#PartiuPensar 218 - Aristotéles: Ética (PARTE 1)
Clóvis de Barros começa a reflexão sobre os desafios da convivência sob o olhar de Aristóteles.
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Virtude e excelência moralFazer bem aquilo que se faz · Disposição da alma · Hábito como prática virtuosa
- Ética AristotélicaCosmovisão cósmica e finalidade · Natureza humana e autoconhecimento · Harmonia com o cosmos · Vida boa e felicidade
- Aristóteles e a MetafísicaRelação professor-aluno · Mundo percebido pelos sentidos · Observação empírica · Platão · Aristóteles
Voz A:Partiu, partiu pensar, partiu pensar. Por instantes de plenitude, potência e luz. Senhoras e senhores, estamos no ar. Esse é o nosso #PartiuPensar de toda terça-feira. Patrocinados estamos pela ADV Box e estamos fazendo um recorrido de toda a história do pensamento, pensando aqui e acolá aquilo que julgamos mais auspicioso. E nos toca tratar de Aristóteles. Vamos falar de um pedaço do seu pensamento que é particularmente conhecido e famoso, que diz respeito à ética. Ética, que é um assunto tradicionalmente vinculado a Aristóteles quando nos referimos à filosofia antiga. Muito bem, a primeira coisa que É importante lembrar é que, tal como aconteceu com a lógica, você poderá encontrar os ensinamentos de ética aristotélicos num único volume intitulado Ética Anicômaco. Há dois outros volumes com títulos Ética a Eudemo e Magna Moralia, cuja autoria já é mais discutida. Então, como o nosso objetivo é um objetivo introdutório e de dar ciência da existência das coisas, vamos ficar com Ética Nicômaco, que é dos 3 volumes o mais confiável do ponto de vista da autoria. Muito bem, a primeira observação fundamental é que nós estamos diante de um jeito de pensar cósmico, onde o universo é finito e ordenado e, portanto, onde cada coisa está no seu lugar, cada coisa se movimenta para o seu lugar, onde tudo tem uma razão de ser relacionada à sua finalidade, onde o universo funciona como um todo muito bem ordenado e onde nós também nos encontramos. Então, é claro que nesse universo, como eu costumo dizer, o vento venta, a maré mareia, o sapo sapeia, a girafa girafeia, o mar mareia e a chuva chove. E é claro que nós, dentro desse universo, também existimos. E aquilo que vale para o resto deve valer também para nós. E, portanto, Podemos imaginar a possibilidade de uma vida vivida em harmonia com o resto, onde a nossa existência se encontra vinculada de maneira adequada ao resto. E assim poderíamos dizer que, do mesmo jeito que o vento venta e a chuva chove, cada um de nós vive implementando a sua natureza e se integrando nessa unidade ordenada que é o cosmos. Ora, claro, para que isso aconteça seria preciso que entre as milhares de vidas que poderíamos viver pudéssemos escolher aquela que é mais alinhada com a nossa natureza. É a nossa natureza que nos indica qual é o espaço que devemos ocupar, qual é a atividade que devemos realizar, qual é o trabalho que devemos fazer, porque haverá vidas adequadas à nossa natureza e vidas completamente desalinhadas com a nossa própria natureza. A grande vantagem é que não só colaboraremos de maneira decisiva para a ordem universal, se vivermos adequadamente, mas também teremos a chance de ir o mais longe possível na nossa vida, ou seja, fazer desabrochar a nossa natureza da maneira mais potente possível. E isso é altamente, digamos, vantajoso para nós também. Então, de certo modo, uma vida vivida equivocadamente é uma vida que traz danos para o universo, porque estaremos atravancando o fluxo universal E traz danos para nós, porque estaremos vivendo errado e estaremos com freio de mão puxado e não alcançaremos o tudo que poderíamos alcançar se tivéssemos jogando o jogo no lugar certo, fazendo aquilo que nos cabe fazer. Então, claro está que existe aqui uma reflexão a respeito de como deveríamos viver. E de certo modo a ética cuida disso. A ética não tem por objeto aquilo que as coisas são, mas aquilo que as coisas deveriam ser. E claro, a vida humana se presta a esse tipo de reflexão. Dado que ela poderia ser de muitos modos, a ética discute como deveríamos vivê-la do melhor modo. Então é preciso entender que no caso de Aristóteles, A ética é, em grande medida, uma avaliação da vida, da vida já vivida, e um guia a respeito de como deveríamos vivê-la hoje e amanhã. Isso significa que há, para Aristóteles, uma vida nota 10, uma vida nota 10 prevista justamente nessa harmonia com o cosmos. Quanto mais perfeitamente sintonizada a nossa vida tiver ao cosmos, melhor ela tenderá a ser, e portanto mais próxima da nota 10 ela estará. Quanto mais a nossa vida estiver em desarmonia com o cosmos, pior ela tenderá a ser, e uma nota baixa ela merecerá. E naturalmente essa harmonia com o cosmos depende de explorarmos adequadamente os nossos atributos de natureza, porque é a nossa natureza que nos indica aquilo que deverá ser por nós explorado na nossa vida para que possamos chegar lá e alcançarmos o máximo de pungência que a vida pode nos autorizar. Então, acho que tá super redonda essa introdução, né? Você deve supor que, nesse caso, quanto mais você conhecer sobre você mesmo, quanto mais autoconhecimento houver, quanto mais você tiver noção de quais são os atributos de natureza que são os seus, e quanto mais disposição você tiver para implementá-los e usá-los na hora de viver, mais chance você terá de entrar em harmonia com o cosmos e mais chance você terá de viver uma vida boa. No caso contrário, isto é, no caso de uma ignorância a seu respeito, no caso de você não saber muito bem qual é a sua praia, então aí você estará à deriva e a chance de não viver uma vida ajustada ao cosmos aumenta, porque você vai meio que na sorte, ou então vai, por exemplo, em função das ofertas de mercado, ou vai procurando a vida que for viver no jornal, onde tem vaga, onde oferecem espaço, onde dá para fazer. E tudo isso tende a desrespeitar a referência maior que você deveria usar, que é a própria natureza. E aí, claro, a chance de você viver inadequadamente vai aumentando. E assim, se você não explorar o que você tem de melhor, você tenderá a viver de maneira mais acanhada, mais mediocre, mais a pequenada, sem falar que você não estará onde o universo espera que você esteja e não estará fazendo aquilo que o universo espera que você esteja fazendo. Então, acho que, nossa, a ética aqui é uma ética de bem viver, é uma ética de felicidade, é uma ética de vida boa, é uma ética adequada, mas é sobretudo uma ética de harmonia, de harmonia com uma realidade que é muito maior do que a sua própria vida. Ou seja, não se trata de buscar em si mesmo todas as respostas, mas entender que muitas das respostas para Aristóteles se encontram na integração da sua vida com o resto, o que exige um certo conhecimento sobre você, e sobre o resto. Olá, eu sou Clóvis de Barros e venho aqui propor a você nos apoiar a manter vivos os nossos conteúdos de filosofia na internet. 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Não se trata, portanto, de um ideal abstrato, mas sim de uma disposição da alma, de uma arquitetura da alma que te permite, na hora de agir, na hora de existir, na hora de viver, fazê-lo com altos índices de qualidade, de perfeição, e com isso, de certo modo, viver bem é viver com excelência, digamos assim, viver com perfeição, viver fazendo bem tudo aquilo que você faz. Bom, então acho que resta-nos agora uma investigação: como é que eu chego lá? E no final desse episódio eu observo que para Aristóteles a vida virtuosa ela é conseguida através do hábito, ou seja, o indivíduo virtuoso é o indivíduo que tem o hábito de fazer bem aquilo o que faz. E essa ideia é uma ideia que tem que ser destacada, repetida, porque ela é central no pensamento aristotélico. É mais ou menos assim: se você quiser fazer bem o que faz, pois tenha o hábito de fazer bem isso que você faz. Ou seja, você não deve contar com o o excepcional, com o episódico, com o impulso momentâneo, com uma emoção passageira, com um espasmo de inspiração para poder viver bem. Não, não, você deve entender que esse viver bem de Aristóteles, esse viver virtuoso de Aristóteles, ele é habitual. Ou seja, é uma questão habitual, é uma questão habitual, não é episódico, não é um espasmo, não é um instante de inspiração, é um hábito. Ora, em que consiste essa ideia de hábito? Porque se nós não invadirmos essa noção de hábito, não vamos tirar de Aristóteles tudo que Aristóteles pode nos oferecer. Normalmente, as pessoas relacionam as grandes realizações humanas a momentos de excepcional inspiração, pois não é o que Aristóteles pensa. Aristóteles pensa que quando estamos falando de atitude para uma vida boa, é preciso que isso seja habitual. Ora, em que consiste essa ideia de hábito? É o que nós trataremos no nosso próximo episódio. É o hábito que nos permitirá uma vida plenamente em harmonia com o universo. Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes. Bem, vamos aqui à pergunta do nosso episódio e nós vamos dar a palavra ao nosso Querido ouvinte, espectador, Ravi Henrique: Professor, por favor comente mais sobre a relação de Platão e Aristóteles. Bem, se for a relação pessoal, era uma relação inicialmente de professor e aluno, depois se tornou uma relação entre colegas. Se for em relação ao pensamento, é preciso lembrar que embora Aristóteles fosse aluno de Platão, ele tinha um pensamento próprio e um pensamento próprio bastante distinto do pensamento de Platão. Ora, em que medida esse pensamento é distinto? Em muitos setores, praticamente todos, mas há uma ideia fundamental que está por trás de todas as outras distinções. E essa ideia fundamental é a diferença da relação ou da importância que damos ao mundo percebido, ao mundo percebido pelos sentidos. Enquanto para Platão o mundo percebido pelos sentidos é representado pela sombra, algo que merece de nós um olhar desconfiado, algo que pode nos distanciar da verdade, algo que nos impede de ver a verdade, algo que nos obnubila e nos aliena e nos impede de uma vida do espírito mais rica. Aristóteles, diversamente, entende que a observação sensorial da realidade, a observação empírica da realidade é fundamental e é condição para o conhecimento que possamos ter dessa mesma realidade. Então, veja, enquanto Aristóteles era filho de cientista, filho de médico, e que foi acostumado a dar à observação do mundo grande importância, Platão era um grande admirador da geometria, das abstrações, e portanto essa diferença de origem e de formação é decisiva para essa nuance importante da concepção filosófica de um e de outro. Mas a conversa aqui pode ir longe e atravessa todos os segmentos da filosofia. O que Platão entende por política e o que Aristóteles entende por política? O que Platão entende por ética e o que Aristóteles entende por ética? O que Platão entende por conhecimento e o que Aristóteles entende por conhecimento? O que Platão entende é— por arte e importância da arte ou a relação da arte com filosofia e o que Aristóteles entende por isso? Enfim... Haverá em todos os segmentos da filosofia um distanciamento, uma autonomia filosófica de Aristóteles em relação a Platão que precisa ser considerada, apesar de terem convivido e frequentado o mesmo lugar e constituído, digamos, a mesma instituição de ensino, mas pensavam de maneira muito diferente, ok? Obrigado pela excelente pergunta, Ravi. Se você gostou, você ouve de novo. Se você gostou muito demais da conta, aí você chama alguém para ouvir também. Obrigado, Advbox, por ter patrocinado este episódio. Valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. 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