Inédita Pamonha 317 - Banalização da indiferença
Clóvis de Barros fala sobre a incapacidade de reconhecer o outro, conduzindo a reflexão sobre a parábola do Rico e Lázaro sob o olhar de outros pensadores.
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Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros.
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- Dostoievski e a ParábolaInferno como estado psicológico · Incapacidade de amar · Crime e Castigo · Os Irmãos Karamazov · Fiódor Dostoiévski
- Parábola do Homem Rico e LázaroIncapacidade de reconhecer o outro · Banalização da indiferença · Emmanuel Levinas · Hannah Arendt · Platão · Agostinho de Hipona
- Império do MalIndiferença ao sofrimento alheio · Normalização da indiferença · Hannah Arendt
- Visibilidade Trans no BrasilReconhecimento do outro · O rosto do outro · Casulo egoísta
- Desilusões AmorosasPecado como desordem no amor · Incurvatus in se · Agostinho de Hipona
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Estamos cuidando do pensamento de Jesus, estamos falando das suas parábolas e você se lembra, a parábola da vez é Lázaro e o Rico. O Rico e Lázaro era um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo e todos os dias se banqueteava esplendidamente. Esse era o Rico. Havia também um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas.
que jazia a porta do rico desejando alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa dele. Até os cães vinham lamber-lhe as feridas. Essa cena é brutal. E aí o que acontece é que morreu o mendigo e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Aqui acontece a grande inversão. A grande inversão. Por quê? Porque agora...
A parábola revela algo de profundamente inovador, ou seja, o rico é que pede socorro a Lázaro. E Abraão intervém e diz, malandro, você teve a oportunidade de reparar no Lázaro o tempo inteiro, não o fez.
Agora é tarde, o rico fala, pelo menos avisa lá meus irmãos e tal. E aí o Abraão diz, olha, não é por falta de aviso, eles têm Moisés e os profetas, eles que os ouçam. Os sinais já foram dados.
O problema não é falta de informação, é falta de escuta. É claro que hoje nós vamos trabalhar, nós já tínhamos apresentado essa parábola no nosso episódio anterior. Então hoje nós vamos tentar relacioná-la, vinculá-la a algumas propostas de interpretação e de pensamento filosófico que possam nos ajudar. Eu acho que...
E essa parábola do Rico e Lázaro é uma das mais, digamos, férteis e apetitosas do ponto de vista filosófico de todo o evangelho. Nós poderíamos dizer que é uma parábola que chama a atenção diretamente para a questão da atenção.
e da visibilidade o rico vê Lázaro todos os dias o texto deixa isso claro, Lázaro estava sempre à sua porta, portanto o problema não é um problema de não encontrar, o problema não é um problema de falta de experiência empírica
O rico não desconhece a existência de Lázaro. O problema é que o rico não o reconhece. O rico não o reconhece como alguém. O rico não o reconhece como uma pessoa. O rico não o reconhece como um outro com ó grande.
Naturalmente que isso faz pensar de cara no grande teórico de filosofia moral do século XX, Emmanuel Levinas. Porque para Levinas, a ética nasce justamente quando o outro, quando o rosto do outro rompe com esse casulo egoísta e convoca a responsabilidade.
O rosto do outro não é apenas espetáculo, o rosto do outro não é apenas percepção, o rosto do outro não é apenas o que eu vejo, o rosto do outro é algo que me vincula, é algo que me obriga.
Agora, é claro, o rico da parábola não vence esse casulo ensimesmado e egoísta e, portanto, neutraliza o rosto de Lázaro, higieniza o rosto de Lázaro. Ele o transforma numa mera paisagem, em objeto de percepção visual. O sofrimento torna-se parte de um cenário.
cotidiano e talvez aqui você tenha uma das críticas mais radicais da parábola. O mal não nasce necessariamente da crueldade manifesta, mas nasce de uma espécie de banalização, normalização da indiferença.
ante o sofrimento alheio. Naturalmente isso faz obviamente pensar, além de Levinas, faz pensar em Anna Arendt e sua reflexão sobre a banalidade do mal. O rico não é?
Ele não é monstruoso. O rico é como um carrasco nazista que, aparentemente banal, normal, cumpre ordens. O rico não assassina Lázaro. Veja, no caso da parábola, ele ainda é mais sutil do que os casos estudados por Hannah Arendt no nazismo.
O rico não agride, o rico não ofende, o rico não chuta, o rico apenas ignora. Essa banalidade do mal consiste precisamente nessa inclinação de continuar a vida normalmente, como se o sofrimento alheio fosse um detalhe.
da existência, um detalhe a mais da existência. Poderíamos dizer que isso faz pensar também em Platão, né? E na busca de uma assese, de uma elevação da alma, uma alma que banaliza o sofrimento alheio seria uma alma que perde essa capacidade de assese, de ascensão, de elevação.
ela se torna espiritualmente pesada, ela se torna incapaz de uma contemplação verdadeira. O rico, na verdade, não percebe Lázaro porque o rico não consegue perceber nada além de si mesmo.
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Eu diria que também isso faz pensar em Agostinho. E é que a relação se torna ainda mais interessante, porque para Agostinho o pecado fundamental não é simplesmente violar regras, violar normas, mas é uma desordem.
no amor, ou se preferirem, é amar desordenadamente. O ser humano se perde quando ama o que é inferior. O ser humano se perde quando dá primazia a amores por mundos de menor valor. O ser humano se perde quando vincula sua felicidade a amores pelo que é fugaz, pelo que é efêmero, pelo que é...
finito pelo que se esvai. Então, o rico ama o conforto e ama os bens materiais que lhe proporcionam esse conforto. O rico ama a abundância. O rico ama o prazer.
E ele ama tudo isso como sendo o valor máximo da vida, o topo da vida, o cume da vida. Seu coração é encapsulado, ensimesmado, voltado para si mesmo. Agostinho chega a usar a expressão incurvatus in se. Uma pessoa incurvada sobre si, uma pessoa, portanto...
Eu diria encapsulada mesmo, ela é enclausurada em torno do seu ego. E assim o inferno do rico começa antes da morte, porque o inferno do rico começa neste enclausuramento.
Ora, eu acho que o grande ponto de tangência filosófica da parábola de Lázaro e o Rico é, depois de todos esses que eu citei, você se lembrará, Levinas, Hannah Arendt, Platão, Agostinho. Mas eu queria citar...
a relação da parábola com a obra de Dostoiévski. A impressão que dá é que Dostoiévski dialoga com essa parábola. Seus livros parecem atravessados por personagens que são ricos.
do ponto de vista material e espiritualmente miseráveis, profundamente pobres. E, por outro lado, por pobres materiais, mas de espírito elevado.
Então, de certo modo, Dostoiévski destaca a existência de homens incapazes de amar e destaca personagens cuja salvação ou condenação depende dessa relação concreta, dessa relação efetiva com o sofrimento do outro.
Porque no final das contas, a preocupação de Dostoiévski parece ser muito semelhante à preocupação de Jesus. O que acontece com o ser humano quando ele perde a capacidade de reconhecer o outro como sendo um outro, com ó grande. Quando ele perde a capacidade de reconhecer uma outra pessoa como sendo outra como ele.
equivalente a ele. Em Dostoiévski o inferno aparece como muito diferente de uma simples punição externa. O inferno para Dostoiévski é sabidamente um estado psicológico interior e isso se aproxima muito do rico da parábola.
O rico talvez já estivesse espiritualmente condenado antes da morte por conta desse enclausuramento em si mesmo. Ou naturalmente que o pós-mortem apenas prolonga uma condição de condenação anterior. Nos irmãos Karamazov.
Há um discurso que é o discurso de Zóxima. E esse discurso é quase que um texto filosófico. É quase que um comentário filosófico à parábola do Evangelho. Porque Zóxima afirma...
que o inferno é o sofrimento de não poder amar, perda da capacidade de amar. O rico da parábola não sofre fisicamente, ou melhor, não sofre apenas fisicamente. O seu tormento profundo é essa perda da capacidade de amar.
Ele vive enclausurado num isolamento, numa solitária que ele mesmo construiu. Quando Abraão diz, há um abismo que nos separa, obviamente ele se refere a essa existência que o rico propôs sem comunhão possível com o outro.
Dostoiévski destaca algo de muito semelhante em seus livros. O egoísmo absoluto destrói o ser humano, porque este não é feito para existir enclausurado em si mesmo. Assim também em Crime e Castigo, Rashkolnikov.
tenta viver crendo numa superioridade individual própria, ele se considera acima da moral comum, mata porque acredita que certos homens extraordinários
tem o direito de ultrapassar limites humanos ordinários. Mas é claro que o castigo maior não é nem o policial, nem o civilizatório, nem o jurídico. O castigo maior vem da incapacidade de Raskolnikov.
de permanecer humano por romper esse vínculo moral com os outros. O crime parece destruir sua relação com a humanidade, condenando-o a uma solidão devastadora e isso faz lembrar demais o rico da parábola. Ambos, em seu enclausuramento espiritual, se tornaram incapazes de amar.
Bem, meus amigos, falamos demais da conta sobre o Rico e Lázaro. Eu gostaria que você desse a chance a Dostoiévski de embelezar a sua vida e encantar o seu espírito. E gostaria que ao longo da leitura de Dostoiévski, você mesmo ou você mesma
enxergasse os vínculos profundos que a sua obra mantém com a parábola O Rico e Lázaro de Jesus. Se você gostou disso, ouve de novo. Se você gostou, mas muito, aí você convida alguém para ouvir também. Esse foi o inédito, pamonha, oferecimento da Eastman Chemical do Brasil.
E da Insider, a sua roupa inteligente. Um beijo grande e até a próxima. Valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros.
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