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Inédita Pamonha 336 - Viver em arte

01 de outubro de 202620min
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Participantes neste episódio1
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
Assuntos6
  • A implementação da virtude na vida e a conversão de potência em atoatualizar uma possibilidade·converter potência em ato·importância da virtude ser possível
  • O hábito como modo de transição para a vida virtuosapassar da imaginação para a prática·agir virtuosamente sempre·mais fácil ser virtuoso o tempo inteiro
  • A insuficiência da lucidez intelectiva para uma vida virtuosater clareza não torna fiel·lucidez não garante vida virtuosa·canalhice só aumenta
  • Viver em arte como dar o melhor de si habitualmentedar o melhor de si regularmente·disposição inicial de dar o melhor·não é todo dia que tem pão quente
  • A possibilidade de virtude sem o hábito em atividades esporádicasser virtuoso em práticas regulares·motorista de Uber virtuoso·motorista domingueiro
  • A virtude da dedicação episódica em atividades não habituaisfazer lasanha especial·churrasco em Serra Negra·preparar entreveiro com zelo
Transcrição3 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
CDClóvis de Barros

Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar! Este é o meu, o seu, o nosso Inédita pamonha, um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Eastman Chemical do nosso amigo Gerson Mela, de quem a gente tem saudade, mas a vida do dia a dia acaba dificultando os encontros. Vamos retomar Aristóteles, vamos falar das virtudes e, claro, vamos falar da implementação dessas virtudes.

E aí Aristóteles diz coisas muito interessantes. Quando você pensa em implementar na vida uma virtude, no final das contas, o que você tá propondo é mesmo atualizar uma possibilidade, é mesmo realizar aquilo que antes era apenas da esfera do possível, é converter uma potência em ato. E claro, você deve supor que isso exige que a potência esteja lá, né? Então é preciso lembrar que Aristóteles dá enorme importância ao fato da virtude ser possível, né?

Eu repito sempre o mesmo exemplo: um ovo de galinha potencialmente pode ou não ter um pinto dentro. Então nós vamos atualizar, nós vamos ver, mas a possibilidade existe. Agora, um ovo de galinha não vai ter um dinossauro dentro, então essa possibilidade Não existe. Assim como uma mangueira pode dar manga doce, pode, a possibilidade existe, mas uma mangueira não vai dar goiaba, essa possibilidade não existe. Com a virtude é assim, você pode até tornar vida concreta uma virtude, possibilidade existe, desde que essa virtude exista em você enquanto potência.

Caso contrário, não. Então, pensando em virtudes assim que não são da esfera moral, né? Vamos converter o professor Clóvis num grande escultor. Não rola, não perca seu tempo. Vamos converter o professor Clóvis num grande desenhista. Não perca seu tempo. Vamos converter o professor Clóvis num grande matemático, não perca seu tempo. Vamos converter o professor Clóvis num grande jogador de golfe, não perca seu tempo. Então, veja, é preciso, para não perder o seu tempo, ter uma noção muito clara do que há de potência, do que há de possibilidade E aí sim, essa potência poderá ou não ser convertida em virtude, né?

Então acho que isso aí precisa ser retomado, precisa ser dito, né? Precisa ser explicado direitinho. Porque senão você fica sem entender o mais fundamental. Em segundo lugar, é preciso lembrar que ter consciência dessas noções, segundo Aristóteles, não é suficiente para implementá-las na vida. Aristóteles é um cara que tem os pés muito no chão, quer dizer, É o fato de você ter uma clareza sobre a definição de fidelidade, por exemplo, não torna você uma pessoa fiel.

Então isso é fundamental. Talvez possa até ajudar, mas não é nem de longe suficiente. O fato de você ter uma clareza sobre o que é ser honesto não é suficiente para tornar você uma pessoa honesta. Então, o fato de você ter lucidez intelectiva, isso não garante uma vida virtuosa. Senão bastaria multiplicar os cursos, os espaços de aconselhamento, E a Terra seria um paraíso. Mas os ensinamentos estão aí, os dicionários estão aí, as definições estão aí, e por assim dizer, a canalhice só aumenta, né?

Então é evidente que existe um momento de transição, um momento chave de transição entre Há a reflexão, a imaginação, a cogitação, a intelecção e a prática. Aristóteles, ele tinha uma convicção firme: o modo de você passar do que você imagina como sendo virtuoso para a vida virtuosa, esse modo é o modo do hábito. Nós dissemos isso anteriormente, mas aqui nós estamos tocando o dedo na ferida. Quer dizer, para Aristóteles será muito menos provável você agir virtuosamente de vez em quando do que agir virtuosamente sempre.

Veja, não só que é melhor você agir virtuosamente sempre, claro que é melhor, né, do que só de vez em quando, mas é mais do que isso. Além de ser melhor, é mais provável que isso aconteça. Eu me atrevo a dizer, é mais fácil, é mais cômodo, e por isso mais provável que você seja virtuoso o tempo inteiro do que ser virtuoso só de vez em quando. É mais provável e mais fácil que você seja honesto o tempo inteiro do que você ser honesto só de vez em quando.

É mais fácil e provável que você seja dedicado aos exercícios físicos o tempo inteiro do que só de vez em quando. É mais fácil e provável que você seja estudioso o tempo inteiro do que você seja estudioso só de vez em quando. É mais fácil e provável que você seja carinhoso e amoroso o tempo inteiro do que só de vez em quando. Tá claro isso? Então, claro, é dar o melhor de si regularmente Habitualmente é o que nos torna virtuosos e é o que muita gente poderia denominar viver em arte.

Viver em arte é tentar viver do modo mais pungente possível, com habitualidade, com regularidade. O explicador pode dar o melhor de si habitualmente. Regularmente, todo dia. Claro que não é todo dia que tem pão quente, claro que haverá dias melhores do que outros, mas a disposição inicial é de dar o melhor de si sempre.

CDClóvis de Barros

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CDClóvis de Barros

É interessante porque quando você pensa que é mais fácil e provável fazer sempre do que fazer de vez em quando, isso nos leva a uma questão prática. Nesse caso, você só será virtuoso em práticas que forem regulares na sua vida. Isso é uma pergunta a fazer a Aristóteles, né? Por quê? Porque o cara que é motorista de Uber, ele dirige todo dia e muito, e ele poderá se tornar virtuoso, porque ele poderá ter potência para ser um bom motorista e poderá converter essa potência em ato através do hábito, e poderá ser um motorista virtuoso, um motorista excelente, um motorista nota 10.

De segunda a sábado no seu trabalho. Beleza. Agora eu pego o carro só de vez em quando. Tinha uma época que eu dirigia muito, mas agora já não é mais possível. Pego o carro só de vez em quando, quando a vista tá boa, etc., eu me sinto seguro. Eu tenho autorização para fazer isso, não é? Então eu faço de vez em quando. Muito bem. Tinha uma época que eu reclamava dos motoristas domingueiros, motorista de sábado e domingo, que é normalmente motorista lento, sem aguerrimento, sem reflexo, que para toda hora, que atrapalha o trânsito.

Que, né? E eu tenho a nítida impressão que eu me tornei um. Teve uma época que eu dizia que o carro tal era carro de tiozão, etc. E tenho a impressão, embora ainda não, não, eu não tenha o carro do tiozão, mas eu tenho o jeito do tiozão de dirigir. Dirijo só de vez em quando. Então a pergunta é essa, né? Será que eu preciso fazer todo dia uma coisa para que haja virtude? Porque é um problema da vida, não é não? Tanta e tanta coisa que a gente faz, faz pela primeira vez.

Tanta coisa que a gente faz, faz só de vez em quando. Eu diria que são poucas as atividades que a gente pode fazer todo dia, né? A gente é um exímio escovador de dente, tá aí alguma coisa que a gente tem que fazer todo dia. Se bobear, escovar o dente virtuosamente possa ser uma possibilidade muito concreta. Mas você vai fazer uma lasanha especial e se você tiver que fazer lasanha todo dia para que a lasanha saia boa para pessoa que você ama, nossa, é um problema, né?

Porque nem todo mundo tem, digamos, disponibilidade, tempo de se dedicar à gastronomia todo dia, né? Então seria interessante pensar na possibilidade de uma virtude sem o hábito. É claro que isso aqui eu tô pensando com você. Eu, é claro que sabemos o que Aristóteles pensa, né? Mas para que a gente possa sair um pouco e refletir sobre a nossa vida concreta, tantas e tantas coisas a gente faz só de vez em quando E seria bom que elas fossem bem feitas, mesmo que a gente faça só de vez em quando.

Poxa vida, vamos imaginar que eu queira oferecer um churrasco em Serra Negra para a minha família. Então algum leitor de Aristóteles dirá: é melhor nem começar porque como você não faz todo dia, como você não faz sempre, como não há habitualidade, então não haverá virtude e o churrasco será horroroso. Ah, eu penso que isso é muito limitante. Churrasco, não sei, mas eu fazia quando eu frequentava mais a cabana de Serra Negra, eu fazia um prato ali da região do Contestado chamado Entreveiro.

Aliás, o prato Entreveiro da região do Contestado faz todo sentido. É um prato que você faz numa panela que na verdade tem a sua origem naquele negócio de trem, sabe, que Não vem ao caso aqui, vai ser difícil de explicar, mas o arado, o arado que revolve a terra, ele durante muito tempo foi puxado por via, digamos, humana ou via animal, e o arado ele tinha uma espécie de umas rodelas seguras numa haste central chamada trem, e o arado ia revolvendo a terra por meio dessas rodelas grandes.

E essas rodelas, uma vez danificadas, uma vez retiradas do trem do arado, essas rodelas muitas foram usadas como panela, porque elas eram feitas de um ferro que distribuía muito calor. Então você joga aí um bico de Bunsen embaixo dela, distribui bem o calor. E eu fazia o entrevero, e o entrevero eu fazia ao meu modo. É um prato que leva pinhão, mas é um prato que você pode botar carnes de vários tipos. Então eu começava pondo lá no fundo pimentão, eu tirava o verde, eu trabalhava só com o amarelo e o vermelho.

Pimentão dava um colorido lá embaixo, ia coisando, depois a cebola, o alho, etc. Depois eu punha primeiro o frango, que é o que demora mais, depois eu punho o porco, depois eu punho a vaca. E aí eu ia, e no fim, depois eu ia pondo outros legumes, berinjela, cenoura, etc. E eu sempre gostei de um pouco de molho inglês, eu adoro molho inglês, então também punha e tal. E tal, temperava aquilo e bastante azeite de oliva também para, enfim.

E aí no final eu punha banana, que eu adoro banana, tudo com banana, faço do meu jeito, né. E depois eu punha o arroz cozido quentinho feito em outro lugar, eu punha para misturar com tudo isso aí e ficava assim um grande, um grande arroz, né. Com todas as carnes e legumes. E ó, mas por nada não, mas tá muito bom, né? Muito bom. Agora, não tinha habitualidade nenhuma nisso, sabe? Mas eu tenho para comigo que o fato de não haver essa habitualidade me permitia uma atenção, um zelo, uma dedicação, um foco uma, que muitas vezes era compensatório, sabe?

É claro que um cozinheiro profissional faria isso aí de olho fechado, mas nós estamos falando da sua vida, não da dele. E se só houver virtude havendo hábito, eu não teria conseguido fazer os entreveiros que eu fiz e que deixaram tanta saudade junto àqueles que degustaram, e era em grande quantidade. Cada um, depois que todo mundo comia, cada um levava uma marmita para casa generosa. E não sei por que aquilo me deixava feliz. Eu adorava comer, a maioria das pessoas gostava muito de comer, não tinha hábito nenhum.

Mas havia uma virtude que não era habitual, era uma virtude de dedicação episódica, focada numa prática quase que inédita, mas que também podia ser excelente, podia ser boa de comer, podia trazer resultados felizes. Por aqui eu encerro o meu Inédita Pamonha de hoje, um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Se você gostou, ouve de novo. Se você gostou muito, lembra da pessoa amada, reflita com ela, pense com ela. Temos todo o direito de pensar por conta própria.

Pensar por conta própria nunca foi proibido. Um beijo grande, valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.

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