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#PartiuPensar 208 - Platão e a Democracia

24 de março de 202621min
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Clóvis de Barros explica como Platão concebia a forma ideal de governo para uma cidade.

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https://youtu.be/V0-raz0sfv0

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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou

Assuntos9
  • Teoria Platônica do Governo IdealGoverno de poucos competentes · Crítica à igualdade política como igualdade de saber · Ordem social como reflexo da ordem cósmica · Cada um no seu lugar segundo suas aptidões · Aristocracia como poder dos melhores
  • Filosofia e PensamentoCaracterísticas da democracia em Atenas · Restrições à participação democrática · Limitações práticas da participação cidadã · Comparação com formas anteriores de governo · Crítica de Platão ao sistema democrático
  • Morte de Personalidades NotáveisCondenação de Sócrates pela democracia ateniense · Impacto emocional na trajetória de Platão · Responsabilização da democracia pela morte do mestre · Formação da posição crítica de Platão
  • Riscos Políticos e InstitucionaisDecisões influenciadas por retórica impactante · Manipulação emocional da massa · Demagogia e demagogos · Priorização de interesses imediatos sobre bem comum · Exemplo do pirulito versus preparação militar
  • Responsabilidade PessoalTransformação da liberdade democrática em licenciosidade · Ausência de hierarquia e ordem · Domínio dos apetites sobre a razão · Desordem interna da cidade democrática · Desejo irrefragável de liberdade após oligarquia
  • Educação ClássicaEducação diferenciada segundo aptidões naturais · Identificação dos melhores pensadores · Preparação para governança · Preparação para guerra · Alocação de recursos públicos eficiente
  • Filosofia como Base para GovernançaFilósofos como os que pensam melhor · Lucidez e sabedoria na tomada de decisão · Escola de pensadores de Platão · Nunca realizado na prática · Pensamento como qualificador para o governo
  • Relacionamentos FamiliaresPlatão de família de políticos · Oposição familiar à democracia · Defensores de outros modos de organização · Diferentes visões sobre tomada de decisão · Influência genealógica nas ideias
  • Manipulação Política e Marketing EleitoralMarketing político contemporâneo · Pesquisas de opinião quantitativas e qualitativas · Manipulação de consciências e intenções de voto · Educação versus agrado do povo · Imperfeições na escolha de representantes
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Partiu pensar. Partiu pensar. Por instantes de plenitude, potência e luz. Estamos no ar, hoje é terça-feira. Ah, terça-feira. Terça-feira é ainda começo de semana. Portanto, júbilo, alegria. Temos muita semana pela frente, muita filosofia pela frente ainda nessa semana.

essa semana. Portanto, júbilo, euforia, estamos felizes e vamos falar de Platão com o patrocínio da ADV Box. A ADV Box que ajuda os advogados a advogar melhor. A ADV Box que acredita que o advogado que pensa fora da caixa costuma conseguir advogar com criatividade, lucidez e eficiência. Então, vamos em frente.

Por essa parceria, essa colaboração. Muito bem, estamos falando de Platão e hoje o nosso tema é Platão e a democracia. Eu fiz questão de abrir um episódio para isso. Por quê? Porque é preciso que as coisas sejam ditas como elas são ou como elas foram. E qual é a graça da história? A graça da história é que Atenas pariu a democracia e Atenas pariu Platão.

era exercida de modo muito diferente do que é hoje. E por quê? Porque em Atenas, a democracia era exercida pelos cidadãos. E ser cidadão ateniense não era, assim, automático. Era preciso ser ateniense nato, era preciso ser do sexo masculino, era preciso não ser nem criança e nem velho.

acabava ficando uma bolha bem limitada, sabe? E essa bolha limitada, ela, no final, por conta da combinação de critérios, ela acabava também sendo um pouco censitária, né? Não devia ter gente muito pobre, tinha uma questão de nascimento, de vínculo com famílias de Atenas mesmo, que já se conheciam, portanto, era uma democracia de patota, né?

Não há dúvida, a grande maioria ficava do lado de fora. Mas era muito diferente do que havia até então, tipo tiranos, oligarcas, que decidiam sozinhos e faziam o que queriam fazer. É muito diferente. Ali não, ali havia votação na ágora. Havia debate, havia argumento, havia discurso. É bem diferente. Não abriga todo mundo? Não, não abriga todo mundo. Mas em relação ao que havia,

Muito, muito, muito diferente. Sócrates era cidadão ateniense, Platão era cidadão ateniense e, portanto, estavam autorizados a frequentar a Ágora. Alguns momentos da Ágora devem ter sido apoteóticos, com grandes oradores, grandes argumentos, grandes debates, grandes decisões a tomar, etc. Mas no dia a dia, no arroz com feijão, tinha gente chamando o pessoal para ir ver. Vem debater aí, aparece os caras. Ah, já estou indo lá.

Viu? Me espera que eu estou chegando. Eu só vou terminar esse iogurte aqui. Eu já vou. Viu? Aí o cara vai. O cara vira as costas. Vai para o outro lado. Cara, chato. Discussão na hora da novela. Não sei o que. Então, tinha um pouco disso. Algumas reuniões esvaziadas. E aí as decisões eram tomadas por pouquíssima gente mesmo. E muitas vezes obedecendo a interesses que...

Eram interesses bem, bem, bem de circunstância, bem específicos e particulares. Bom, de tal maneira que Platão era oposição a isso. Platão era crítico disso. E não é alguma coisa que surge só da abstração das ideias, não. É que a democracia de Atenas acabou condenando à morte Sócrates,

Platão mais admirava. Então, na cabeça de Platão, que devia ter 27, 28 anos, quando Sócrates morreu, na cabeça de Platão, pô, que cidade é essa que condena a morte o seu maior sábio, o seu maior benfeitor, o cara que passou a vida inteira ensinando as pessoas a pensar? Condena o cara a morte? Então, Platão, ele colocou nas costas da democracia, com maior ou menor razão, a responsabilidade por ter matado o seu mestre.

Isso Platão não perdoou. Além disso, Platão era de família de políticos. E não eram propriamente políticos alinhados com a democracia. Eram políticos alinhados, digamos, defensores de outros modos de organização da polis, de outros modos de tomada de decisão na polis. E por isso, de certa maneira, também do ponto de vista familiar, de filiação, etc.,

outro bando. Ele estava na oposição aos democratas também por uma questão de família. Muito bem. Qual é a ideia central? A ideia central é o seguinte. O fato de uma proposta ter sido aprovada pela maioria, nada tem a ver com essa proposta ser boa para a cidade. Essa é a ideia. O fato de uma proposta ter sido votada e aprovada pela maioria dos

ali na votação, pode ser absolutamente incompatível com o que é bom para a cidade. Pode ser devastador para a cidade, pode ser destruidor para a cidade. Porque se você tem lá meia dúzia de gato pingado, a maioria da meia dúzia de gato pingado vota por uma medida alucinada, porque contaminada pelo discurso impactante de algum profissional da retórica, pronto, está tomada a decisão,

E a cidade vai por água abaixo, a cidade se esboroa e Atenas, mesmo nessa época, já estava longe dos seus momentos mais luzidios, mais pungentes. Portanto, Platão... E claro, tem aqui uma ideia que eu preciso te dizer, cara. Imagina num lugar onde só tem idiota. A maioria toma uma decisão. Essa decisão é idiota. Entende o que eu estou dizendo? Simples assim.

assim. Então, do jeito que as coisas aconteciam em Atenas, havia um enorme risco de você tomar decisões absurdas. Em função do quê? Em função do que acontecia ali, da habilidade dos oradores, etc. As pessoas decidiam, escuta, nós vamos armar nosso exército para lutar contra a Esparta ou nós vamos distribuir pirulito para as crianças? Ah, mas as crianças adoram pirulito e agora tem uma nova fábrica de pirulito e é melhor

destino pirulito, etc. E aí, pô, e pirulito é gostoso, experimenta aqui, distribui pirulito para todo mundo, e vai, pô, vamos, vamos, pirulito é a saída. E você percebeu? E aí, ficamos sem exército e chupando pirulito. Então, é claro que Platão se indignava com isso. Então, Platão considerava a democracia uma forma degenerada de governo. Na verdade, uma das formas degeneradas de governo.

surge quando a oligarquia entra em crise. E o que é oligarquia? Arque, poder, oligarquia, poder exercido por poucos. Poder exercido por poucos. Então, claro, quando a oligarquia entrou em declínio, mais gente quis participar do bolo decisório. Então, houve uma espécie de desejo de liberdade irrefreável.

E essa liberdade democrática, segundo Platão, tende a se transformar em licenciosidade, digamos assim. Cada um passa a viver como quer, ao sabor dos ventos e dos hormônios, sabe? Sem hierarquia, sem ordem, sem pôr cada um no seu lugar e assim por diante. Todos se consideram igualmente aptos a governar.

igualmente hábitos a governar, inclusive os mais alucinados, isso que é muito interessante, os mais desqualificados, os mais incompetentes, os mais descapacitados para isso. O resultado é uma cidade com muita gente decidindo, aparentemente uma grande festa, mas internamente uma zona, uma bagunça desordenada, nas quais os interesses de cada um, os apetites de cada um,

a razão e tomando as rédeas do governo. Então, existe aqui uma confusão entre igualdade política e igualdade de saber. Quer dizer, tudo bem, somos cidadãos, estamos no mesmo patamar de cidadania. Só que esse mesmo patamar de cidadania política não nos confere o mesmo patamar de lucidez e de discernimento. Razão pela qual Platão sempre defendeu a tese

de que o governo deveria ser exercido por poucos alguns aptos a isso, competentes para isso, lúcidos para isso.

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Ele venta. O vento não chove. O vento faz o que sabe fazer. O sapo sapeia. Faz o que sabe fazer. A girafa gira feia. Sabe o que sabe fazer. E a terra gira em torno do sol. Sabe o que faz, o que sabe fazer. E isso, entre nós, significa o quê? Significa que deve se colocar cada um no seu lugar. Que tem um lugar para cada um. Tem um lugar para cada um. E cada um deve fazer segundo a sua aptidão maior. Ah, mas eu...

Eu tenho a pretensão de subir, de ir mais longe e tal. Pois é, mas o problema é que é o seguinte, quer dizer, a sua pretensão, ela vale muito menos do que a organização social, a ordem social. E na ordem social é preciso que cada um exerça o seu papel de acordo com as suas competências. E se você não está apto a governar porque pensa mal,

Irrelevante. É uma pretensão irrelevante. Você curtiu isso? Eu queria muito que você curtisse isso, porque quando o poder é entregue para ser, digamos, exercido pela maioria, e a maioria é ignara, despreparada, fraca, o governo acaba se tornando refém dos movimentos emocionais da massa. O governo acaba refém da demagogia e dos seus demagogos.

emocional, o governo acaba refém da disposição afetiva do momento. Sabe alguma coisa do tipo, ah, acabaram de matar alguém de modo muito violento, isso foi mostrado na televisão, etc. Então, fica fácil advogar nesse momento, defender nesse momento, com a população impactada por esse caso específico, defender o quê? Medidas, digamos, mais truculentas contra

agressores, medidas mais... Ou seja, coisas como pena de morte, etc, etc, etc. Ou até gestos de vingança, de pagar com a própria moeda e assim por diante. Ora, é evidente que as tomadas de decisão no Estado, elas não podem estar o sabor do que acontece. Elas não podem estar o sabor da novidade do dia, da notícia da hora.

Mítico democrático, em vez de educar o povo, ele torce pela sua ignorância e se limita a agradá-lo. Vamos combinar que tudo que eu acabei de dizer aqui nos permite tirar algumas conclusões. A primeira delas é que certamente algum apressado vai dizer aí, e eu insisto que eu estou dando aqui, eu estou ensinando aqui, Platão e a democracia.

Hoje é bem outra coisa. E ninguém vai para a passa pública para decidir nada. As decisões são tomadas por profissionais da política, como você já deve ter percebido, que são representantes do povo eleitos em procedimentos eleitorais mais ou menos imperfeitos, etc. Mas é outra história. É outra história. Por outro lado, cabe a pergunta sobre a maior ou menor qualificação dos eleitores para essa escolha de seus representantes.

E cabe também uma pergunta sobre a eventual manipulação das consciências e das intenções de voto. A partir de iniciativas de marketing político cuidadosamente orquestradas, a partir de pesquisas de opinião quantitativas e qualitativas super poderosas e super bem engendradas, o certo é que nós também estamos falando aqui de imperfeições na hora.

de decidir. Agora, antes de fechar esse episódio, é preciso lembrar Platão era um aristocrata e a aristocracia quer dizer poder entregue na mão dos melhores. Aristos, os melhores. Cracia, poder. Então é claro que esse sistema de que vota quem aparece na praça ele não tem nada a ver com entregar o poder na mão dos melhores. Nada a ver. E os melhores pra Platão são

os que pensam melhor. E os que pensam melhor são chamados de filósofos. Portanto, é óbvio que Platão adoraria exercer com algum grupo de pensadores da sua escola o governo em Atena. Coisa que nunca aconteceu. Vamos responder as perguntas dos nossos ouvintes.

receber o mesmo tipo de educação. Essa ideia pode ser considerada elitista? Sim, elitista. O problema é que o conceito de elite surge muito tempo depois. Como eu disse, Platão era um aristocrata. Agora, isso é um pouco diferente do que se pensa. Platão entendia que a educação melhor deveria ser destinada aos melhores. Mas aos melhores de verdade, não é os que nasceram em família de rico.

em família de rico seja melhor. Platão queria entregar a melhor educação para os maiores. Sabe qual é a ideia? A ideia é a seguinte. Platão entendia que, por natureza, tem cara que é ruim de pensamento. Então, não adianta forçar muito. É gastar dinheiro público com quem não vai aproveitar. Tem que pegar os que são bons de pensamento e preparar para governar. Tem que pegar os que são bons de enfrentamento

e preparar para guerrear. E tem que pegar os que são bons de serviço para trabalhar e dar uma educação específica. Por quê? Porque, no final das contas, esse é o melhor jeito de alocar recursos para depois obter uma cidade com ordem, onde cada um faz o que sabe fazer, aquilo que tem mais propensão a fazer.

Ah, é muito distante, né? Você imagina que a paideia platônica dura 70 anos. Você formar um cara para pensar adequadamente é um trabalho longo. Cara, vamos combinar que os resultados rápidos do mundo contemporâneo não exigem discernimento extraordinário. Você montar um esquema para ganhar dinheiro precisa de um pouco de astúcia, de muita sorte, de variáveis de mercado favoráveis.

um monte de coisa que você tem que torcer para dar certo. E aí rola bem. Isso não tem muito a ver com ter uma lucidez filosófica extraordinária à moda de Platão. Com certeza não. É isso por hoje. Espero que você tenha gostado. Se você gostou muito, o que você faz é ouvir de novo. E se você gostou demais, convida alguém para ouvir junto com você. Pega na mão, abraça, dá um beijinho. E quem sabe ganhamos um pouco em lucidez.

estão nos próximos episódios. Não pensa que vai se ver livre de mim, não. Amanhã é quarta-feira, é dia de reflexão matinal. E, em contrapartida, a ADV Box continuará conosco. Seguirá essa trajetória dentro desse lindo estúdio. E vamos em frente. Valeu!

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