Inédita Pamonha 327 - O olhar do invejoso
Clóvis de Barros comenta, à luz do pensamento de Aristóteles, o sofrimento diante da vida alheia.
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- Incorporação de Prestígio AlheioPosição social e mérito · Patrimônio e merecimento · Justa indignação
- Virtudes em AristótelesJusta indignação · Inveja · Aristóteles
- Inveja e CiúmeInveja como corrosão · Comparação com o próprio mérito · Passividade diante da injustiça
- A Importância da Vida ComunitáriaEngajamento na comunidade · Julgamento de mérito · Evitar passividade
Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar! Este é o nosso Inédita Pamonha, um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Estamos falando de Aristóteles, estamos falando das virtudes em Aristóteles, e hoje vamos falar da justa indignação. E da inveja. Já sabemos que na Ética Nicômaco Aristóteles apresenta as virtudes como caminhos para uma vida boa, caminhos para uma vida feliz.
O humano feliz é necessariamente um humano virtuoso. Isso para Aristóteles, né? Agora, as virtudes para Aristóteles condição da felicidade humana podem ser, digamos, discernidas entre dois extremos. E conhecer esses extremos é, portanto, fundamental, necessário para identificar o justo meio virtuoso. Então você tem um extremo que é uma porcaria, o outro extremo que é outra porcaria, e o justo meio virtuoso. Nos dois extremos que são uma porcaria, Sabe o que acontece?
Eu vou explicar para você. A vida é ruim. Então, exemplo: o cara que passa a vida só atrás de sexo, então ele é triste. Ele é triste fazendo o sexo ou não, ele é triste. O cara que passa a vida sem sexo nenhum, ele é triste. Então a temperança é essa moderação na busca dos prazeres. É, ora, essa, né, conhecer esses extremos é, portanto, fundamental, porque é a partir dos extremos que você identifica esse meio, né, que é virtuoso e feliz.
Condição do bem agir, né, é um passo decisivo para o bem viver, para uma vida feliz. A virtude, que fique claro, examinada por Aristóteles, diz respeito à maneira como Avaliamos o outro quando estamos falando aqui da indignação e da inveja, sabe? A maneira como avaliamos o outro, a maneira como entendemos o outro, especialmente eu diria a partir de dois elementos: a condição ocupada por esse outro e o mérito que ele possui para ocupar tal condição.
Podemos dizer de outro modo: a posição que o outro ocupa na sociedade e o mérito que ele tem para ocupar aquela posição. Ou poderemos dizer ainda de maneira diferente: o capital social acumulado pelo outro num determinado universo e o mérito que esse indivíduo tem para ter acumulado esse capital. Se você preferir, eu digo de outro modo: o aplauso que esse sujeito recebe na sociedade e o mérito que esse sujeito tem para ser aplaudido.
Percebeu do que que nós estamos falando? Então, sei lá, vamos imaginar alguém que ocupa uma posição de liderança, uma posição de superioridade hierárquica, um chefe, um CEO, um IQ, um fodástico, né? Essa é a sua condição. Ora, pode acontecer que você Olha para essa pessoa e não, não enxerga nela um mérito que justifique a posição que ela ocupa. Nesse tipo de situação, você coloca a virtude do outro em questão. É uma espécie de reação que você tem diante da posição que, aos teus olhos, não parece merecida não parece, portanto, justa.
Essa, essa posição pode ser uma posição também patrimonial, hein? Não precisa ser chefe. Às vezes você pega o cara ricaço, cara compra o que ele quer, entendeu? Cara sabe aqueles carrinhos espertos sem capota, marca italiana, né? Mansão. E aí você pega e fala, pô, mas esse cara, o que que ele fez na vida para dispor desse patrimônio? Aí você começa a maldizer o sistema sucessório, né, de herança, porque um herdeiro é foda mesmo, você pensa, né?
O cara não fez nada e tá aí, né, gastando o dinheiro do pai. Então, muitas vezes você observa alguém em situação de grande abundância material e você se pergunta: como é que tal pessoa, ao teu olhar medíocre, alcançou essa posição sem possuir nenhum mérito que justifique? Aí você tem um ponto, né? Quer dizer, Nós estamos diante de uma situação de vida em que você julga o outro, você avalia o outro e você acha que o outro não tem o mérito necessário para ocupar a posição que ocupa, entendeu?
O cenário concreto, não. E existe uma virtude que é uma indignação justa. A justa indignação consiste justamente em identificar com justiça com o pé no chão, sem raiva, sem ódio, sem despeito, o demérito de alguém para ocupar a posição que ocupa. Então essa justa indignação é virtuosa. É interessante, né, porque alguém poderia dizer: pô, cuida da tua vida, né? Mas Aristóteles entende que o virtuoso Não é aquele que cuida só da própria vida.
O virtuoso é aquele que se mete sim na vida do outro, avalia a vida do outro. A impressão que dá é que nem tem como viver na polis e, portanto, conviver sem fazer essa avaliação. E aí você tem um sistema de justa indignação, quer dizer, você de maneira criteriosa arrazoada, justificada, você denunciar o quê? Que aquela condição, né, aquela posição, né, aquela condição, ela é indevida, né, ela é, ela é não merecida, ela é injusta.
E aí é que vem o pulo do gato, porque tem o excesso disso. É quando aquilo te incomoda mais do que deveria incomodar e você reage afetivamente pior do que deveria reagir. E é isso que nós vamos chamar de inveja, né? A inveja, a inveja é um problema. Olá, eu sou Clóvis de Barros e venho aqui propor a você nos apoiar a manter vivos os nossos conteúdos de filosofia na internet. Para você participar com uma singela colaboração, você deve entrar em apoia.se/ineditapamonha.
Repetindo, apoia.se/ineditapamonha. Você pode nos ajudar demais a honrar os nossos compromissos, pagar nossos editores, as nossas plataformas e manter nosso conteúdo vivo para que ele continue impactando as pessoas como tem feito. Perceba que para Aristóteles a inveja não é você admirar alguém que você reconhece tem um talento incrível e tal. Não, né? A inveja é você se corroer ante aquilo que você entende ser uma injustiça do mundo que beneficia e que privilegia, portanto, injustamente alguém.
Você tem inveja? Olha, acho que todos temos, não é não? Porque vamos combinar, É muito comum que uma pessoa tenha aquilo que ela merece, é muito comum. Mas também é muito comum que uma pessoa tenha aquilo que ela não fez nada por merecer. E às vezes aquilo que essa pessoa tem, no teu entendimento injustamente, é alguma coisa que você particularmente gostaria para você, né? Aí é que é um problema. Por quê? Porque qual é a graça da história?
A graça da história é que quando a inveja pega, é porque não só você faz o diagnóstico da falta de mérito do outro, como você compara com o seu caso, e portanto você identifica o quê? O mérito em você. Você identifica o mérito em você. Claro que você pode pensar aí em N situações, né? Eu, eu, eu tenho na minha vida todo tipo de exemplo para dar. Então, sei lá, vamos imaginar que pessoas que eu tenha admirado e que eu reconheço um mérito extraordinário e acho que elas mereceram tudo que elas obtiveram na vida, Por exemplo, um colega de natação, Ricardo Prado, né?
Que nadador espetacular, né? Que cara, que gênio da natação, que admiração, né? Realmente incrível, né? Eu reconheço alguns professores, né? Mauri Mascaro Nascimento, Antônio Junqueira de Azevedo, Alfredo da Silva Teles, o próprio professor Pierre Bourdieu, que São pessoas incríveis, né, talentosas. Sem falar dos meus colegas hoje palestrantes: Cortella, Karnal, Pondé, né. Admiração genuína. Eles dão nó em pingo d'água. Eles merecem tudo e mais um pouco.
Eles merecem tudo e mais um pouco. Em contrapartida, haverá quem tenha tudo na vida e que eu não veja ali Sabe, justiça nenhuma, nenhuma, nenhuma, nenhuma. E às vezes a pessoa tem algumas coisas que, ó, cairiam como uma luva, como uma luva. Por exemplo, o apartamento em Senhora da Hora que fica na frente do meu, atravessando a rua, tem uma varanda espetacular. Espetacular. Aí eu fui lá ver se tinha alguém para, se tinha algum à venda e papapá, porque o fato de ter a varanda e ter um zelador, coisa que o meu não tem, não tem nenhum funcionário em momento nenhum do dia, o que dificulta fazer compra, etc., né?
O fato de ter um zelador e ter uma varanda, nosso preço sobe absurdamente. Aí eu fui lá conversar e conheci então o dono do apartamento que eu tava sempre de olho, que inclusive fica no último andar, etc. e tal. Ficaria bem no apartamento dele. Que peça, viu? Que peça! Ali é o caso clássico do diagnóstico de falta de mérito acompanhada de uma vontade louca, uma vontade louca de ter o que o cara tem, né? Entendeu? Acho que você entendeu, né?
No outro extremo da inveja, Aristóteles não nomeia não, mas a gente poderia chamar de passividade. No caso da passividade, você percebe a posição vantajosa, identifica a falta de mérito, constata a inadequação daquela posição, mas você não tem por aquilo nenhum fiapo de indignação, nada do tipo. Lixe-se, sabe? É indiferente para mim se as pessoas têm mérito ou não têm mérito, tô pouco me lixando, e é gozado. Para Aristóteles, isso é muito ruim.
Já parou para pensar? Eu acho que quem não tá nem aí para os outros sofre muito menos. E eu acho, eu, por exemplo, evito ficar fazendo avaliação. É só quando não, né, a coisa é escancarada. Mas Aristóteles acha que se você se depara com alguém que dispõe de uma condição indevida, injusta, que não tem mérito nenhum para ter aquilo que tem, Aristóteles considera, considera isso ruim, um vício, um vício de passividade, um vício de vida largada, um vício de desapego às coisas da cidade, sabe?
Aristóteles entende que a felicidade pressupõe um bom engajamento na comunidade. E isso implica julgar, sim, julgar o mérito das pessoas, sim, mas não cair nem na inveja nem no liguei o foda-se e tantufas, entendeu? Você entendeu o que eu quis dizer? Não, pô, eu acho que eu me fiz claro. Eu fiquei feliz com a minha explicação. Pensa aí você, eu não tô convencido assim, eu pelo meu jeito de ser assim, sabe, assim, pelo fato de ser uma pessoa muito voltada para dentro e prestar muito pouca atenção no que acontece em volta, é muito difícil para mim ficar avaliando o mérito das pessoas em função do que elas têm ou do que elas são ou do que elas fazem, do que elas merecem.
Muito difícil para mim. Tem gente que é campeão disso, né? É muito difícil para mim, eu não sei lá, né? Não tenho hábito, não avalio mesmo, não sei lá, né? E eu acho que é melhor assim, sabe por quê? Eu vou explicar por quê. Porque numa sociedade como a nossa, a chance de você ficar desagradado na hora de você averiguar o mérito dos que ocupam posição de destaque é muito grande, sabe? Por quê? Porque é uma sociedade de capital muito concentrado, onde tem muito herdeiro, onde tem muito playboy, onde tem muita gente que desfruta sem mérito, é onde tem muita gente que enxerga mérito aonde não há nenhum, aonde— então a chance de desagrado é muito grande.
Por isso, às vezes, até para se proteger, eu pelo menos finjo que, né, que não tô, mas Aristóteles entende que esse, esse desapego da comunidade é um traço de vida mal vivida. Eu pergunto a você, você que é campeão do mundo de viver vidas humanas, me diz aí o que que você acha, né? Comente aqui nos comentários. Professor, não tem comentário nenhum aqui para comentar. Então não comente porra nenhuma, é tudo certo. Eu só falei comente nos comentários porque eu ouço os YouTubers e eles sempre falam isso, então eu também falo, viu?
Deixa um likezão pro tio pra dar uma força aqui no canal e comente nos comentários. Beleza? Esta foi a sua inédita pamonha de hoje, um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. Espero que você tenha gostado. Se você gostou, ouve de novo. Se você gostou demais da conta, aí você convida alguém, viu? Convida alguém para ouvir também. E ó, se porventura você for daqueles que me ouve todo dia e que me manda de vez em quando coisas do tipo: não entendi porra nenhuma, não sei o quê e tal.
Ó, eu acho que eu vou no limite da minha competência, mas não fica bravo comigo não. Eu acho que se você ouvir outra vez, vai rolar, viu? Breca o áudio, sabe? Breca o áudio e reflete e tal. Acho que vai rolar, tá? Não fica bravo comigo não. Agora, se eu não conseguir explicar para você, sabe, Gente, não é todo dia que tem pão quente. Beleza? Valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros.
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