#PartiuPensar 212 - Platão e o Confeiteiro
Clóvis de Barros fala sobre a preferência pelo que é agradável em detrimento do que é verdadeiramente bom — e o que isso revela sobre retórica, poder e nossas escolhas na vida.
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Platão e Górgiasretórica · democracia · julgamento · médico vs confeiteiro · prazer imediato · verdade e bem · Nietzsche · Foucault
- Importância da Matemática em Platãogeometria · justiça · beleza
- O Mal e o Bemnarrativas míticas · experiência humana
Partiu, partiu, partiu, pensar, partiu, pensar. Por instantes de plenitude, potência e luz.
Senhoras e senhores, estamos no ar! Esse é o nosso hashtag Partiu Pensar. Agora em vídeo e com o patrocínio nobre da ADV Box.
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Bem, nós estamos aqui cuidando da história do pensamento. É tempo de irmos concluindo tudo o que dissemos sobre Platão, mas não poderíamos ir embora, não poderíamos passar adiante sem mencionar um diálogo cujo título é...
Górgias, Górgias, Górgias que é um sofista, Górgias que é tido e havido como um dos maiores oradores do tempo antigo, Górgias que era um demônio na retórica.
Um monstro na praça pública. Górgias, então, é título de diálogo de Platão. E sabemos que quando Platão coloca o título no diálogo, muitas vezes ele coloca por título...
o nome do de quem dialoga com Sócrates, do contendor de Sócrates, do interlocutor de Sócrates, então aqui não é diferente Górgias é o nosso
nosso objeto de interesse hoje. E por quê? Porque num determinado momento que Platão já não mais discute com Górgias, mas com Calicles, Calicles então sentencia que se Sócrates fosse julgado num tribunal...
do povo, num tribunal democrático, ele não teria nenhuma chance, ele seria condenado. E Sócrates concorda, né? Concorda. Sócrates, então, observa que, de fato, ele não teria nenhuma chance. E ele faz uma...
E é essa comparação que vai nos interessar hoje. Ele, se você quiser uma analogia, é também uma alegoria. E ele propõe assim, que um julgamento dele num tribunal democrático seria muito parecido com um julgamento de um médico.
Processado por um confeiteiro e julgado por um tribunal de crianças. Então, nós temos aqui uma alegoria que nos toca analisar e tentar identificar alguns aspectos importantes.
Bom, em primeiro lugar, é preciso deixar claro logo de cara que Platão critica o tribunal, critica a democracia, critica o tribunal democrático e discute a sua legitimidade comparando esse tribunal a um tribunal de crianças, isto é.
indivíduos que não são os adequados para fazer esse julgamento. Muito bem, o médico aqui é aquele que propõe remédios amargos, remédios desagradáveis, tratamentos eventualmente...
dolorosos para o bem de um paciente, presumido aqui na história. E, naturalmente, que o confeiteiro, por outro lado, propõe um outro tipo de dieta.
Uma dieta recheada de guloseimas apetitosas, de coisas gostosas de comer, geradoras de um prazer imediato e assim por diante. De tal maneira que nós temos aí uma contenda entre o médico e o confeiteiro, ambos julgados por um tribunal de crianças.
E embora isso não seja explicitamente dito no diálogo, o que Sócrates sugere é que se ele não tem nenhuma chance, o médico também não tem nenhuma chance e o confeiteiro triunfará. Porque quem vai julgar a parada é um tribunal de crianças. Crianças que ignoram o que é o bem, né?
Ignoram a verdade das coisas e, portanto, estão à mercê desse tipo de sedução, desse tipo de ilusão oferecida pelo confeiteiro.
Ora, é preciso deixar claro aqui, quer dizer, Sócrates busca a verdade sobre as coisas da alma, o médico busca a verdade sobre as coisas do corpo. O médico sugere remédios desagradáveis, dolorosos, amargos, ruins de tomar para o corpo melhorar em nome do seu bem e Sócrates também.
oferece, digamos, tratamentos, remédios e procedimentos desagradáveis para o bem da alma. Então há aqui um paralelo entre...
O papel do médico na história e o papel de Sócrates na história. Ora, o confeiteiro, ele oferece apenas o que é mais prazeroso na imediatidade do instante vivido.
E o que é mais prazeroso é mesmo a guloseima, ainda que ela seja geradora de taxa glicêmica elevada, de obesidade, entope as veias, diminui expectativa de vida, etc, etc. Ela, de fato, traz um prazer imediato com as suas guloseimas.
Observe que aqui há uma espécie de proposta, de sugestão, que é o seguinte, em muitos tribunais, aparentemente sérios, aparentemente definidores do que é justo ou injusto numa determinada sociedade.
E nesses tribunais acaba triunfando o pior argumento, no caso o do confeiteiro, por conta do despreparo dos avaliadores, dos julgadores, daqueles que têm a última palavra na hora de sentenciar ali quem tem razão.
Pois muito bem, é preciso lembrar que esse tipo de proposta que opõe a reta razão...
aos prazeres do corpo, esse tipo de proposta típica do pensamento platônico nem sempre recebeu o aplauso dos pensadores subsequentes. Então nós poderíamos aqui destacar alguns para que isso possa ficar mais claro.
Um deles é Nietzsche propriamente, que denunciará o médico como sendo alguém que possivelmente propõe um protocolo existencial supostamente saudável.
mas que é rebaixador da intensidade de vida, rebaixador da potência, rebaixador das forças vitais positivas.
Então, existe esta possibilidade do médico, com a aparência de racionalidade da sua proposta, ele agir no sentido do rebaixamento da vida e, portanto, ele ser tão nocivo quanto é o confeiteiro. Observe bem, Nietzsche não está aqui para defender o confeiteiro.
Nietzsche está aqui para defender a vida potente. E a vida potente poderá ser outra que não a do confeiteiro e outra que não a do médico. E por quê?
Por entender Nietzsche alguma coisa de muito interessante, que é nessa fronteira entre o normal e o patológico, entender que os estados vitais, o flagrante das forças vitais que regem a vida de uns e de outros, o flagrante destas forças vitais, e o flagrante das forças vitais.
é um flagrante que é específico de cada um. E, portanto, Nietzsche denuncia um protocolo de doença que seja generalizável, que sirva para qualquer um.
Então, aquilo que é doença para um, porque é profundamente apequenador das forças vitais, poderá não ser doença para outro, porque não lhe apequena as forças vitais, muito pelo contrário.
Então Nietzsche proporá que o que importa é identificar, no caso específico de cada vivente, aquilo que é potencializador da vida e aquilo que não é potencializador da vida. E isso não passa necessariamente pelo respeito a um protocolo genérico de doença ou pelo respeito...
aos prazeres das guloseimas de ocasião, mas que seja respeitador da especificidade, da equação anímica, das forças específicas de cada um dos viventes. Então, essa é...
uma primeira questão interessantíssima. Portanto, Nietzsche problematizando a lógica do confeiteiro proposta por Platão.
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Um segundo ponto crítico desta alegoria poderá ser apresentado por Michel Foucault. E qual é a ideia aqui? Não é mais uma questão de busca da vida potente, não é mais esse o objeto central, mas é entender que o médico...
que até poderá fazer algum tipo de bem para o seu paciente, ele é porta-voz legitimado por uma instituição, num quadro institucional definido, e que, portanto, ele está ali em nome de uma equação de poder, onde ele exerce, digamos, ele participa de uma disputa pela legitimação dos discursos.
e ele é porta-voz de um discurso legítimo, de um discurso autorizado, de um discurso de verdade, e portanto ele, por conta disso, exerce um poder definindo o que é verdadeiro e falso, definindo o que é normal e o que é patológico, definindo o que é são e o que é doentio. Portanto, aqui...
Foucault também proporá que o médico poderá ser tão nocivo quanto o confeiteiro. Por quê? Porque, no final das contas, o ponto nevrálgico para ele é a manutenção de um certo estatuto de poder, que é o poder exercido em nome...
de um discurso legítimo, de um discurso de verdade, de um discurso chancelado por todos e, portanto, um discurso que tem tudo para ser um discurso de submissão. Ora, é...
Perceba então que a questão do confeiteiro e do médico, apresentada por Platão como sendo o médico vítima das crianças e portador da verdade e, portanto, detentor de um certo bem, o confeiteiro beneficiado pelo julgamento das crianças, mas portador de ilusões e de sedução e, portanto, alguém do mal. Ora, haverá quem não entenda isso desse modo tão simples.
Dois que não concordariam são Nietzsche e Foucault. Vamos responder as perguntas dos nossos ouvintes.
Respondendo então às perguntas, pergunta do Tales, qual é a importância da matemática no pensamento de Platão? Bem, quando nós falamos em matemática no mundo antigo, nós falamos de geometria, que fique claro.
Conforme aqui no nosso podcast nós já dissemos, em tempos de Pitágoras, sequer havia algarismo. E a álgebra só assumirá a sua relevância, a relevância que ela tem hoje, muito tempo depois.
Então, estava escrito ali na porta da Academia de Platão, não entra aqui quem não sabe geometria. Ora, é preciso lembrar que Platão não veio ao mundo sem uma história prévia, né?
O mundo já estava rodando quando Platão apareceu. E naturalmente que Platão era um estudioso do pensamento antigo, do pensamento que, digamos, o antecedia, do pensamento que não era o dele. E naturalmente que ele se deu conta que para falar de formas perfeitas, para falar do mundo das ideias,
para falar do eidos, para falar de um certo desprezo pela percepção empírica, para falar de um certo desprezo pela sensorialidade, etc., ele tinha que buscar, digamos, nichos de pensamento onde...
as coisas eram inequivocamente verdadeiras, tinham assim uma aparência de indiscutibilidade que deveria servir de referência para todas as demais reflexões. Então, a título de exemplo, para você entender, Tales, se você...
aceita que num triângulo retângulo o quadrado da hipotenusa corresponde à soma dos quadrados dos catetos em qualquer tempo, em qualquer lugar, em qualquer época, em qualquer pessoa, em qualquer circunstância, em qualquer história, em qualquer geografia, em qualquer coisa, existe aqui uma realidade indiscutível no triângulo retângulo.
O quadrado do lado maior corresponde à soma dos quadrados dos dois lados menores. Ora, isso significa que se eu consigo esse nível de certeza na geometria, eu poderia pretender também um nível de certeza semelhante ou equivalente em outras questões, como por exemplo, o que é a justiça ou o que é a beleza.
Então, eu deveria buscar uma definição tão segura, tão indiscutível, tão universal, tão absoluta, quanto é o teorema enunciado. Então, é por isso que a matemática, a geometria, tem aqui uma relevância imensa. A L.
A Eli, que é apoiadora nossa, muito obrigado Eli pela sua iniciativa, muito obrigado por nos ajudar, a Eli Chadarevian. Portanto, supomos que haja aqui uma ancestralidade armênia, Eli.
Ela diz, se houve algum momento da história humana em que o bem esteve 100% presente, o que explica o mal? Ou será que, considerando Platão, o mal não passa de uma percepção distorcida da sombra do bem? Olha, Elie, sua pergunta é ótima, né? Porque é evidente que...
Você parte de uma premissa, se houve algum momento da história em que o bem esteve 100% presente, naturalmente essa é uma premissa que já merece aqui a nossa avaliação. Eu obviamente não tenho como cravar, mas tudo me faz crer que esse bem 100% presente, ele é muito próprio.
de narrativas míticas, de narrativas criadas pelo humano, como eventualmente o Jardim do Éden, como Adão e Eva, e outros mitos de bonança absoluta, de convivência maravilhosa, paradisíaca, exemplar, tudo funcionava perfeitamente, tudo era maravilhoso. Mas esse...
Essa idade de ouro a que tanta gente se refere é sempre remetida a um passado que não é propriamente histórico, mas é lendário, é mítico, etc. Então, claro, a partir daí...
você passa a integrar o mal na existência e na experiência humana e surge a necessidade de enfrentar esse problema, né? E, naturalmente...
enfrentar o problema do mal é tanto mais necessário, quanto mais nós nos damos conta dessa assimetria entre o bem e o mal. Ou seja, o mal é infinitamente mais marcante na nossa vida do que o bem. O mal é infinitamente mais claro na nossa vida do que o bem.
A título de exemplo, se alguém vê alguém em dificuldade e ajuda, sempre poderá ser acusado de não passar de um egoísta cavando um lugar na vida eterna. Então, sempre poderá haver uma suspeita a respeito daquilo que é supostamente bom. Agora, o mal...
A violência contra um recém-nascido é indiscutivelmente mal, não há dúvida. Enquanto o mal me parece absolutamente indiscutível, o bem é sempre passível de um nariz torto. Então, é um problema que deve ser enfrentado, mas é claro, é um problema que sempre foi enfrentado com muita dificuldade pelos grandes pensadores.
ok? Então, Thales L, obrigado pelas perguntas até a próxima, valeu
Eu espero que você tenha gostado. Se você gostou, você pode acompanhar novamente o episódio. E se você gostou demais, você faz o seguinte. Você convida alguém que possa gostar também. Nós estamos juntos com a ADV Box. E agora, só semana que vem, quando continuaremos a nossa saga pela história do pensamento. Um beijo grande. Valeu!
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