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Inédita Pamonha 309 - A rede lançada ao mar

19 de março de 202620min
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Clóvis de Barros analisa mais uma das parábolas de Jesus, refletindo sobre a humanidade e a justiça.

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Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros.

Patrocínio: Eastman Chemical do Brasil e INSIDER.

Assuntos8
  • Parábola da Rede Lançada ao MarInterpretação de Mateus 13:47-50 · Significado simbólico da rede · Inclusão universal e não-seletividade · Convivência de bem e mal · Julgamento final pelos anjos · Pluralidade e diversidade espiritual
  • Chronologia da Justiça DivinaIntervalo de tempo entre reunião e separação · História como período de coabitação · Julgamento não imediato · Recusa do pré-conceito · Separação final realizada por anjos
  • Distribuição de recursos e responsabilidadesAnjos como agentes de separação · Humanos excluídos do julgamento final · Limite da competência humana · Hierarquia de responsabilidades
  • Crítica a instituições e sistemasImpossibilidade de eliminação da mistura · Limites da razão humana · Rejeição da busca de pureza absoluta · Condenação da eugenia espiritual · Qualificação divina vs. humana
  • Heterogeneidade e PluralidadeDiversidade de peixes de toda espécie · Comunidades não-homogêneas · Coexistência de diferentes estatutos morais · Rejeição da homogeneidade espiritual · Mistura como característica constitutiva
  • Santo AgostinhoCidade de Deus e Cidade dos Homens · Coexistência até fim dos tempos · Separação final no juízo · Analogia com parábola da rede
  • Características operacionais redeNão-seletividade inicial · Captura indiscriminada · Recolhimento de tudo que encontra · Ausência de filtragem prévia
  • Parábola do Joio e do TrigoConvivência de bem e mal · Aproximação entre contrários · Mistura até colheita final
Transcrição38 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

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estamos tratando do pensamento de Jesus e agora mais concretamente das suas famosas parábolas. E é claro, nessas parábolas Jesus apresenta comparações, analogias entre o reino de Deus, que parece ser, e aí ele cita uma situação do cotidiano que faz pensar em alguma característica do reino de Deus.

começar a abordar no episódio de hoje é a parábola da rede lançada ao mar. Aparece essa parábola no evangelho de Mateus. Mateus 13, 47 a 50 e o texto bíblico ele assim consta. Abro aspas. Reino dos céus é semelhante a uma rede lançada

ao mar que apanha peixes de toda espécie. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia. Então, sentam-se, recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. Assim será o fim do mundo. Os anjos sairão, separarão os maus dentre os justos e os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dente.

Bem, a narrativa que consta em Mateus, como muitas das outras parábolas, é de texto extremamente breve, mas contém grande força simbólica. A imagem central, a figura central da parábola, o elemento que deve estar na cabeça de quem lê,

Essa parábola, de quem encara essa parábola é a rede. Não há dúvida, é a rede. E essa rede, ela recolhe, segundo o texto, tudo o que encontra. Passa a rede, pega o que pega. É um pouco diferente de uma seleção prévia, de uma pesca seletiva,

Não, aqui o pescador lança a rede e vem o que vem. Aliás, pode vir peixe, frutos do mar, pode vir tampa de panela, pode vir garrafa pet, cotonete, canudinho de plástico. Então, naturalmente que esses elementos mais contemporâneos não constam do texto bíblico.

Mas basta lembrar que quando a rede é lançada ao mar, ela não distingue previamente o que é bom ou ruim. Com ela vem tudo. Com ela vem tudo. Então, nós podemos imaginar que aí há um primeiro elemento importantíssimo a ser considerado no texto bíblico. Depois falamos o que isso pode querer dizer. Mas, por enquanto, é isso.

Então, isso significa que, segundo essa parábola, o reino de Deus, num primeiro momento, ele não é constituído apenas por entes já purificados ou perfeitos, ou elevados espiritualmente.

coisas muito diferentes, de valor muito diferente. Onde, digamos, interagem, convivem, ou pelo menos estão reunidos diferentes tipos de vida espiritual, de vida moral, etc. Então, o gesto de você lançar a rede e reunir tudo que vem na rede indica uma inclusão inicial absoluta.

Ou seja, nada escapa. Talvez a única coisa que realmente escape dessa rede seja a própria água, onde tudo isso se encontra. A água, de fato, não vem junto. O resto vem tudo junto. Então, você tem aí um primeiro elemento, que é um elemento cumulativo, é um elemento inclusivo,

onde todo mundo é colocado no mesmo patamar. Então essa é a primeira ideia. Então a gente pode dizer que essa ideia vai na contramão de outras ideias de um reino de Deus constituído por uma comunidade absolutamente homogênea, purificada, superior.

Não, a rede não captura apenas um certo tipo de vivente humano. A rede captura todos, de tudo. A experiência religiosa aqui é uma experiência de mistura e, portanto, de impureza.

inclusão e de reunião, nós vivemos num âmbito de impureza. Podemos lembrar que na parábola do joio e do trigo tínhamos também uma aproximação, uma contiguidade, uma reunião entre o bem e o mal representados pelo joio e o trigo.

Algumas implicações surgem desse tipo de reunião, porque do ponto de vista, digamos, filosófico, nós podemos identificar aqui uma espécie de cronologia da justiça, ou tempo da justiça. O juízo não ocorre num primeiro momento. O julgamento não é precipitado.

ele não é açodado, ele não é inicial, ele não é pré-conceituoso, ele não é imediato. Há, portanto, um tempo, um intervalo de tempo entre o momento que a rede reúne um pouco de tudo

pela rede serão, digamos, catalogados, serão classificados, segundo critérios próprios do reino de Deus. Então veja que aqui você tem esse intervalo de tempo, que para muitos é o próprio tempo da nossa história. É o próprio tempo da nossa história.

de intervalo cronológico de coabitação, de convivência entre diferentes estatutos espirituais e morais, muito antes de qualquer separação posterior. Então, isso faz lembrar um pouco do que nos ensinava Agostinho. Agostinho sempre nos ensinou que, na nossa história,

convivem simultaneamente no nosso mundo, na nossa realidade, a cidade de Deus e a cidade dos homens. E elas permanecem misturadas até o chamado fim dos tempos. É claro que só num momento final é que essas duas cidades encontrarão um momento de discriminação,

afastamento, de separação. A parábola da rede vai pelo mesmo caminho. A rede contém simultaneamente a cidade do homem e a cidade de Deus. A rede contém simultaneamente o joio e o trigo. A rede contém simultaneamente os peixes bons e os peixes que não prestam. Ok?

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pessoas, como tem feito. Outra questão interessante, né? É que depois que nesse primeiro momento tudo está reunido e você tem um tempo da história que é um tempo de reunião, a parábola aponta para um momento final. E esse momento final é um momento do qual os humanos participam, mas não como julgadores, né?

Existe aqui uma distribuição de tarefas muito clara por parte da parábola. Quem faz a separação, você se lembrará bem, quem faz a separação são os anjos. Então, o discernimento último, digamos, a atribuição de valor última à vida dos viventes não é realizada por humanos.

isso possa acontecer com justiça, o humano não alcança, ele não tem... A razão humana não é qualificada para esse tipo de avaliação. Portanto, há aqui claramente um obstáculo, há aqui um teto para a pretensão humana de julgar o valor das vidas espirituais e morais das pessoas.

sentido, a parábola é uma parábola claramente crítica dessa suposta higienia, dessa higienização, dessa busca da pureza absoluta, porque a parábola lembra que em tempos de história toda comunidade humana é sempre heterogênea e, portanto, a tentativa de eliminar por vias humanas

Essa mistura é uma tentativa que nada tem a ver com o reino de Deus. Você terá ainda uma terceira, digamos, característica ou aspecto dessa parábola, que me parece interessante, é que a diversidade é o elemento que surge da expressão peixes de toda espécie.

que a história no mundo é constituída pela pluralidade, pela diversidade, pela convivência entre diferentes. E o reino de Deus não surge pela eliminação dessa pluralidade, mas por uma reunião provisória, pelo tempo da história. Portanto, existe uma reunião provisória que é o mundo.

mundo em que nós vivemos. E quando for para separar, quando for para discriminar, quando for para categorizar, aí virão outras entidades mais qualificadas para fazer o trabalho. Então, vamos tentar resumir essa parada em pelo menos três momentos muito diferentes. O primeiro momento,

É o momento da inclusão, né? E esse momento da inclusão é o momento de reunião mesmo, de colocar junto aquilo que estava disperso, certo? Aí você tem um segundo momento, né? Esse momento de colocar junto o que estava disperso é operado pela rede, né? Depois você tem um momento de convivência, que é um momento de interação dos diferentes,

que permanece ao longo da história e, por fim, uma espécie de julgamento que é realizado por entidades sobre-humanas. É interessante porque esses três movimentos realmente chamam atenção. Um movimento de inclusão universal porque a rede, quando lançada ao mar, não escolhe, não seleciona, não discrimina previamente

nada, porque ela captura peixes de toda espécie. Portanto, esse gesto inicial não é nada seletivo e supomos que o reino de Deus tampouco seja sem triagem prévia. Isso nos aponta para que entendamos bem que a nossa existência humana não começa pela discriminação moral, mas pela participação

comum de diferentes em pluralidade. Todos estão dentro da mesma rede. Há, portanto, aqui uma espécie de ataque a toda concepção, um ataque crítico, digo assim, a toda concepção elitista da vida humana, espiritual e moral. Ponto de partida, portanto, é a pluralidade e não a higienia, é a mistura e não pureza. Então,

eu imagino que possamos tirar daí consequências interessantíssimas que obviamente merecerão de nós para essa parábola um novo capítulo, onde eu pretendo, digamos, relacionar tudo isso com algumas filosofias que tratam do tema e de certo modo podem nos ajudar demais da conta. A última coisa curiosa

é que no texto bíblico da parábola da rede lançada ao mar, nada consta expressamente a respeito de quem lança a rede ao mar. Tudo começa com a operação efetuada pela rede e daí para adiante.

da inteligência interpretativa de tanta gente inteligente que se debruçou sobre esse pequeno texto. Você fica bem? Um beijo grande. Espero que tenha gostado. E se gostou, volta, porque quinta-feira que vem eu termino de comentar a parábola da rede lançada ao mar. O patrocínio é da Eastman Chemical do Brasil e da Insider sempre.

passarinho me contou que um terceiro patrocinador adoraria se juntar a nós pra nos ajudar a seguir adiante. Pois seja bem-vindo devagar. Nós o tornaremos público. Valeu!

nas redes sociais.

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