Inédita Pamonha 319 - Reflexão sobre o real
Clóvis de Barros encerra a série sobre o pensamento cristão fazendo um paralelo entre a parábola da figueira e o entendimento sobre o real em pensadores clássicos.
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- Parábola da figueira e o realRelação entre o visível e o invisível · O broto como anúncio do verão · Interpretação e hermenêutica · Logos natural e cegueira semiótica · Platão e o mundo sensível · Potência e ato em Aristóteles · O real como inacabado · Dinamismo e expectativa humana · Imediatismo contemporâneo vs. amadurecimento espiritual · O Reino de Deus como prenúncio
- Filosofia e PensamentoParábola da figueira · Pensadores clássicos · Heráclito e o logos · Platão e o mito da caverna · Aristóteles e a potência/ato · Agostinho e a temporalidade humana
- Virtudes em AristótelesPróximo tema do podcast
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Este episódio é o último episódio dedicado ao pensamento de Jesus. Hoje terminaremos a parábola da figueira. Então você vem comigo, não me abandona não. A partir de quinta-feira que vem começamos as virtudes em Aristóteles.
Vamos retomar então a parábola da figueira juntos e aí com certeza faremos as reflexões de filosofia que nos são habituais. O texto dizia mais ou menos o seguinte, aprendei pois da figueira a sua parábola, quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que o verão está próximo.
A parábola, como nós dissemos no nosso episódio anterior, cuida da relação entre o visível e o ainda não visível. Cuida, portanto, da relação entre o visível e o invisível. O broto, o broto da figueira ainda não é o verão. O verão ainda, na verdade, não chegou. Apesar disso, o broto anuncia a chegada do verão.
Anuncia, portanto, uma realidade que ainda não é. Anuncia uma presença que ainda não é presente. O pequeno broto parece conter uma indicação, como se fosse mesmo uma promessa.
E assim aprendemos que o mundo pode nos indicar, pode nos sugerir alguma coisa para além da realidade que percebemos. Ouvisse essa parábola seja das mais filosóficas de todas as parábolas de Jesus.
E isso porque ela não cuida só de uma questão existencial, não cuida só de uma questão moral, mas ela se pretende ontológica, ela se pretende discutir o real. Ela se pretende também discutir o que o real significa.
Então, no fundo, a parábola discute como o humano pode identificar o sentido desse real percebido. Figuera, portanto, é um signo.
E o signo é sempre algo material, perceptível, que remete a algo material, não percebido. O broto da figueira não é o verão.
mas anuncia o verão. Temos aqui, portanto, uma constatação da experiência perceptiva do humano. Vivemos o tempo inteiro banhado em signos.
Nunca, portanto, apreendemos completa e imediatamente a totalidade do real percebido. O que temos é o real percebido mais indícios. Poderíamos, então, dizer que se trata de uma parábola de interpretação. Uma parábola hermenêutica. Jesus sugere que o universo indica, o universo comunica.
E isso, claro, nos aproxima da sabedoria grega. Heráclito, por exemplo, sugere que a maioria dos humanos parece viver adormecida, incapaz de compreender o logos.
O logos que está escondido no trânsito, no fluxo, na mudança do real. A figueira e o seu broto são precisamente o logos natural.
A natureza revela silenciosamente o que está por vir. O problema, portanto, não é a ausência de sinais, mas é a incapacidade humana de significá-los. A incapacidade humana que é uma cegueira semiótica. Da mesma forma, em Platão, sabemos bem, o mundo sensível nunca é...
a matéria bruta o mundo sensível sempre aponta para algo além de si mesmo veja por exemplo no mito da caverna a sombra percebida é sombra e toda sombra
pela sua própria natureza é indicativa de uma outra realidade que lhe dá causa. Não há sombra por si mesma, não há sombra em si mesma, todo sombreamento...
pressupõe outra coisa além da própria sombra, aquilo que a projeta. Que interessante, porque da mesma maneira que a sombra aponta para outra coisa além dela, o bruto da figueira é...
Realidade percebida é realidade visível que participa de um ordenamento do inteligível. O bruto remete ao verão, como a sombra remete ao objeto que a projeta, como a aparência remete à essência, como...
O sensível remete ao inteligível. Há, portanto, sempre uma transcendência do sensível. Então, veja que interessante.
Heráclito aponta para o adormecimento humano diante do sensível, Platão aponta para um sensível que necessariamente nos conduz ao mundo inteligível.
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Em Aristóteles...
A imagem da figueira é construída em cima de uma potência. No final das contas, estamos diante do binômio potência e ato. A potência é uma possibilidade, o ato atualiza essa possibilidade. O verão já está presente no broto como uma espécie de possibilidade. O broto?
Não é ele mesmo o verão, mas o verão ele mesmo já está presente no broto. O broto não é, assim, aleatório. Ele contém uma direção interna, ele contém uma finalidade. O ser tende ao seu cumprimento, a potência tende à sua atualização.
à sua plena realização. Desse modo, nós poderíamos dizer que o real nunca está concluído. O real parece sempre inacabado. O mundo não é aquilo que você vê, mas é também, junto com o que você vê, aquilo que ele poderia vir a ser.
Ora, depois de Heráclito, Platão e Aristóteles, Jesus também parece sugerir que a história possui um movimento oculto. Nesse sentido, o reino de Deus não aparece pronto. Há um dinamismo, um dinamismo que destrói, de um lado...
A ilusão de que nada muda. E de outro lado, a ilusão de que tudo é, tudo se esgota no imediato. De que exista uma plenitude instantânea. A figueira parece ensinar uma mudança lenta do ser. Agostinho sempre percebeu que o humano é temporal.
Vive projetado para frente. A alma humana é sempre marcada por essa expectativa, que é antes de mais nada uma espera, a espera de que o broto que indica o verão aponte para esse verão. De modo que nós nunca habitamos exaustivamente só o presente.
Aparentemente estamos sempre entre aquilo que acabou de acontecer e aquilo que está por acontecer. É por isso que o broto da figueira torna-se signo. Um signo que caminha de braços dados com uma expectativa, que por sua vez também estende a mão a uma esperança. Um pequeno...
Fragmento do presente que carrega uma indicação futura. A parábola também, no final, parece questionar a nossa relação com o mundo de hoje.
O homem contemporâneo quer imediatidade. O homem contemporâneo espera por instantaneidade. O homem contemporâneo quer o verão já, sem inverno e sem primavera. O homem contemporâneo quer o fruto já maduro.
O homem contemporâneo quer o frango já desossado, pois Jesus parece alertar para uma espiritualidade que amadurece, que chega aos poucos. E naturalmente isso só pode estar se referindo ao reino de Deus.
porque é disso que ele sempre tratou. O broto da figueira aponta para o verão, assim como muito das nossas experiências é prenúncio de um reino de Deus que ainda não está ao nosso alcance.
O broto, portanto, é um desvelamento temporário e parcial. O verão ainda está oculto, mas começa a dar o ar da sua graça justamente por intermédio daquele pequeno broto. O reino de Deus também nos é inacessível, mas começa a dar o ar da sua graça.
por intermédio de muitos signos que estão aí para nos alertar, para nos indicar, para nos fazer ver a chegada do que está por vir. Ora, meus amigos, aparentemente os grandes acontecimentos da vida são assim. Aparecem, antes de mais nada, como brutos.
E é claro que a nossa entrada no reino de Deus é, dentre esses grandes acontecimentos da vida, certamente o maior.
Pois muito bem, eu espero que tenham gostado, essa foi a nossa pamonha de hoje. Patrocínio eterno da Eastman Chemical do Brasil e da Insider, a roupa que te serve bem. Eu espero que você tenha gostado demais de todos esses episódios sobre as parábolas de Jesus.
Nós vamos com certeza transformar isso aqui num livro e você terá acesso a isso tudo de forma escrita. Mas você também tem a possibilidade de reouvir tudo isso aqui, tal como você ouviu a cada quinta-feira em forma de podcast, em forma desse nosso podcast.
que procurou dar sustentação a esses textos que Jesus apresentou nos seus evangelhos. Eu espero que você tenha curtido muito, que você possa até reouvir o que acabou de ouvir. Por quê? Porque quinta-feira que vem, o pensador muda, o filósofo é Aristóteles e o assunto são as virtudes. Fica bem, um beijo grande e valeu!
Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clóvisdebarros.com.br E siga o professor nas redes sociais.
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