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#PartiuPensar 234 - Estoicismo: A prisão da alma

22 de setembro de 202617min
0:00 / 17:31

Clóvis de Barros fala sobre como Epicteto compreendia a liberdade de pensar e de ser.

Assista ao episódio em vídeo no nosso canal no Youtube! https://youtu.be/8sVBrHyjeqc

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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou

Participantes neste episódio2
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
M

Murilo Lourenço

Co-host
Assuntos6
  • A liberdade estoica como estado da alma, independente das prisões físicasEpicteto e a reflexão sobre liberdade·Ninguém pode prender uma alma livre·Corpo impedido, alma livre·Liberdade física versus liberdade da alma
  • A ilusão da liberdade em um mundo de constrangimentos sociais e desejosNão ser livre mesmo sem correntes·Sartre e a liberdade na prisão·Medo do julgamento alheio·Acorrentado pelo desejo de reconhecimento
  • A vinculação da felicidade a fatores externos e a perda da liberdadeAbrir mão da liberdade por dinheiro e glória·Felicidade vinculada a seguidores·Escravo de um tirano difuso·Insegurança e incerteza da vida
  • A vida de Epicteto como escravo e sua compreensão da liberdadeEpicteto, um dos tenores do estoicismo·Epicteto começou a vida escravo·Significado do nome Epicteto·Epicteto pertenceu a Epafrodito
  • A escravidão moderna pelo desejo de validação e acúmulo nas redes sociaisDizer o que traga likes·Escravo da lógica de seguidores·Medo do cancelamento·Dependência do celular
  • A importância de refletir sobre a vida para viver plenamenteNão viver de qualquer jeito·Viver experiências e pensar sobre elas·Melhorar a percepção da própria vida·Aprendizado sem fim
Transcrição6 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
CDClóvis de Barros

Partiu, partiu, partiu pensar, partiu pensar!

MLMurilo Lourenço

Por instantes de plenitude, potência e luz.

CDClóvis de Barros

Senhoras e senhores, estamos no ar! Esse é o nosso #PartiuPensar. Nosso encontro semanal de toda terça-feira para passar sobre as ideias da filosofia, sobre as ideias mais legais da história do pensamento humano. E nós estamos no estoicismo. Estamos dando a palavra aos grandes pensadores estoicos. E tal como nos dois últimos episódios que nós tratamos da questão do sofrimento decorrente da imaginação, vamos começar hoje a tratar um tema que também é comum aos estoicos, que é a reflexão sobre a liberdade.

É muito interessante porque É uma reflexão, imagina, levada a cabo por um escravo, né, e também por um imperador. E vamos combinar que em termos de liberdade eles estão em posição muito diferente dentro da sociedade, né, mas eles se interessam ambos pelo mesmo tema. E uma frase muito conhecida dos estoicos sobre o tema é essa: Ninguém pode prender uma alma livre. Eita! E aí, ninguém pode prender uma alma livre, como assim, né?

Ninguém pode prender, né, uma alma livre. É muito interessante porque a primeira coisa, quando uma pessoa é presa, a primeira ideia que nos passa pela cabeça é que quando uma pessoa é presa, junto, né, essa pessoa é presa com corpo e alma, é presa com corpo e alma. Então a pessoa tava livre e aí ela é presa com corpo e alma. E aí vem a frase: ninguém pode prender uma alma livre. Então como é que fica, né? Nós temos que imaginar a possibilidade de um corpo impedido de deslocamento, impedido de fazer o que quer, impedido de sair da cela, mas uma alma que continua livre ainda que o corpo não esteja.

Então cabe a pergunta: será mesmo possível que uma alma conserve a sua liberdade ainda que associada a um corpo que não é livre? Essa é a pergunta. Ninguém pode prender uma alma livre, né? Então, a história humana tá cheia de pessoas que foram presas, mas a nossa atualidade, então, eu, a Pastoral Carcerária me convidou para dar uma palestra no Cadeião de Pinheiros aqui em São Paulo e tal, e eu conheci muitas pessoas que naquele instante estavam presas, né?

Pessoas que me trataram maravilhosamente, pessoas que foram carinhosas comigo, pessoas que, que apreciaram o que eu falei, que gostavam do meu trabalho e que estavam ali impedidas de circular, impedidas de sair dali, impedidas de deixar a cela, impedidas em suma de, né, estavam presas, né. Pessoas também ao longo da história que foram escravizadas. E se você imaginar que isso é coisa da história, sabemos muito bem que não é verdade, né.

Sabemos que o trabalho escravo pertence à nossa atualidade, né. Pessoas perseguidas, exiladas, pessoas torturadas, pessoas que perderam suas casas, seus bens, seus direitos. Claro que se você entender tudo isso a partir da ideia de liberdade física, a frase não faz o menor sentido. A frase não faz o menor sentido. Mas talvez então os estoicos estejam falando de outra liberdade. Não é a liberdade de ir e vir. E aí talvez pudéssemos dar a palavra a Epicteto.

Eu diria que mais do que dar a palavra a Epicteto é analisar um pouco da sua vida, né? Você imagina que Epicteto foi um dos três, um dos três tenores, né, do estoicismo. Ele viveu pouco depois de Jesus e Epicteto foi escravo. Imagine isso, uma das pessoas que mais profundamente pensou sobre a liberdade começou a sua vida escravo, começou ali a sua vida sem ser, digamos, juridicamente livre. Aliás, o próprio nome de Epicteto já é interessante, porque Epictetos em grego significa algo como adquirido, comprado, aquilo que foi obtido por alguém.

Epicteto já indica uma espécie de coisificação da pessoa humana através da sua escravidão. Epicteto pertenceu a um fulano chamado Epafrodito, que era da corte de Nero. Ele era patrimônio de Epafrodito. Portanto, é claro que quando Epicteto fala de liberdade, ele não está discutindo uma coisa que ele, como experiência de vida, ignora. Ele sabe muito bem do que ele tá falando pelo viés da falta de, né? E a pergunta que ele vai se fazer é: o que significa exatamente ser livre?

O que Epicteto no final tá tentando nos dizer é que é perfeitamente possível encontrar alguém sem correntes que não seja livre. E o que é mais interessante ainda, é perfeitamente possível encontrar um homem acorrentado que conserve alguma forma fundamental de liberdade. O próprio Sartre, filósofo do século 20, portanto contemporâneo, terá dito: nunca me senti tão livre quando estava preso, como quando estava preso. Então, claro, É, estamos falando da mesma coisa, né?

Então a provocação aqui é grande, porque você poderia imaginar que ser livre é ir para onde você quiser, ser livre é fazer o que você quer, ser livre é viajar para onde você quer viajar, ser livre é poder escolher para onde ir? Ser livre é poder escolher fazer o que quer? Ser livre é, bom, enfim, então na verdade você é livre quando ninguém te impede de fazer isso ou aquilo. Bom, os estoicos, eles não estão dizendo que a prisão civil, né, a prisão política, que é física, de ir e vir, seja irrelevante.

Claro que não é. É claro que ninguém vive bem quando está preso. É claro que isso tem consequências. É claro que isso é até decisivo na vida. Porém, talvez possamos imaginar que ninguém esteja te impedindo de sair de casa. Portanto, você tem a chave, a porta tá aberta, e a pergunta é: você é necessariamente livre nesse caso? A resposta mais imediata é: claro que sou, saio na hora que eu quiser. A resposta do estoico é: talvez não seja.

Talvez você não saia porque tenha medo do outro. Talvez você não saia porque tenha medo do julgamento que o outro faz de você. E aí então você tá com a porta aberta, você tem o direito de ir e vir, mas encontra-se de fato aprisionado. Suponhamos que ninguém esteja te constrangendo fisicamente a comprar isso ou aquilo, mas você sente a necessidade de comprar. Sente a necessidade de comprar porque você quer pertencer a um grupo onde todo mundo tem.

Você sente a necessidade de comprar porque algumas pessoas importantes para você já compraram. E aí então você compra. Você foi livre? Não, você está acorrentado, acorrentado pelo desejo de reconhecimento, acorrentado pelo desejo de reconhecimento, acorrentado pelo desejo de pertencimento. Vamos imaginar que você possa ao se manifestar nas redes sociais, você possa dizer tudo o que quer, mas você dirá em função do que você supõe traga likes.

Você dirá em função do que você supõe traga novos subscritores, novos membros. E aí então você diz não o que livremente diria, mas o que importa dizer, e você se torna escravo de uma lógica de acúmulo de seguidores. Você se torna escravo de uma lógica de acúmulo de membros VIP de algum grupo específico, você se torna escravo do cancelamento, ou mais especificamente, você se torna escravo do não cancelamento. Você se torna escravo pelo medo do cancelamento.

E aí você não diz o que quer dizer, você diz o que é obrigado a dizer, você diz o que é constrangido a dizer. Portanto, mesmo podendo dizer o que quer, você não diz. Você está aparentemente livre, mas você não é livre. Ninguém te obriga a consultar o celular a cada 3 minutos, mas você consulta o celular a cada 3 minutos. E é claro, a pergunta é: há liberdade? Você dirá: claro que há, eu consulto porque eu quero. Será mesmo? Será que você não é dependente?

E quem é dependente, por definição, não é independente, não é livre. Epicteto percebe que podemos abrir mão da liberdade em nome de muitas coisas: dinheiro, glória, reputação, sucesso. Beleza, opinião dos outros, reconhecimento, poder, desejo de ser aplaudido, busca de legitimidade, busca de capital simbólico. E é claro que quanto mais a minha felicidade estiver vinculada a cada uma dessas coisas, menos livre eu serei. Então você deve considerar aqui alguma coisa de absolutamente fundamental para nós.

Se para você ser feliz você precisa de tantos mil seguidores, saiba, não será feliz nunca, porque quando alcançar esse número perceberá que é preciso mais. Se para você ser feliz você precisa de aplauso e reconhecimento, saiba: você é escravo. Escravo de um tirano difuso. Escravo de um tirano cuja vontade você conhece mais ou menos e nunca poderá conhecer absolutamente, tornando a sua vida insegura, incerta e dilacerada.

CDClóvis de Barros

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CDClóvis de Barros

Vamos responder as perguntas dos nossos ouvintes, pessoal. Vamos às perguntas. Se você quiser perguntar, enderece a sua pergunta para o QR code. E caso você queira rever um episódio, sirva-se da nossa playlist. Se você pegou o bonde andando, mais uma razão para fazer isso. O Eliel da Silva Oliveira pergunta sobre a brevidade da vida e como nos conscientizar para viver bem. Como ter a percepção de que não estamos vivendo plenamente e como conciliar com os dias atuais?

Nossa, Olha, são perguntas mesmo da vida do espírito, né? Alguma coisa que cabe a você, sabe? O pré-requisito para tudo que você perguntou é não viver de qualquer jeito, mas é viver experiências e pensar sobre elas, refletir sobre elas, analisá-las à luz da inteligência e da lucidez que é a sua. E aí você vai melhorando a tua percepção da própria vida. Isso aí é um aprendizado sem fim, né? É muito legal, Eliel, que você tenha feito essa pergunta, né?

Por quê? Porque sobre a brevidade da vida, é claro que os tempos da vida são os tempos da experiência, do modo como nos deixamos afetar das durações e das acelerações. Isso aí é de cada um. Agora, o quanto isso significou, o quanto isso compôs uma vida boa para você, cabe a você analisar, submetendo a vida a uma análise, a uma reflexão, usando o espírito para avaliar a própria vida. Beleza? Beijo grande, valeu! E nós vamos ficando por aqui, porque é impossível prender uma alma livre, mas quando uma alma não é livre, não faz falta sequer prender o seu corpo.

O aprisionamento já está dado e definido. Muitíssimo obrigado pela sua atenção, espero que você tenha gostado. Se você gostou muito, ouve de novo, ouve de novo que você não vai perder tempo. E se você gostou demais, aí você convida alguém que não ouviu ainda para ouvir junto com você. Um beijo grande, valeu!

MLMurilo Lourenço

Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.

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