiores pensadores da história: Aristóteles.
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Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros.
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- Felicidade e propósitoFelicidade como florescimento da natureza · Bem supremo · Eudaimonia · Nicômaco
- Virtudes em AristótelesÉtica a Nicômaco · Teoria das virtudes · Aristóteles · Tomás de Aquino
- A importância de viver bemCaráter vs. Código de conduta · Formação interior · Experiência no mundo
Clóvis de Barros:Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar. Esse é o nosso Inédita Pamonha. A oferecimento da Estiman Chemical do Brasil e da Insider, a sua roupa inteligente. Bem, nós passeamos pelo pensamento de Jesus, e o pensamento de Jesus nos foi apresentado por meio de parábolas. E a partir de hoje nós passearemos pelo pensamento de Aristóteles. É preciso lembrar, claro que talvez você já saiba, mas é preciso lembrar: Aristóteles viveu em torno de 350 anos antes de Jesus. Portanto, não era possível, não daria jeito de Aristóteles ser cristão, mas daria jeito, seria possível que Jesus conhecesse o pensamento de Aristóteles. De qualquer maneira, muito tempo depois, grandes pensadores tentaram fazer uma conciliação, uma amarração, uma parceria entre Jesus e Aristóteles. Assim surgiu uma boa base, né, doutrinária da Igreja Católica na Idade Média, em especial com o grande Tomás, o Santo Tomás de Aquino. E aí eu imagino que essa parceria também possa, no final desses episódios, ser analisada aqui. De qualquer maneira, Aristóteles falava muito de virtudes, né? E é sobre isso que nós vamos falar. É óbvio que Aristóteles Cuidou de biologia, né? Ele cuidou do estudo das plantas, do estudo dos animais, ele também cuidou da cosmologia, ele também cuidou da física, ele falou de tudo um pouco. Porém, nós aqui vamos nos interessar por uma teoria, digamos, moral e existencial de Aristóteles, uma espécie de reflexão a respeito de como devemos viver, o que é preciso para que a vida seja boa. Essa é a pergunta que nós vamos tentar responder ao longo dos próximos episódios. Segundo Aristóteles, o que é preciso para que a vida humana seja uma vida boa. Ficou claro? Ótimo! Então, poderíamos sugerir, antes de mais nada, que a teoria das virtudes em Aristóteles é, sem dúvida, uma das grandes teorias sobre a vida boa da história da filosofia. Então, isso tem que ser dito. Não há dúvida que qualquer pessoa que se perguntar: "Escuta, como é que a filosofia responde à pergunta a respeito da vida boa para humanos?" Tem que passar por Aristóteles. Ficou claro? Muito bem. Quando Aristóteles se interessa pela questão da vida boa, Ele não se pergunta exatamente que procedimento eu devo implementar, ele não se pergunta que regra eu devo obedecer, mas ele se pergunta, antes de mais nada, que tipo de pessoa eu devo me tornar, né? Então, veja que interessante, porque Já houve um tempo em que esse tipo de preocupação era mais frequente, né? Fulano de tal é uma boa pessoa, fulano de tal não é uma boa pessoa, né? E a partir daí é possível também explicar por que fulano de tal ou fulana de tal é uma boa pessoa, né? Então, a ideia É essa: tornar-se uma boa pessoa. Agora, a palavra tornar-se, né, o verbo tornar-se aqui é fundamental. Por quê? Porque a coisa não está dada ao nascer. Aquilo que você é como pessoa não está resolvido ao nascer, não está resolvido pela sua natureza. Então, nesse sentido, você se tornará justamente na medida que as suas experiências no mundo serão decisivas para que você se torne uma pessoa boa ou não. Tá perfeito isso? Então, quer dizer, a gente poderia dizer, pensando de maneira muito simplória, né, que sempre há esperança, porque tá na nossa mão. Imagina se a coisa já tivesse sido decidida antes, né? E você já tivesse nascido um canalha. Então aí não haveria muito o que fazer. Mas não, existe a possibilidade de uma formação, né? A partir da experiência no mundo. Então, isso significa o quê? A ética de Aristóteles, ela não começa pelo respeito a um certo número de regras, por um código, pelo respeito a um código de conduta, tal como você encontra hoje com muita frequência no mundo das corporações, né? Código de conduta. Não. A ética de Aristóteles se preocupa, antes de mais nada, com o caráter da pessoa. É muito mais importante o caráter do que qualquer código de conduta que seja apresentado para ser respeitado. Então, no final das contas, a gente poderia dizer assim: no lugar de uma lei exterior social, uma lei empresarial, uma lei corporativa, uma lei de uma organização, né? Mas vale a formação interior de uma excelência humana e que, de certo modo, prescinde da existência de leis a respeitar. Ok? A obra fundamental que nós vamos usar aqui, sem medo de ser feliz, né? É a obra Ética a Nicômaco. Ora, a palavra ética para Aristóteles, ela tem a ver com a vida boa, muito mais do que no mundo em que vivemos, né? A palavra ética tem a ver com a vida boa. Ética é uma preocupação com a vida boa. Ética é um campo do saber, do conhecimento, da razão que se dedica à vida boa, ok? E Nicômaco é o nome do filho dele. Então Ética a Nicômaco é um livro que não foi escrito como para ser um livro, um conjunto de aulas na verdade, que um pai dedica a um filho para que esse filho possa viver bem. O que é preciso para uma vida boa, se você preferir, para uma vida feliz. Nada mais normal que um pai tenha essa preocupação. Agora, claro, o sujeito ser filho de Aristóteles ajuda, né? Porque Aristóteles foi um dos maiores sábios da história do pensamento humano e ele se dedicou em particular a reflexão sobre a vida boa, então, no tempo de Aristóteles, no momento de Aristóteles, talvez ninguém o superasse na hora de explicar para o filho o que é uma vida boa para um humano. Ora, nesse Ética Nicômaco, logo no início, Aristóteles propõe que toda ação, toda escolha, toda escolha, tudo aquilo que você decide fazer parece tender a algum bem. Em outras palavras, ninguém faz nada por fazer, ninguém faz nada de graça, ninguém faz nada sem uma motivação, sem uma razão, e portanto toda escolha, toda ação tende a algum bem. Agora, claro, esse bem ele não precisa ser o bem último. Às vezes você faz uma coisa para obter alguma coisa, e com essa coisa que você obtém você consegue obter outra que para você é mais importante do que essa primeira que você obteve. Portanto, podemos dizer que há uma espécie de relação de subordinação, né, de alguns bens a outros bens. Então, nós estudamos para aprender. Nós aprendemos para participarmos da vida escolar numa progressão e continuarmos a aprender. Nós continuamos a aprender para irmos adiante na vida escolar e podermos concluí-la. Nós concluímos a vida escolar eventualmente para continuar estudando em cursos superiores. Nós estudamos em cursos superiores para obtermos um posto no mercado de trabalho. Nós trabalhamos para ter sobrevida, para ter o necessário para continuar vivendo. Para obter outras coisas. E é claro que você já tá se perguntando: mas escuta, se eu luto para obter A, porque A me permite alcançar B, aí com B eu consigo alcançar C, e aí com C eu consigo alcançar D, e aí com D eu consigo alcançar E, e F, e G, e assim por diante, É, seria bacana se tivesse um fim essa história, né? Quer dizer, seria bacana se houvesse alguma coisa que eu pudesse alcançar e que não seria mero trampolim para alcançar outra. Porque entende, se não tiver um fim, eu vou estar o tempo inteiro atrás de coisas que são trampolim para outras. E eu morro no trampolim, né? Eu não alcanço a plenitude, eu tô sempre no instrumento, eu tô sempre no caminho, eu tô sempre no processo, eu tô sempre no meio, eu tô sempre conseguindo uma coisa para alcançar outra, outra para alcançar outra, e daí, né? Quando é que aquilo que eu alcançar resolve, né? Vai ser incrível, vale demais da conta, né? É aquilo, alcançar aquilo vale por alcançar aquilo, não vale para mais nada. Eu obtenho aquilo e com aquilo eu não preciso obter mais nada porque eu já cheguei aonde eu tinha que chegar, né? Então a pergunta é: existe um bem que põe fim a essa sequência que seja desejado por si mesmo, que não seja apenas um instrumento para alcançar outra coisa? E a resposta aristotélica é: sim, existe. E esse bem supremo, esse negócio que se você alcança, você já alcançou, já gabaritou a vida, já não precisa mais procurar outras coisas, não usa isso para alcançar outras coisas, porque tudo é usado para alcançar isso, né? É o que ele chamava de eudaimonia.
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Clóvis de Barros:Ah, professor, o senhor fica meia hora preparando o aperitivo. Meia hora dizendo que coisa importante nós vamos aprender, meia hora explicando como é que, né, tem uma coisa que é o fim da linha, que é o grande, é o grande assim, sinal da vida boa, né. E aí chega na hora, o senhor usa uma palavra em grego que não quer dizer nada. Isso aí é uma grande sacanagem, né. Olha, tem uma coisa que vale por si só, tem uma coisa que tudo está dirigido para alcançar isso, tem uma coisa que chama "one thing only", caramba, né? Eu queria saber o que é isso, o que significa isso. Bom, então bacana, eu já te digo, não precisa ficar bravo não, é que a palavra "eu" da imunia normalmente é traduzida por felicidade. Mas aí você já fica mais contente porque é aquilo ali, né? Quer dizer, você estuda para continuar estudando, continua estudando para obter um diploma, obter um diploma para ter um diploma universitário, para trabalhar, trabalha para, para, para ser feliz. Então, a felicidade é alguma coisa que não te leva a nada além dela, né? Você poderia dizer: "Ah, mas e a riqueza, né?" Então, a riqueza vem antes da felicidade. Eu tô falando no exemplo que você deu, né? Pois é, para ser rico e sou rico para ser feliz, né? Vem antes, né? A felicidade é sempre o fim da linha, a felicidade é sempre depois. Felicidade é aquilo com o que não se faz nada, porque já é tudo. Então, acho que você entendeu que nós estamos falando de alguma coisa muito importante, muito importante, a felicidade, eudaimonia. O problema todo é que a palavra felicidade, ela é quase tão assim complicada, vazia de sentido, quanto a palavra eudaimonia para nós. Por quê? Porque corresponde a quê exatamente? Que é felicidade. E aí talvez fosse interessante saber o que ele, Aristóteles, pensava dessa tal de felicidade, ou se você preferir, dessa tal de eudaimonia. E aí você vai aprender desde já que essa tal de felicidade ou eudaimonia Essa tal de felicidade corresponde ao pleno florescer da nossa natureza. Então, veja que nada tem a ver com finalmente comprar o carrinho dos teus sonhos. Nada tem a ver. Nada tem a ver com finalmente dar uma beijoca na pessoa do seu sonho. Nada tem a ver com comprar uma mala incrível de uma marca incrível, linda, que cabe as coisas, né? Nada tem a ver com comprar uma mochila nova da marca tal, injeção eletrônica, tração nas 4 rodas. Nada tem a ver com— nada tem a ver, porque a felicidade para Aristóteles é florescimento da própria natureza. A palavra florescimento, florescer, é uma palavra que faz pensar em planta, faz pensar em flor, mas ajuda, porque olha, você deve imaginar Que se você pega uma muda de planta e planta num lugar bom, com sol, né, com terra boa, com adubo, regando todo dia e tal, essa planta vai ter uma vida diferente de uma outra plantada num lugar pedregoso, sem sol, sem água, sem nada, né. Então a primeira planta vai ganhar uma exuberância da sua natureza, né? Uma rosa exuberante de rosa, né? Uma samambaia exuberante de samambaia, que uma planta mal plantada não alcançará. Então aí o gaimonia é o pleno florescer, só que não da rosa nem da samambaia, mas é o pleno florescer do humano, da natureza do humano. Então, quer dizer, o humano, ele já tem coisas que podem vir a se tornar exuberantes, e aí o daimonia é quando essa natureza que pode não ser exuberante, ela se torna exuberante. Poderia não se tornar, mas ela se torna. Então, aí você tem felicidade, pleno florescer. Vamos imaginar que uma pessoa, por natureza, tenha um enorme talento para explicar, para explicar. Só que ele é plantado num lugar onde a explicação é irrelevante, ele é plantado num lugar sem sol pra ele, sabe? Ele é plantado num lugar de terra ruim pra ele, entendeu? E aí então ele não desenvolve a arte de explicar. E aí então esse talento não floresce. Ele poderia ir muito mais longe como explicador, mas ele não vai. Por quê? Porque foi plantado errado, vive errado, vive num lugar errado. Vive na contramão, vive de freio de mão puxado, etc. Por outro lado, tem o cara que tem talento para explicar e é plantado num lugar muito bom, com explicadores que o educam e que ensinam a arte da explicação. Ele começa a ter a oportunidade de ele mesmo explicar coisas por conta própria. E aí, pouco a pouco, ele vai melhorando, melhorando, melhorando. Aí ele opta por uma vida profissional na explicação e ele continua explicando, explicando, explicando. Tem uma hora que não tem jeito, aquele talento natural vira uma coisa linda, uma samambaia linda, um explicador espetacular. E aí Aristóteles chama isso de eudaimonia e é isso que a galera traduz por felicidade, mas seria melhor se você entendesse que o "daymonia" é o pleno florescer da própria natureza. Pois muito bem, eu espero que tenham gostado. Essa foi a nossa pamonha de hoje. Patrocínio eterno da Eastman Chemical do Brasil e da Insider, a roupa que te serve bem. Este foi o primeiro episódio da Teoria das Virtudes em Aristóteles. Saiba, nós vamos passar uma por uma dessas virtudes. Então não saia daí. Inédita Pamonha sempre no ar toda quinta-feira. Amanhã tem reflexão matinal. Quanto a esse episódio, se você gostou, ouve de novo. E se você gostou muito, pega alguém pela mão, abraça, dá um beijinho na bochecha e convida para ouvir também. Beijo grande, valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.
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