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#PartiuPensar 235 - Estoicismo: A verdadeira liberdade

29 de setembro de 202620min
0:00 / 20:01

Clóvis de Barros fala sobre a liberdade, em Epicteto, como a capacidade de ponderar a realidade e escolher como agir diante dela.

Assista ao episódio em vídeo no nosso canal no Youtube! https://youtu.be/kQXohpwnxIY

Patrocínio: ADVBOX

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Produção: Marcella Erédia

Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou

Participantes neste episódio2
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
M

Marcella Erédia

Co-host
Assuntos5
  • A liberdade estoica como autonomia da alma diante das adversidadesninguém pode aprisionar uma alma livre·liberdade que começa e termina em nós·mundo exterior importa, mas a alma é livre·controle da mente e interpretação·capacidade de julgar e escolher
  • A distinção entre o que depende e o que não depende de nóstiranos controlam o que não depende·não controlamos corpo, reputação, bens·não controlamos envelhecimento, doenças, morte·controlamos julgar, avaliar, escolher, consentir
  • A proairesis como faculdade da escolha moral e liberdade interiorautonomia deliberativa·decidir o que pensar a respeito·conservar soberania diante do temor
  • A liberdade da alma diante de situações externas e internaso que fazer com a realidade imposta·não dar asas ao temor ou ciúme·sair do ciúme para a confiança
  • Análise dos casais mitológicos e ficcionais sob a ótica do amorOrfeu e Eurídice·Ulisses e Penélope·Romeu e Julieta como ideal moderno
Transcrição6 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
CDClóvis de Barros

Partiu, partiu, partiu pensar, partiu pensar.

MEMarcella Erédia

Por instantes de plenitude, potência e luz.

CDClóvis de Barros

Senhoras e senhores, estamos no ar! Esse é o meu, o seu, o nosso hashtag Partiu Pensar. Um oferecimento da ADV Box. Nós estamos sobrevoando a história do pensamento, destacando suas principais ideias, e estamos navegando nos mares do estoicismo, tão na moda e tão apreciado por muita gente. Estamos tratando desde o episódio anterior, da questão da liberdade e aquela famosa frase: ninguém pode aprisionar uma alma livre. Se você não prestou atenção, que eu sei que você não prestou atenção, eu repito a frase: ninguém pode aprisionar uma alma livre.

Ah, mas e quando eu ponho na cadeia? A alma pode continuar livre. Aí, quando eu escravizo a alma, de continuar livre. Essa é a ideia. Vamos continuar tratando desse assunto, que ele é central para nós. Qual é então a proposta? A liberdade, ela, a verdadeira liberdade, né, a liberdade que importa aos estoicos é a liberdade que começa e termina dentro de nós. E aí aqueles que me aplaudiram ali no cadeião de Pinheiros, que eu mencionei na aula passada, eles poderão conservar a alma livre, a alma livre, quem sabe até mais livre do que a minha própria.

Eu que pude sair dali caminhando, tendo a porta aberta e gentilmente conduzido até a rua, eu que fui livre para ir embora dali, eu talvez tenha a alma mais acorrentada do que aqueles que lá tiveram que permanecer. Agora, é preciso ter cuidado aqui. Isso não significa que para os estoicos o mundo exterior não importe. Isso seria uma caricatura, um absurdo. É claro, se alguém está injustamente preso existe injustiça. Se alguém está escravizado, existe escravidão, não é?

Se alguém está massacrado, oprimido, existe opressão. Então, que fique claro, o mundo exterior importa sim, importa e importa muito. Porém, os estoicos aqui estão a falar de outra coisa. Os estoicos aqui estão falando da liberdade da alma, né? E a liberdade da alma não transforma a injustiça da prisão injusta em ilusão. O que estamos dizendo é outra coisa. Mesmo quando alguém consegue determinar aquilo que acontece comigo, mesmo quando alguém consegue controlar a minha vida, ainda existe uma pergunta: essa pessoa conseguirá controlar aquilo que eu faço interiormente a partir do que está acontecendo?

A pessoa pode controlar a realidade à minha volta, obrigando-me, por exemplo, a ficar num cativeiro, mas a pessoa não consegue controlar o que na minha mente, eu faço com aquilo que o mundo me oferece, com aquilo que o mundo me proporciona. A pessoa não consegue controlar o meu pensamento, a pessoa não consegue controlar a minha interpretação, a pessoa não consegue controlar o meu juízo, a minha avaliação. A pessoa pode obrigar meu corpo a permanecer num lugar, mas poderá me obrigar a considerar justo?

Aquilo que considero injusto. Pessoa pode tirar meu dinheiro, mas ela não pode me impedir de relativizar a importância do dinheiro na minha vida. A pessoa pode me insultar, mas ela não pode me obrigar a aceitar que aquele insulto me defina. A pessoa, entendeu? A pessoa pode me xingar, mas ela não pode me obrigar que eu aceite o xingamento como definidor de mim mesmo. A pessoa pode retirar o meu cargo, mas ela não pode me obrigar a aceitar que sem aquele cargo a vida para mim não valha nada.

Percebe que aqui nós estamos propondo uma liberdade, uma liberdade que não ignora a realidade que se apresenta, que não desdenha da realidade percebida, mas que conserva uma autonomia na gestão das interpretações, na gestão dos juízos, na gestão das avaliações, na gestão dos valores. Podemos então retomar uma ideia já sobejamente debatida aqui. Algumas coisas dependem de nós, outras coisas não dependem de nós. E os nossos tiranos, os nossos algozes, os nossos escravizadores, eles controlam aquilo que não depende de nós, mas eles jamais controlarão aquilo que depende de nós.

Não controlamos completamente o nosso corpo, tanto é assim que podemos nos deixar encarcerar. Não controlamos completamente a nossa reputação, aliás, não controlamos a nossa reputação quase que em nada. Não controlamos completamente os nossos bens porque alguém poderá solapá-los. Roubá-los, confiscá-los. Não controlamos o que pensam de nós, não controlamos o mercado internacional, não controlamos o preço das commodities, não controlamos a geopolítica, não controlamos os acontecimentos políticos, não controlamos o envelhecimento, não controlamos as doenças e não controlamos a morte.

Mas existe alguma coisa que para Epicteto Toca nos controlar, é da nossa esfera, é a nossa capacidade de julgar, de avaliar, de escolher, de consentir e de recusar interiormente.

CDClóvis de Barros

Olá, eu sou Clóvis de Barros e venho aqui propor a você nos apoiar a manter vivos os nossos conteúdos de filosofia na internet. Para você participar com uma singela colaboração, você deve entrar em apoia.se/ineditapamonha, repetindo, apoia.se/ineditapamonha. Você pode nos ajudar demais a honrar os nossos compromissos, pagar nossos editores, as nossas plataformas e manter nosso conteúdo vivo para que ele continue impactando as pessoas como tem feito.

CDClóvis de Barros

Que fique claro, hein, presta atenção, não é que essa liberdade aconteça para todo mundo o tempo inteiro. Não senhor, haverá aquele que não tenha essa liberdade de julgar, de avaliar, de ponderar, de escolher, de consentir, mas pode ter. Pode ter. Haverá quem a tenha vendido, mas pode ter. Haverá quem tenha se deixado alienar, mas pode ter. E aí alguém poderá tentar me convencer que a melhor coisa do mundo é comprar um apartamento em Miami, mas ele não pode me tirar a possibilidade de juízo, de avaliação, de ponderação, de atribuição de valor àquilo que ele propõe.

A constatação de que aquilo é, para a minha vida, uma estupidez. E essa possibilidade que temos de conservar a autonomia deliberativa é o que os estoicos chamam de proairesis. Difícil, né? Tem até um H no meio, fica P-R-O-H-A-I-R-E-S. Proairese. A palavra é difícil, mas a ideia é mais ou menos simples: é a faculdade da escolha moral, que por ser uma escolha moral é livre. Aquele espaço interior que, se você souber cuidar, você mantém a liberdade onde quer que se encontre.

Alguma coisa do tipo: olha, Isso aconteceu comigo, mas ainda assim cabe a mim decidir o que que eu vou pensar a respeito. Cabe a mim decidir que pessoa eu serei diante dessa realidade. Cabe a mim, cabe a mim. Você me bota na cadeia, me põe na cadeia. Agora, o que significa viver na cadeia, eu, eu elucubro, eu elaboro, eu penso. Eu continuarei soberano dos meus juízos. Talvez seja uma das formulações mais bonitas da liberdade estoica: nada acontecerá comigo contra a minha vontade, acontece fora de mim.

E é por isso que isso quer dizer: mesmo quando acontecer alguma coisa que eu não escolhi, ainda existe uma avaliação, uma resposta, uma ponderação que a mim me pertence. Você tá andando na calçada e alguém vai entrar na garagem e um pouco desconsidera a sua condição de pedestre e avança com o carro e ainda xinga. Evidentemente que nada disso você escolheu. Agora, a partir daqui começa um outro trabalho. É o que é que você vai fazer com esse pacote?

O que é que você vai fazer com essa realidade que se impôs? Você pode xingar, gritar, passar os próximos 30 minutos xingando. Você pode contar para alguém: você não sabe o que me aconteceu, e voltar a se irritar. Talvez até o cara que entrou na calçada já tenha se esquecido e você continua indignado, e você continua carregando aquilo na cabeça, sendo que aquela realidade já se dissolveu, aquela realidade já foi substituída por outra realidade, e você continua com aquilo na cabeça.

Vou dar mais um exemplo bacana: uma pessoa ama a outra Uma pessoa ama a outra e quer muito, quer muito estar com essa outra. Esta pessoa tem todos os motivos para acreditar, dados de realidade para acreditar que esta que ela ama também a ama. Até hoje, tudo o que foi dito foi honrado, cumprido. Mas aí passa pela cabeça da primeira que a segunda venha a não a querer mais. É interessante, perceba, é interessante porque invertemos um pouco o problema.

Agora não é diante de uma realidade que eu conservo autonomia, mas é diante de uma imaginação, é diante de uma suposição, é diante de um temor. E aí eu poderei dar asas ao temor e passar o dia devastado. O outro não me quer mais, o outro não me quer mais, o outro deixará de me querer. Ou então olhar para aquilo desarticular, desconstruir, perceber que claro que ele me quer, afinal de contas agora mesmo ele acabou de me chamar para que eu possa acompanhá-lo, eu e mais ninguém.

Então deixa de pensar bobagem. E aí você Diante daquele temor, diante daquela imaginação temerária, você conservou soberania, autonomia. Não vai me pegar, não vou dar asas ao temor, não vou dar sopa para o meu ciúme. Até porque a minha sopa é muito boa para dar para ciúme. Eu vou esperar assim o meu amado Eu vou esperar a minha amada e aí eu vou lhe oferecer a melhor sopa. E aí terei mais um motivo para ter certeza que ele ou ela serão meus para sempre, porque a minha sopa, essa, essa ninguém resiste.

E você vê que você saiu de um cenário de ter acordado varado de ciúme para um cenário de confiança que foi proporcionado pela sua liberdade de alma. Por quê? Porque funciona mesmo assim. Ninguém pode aprisionar uma alma livre. Mas ninguém pode aprisionar uma alma livre. Ninguém pode aprisionar uma alma livre. E nem toda alma é livre. Uma alma pode ser livre, mas não o é necessariamente. Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes.

Respondendo a sua pergunta, caso você queira fazer uma, sirva-se do QR code. Caso você queira rever um episódio, sirva-se da nossa playlist. E o Thomas Rutinski, me perdoe se eu não acertei a pronúncia, Quando eu vejo muita consoante junta, e aqui eu encontrei 5 juntas, aí complica. Mas Thomas Rutinski, que é nosso apoiador: Professor Clóvis, 3 grandes casais da mitologia e da ficção: Orfeu e Eurídice, Ulisses e Penélope, Romeu e Julieta.

Sob a ótica da intensidade da vida e da entrega absoluta, na sua opinião, qual desses casais deu a maior prova de amor? Olha, lembrando que eu escrevi um livro, O Amor Não Se Prova, mas de qualquer maneira eu vou tentar responder. É a coragem de descer ao inferno, a sabedoria de esperar e recusar a imortalidade, ou a decisão radical de não aceitar a existência sem o outro? Ah, na lata, na lata! Porque o tal do Ulisses, ele tá lá com a Penélope, ficou lá 7 anos, queria voltar, mas tinha um lance de vida boa para ele.

Né? Também no caso de Orfeu e Eurídice, a mesma coisa, né? Quer dizer, sempre com os gregos a reflexão é sobre a vida boa para si. É por isso que é Romeu e Julieta, na minha opinião, moderno que sou, na verdade contemporâneo que sou, o que acontece com Romeu e Julieta me é muito mais, sim, compreensível na mão e muito mais parecido, né, com o ideal de amor e de manifestações amorosas que são familiares à minha vida. Beleza? É uma pergunta, eu respondi aqui, é o que eu acho, né?

E naturalmente, se alguém discordar, eu respeitarei completamente, como de resto respeito toda discordância, mas aqui em especial. Obrigado pela pergunta, muito obrigado pelo seu apoio, Thomas. Eu espero que você tenha adorado esse belíssimo episódio. Se você gostou, ouve de novo. Agora, se você gostou muito, Pega esse alguém de quem você tem ciúme, prepara a sua melhor sopa e assista junto com ele, agarrado e nu. Porque estoicismo é assim, a gente estuda sempre nu. Um beijo grande, até a próxima, valeu!

MEMarcella Erédia

Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, Acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.

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