#PartiuPensar 206 - Platão e o Artista
Clóvis de Barros fala sobre como Platão entendia a superioridade da filosofia em relação à arte.
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Filosofia vs Arte em PlatãoMovimento ascendente do filósofo em busca da verdade · Movimento descendente do artista rumo à ilusão · Incompatibilidade mútua entre filosofia e arte · Dupla ilusão do observador de arte · Exclusão mútua das práticas
- Filosofia e PensamentoHierarquia ontológica: ideia, percepção sensorial, representação artística · Pintura como cópia empobrecida da realidade · Afastamento da verdade através da arte · Crítica a Aristófanes e Agatão no Banquete · Arte como ilusão ao quadrado
- Teoria das ideias e o eidosEssência vs aparência · Ideia como verdade única e imutável · Participação do particular na ideia · Abstração progressiva · Caverna platônica
- Poesia e LiteraturaPoeta como afastador da verdade · Construção de pathos e emoção · Empobrecimento da atividade intelectiva · Apelo aos louros através da sensibilização · Ilusão na recepção poética
- O Papel da Fé e EspiritualidadeEducação como busca de respostas internas · Produção de pensamento vs memorização · Alma como essencial · Prioridades do corpo vs alma · Aventura íntima e pessoal
- Corpo e necessidades carnaisEscravidão às necessidades do corpo · Distração do cultivo intelectual · Prioridades materiais vs espirituais · Alma fraca dominada pelo corpo · Viver indevidamente
Partiu Pensar. Partiu Pensar. Por instantes de plenitude, potência e luz. Senhores, estamos no ar. Hoje é terça-feira. E terça-feira, além de ser dia de bife a rolê, além de ser dia de dobradinha à moda do Porto, terça-feira é dia do hashtag Partiu Pensar. E nós vamos juntos. Eu e você. Sem dar bola pra torcida.
Apenas querendo aprender a pensar um pouquinho melhor. É só isso. Estamos revendo toda a história do pensamento e estamos patrocinados pela ADV Box. Aliás, olha só, ADV Box. A ADV Box, ela tem certeza de uma coisa que eu também tenho.
que você faz, você melhorará as condições de aperfeiçoamento. E é claro que a DVBox se interessa particularmente pelo trabalho do advogado. E o trabalho do advogado é um trabalho absolutamente central, absolutamente fundamental numa sociedade como a nossa. Todos nós sabemos o quanto na nossa sociedade é perfeitamente possível,
de intervenções que mutilam os nossos direitos. E, portanto, somos muito, digamos, necessitados de um trabalho advocatício competente para que o sistema judiciário como um todo possa, com todas as dificuldades que sabemos são as suas, procurar fazer um pouco de justiça de vez em quando. Então, nesse sentido, a qualificação
do advogado e a qualificação consequente do seu trabalho são altamente contributivos para que depois, lá no núcleo da jurisdição, possa haver também uma qualificação consequente. Então, estamos juntos, a DV Box e nós. Hoje nós estamos falando de Platão e vamos tratar de um assunto curiosíssimo que é a relação de Platão com os artistas.
poderíamos imaginar que os artistas são gente de espírito elevado, assim pelo menos é o que todo mundo acha. Os artistas, eles são sensíveis e eles estão muito focados na sua arte, na sua inspiração e, portanto, são profissionais muito ligados à sua própria alma.
fazer pensar que Platão fosse admirador dos artistas e amigo dos artistas. Afinal de contas, existem aí pontos de aproximação óbvias entre o trabalho do filósofo e o trabalho do artista. No entanto, não é o caso. Preste bem atenção, não é o caso de jeito nenhum.
grandes inimigos, muitos artistas. E toda vez que ele tinha oportunidade de dar uma rebaixada em algum, ele não perdia essa oportunidade. Veja, por exemplo, no caso do banquete. Tanto Aristófanes quanto Agatão, oradores do banquete, são avacalhados durante a obra. Aristófanes sabemos, por conta da sua rixa com Sócrates.
todo mundo para a festa, tinha ganho um prêmio, estava de boa, fez lá o seu discurso, não precisava ter tomado a avacalhada que tomou por parte de Sócrates. Então, qual é, digamos, o fundamento apresentado por Platão para justificar essa rixa com os artistas?
você, assim como Platão fez, a imaginar um pintor. E o pintor, ele está pintando dentro de um quarto, assim como Van Gogh fez várias vezes lá, suas flores, seus negócios. E o pintor, ele pintou o quarto e pintou uma cama dentro do quarto. Beleza? Está lá a cama pintada a partir de uma certa perspectiva, que é a perspectiva do pintor.
apresenta a tela e Platão, então, vai dizer o que ele acha desse trabalho. E quando Platão vai dizer o que ele acha desse trabalho, ele vai, digamos, ele vai usar todas as armas. Não é que ele vai, digamos, dizer, ó, né, não sei se eu gostei e tal, de maneira moderada, de maneira diplomática, de maneira, né,
arredondada, de jeito nenhum. Isto aqui é uma desgraça. E por quê? Não se trata de analisar a qualidade do pintor na hora de pintar. Não é nada disso. É que Platão vai comparar o trabalho do filósofo e o trabalho do artista. Então, vamos imaginar que o filósofo e o artista estejam no mesmo quarto, observando a mesma cama.
Ótimo. Então, vamos botar Platão, representante maior da filosofia. Do outro lado, vamos botar, sei lá, Salvador Dali, Picasso, do lado ali. Muito bem. Então, o que vai fazer o filósofo? Ou o que deveria fazer o filósofo? Ou o que deveria fazer qualquer um filosoficamente? O que deveria fazer? Deveria, a partir da cama, que é sombra no fundo da caverna, né?
sensível, cama percebida pelos sentidos, cama percebida pela visão, cama percebida eventualmente pelo tato, cama percebida, enfim, pelo corpo, né? O que faz o filósofo? O filósofo vai buscar alguma verdade e vai buscar alguma verdade aonde no eidos de cama, ou seja, na essência de cama, ou seja, na ideia de cama, ou se você prevenir, aquilo que toda cama tem que ter
para ser uma cama. Então, ele vai partir do particular daquela cama e ele vai, num movimento de subida, ele vai acrescentando graus de abstração até chegar na ideia de cama, ou seja, a ideia a partir da qual podemos identificar qualquer cama como sendo cama. Entenda isso? Tudo que vemos pelos sentidos são uma sombra
de outra coisa. E o filósofo vai atrás dessa outra coisa. E essa outra coisa é a ideia. É o eidos. Portanto, é uma ideia única, imutável, indiscutível, indiscutivelmente verdadeira a respeito de cama e que respinga em qualquer cama. Toda cama que vemos e sobre a qual dormimos participa da ideia de cama
De uma certa maneira, é uma cópia da ideia de cama. Então, esse é o trabalho do filósofo. Ele arranca do que ele viu e vai para uma abstração em busca da verdade. Ora, o que faz o pintor? Você que está vendo, o que faz o pintor? Pois o pintor faz exatamente o contrário, ele vai no sentido contrário. Ele pega uma cama que possa ser percebida,
pelos sentidos de maneira até plural, você pode ter várias perspectivas da mesma cama, e o que ele faz? Ele engessa uma dessas perspectivas. Ou seja, ele pega a sombra e ele empobrece a sombra. Ele acanha a sombra. Ou seja, a pintura é um estágio inferior da percepção sensorial.
de qualquer um. É um mundo possível em detrimento de muitos outros possíveis. É um flagrante possível em detrimento de muitos outros flagrantes possíveis. É um, é uma tomada, é um registro possível em detrimento de muitos outros. Então, no final das contas, qual é a ideia? O pintor não só não vai em busca da verdade, que é a ideia de cama, como ele piora a vida
do observador. Porque o seu observador, pelo menos, tinha várias perspectivas e o que faz a arte afunila numa só. Então Platão acaba criando o quê? Uma espécie de hierarquia. Você tem a ideia de cama, a cama percebida e a cama pintada. Onde a cama pintada é a pior versão possível do nosso problema. Eu sou Clóvis de Barros e venho aqui
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E manter nosso conteúdo vivo para que ele continue impactando as pessoas como tem feito. Então, o que diz Platão? O artista, ele sempre faz isso. O artista, ele pega a realidade e ao invés de ir da realidade percebida dentro da caverna para a verdade do eidos, da ideia fora da caverna, o que faz o artista?
ainda mais essa realidade num flagrante único. O artista, portanto, no afã de trazer para si aplausos e no afã de agradar, o artista esvazia a complexidade do mundo percebido e com isso ele faz um grande desserviço.
ao invés de aproximar da verdade. Quer dizer, uma pessoa que não conhece nem filosofia e nem arte está no meio do caminho. Uma pessoa que só conhece a filosofia se aproxima da verdade. Uma pessoa que só conhece a arte se distancia da verdade. Se distancia da verdade. A cama pintada é realidade mais pobre
E a busca da verdade pressupõe o eidos de cama, o que significa uma elevação em relação à cama percebida. Eu acho que com isso você me acompanhou. Agora, que fique claro, isso pode ser estendido para outras artes. E por quê? Porque o poeta, não pense você que Platão poupará.
com a sua poesia. E todos aqueles que procuram obter seus louros através da construção de uma relação de patos, de emoção, de sensibilização, acabam por ter que recorrer a um empobrecimento, um empobrecimento da atividade intelectiva caminhando no sentido oposto ao sentido da verdade. De tal maneira que, para Platão,
É completamente incompreensível uma eventual iniciativa de fazer concomitantemente filosofia e arte. São mutuamente excludentes, não são farinha do mesmo saco. Não podem ser realizadas na mesma atividade, porque uma cobra uma aproximação da verdade, a outra cobra uma ilusão. Ou seja, cobra a radicalização de uma ilusão.
Por quê? Porque o observador comum, ele já acredita que o que ele percebe pela visão corresponde à realidade do mundo. Portanto, ele já é um iludido. Agora, o contemplador da obra de arte, ele é um iludido ao quadrado. Ele é um equivocado ao quadrado. Ele é duplamente equivocado.
E ele é equivocado num segundo nível mais profundo, que é o nível, enfim, da recepção da obra de arte. Vamos responder as perguntas dos nossos ouvintes. Pergunta de Rosângela Lima. Professor, se para Platão a alma busca a verdade, por que tantas vezes escolhemos o prazer imediato ou a conveniência?
escravizada pelas necessidades do corpo e vivemos, portanto, indevidamente. Ou seja, pare para pensar. Se você passa o dia inteiro pensando no que vai comer, no que vai beber, como vai se divertir, como vai ser o final de semana, com quem você vai se deitar, quais são os modos melhores para obter prazeres carnais? É evidente que acaba sobrando pouco tempo para você se elevar através dos estudos.
isso duas ou três horas de academia por dia pra trincar o seu abdômen? Fica claro que você ainda tem que dormir oito horas, porque eles mandam. É importantíssimo dormir oito horas. Agora, é tudo uma questão de prioridade. Então, muitas vezes a gente é aplaudido. As pessoas dizem que nós estamos bem porque nós perdemos massa. Ah, mas você tá muito bem. E claro, você poderia responder, minha querida, como você pode dizer se eu tô
se você não teve nenhum contato ainda com a minha alma. Ah, mas você emagreceu. As pessoas tomam o acidental e o periférico pelo essencial. Cabe a você, absolutamente instruída pelos grandes pensadores, a perceber que o mais precioso é a alma. Beijinho. Pergunta de Andréia Pereira. A educação, para Platão, tem a função de formar a alma. O que isso significa para além do ensino de conteúdos?
parte da pergunta é impecável, a educação é mesmo uma formação da alma. E veja, que fique claro, isso que você chamou de aprender conteúdos, no fundo a educação ela é um processo que te ajuda a buscar em você mesmo as grandes respostas da vida. Então, não se trata de aprender conteúdos por aprender conteúdos, mas aprender a produzir pensamento.
você diz, podem nos servir de instrumento, de ferramenta para produzir os nossos pensamentos. E aí eles serão bastante bem-vindos. Caso contrário, a educação de Platão é muito pouco conteudística, para usar um termo da moda, e muito mais voltada para uma aventura íntima e pessoal no seio da própria alma.
tem essa dimensão decorativa e memorizatória que você sugere. Você entendeu o que eu quis dizer? Eu acho que você entenderá ainda melhor se você ouvir de novo esse podcast. E aí, se você gostar, você pega alguém pela mão. Porque estamos precisando, viu? Estamos precisando construir uma sociedade um pouco mais robusta na hora de pensar.
Melhora um tiquinho, assim, do nosso jeito, pé ante pé, com a colaboração, assim, incontornável da ADV Box, que muito nos incentiva e ainda muito nos ajudará. Um beijo grande, valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clóvisdebarros.com.br
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