Inédita Pamonha 326 - Prazer de viver
Clóvis de Barros fala sobre o significado de abundância e da insensibilidade no pensamento de Aristóteles.
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- Prazeres MundanosAristóteles e a ética das virtudes · Meio termo entre vícios · Prazeres do corpo e necessidades biológicas · Intemperança e insensibilidade
- A Mentira do YOLO e a Busca por PrazerQualificação do paladar · Jejum prolongado · Prazer sexual e moderação · Sabedoria prática hedonista
- Construindo o Prazer SexualTemperança como domínio do prazer · Busca desregrada pelo prazer · Prazer como parábola
Começa agora Inédita Pamonha, por instantes felizes, virginais e irrepetíveis. Senhoras e senhores, estamos no ar! Este é o nosso Inédita Pamonha, um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil. No episódio anterior eu estive ausente tratando de uma pneumonia. Já estou bem melhor, ainda que a voz não esteja impecável. De qualquer maneira, já em condições de trabalho, já em condições de gravação, avançamos então pela filosofia de Aristóteles.
Estamos tratando da ética das virtudes e hoje vamos nos dedicar à temperança. É preciso lembrar, para que não nos esqueçamos, que Aristóteles entendia a virtude como um uma, um atributo da vida boa, da vida feliz. E é claro, essa virtude ela sempre era vista como um meio termo entre dois vícios, ou seja, um meio termo entre dois exageros, um meio termo entre dois extremos que não trazem felicidade. Ora, como estamos falando da temperança, estamos falando de busca de prazeres.
A virtude estaria, portanto, no meio entre dois extremos, e portanto viverá de maneira mais feliz aquele que tiver uma disposição para agir de determinada maneira diante das diversas situações da vida, que não seja nem sem prazer algum nem buscando prazer o tempo inteiro. Podemos começar pelos prazeres do corpo, pelos desejos e pelas necessidades biológicas, por aquilo que o humano também precisa para viver e para sobreviver. A existência física orgânica é atravessada por carências que exigem reposição permanente.
Preenchimento e satisfação sempre provisória. A fome, a sede, a sexualidade são exemplos dessas necessidades e se relacionam diretamente com a questão da temperança. A temperança em Aristóteles designa uma disposição entre dois extremos, como nós dizíamos, Essa disposição entre dois extremos nada tem de medíocre, pelo contrário, é a única excelente. E por isso é necessário conhecer os extremos para compreender melhor esse meio termo virtuoso.
Todas essas noções, elas são relativas, elas são, elas só se compreendem umas em relação às outras, assim como o norte só faz sentido em relação ao sul, o diretor em relação ao subordinado, o rico em relação ao pobre. No caso da temperança, os extremos são a intemperança de um lado e a insensibilidade de outro lado. Talvez se pegarmos a questão da alimentação, isso fique mais claro. A questão não é apenas comer o necessário para manter o corpo vivo.
Para Aristóteles, Ninguém vive apenas para sobreviver. Claro que é preciso se alimentar para sobreviver, porém, se se alimentar significa preservar a vida, também envolve um certo prazer em degustação. Não se poderia, portanto, imaginar uma vida completamente privada de prazeres, e portanto seria lamentável uma vida privada completamente do prazer da degustação. Uma vida que inibiria sistematicamente os prazeres, como o da degustação, seria uma vida ruim, uma vida condenada.
Por isso, a temperança é essa virtude que tem por objeto a busca de um prazer adequado a uma vida boa. Pressupõe, portanto, prazer na degustação, na culinária, na gastronomia, no ato de comer. Agora, tanto para manter o corpo saudável quanto para experimentar prazer, não se pode cair no excesso. Empanturrar-se não intensifica o prazer, ao contrário, já pertence ao campo do desprazer. A sensação de estufamento A sensação de não aguentar mais, de estar a ponto de vomitar, expressa o excesso e, portanto, a intemperança.
Perceba que o prazer de viver, entendido como experiência qualitativa, pressupõe alguma moderação na sua busca. Depois de certo ponto, o prazer desaparece e dá lugar ao fastio, ao acúmulo desregrado, à abundância desmedida. A relação entre temperança e intemperança é, portanto, uma relação entre moderação prazerosa e empanturramento exagerado. Nos primeiros tempos da pandemia havia situações em que se passava o dia inteiro sem comer.
Assim, eu resolvi criar um hábito de um jejum prolongado, de tal maneira que eu, que eu ficava até às 18 horas em jejum. E é muito interessante porque eu não tenho a menor ideia do quanto isso faz bem ou faz mal, porque não é a minha especialidade e o meu objetivo aqui é só exemplificar o Aristóteles, né? Mas há uma coisa indiscutível: houve uma qualificação do paladar. O paladar parecia mais refinado. Sobriedade na alimentação qualificava a experiência gastronômica e o paladar parecia dar conta de nuances que em ritmos normais de ingestão de alimento essas nuances eram desapercebidas.
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Pois muito bem, no extremo oposto ao fastio, a abundância exagerada, ao empanturramento, está a insensibilidade, que é Zerar o prazer, a recusa de qualquer forma de prazer. Ora, evidentemente que aí nós caímos num extremo oposto empobrecedor da vida. A moderação, portanto, assegura uma qualificação da busca do prazer que é a única virtuosa em meio a dois exageros indevidos. Nessa temperança, o sujeito acaba se tornando pouco a pouco senhor do próprio prazer e não sua vítima, e não seu escravo.
Há, portanto, aqui na questão da temperança um elemento de domínio. A moderação da temperança permite ordenar a busca da vida prazerosa. Aliás, por meio da moderação podemos definir o alcance da vida prazerosa. A partir da definição dos seus contornos, o indivíduo deixa de ser vítima de uma busca desregrada pelo prazer, justamente porque essa busca desregrada pelo prazer vai tirá-lo do prazer. Existe, portanto, um erro a não cometer, que é o de acreditar que o enfileiramento, a justaposição e o mero acúmulo de experiências prazerosas significa mais prazer e, portanto, uma vida melhor.
Não poderíamos imaginar um gráfico com uma curva, uma, uma parábola, né? E dentro dessa parábola você tem níveis insuficientes de prazer antes da parábola, antes do pico da parábola, né, e níveis exagerados de prazer depois do pico da parábola. Então não é uma reta ascendente, é uma parábola. A temperança também pode ser analisada a partir da questão da sexualidade. Para que haja qualidade no prazer sexual, também é preciso que não haja uma privação absoluta do sexo, mas tampouco uma busca desmedida, um prazer destemperado, porque aí o corpo já não consegue mais atender às expectativas.
Há, portanto, tal como no caso da degustação, um espaço de moderação entre a ausência completa de um lado e o excesso desvairado do outro lado. É nesse espaço intermediário que você encontra a disposição virtuosa para um sexo feliz. O temperante, segundo Aristóteles, é portanto dotado de uma virtude que se materializa numa disposição para agir sempre, sempre, sempre visando a qualificação da experiência, em detrimento da sua simples quantificação ou escassez.
Há, portanto, uma sabedoria, uma sabedoria prática, uma sabedoria prática para lidar com o prazer, uma sabedoria prática hedonista. E nessa sabedoria prática, o prazer permanece sob controle do sábio, que a partir das suas decisões sabe proporcionar-se prazer na medida certa. A vida prazerosa, portanto, para ser boa, ela não depende do excesso, mas da justa medida. Essa foi a sua inédita pamonha de hoje. Um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil.
Era o que tínhamos para hoje. Muitíssimo obrigado pela sua atenção. Espero que você tenha curtido muito. No nosso próximo episódio falaremos da indignação. O tema são as virtudes de Aristóteles. Oxalá você esteja curtindo. Um beijo grande, valeu!
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