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#PartiuPensar 227 - Enfrentar a realidade

04 de agosto de 202616min
0:00 / 16:09

Clóvis de Barros continua sua reflexão sobre Marco Aurélio, desta vez abordando como enfrentar com serenidade as situações que fogem ao nosso controle.

Assista ao episódio em vídeo no nosso canal no Youtube! https://youtu.be/bcCKI9hW4og

Patrocínio: ADVBOX

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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou

Participantes neste episódio1
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
Assuntos6
  • Aceitação do inevitável· SociedadeNatureza e impermanência · Meditações de Marco Aurélio
  • A natureza da realidade e da consciência· CienciaAceitação das premissas cósmicas · Rosa na primavera · Frutos no verão
  • Transformacao e Mudanca· SociedadeProcessos naturais · Revolta contra a realidade
  • Papel do CMO· NegociosAceitação da função · Revolta inútil
  • Estoicismo· ReligiaoAceitação para o lucro · Ordem cósmica vs. metas de capital
  • Porta-luvas da almaDualismo mente-corpo · Glândula pineal · Descartes
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
CDClóvis de Barros

Partiu pensar, partiu pensar, por instantes de plenitude, potência e luz. Senhoras e senhores, estamos no ar! Este é o nosso hashtag Partiu Pensar, porque hoje É terça-feira e terça-feira você sabe, é dia de pensarmos juntos. Estamos patrocinados pela ADV Box. Estamos passando por toda a história do pensamento ocidental e a palavra está com Marco Aurélio, pensador estoico romano, imperador. No começo da nossa era, que escreveu as suas Meditações e que, como nós dissemos no nosso último episódio, usava a natureza como referência.

Marco Aurélio observa a natureza através dos seus processos mais assim simples, fáceis de observar, né? Então Ele começa dizendo que as folhas caem e aí outras aparecem no lugar, e que a queda das folhas, bem como o aparecimento de novas folhas, tem a ver com outros aspectos da natureza, como a temperatura, como a geografia, né, como a época do ano. Então Marco Aurélio vai propor que os frutos também amadurecem. E depois de amadurecer, eles apodrecem.

Marco Aurélio também vai propor que os animais nascem e crescem e se desenvolvem e envelhecem e morrem. Ele vai propor que as estações do ano se sucedem umas às outras numa regularidade implacável. Portanto, ele vai propor que, pô, se a folha cai, outra nasce. O animal nasce, mas morre. O outro, rapaz, as estações do ano, rapaz. Então O que que ele destaca? Que nada na natureza permanece imóvel e, portanto, nada na natureza permanece, porque pelo mero fato de se deslocar já não permanece, sem falar que envelhece, se deteriora.

Portanto, nada fica nem um segundo parado, quieto. Portanto, o Logos Universal determina Trânsito, mudança, movimento. A mudança, portanto, não é uma falha do mundo. A finitude não é um problema do mundo. A sua morte não é um erro do mundo. Muito pelo contrário, tudo isso é a condição. O universo é assim. O logos do universo assim determina, tal maneira que se você tiver a expectativa de que alguma coisa fique parada, quieta, saiba, essa expectativa será frustrada.

E se você vincular a sua felicidade a que as coisas permaneçam, do tipo felizes para sempre, não sei o quê, coisa para sempre, é possível que não role. Por quê? Porque observando o universo, nada permanece. Então, se você, por exemplo, se revolta porque envelheceu, o problema é seu. Se você lamenta a morte de um ente querido, você tá se revoltando contra a própria estrutura da realidade. O nosso universo, o todo de que fazemos parte, ele funciona desse jeito: com as coisas nascendo, durando um pouco em transformação e morrendo e se organizando em outras coisas.

É assim que é, é assim que funciona. Não adianta fazer bico, não adianta arrancar os cabelos, não adianta se desesperar. É assim que funciona. Portanto, quanto mais você aceitar que é assim que funciona, mais suave será a sua existência. Eu vou abrir aspas para você ver como ele é ameno e singelo na hora dele mesmo escrever. E ele diz: tudo o que acontece é tão habitual e familiar quanto a rosa na primavera e os frutos no verão.

Haverá frutos que não são propriamente do verão, Mas eu abri as aspas, eu fecho as aspas, é ele que disse, é problema dele. Então, tudo o que acontece é tão habitual quanto as rosas na primavera e os frutos no verão. Em outras palavras, um acidente aéreo mata todo mundo dentro do avião. Então, eu abro aspas: tudo o que acontece é tão habitual e familiar quanto a rosa na primavera ou os frutos no verão. Ah, mas eu ainda estou em plena juventude e um câncer fulminante está abreviando a minha vida.

Abro aspas: tudo o que acontece é tão habitual e familiar quanto a rosa na primavera e os frutos no verão. Não adianta você querer encontrar injustiça, né? Por quê? Porque no universo tudo é o que é, tudo é como só poderia ser, tudo é regido pelo logos do universo. Então, se você não gostou, né, é óbvio que o problema é seu. Você viveria melhor se você aceitasse as premissas cósmicas. Aceitasse o modo como o Logos organiza o universo e entendesse que tudo o que acontece é tão habitual e familiar quanto a rosa na primavera e os frutos no verão.

A natureza, portanto, nos sugere uma aceitação. Então, o estoicismo vem daí. Olá, eu sou Clóvis de Barros e venho aqui propor a você nos apoiar a manter vivos os nossos conteúdos de filosofia na internet. Para você participar com uma singela colaboração, você deve entrar em apoia.se/ineditapamonha. Repetindo, apoia.se/ineditapamonha. Você pode nos ajudar demais a honrar os nossos compromissos, pagar nossos editores, as nossas plataformas, e manter nosso conteúdo vivo para que ele continue impactando as pessoas como tem feito.

O mundo do capital, o Vale do Silício, resolveu botar o estoicismo na moda Por quê? Porque recomenda a aceitação. Quer dizer, você apanha, apanha, apanha, apanha, apanha e não tem nada que reclamar porque tudo é. Mas pera lá, pera lá, quando Marco Aurélio diz que você tem que apanhar e entender que é como tem que ser, em nome do cosmos, em nome do universo, em nome do Logos, e não em nome do lucro do seu patrão. O fundamento de Marco Aurélio não é o mesmo fundamento de alguém que toma a palavra para dizer: aqui na empresa você tem que suar sangue em nome das metas e dos resultados.

Porque Marco Aurélio nunca falou em meta e e resultado nenhum de capital. Marco Aurélio falou da ordem cósmica, não é a mesma coisa. Sabemos muito bem para onde vai o lucro, sabemos muito bem quem é que vai se beneficiar com a sua, com seu sacrifício. Aqui não, você vai se sacrificar segundo Marco Aurélio porque é tudo tão natural quanto a rosa na primavera e o fruto no verão. Imagina um pé, né? Eu tô aqui, tá colhendo essa imagem.

O Leonardo, ele tá de pé ali e tá com o corpo inteiro dele em cima dos dois pés. Imagine se os dois pés tivessem consciência e eles diriam: senta aí, meu, você não tá vendo que tá todo o peso em cima de mim? Isso é injustiça! E aí, claro, você com dois neurônios responderia: malandro, o papel do pé é aguentar o peso do resto em cima. O pé é em cima da onde vai tudo. Como é que o pé vai reclamar se é para isso que ele existe? Então, caso você se veja injustiçado na vida, tente se imaginar como sendo o pé do Leonardo.

E aí você vai entender que para o universo funcionar, tipo o Leonardo inteiro, é preciso que alguém faça o papel de pé. E talvez você seja o pé do universo. Sacanagem! Rugas de preocupação do universo com você, né? Imaginou o pé revoltado? O máximo que ele pode fazer é dar pontapé e só vai se machucar. Só vai se dar mal. A melhor maneira do pé viver é aceitar que pé é pé e tudo vai ficar em cima dele. Eu espero então que você tenha, ao longo desse episódio, entendido alguma coisa de precioso sobre qual o fundamento da aceitação defendida pelos estoicos em particular por Marco Aurélio nas suas meditações.

Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes. A pergunta é do Antônio Moraes: se a alma é imaterial e o corpo é material, o que é que liga a alma ao corpo? Eu sei lá, mas é por isso mesmo que esse negócio de alma imaterial nunca me entrou na cachola. É por isso que para mim a alma é corpo como o resto, que todas as tais Prerrogativas da alma são desempenhadas por corpo tão material quanto o joelho e o cotovelo, tipo neurônio assim.

Porque na hora que você tem que ligar o material ao imaterial, vai ligar aonde? Eu também não sei. A sua pergunta é a minha, e não pense que é só a nossa. Descartes falava numa tal de glândula pineal, velho, sabe? Descartes, muito simpático. Craque em geometria analítica, mas na hora de filosofar tirava umas do arco da velha. O imaterial e o material não tem como grudar, porque você só gruda material no material. E o imaterial no imaterial?

Primeiro que não é o caso, e segundo que eu sei lá, o imaterial, o imaterial me escapa. Então tá aí. Pô, mas eu fiz uma pergunta, o senhor não sabe responder. É isso. Ô Antônio Moraes, é isso. Não só não sei responder essa, como na verdade mesmo não sei responder a quase nada. E que fique claro, essa é a grande vantagem, porque na hora que você percebe que não sabe nada, tem alguma chance de melhorar. Na hora que você acha que sabe tudo, aí você já tá no teto.

Aí vai ser difícil alguma elevação espiritual, viu? Eu não sei, mas adorei a tua pergunta. A tua pergunta é uma pergunta clássica, a tua pergunta é uma pergunta fina, né? É uma pergunta assim mesmo para não deixar pedra sobre pedra. Belíssima pergunta, Antônio Moraes. O que me permite, adoro dizer isso, não tenho a a menor ideia. Caso você queira fazer perguntas também, entre no QR code, código QR, e lá vai ser super fácil fazer perguntas incríveis como essa do Antônio Moraes.

Valeu! Nós vamos ficando por aqui. Lembrando que os estoicos voltarão à nossa cena, mas por hoje você ouça de novo, assista de novo, e se tiver gostado muito, aí chame a família para assistir também. Por quê? Porque foi dito tudo com tamanha clareza que até eu me surpreendi. Fica bem, se você for o pé, seja um pé. E aceite a sua condição de pé. Agora, caso a sua vida seja realmente dura, aí você será um explicador. E aí, já viu, vai apanhar em sala de aula, porque por incrível que pareça, haverá sociedades onde não se aprecie muito quem explique.

Um beijo grande, valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clovisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.

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