#PartiuPensar 226 - A natureza como guia
Clóvis de Barros apresenta o pensamento de Marco Aurélio, explicando por que o filósofo considerava a natureza a principal referência para a vida humana.
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Insensatez: Conceito e NaturezaMeditações de Marco Aurélio · Estoicismo · Conhecimento da própria natureza · Sofrimento humano
- Cristo e o LogosUniverso ordenado · Razão universal · Função de cada ser (Ergon) · Harmonia com a ordem cósmica
- Recomendações de LeituraPilatos · Meditações de Marco Aurélio · Luc Ferry · Pierre Hadot
Partiu pensar, partiu pensar, por instantes de plenitude, potência e luz.
Senhoras e senhores, estamos no ar! Este é o nosso Hashtag Partiu Pensar de toda terça-feira. Estamos patrocinados pela DV Box e graças a esse patrocínio podemos em vídeo apresentar reflexões sobre a história do nosso pensamento. Hoje vamos falar de Marco Aurélio, e Marco Aurélio Ele é um pensador estoico, como Sêneca, e também foi um grande imperador. Então veja que nós já tivemos um estoico legislador e agora um estoico imperador, um do Legislativo, outro do Executivo.
Ora, Marco Aurélio escreveu uma obra intitulada Meditações. E é uma obra bastante íntima, é uma obra onde Marco Aurélio parece escrever para si mesmo, é uma obra de reflexão quase que pessoal, que aparentemente não tinha a pretensão de se tornar pública. Muito menos, talvez, de se tornar uma referência bibliográfica da história do pensamento. Então, Marco Aurélio, nas Meditações, vai propor que a natureza é a grande referência para a vida humana.
O que isso quer dizer, referência? Como assim a natureza é a referência? Olha, para pegar você pela mão e conduzir de maneira bastante assim simplificada, imagine que você tenha uma dúvida, você precisa fazer uma escolha, tomar uma decisão da sua vida, e aí são várias as possibilidades. Então você não sabe bem o que fazer, qual das possibilidades escolher. Então, o que Marco Aurélio tá propondo é que a resposta para essa sua dúvida, ela se encontra na sua própria natureza, de tal maneira que se você conhecer a sua própria natureza, ela de maneira muito assim clara te dirá como é que você deve viver.
Que caminho você deve tomar, que escolha você deve fazer. Isso é que é a referência. Eu tô numa sinuca de bico, eu tô sem saber o que fazer, porque vamos imaginar que de um lado é ruim, do outro lado é ruim também, ou então de um lado é bom, do outro lado é bom também. E aí Você não sabe bem o que fazer, mas terá que fazer uma escolha. Então, o que Marco Aurélio tá propondo é bem isso, é que o conhecimento da própria natureza é condição de você fazer uma boa escolha.
Não existe, portanto, uma escolha boa por si mesma, né? Existe uma escolha boa em função da natureza de quem escolhe. A vida será boa se ela for direcionada, se ela for guiada, se ela for orientada pela natureza de quem a vive. Então eu faço questão de te dizer isso, né? Porque para Marco Aurélio, grande parte do sofrimento humano, ele surge do desconhecimento da própria natureza ou da recusa de aceitar a própria natureza como referência.
Então, sei lá, vamos dar um exemplo. Vamos imaginar que eu tenha me dado conta que o grande barato da minha vida É explicar porque explicar é a única coisa que eu gosto de fazer, explicar a única coisa que eu sei fazer mais ou menos, explicar a coisa. Então existe aí uma espécie de diagnóstico da própria natureza. Eu sou aquele que por natureza explica muito bem, eis a referência. Aí eu tô lá dando aula na faculdade E aparece alguém, pede um minuto da minha atenção, diz que vem em nome de um partido político e que gostaria que eu considerasse a possibilidade de me candidatar a deputado estadual pelo partido em questão, que havia condições econômicas adequadas, que eu pela presença na internet já sairia com algum nível de conhecimento por parte dos eleitores.
E que a eleição era muito possível, o sucesso era muito provável, e que seria bacana porque depois eu poderia, 4 anos depois, me candidatar a deputado federal, e quem sabe 8 anos depois a senador. A pessoa termina de falar e você tem que dar uma resposta. Você pode até dizer: ó, eu vou dar uma pensada e entra em contato. Mas o que que vai te permitir fazer uma boa escolha? Então alguém dirá: ô, se você se eleger deputado, deputado é bem legal.
Imagina deputado federal, né? Tem muito poder, né? Tem muita proximidade de quem tem poder, né? Enfim, leva uma vida cheia de assessores, de visibilidade. Bom, veja que tudo isso que eu tô falando são supostos argumentos para eu me decidir por abandonar a vida docente e abraçar a vida de legislador. A referência que eu estaria usando para tomar essa decisão é passar a ter mais poder do que tenho na condição de professor. É uma referência.
Mas aí Marco Aurélio, ele dirá: a natureza é a grande referência para a vida humana. Portanto, você, no caso eu, não devo tomar uma decisão em função do aumento do poder. Por quê? Porque esta é uma referência equivocada para a vida humana. Ah, mas e se como deputado eu for encher a lata de ganhar dinheiro, não pelo salário, mas pelos penduricalhos legislativos, né? Então, o aumento do patrimônio não é a referência que Marco Aurélio recomenda.
Ah, mas deputados, quando chegam na vida social, se tornam sedutores, e poderão ter pessoas bem dispostas a relações afetivas auspiciosas. Mas não, também não é a referência que Marco Aurélio tá sugerindo. Ah, mas o deputado, ele poderá usar de verbas parlamentares para viajar para onde ele quiser. Também não é a referência que Marco Aurélio tá sugerindo. Mas então qual é a referência? É a natureza. E qual é a sua natureza? De explicador.
E portanto, se a minha natureza é de explicador, eu devo continuar explicando, porque esta é a referência que permitirá que as escolhas sobre a vida possam trazer uma vida boa, uma vida feliz. A vida só será feliz se você adotar como referência para suas escolhas a própria natureza. Ficou claro isso? Essa é a tese. É claro, você não precisa concordar nenhuma vírgula com isso aqui. Você não precisa concordar com Marco Aurélio quando ele diz que o sofrimento humano é porque as pessoas vivem na contramão da própria natureza.
Porque sujeito tem natureza e talento para desenhar, mas trabalha no mercado financeiro. Então, o que dirá Marco Aurélio? A vida será sofrida. Por quê? Porque a vida só é feliz quando você vive em alinhamento com a natureza que é a sua. Eu fiz questão de deixar isso super claro. Por quê? Porque, bom, a leitura de Marco Aurélio, embora seja um livro que não tenha pretensão de ser um tratado filosófico, que poderia ser ainda mais hermético, mais abstrato, e que tenta até facilitar as coisas e tal coisa, às vezes você passa sem entender o que que ele quer dizer com a natureza é a referência.
Agora ficou claro, né? Por natureza você é tocador de flauta? Pois então, na hora de escolher a vida, escolha a vida de tocador de flauta. Ah, mas o tocador de flauta apanha na rua. Não importa. Ah, o tocador de flauta ele não ganha nada. Não importa. Tocador de flauta é desprezado e não pega ninguém, não importa. Só haverá felicidade se houver alinhamento com a própria natureza.
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Então veja, vamos subir um degrau, né, porque esse eu acho que ficou super hiper mastigado, né. Vamos subir um degrau. Os estoicos, e Marco Aurélio era um estoico, acreditavam que o universo é um todo finito e ordenado. E o que é mais legal, ele é governado por uma razão universal que eles chamavam de Logos. Ó, imagina o teu organismo, ele é constituído por um monte de partes. Organismo constituído por órgão, cada órgão cumprindo o seu papel.
Então veja que o teu organismo é um todo ordenado, organizado, aonde cada um cumpre o seu papel. Então, o estômago digere, o intestino evacua, o pulmão respira, o rim filtra, o fígado, baço e blá blá blá blá blá. O joelho dobra, né? O joelho e o cotovelo dobram, são dobradiças. O olho enxerga, etc. Então, veja que há uma complementaridade funcional. Assim também é o universo, é um grande organismo vivo. Aí você diz: e a Terra é um pedaço desse organismo, e você é um pedaço da Terra, como se fosse uma célula, uma célula do universo.
Só que tem uma diferença interessante: você é dotado de inteligência, mas a sua inteligência não foi a que dispôs estômago, que você decidiu: bom, nasci, deixa eu botar o estômago aqui, o intestino ali, deixa eu botar o joelho ali embaixo e tal. Não, no caso do universo é assim que acontece. O universo é um organismo dotado de uma inteligência e E essa inteligência é a inteligência que dispõe as partes aonde elas têm que estar.
Então, a inteligência do universo colocou a Terra para girar em torno do Sol, e ela fez isso em função de leis de atração, porque um puxa de um lado, o outro puxa do outro lado, o outro puxa do terceiro lado. E aí aquilo fica como numa soma de vetores, né, parado ali ou se movendo naquela órbita. Por quê? Porque tá obedecendo a uma equação de forças que age sobre ele. E esta equação de forças, ela resulta do Logos, é o É a inteligência do universo que determina todas essas forças e que determina os movimentos e que determina os choques e que determina tudo.
Então, olha que interessante, né? O universo é um todo ordenado, é um cosmos governado por uma razão universal chamada Logos. Portanto, nada acontece no universo de maneira arbitrária, assim, né? Não, tudo acontece de maneira decidida, ordenada, né? Porque cada parte do universo, cada ser possui uma espécie de função. Assim como a função do estômago é digerir, a função do intestino é evacuar, cada parte do universo tem a sua função, o que em grego eles chamariam de ergon.
Ergon é a função que cada parte do cosmos tem para que o todo funcione. Então o cosmos tem uma inteligência como nós também temos. E essa inteligência faz com que o universo seja do jeito que é, funcione do jeito que funciona, e as partes tenham a função que tenham. Portanto, se cada ser possui uma função e um lugar no conjunto do universo, então o que significaria viver bem? Viver bem consistiria em viver de acordo com essa ordem.
Viver bem significaria viver em harmonia com essa ordem. O vento venta de acordo com a ordem cósmica, a maré marea de acordo com a ordem cósmica, e eu viveria bem se eu clovisasse, ou seja, vivesse de acordo com a ordem e vivesse de acordo com o que o universo espera de mim, assim como um músico que afina o seu instrumento para tocar numa orquestra. O universo espera isso dele, o Logos do universo indicou isso a ele. Então a pergunta é: como é que eu fico sabendo o que o universo espera de mim?
Observando a minha natureza. A minha natureza é o manual de instrução que serve de referência para saber o que o logos do universo espera da minha existência dentro desse universo. E se eu quiser viver de boa, se eu quiser viver bem, se eu quiser viver feliz, eu terei que viver como o vento, isto é, ventando, como a Terra, isto é, girando em torno do Sol, como joelho, isto é, dobrando, e Clovis, clovisando, Portanto, eu preciso, através do meu logos, identificar o que o logos do universo espera de mim e harmonizar-me, alinhar a minha vida a essa expectativa.
Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes. A Bruna Silva pergunta: quais livros o professor indicaria como imprescindíveis para amantes da filosofia? Agradeço desde já e sou uma grande admiradora do seu trabalho. Nossa, É que são tantos, Bruna, Bruna, são tantos. Agora, você tem uma literatura de textos de filósofos que são clássicos e você tem uma outra literatura daqueles que comentam esses textos. Então eu vou citar dois de cada para você começar e animar você a pedir mais fazendo perguntas.
Bruna, então você poderia começar lendo A Brevidade da Vida de Sêneca e As Meditações de Marco Aurélio. E aí, para discutir esses estoicos, você pode ler o livro de Luc Ferry, Aprender a Viver, e você pode procurar por qualquer obra de Pierre Hadot, H-A-D-O-T, Hadot, Pierre Hadot, que fala muito sobre os estoicos, né? Qualquer uma. Aí você tem 4 obras que já vão dar para você ocasião de um entretenimento do espírito significativo.
Beleza, Bruna? Beijão! Foi essa a nossa mensagem de hoje. Se você gostou, ouve de novo. Se gostou muito, aí você chama a galera, porque uma conversa entre amigos ouvindo Partiu Pensar é tudo de que você precisará para uma vida feliz. É isso, valeu!
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