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Inédita Pamonha 328 - Ganhar o justo

06 de agosto de 202616min
0:00 / 16:18
Participantes neste episódio1
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
Assuntos4
  • Ética e Economiadinheiro·posse·patrimônio
  • Justiça e recursos materiaisAristóteles·virtudes·vida boa
  • Justiça vs. Iniquidadeganho indevido·perda indevida
  • Ganância e cobiçaprejuízo alheio·consciência moral·medo da reação
Transcrição4 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar! Este é o nosso Inédita Pamonha. Um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Meus queridos amigos, que alegria poder reencontrá-los em terra brasílis! Que alegria, estamos de volta E continuando a nossa saga pelo pensamento de Aristóteles, é esse mesmo o nosso pensamento, o pensamento de Aristóteles e o estudo das virtudes.

E claro, quando estudamos as virtudes, estamos dando voz a Aristóteles, não é? Naquilo que ele tem de mais incrível, que é a questão da reflexão sobre a vida boa através da análise das virtudes. No nosso último encontro falamos da inveja, da justa indignação e da passividade. Hoje nós falaremos de justiça. Quando Aristóteles coloca em Ética a Nicômaco a questão da justiça, ele a coloca em meio às outras virtudes, portanto como uma disposição para agir, como uma qualidade de caráter, de tal maneira que, tal como as demais virtudes, a justiça também é condição para uma vida boa ou uma vida feliz.

Ora, nesse cenário cabe, porém, uma ressalva. A justiça possui para Aristóteles um sentido bastante preciso. A justiça, na verdade, ela se refere aqui à relação do humano, portanto de cada um de nós, com o dinheiro, com a posse, com o patrimônio, com os recursos materiais de uma pessoa. Então veja que interessante: a coragem tem a ver com o modo como gerimos o medo, a temperança tem a ver com o modo como gerimos os apetites, e a justiça aqui para Aristóteles tem a ver com o modo como gerimos os nossos recursos materiais, nosso patrimônio, nosso dinheiro e assim por diante.

Ora, há, portanto, na tabela das virtudes, né, uma disposição especificamente voltada para questões econômicas. Então aqui o justo, ele se encontra entre dois extremos, como no caso das demais virtudes. Eu só vou conseguir entender o que é o justo, portanto, tal como nos demais casos, a partir da diferença que esse justo meio tem em relação aos dois extremos que não nos convêm, aos dois extremos de vício. Então vamos a esses dois extremos.

De um lado, você poderia imaginar no ganho indevido para mais, Ou, se você preferir, só o ganho indevido, né? Porque o para mais, que é super repetido, ele talvez seja desnecessário, porque se é um ganho, costuma ser para mais. O que é mais engraçado é que as pessoas falam em ganho indevido para menos, o que Aristóteles chamava de maneira absolutamente lógica de perda. Então podemos imaginar que a justiça tá entre dois extremos: ganho indevido, ou seja, você ganha o que não deveria ter ganho, ou perda indevida, ou seja, você ganha o que não deveria— perdão, você perde o que não deveria ter perdido.

A justiça, portanto, é o meio termo entre duas situações indevidas, duas situações injustas. Injustiça número 1: ganhar o que não deveria ter sido ganho. Injustiça número 2: perder o que não deveria ter sido perdido. Pode-se dizer que existe, portanto, um quinhão devido a receber. Então, quando você recebe o quinhão devido, existe justiça. Justo quinhão a receber. Receber mais do que isso não é legal, receber menos do que isso não é legal.

Portanto, para Aristóteles, compromete a virtude da justiça tanto aquele que ganha mais do que deveria quanto aquele que perde ou que ganha menos do que deveria ter ganho, o que, claro, pressupõe uma perda se a referência é o ganho justo. Como a virtude é condição de uma vida boa e feliz, como a gente já disse várias vezes, né, aquele que oferece mais dinheiro do que lhe é devido está mal encaminhado em relação à felicidade. Eu vou repetir.

Atenção, atenção, gente do mundo inteiro, né? Atenção, galera que trabalha com o patrimônio público. Atenção, turma que faz a gestão dos recursos públicos. Atenção, para Aristóteles, para Aristóteles, Aquele que ganha mais dinheiro do que é justo está mal encaminhado para uma vida feliz. Então veja, todos aqueles que buscam ganhar mais dinheiro do que aquilo que lhe é devido estão convencidos do contrário. Porque senão não buscariam isso, concorda?

Você só vai buscar ganhar o que não é seu, você só vai buscar ganhar o que não te é devido se você acreditar que este ganho indevido será aportador de vida boa ou de vida feliz, seja para você Seja para quem se beneficiar desse dinheiro. Ora, qual é a graça da história? Para Aristóteles, isso não é verdadeiro. Se você embolsar dinheiro indevido, você vai ficar triste, você vai viver uma vida aquém, uma vida ruim, tá certo? Aí você levanta a mão e pergunta por quê.

Talvez haja várias razões, viu? Em primeiro lugar, quem oferece mais do que é justo prejudica alguém, porque essa coisa do win-win, né? A verdade é que se uma pessoa tem direito e é justamente dono de uma coisa, Se outra obtém dinheiro indevido, aquela que deveria ter o dinheiro ficou sem. Portanto, quem obtém mais prejudica alguém, e esse prejuízo por si só já produz consequências.

CDClóvis de Barros

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?Voz A

Olha que legal, né? Aristóteles, ele vai propor alguma coisa muito interessante de você considerar, né? A ideia de que quando você prejudica alguém, isso não é legal para você, é gozado como assim, não é imediato para quem é uma espécie de arauto do senso comum, né? Para quem trabalha na mediana da coisa, né? Não é muito claro isso. Pô, se eu ganhei um dinheiro no mole, ganhei um dinheiro que não era para ter ganho, ah, bom, alguém, alguém Alguém ficou sem, ah, mas eu vou pegar esse dinheiro, vou fazer um bom uso dele, vou pegar alguém apetecível, entrar numa aeronave, desfrutar à beira-mar comendo camarão, e tô pouco me lixando para quem poderia estar no meu lugar.

Então, para Aristóteles não, que fique claro. Em segundo lugar, há também uma dimensão de consciência moral. Não se vive bem sabendo que se auferiu para além do que é justo. Então veja que interessante, se Aristóteles abre uma gaveta para dizer que a consciência moral poderá gritar e azedar a vida, então do que que ele tava falando antes quando ele disse que quem fica com o dinheiro do outro prejudica alguém, né? Esse prejuízo por si só já produz consequências nefastas, né?

Poderíamos estar imaginando que nesse caso ele tivesse falando da consciência, mas aí não, ele abre uma gaveta só para consciência moral. Então isso me faz pensar de que ele não tá falando de problema de consciência no andar de cima. É que quando você prejudica alguém, esse alguém não haverá de gostar, né? E assim, em algum momento ele poderá dar o troco. Pode levar tempo, coisa pode se estender, mas em algum momento poderá haver troco.

E se não houver troco efetivo, poderá haver um troco imaginado. Fulano fica com o dinheiro que não é seu e fica pensando: meu, esse cara que perdeu essa grana, será que ele não vem atrás de mim? Será que ele não vai querer me prejudicar? Então você tem um primeiro momento que é um momento de medo. Essa é a primeira gaveta: medo da reação do prejudicado. E o segundo momento é o momento moral, que é um desconforto consigo mesmo.

Agora, no caso daquele que ganha menos do que deveria ter ganho, aí o desconforto é ainda mais evidente. Mas a gente vai ficar por aí, né? Quer dizer, entendemos que o justo é aquele que está a meio caminho do que teve um ganho indevido e daquele que teve uma perda indevida. O que teve o ganho indevido é mais difícil de desvincular da felicidade, porque afinal de contas ele teve um ganho. Então, quando você pensa num ganho Você pensa que, que havendo um ganho, haverá alegria e tal.

E Aristóteles está dizendo que não. E ele levanta dois motivos. O primeiro motivo é que se houve um ganho indevido, alguém se lascou. E se alguém se lascou, você tem aí um inimigo potencial no seu calcanhar. E o segundo problema é um problema moral, que é você não gostar de você quando você age mal. Agora, é claro, se você tem uma perda indevida, aí é muito fácil entender porque é que a vida, né, vai ser infeliz. Você vai estar sempre pensando: puxa vida, né, o justo era eu ter o que eu não tenho, o justo era eu ter aquilo que ficou para o outro, o justo era eu ter aquilo que me roubaram.

O justo era eu ter e poder usufruir daquilo que me surrupiaram. E aí, isso não é contributivo para uma vida feliz. Esse foi mais um Inédita Pamonha, um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Bom, ficamos por aqui, mas voltaremos a falar de justiça em Aristóteles. Não pensa você que a coisa morreu tão fácil. Espero que você tenha adorado. Se você gostou, ouve de novo. Se você gostou demais da conta, o que você faz é— o que você faz é convidar alguém que você ama e por quem você tem muito carinho e vontade de beijar na boca para ouvir de novo o podcast. Beijo grande, valeu!

CDClóvis de Barros

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