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Inédita Pamonha 312 - Prática da palavra

09 de abril de 202630min
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Clóvis de Barros fala sobre a sedimentação de hábitos que, segundo o pensamento cristão, aproximam os humanos do paraíso.

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Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros.

Patrocínio: Eastman Chemical do Brasil e INSIDER.

Participantes neste episódio1
C

Clóvis de Barros

HostJornalista, escritor, filósofo e professor
Assuntos1
  • Poder das PalavrasParábola da casa na rocha · Aristóteles e ética · Agostinho e amor · Kierkegaard e existência
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Começa agora Inédita Pamonha. Por instantes felizes, virginais e irrepetíveis.

Senhoras e senhores, estamos no ar, este é o meu, seu, o nosso inédita pamonha. Um oferecimento da Eastman Chemical do Brasil e da Insider, a nossa roupa inteligente.

Pois muito bem, estamos falando do pensamento de Jesus e estamos tratando das suas parábolas. No nosso último episódio, nós começamos a abordar a parábola da casa na rocha. Ou da casa sobre a rocha. E é claro...

Essa parábola tem um texto e nós vamos retomar esse texto porque uma semana se passou e você pode ter se esquecido dele. Nós vamos aqui já direto ao evangelho de Mateus, de São Mateus 7. E vamos lá. Todo aquele, abre aspas, todo aquele.

Pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa que não caiu porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia.

E caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa e ela caiu. E foi grande a sua queda. Bem, algumas consequências imediatas a gente pode...

Resumindo um pouco o que a gente falou no nosso último episódio, existe aqui uma comparação entre dois indivíduos que construíram a sua própria casa. Um o fez sobre a rocha, outro o fez sobre a areia.

Até um determinado ponto era tudo meio parecido, mas aí vieram as tempestades e a primeira casa da rocha ficou de pé, a segunda casa da areia essa ruiu. Pois muito bem.

A comparação proposta por Jesus é que quem constrói a casa sobre a rocha ouve a sua palavra e a pratica. Quem constrói a casa sobre a areia ouve a sua palavra e não a pratica. A diferença, portanto, não está no ouvir, mas está no praticar. Portanto, existe um primado da prática sobre o discurso.

A verdade aqui não é uma verdade conhecida, ouvida, discursiva, conceitual. É uma verdade praticada, portanto, uma verdade existencial. Há aqui uma clara unidade proposta entre o conhecer e o praticar.

entre o conhecer e o viver de acordo com o conhecimento. Portanto, há uma denúncia da cisão entre o conhecimento e a vida. Uma denúncia como sinal de fragilidade. O indivíduo que só conhece e não pratica, este, na primeira turbulência, este vai ao solo.

Um outro detalhe importante, durante um certo tempo tudo parece igual, tanto faz na rocha ou na areia.

tanto faz praticar ou não praticar, mas é na dificuldade, é na intempérie, é na tempestade, é na dor, é na devastação que a diferença entre a casa na rocha, isto é, a prática da palavra, e a casa na areia, isto é, a não prática da palavra, se faz sentir.

Existe aqui, portanto, um chamamento a um tipo particular de responsabilidade. É uma responsabilidade em relação à própria vida.

que tem a ver com esta prática. Pois muito bem, nós vamos então agora propor o que tínhamos prometido no nosso último encontro, isto é, um aprofundamento. E a primeira relação que me ocorre é mesmo com Aristóteles. Porque para Aristóteles a questão ética mais relevante é que ela já é presente.

não é conhecer o que é o bem, ou seja,

Nesse sentido Aristóteles se contrapõe a Sócrates, ao chamado intelectualismo socrático, porque para Sócrates quem conhece de verdade o que é o bem não age mal, para Aristóteles não. Para Aristóteles a pergunta central é...

Como nos tornamos bons conhecendo o que é o bem? Ou seja, não basta conhecer o que é o bem, é preciso ainda tornar-se bom.

E para tal, propõe Aristóteles, essa vida virtuosa, ou seja, tornar-se bom, se dá por meio do hábito. Enquanto não houver hábito, não rola. Portanto, é o que ele chamava de etos. É o hábito que implica uma certa repetição.

uma certa repetição que num primeiro momento ela é deliberada, ela é objeto de vontade e depois ela molda o caráter. Vamos retomar o exemplo que eu sempre dou, porque a repetição, está vendo como Aristóteles é um defensor da repetição, que ele chama de exis, né? Fazer exercício físico é bom, muito bem, mas há quem tenha mais dificuldade para fazer exercício físico.

Então, como é que você inclui o exercício físico na sua vida? Por hábito. Muito bem. Como é que a coisa acontece? Num primeiro momento, o hábito não existe ainda. Então, você é obrigado a forçar uma certa repetição na base da vontade, da decisão. Hoje eu tenho que ir, hoje eu tenho que ir, hoje eu tenho que ir e tal.

Até o momento que você começa aí sem precisar de estudo. Você vai por hábito. E é aí que você se tornou bom. Agora, claro, fazer exercício físico é só um exemplo. Isso aí vale para as questões morais. Como é que você se torna honesto? Num primeiro momento, você tem que parar para pensar.

num segundo momento você não precisa nem pensar mais. Então, tem uma coisa que não é sua dando mole, você gostaria de ter, não precisaria pagar e tal. Como que age o homem bom? O homem bom não pega o que não é seu e não precisa nem parar para pensar, ele não precisa nem se esforçar, ele não precisa nem nada, ele simplesmente não pega por hábito.

Mas num primeiro momento isso foi objeto de uma decisão que se repetiu, que moldou o caráter.

A parábola tem muito a ver com o que eu acabei de explicar de Aristóteles, porque você pode ouvir a palavra, mas praticar a palavra, ou seja, o plano do caráter, da formação do caráter, pressupõe a repetição.

a exis do Aristóteles. Então, é o que Jesus está falando. Não basta você saber o que é certo, é preciso fazer o que é certo. Portanto, a casa sobre a rocha é a metáfora do fazer o que é certo.

Por que a metáfora é interessante? Porque a casa sobre a rocha está falando do fundamento da casa, o fundamento da construção civil da casa, da estrutura da casa. E o caráter é estruturante da vida do espírito, o indivíduo que tem o caráter bom.

ele agirá bem, mesmo sem precisar pensar muito a respeito. Portanto, tanto para Aristóteles quanto para Jesus, ninguém se torna virtuoso apenas por ter entendido a virtude.

torna-se virtuoso praticando atos virtuosos até que eles se tornem, por assim dizer, uma segunda natureza. Por que segunda natureza? A primeira natureza, imagina, a primeira natureza são as coisas que você tem por natureza que obviamente determinam a sua vida sem que você tenha que pensar sobre isso.

a tua altura, a tua cor de pele, a tua voz. Quando você vai falar, você fala com o timbre de voz que é o teu. Essa é a primeira natureza.

A segunda natureza não nasceu com você, mas ela pode ter, digamos, uma participação na tua vida semelhante à primeira natureza. Por quê? Porque você, do mesmo jeito que na hora de falar não precisa pensar para decidir qual é o timbre de voz, porque o timbre de voz vai sair e é aquele, assim também a honestidade pode virar uma coisa desse tipo.

você vai agir honestamente porque tal como o timbre de voz é o que é.

incorporou-se. Portanto, construir sobre a rocha equivale a sedimentar e incorporar hábitos sólidos. E construir sobre areia é viver na instabilidade, é não saber na hora H o que tem que fazer, é estar à mercê dos afetos de ocasião, né? E os afetos de ocasião...

são os desejos do momento, o que está na moda, o que o outro espera que você faça, o que quem está olhando vai achar, e tudo isso, claro, torna a tua vida muito frágil. Aristóteles chega a distinguir entre o homem continente, e o homem continente a cada problema ele tem que se esforçar para agir virtuosamente.

e o homem virtuoso, que é aquele que por hábito já incorporou o que deve ser feito. Portanto, a casa na rocha implica uma vida sem nenhum esforço para ser bom, porque é uma vida boa por hábito.

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Agora, o segundo ponto que eu prometi, né?

Agostinho, né? E Agostinho tem uma ideia central que nos ajuda muito aqui. Por quê? Porque Agostinho vai nos ensinar que toda a vida humana, essa nossa vida que você e eu vivemos, é uma construção de fato.

Mas não é uma construção cujo tijolo, a unidade constitutiva são ideias. As ideias não é o que mais importa. O que constrói a vida, aquilo que é usado para construir a vida, aquilo que constitui a vida, são, por assim dizer, nossos amores.

Então, quando amamos devidamente, a nossa vida tem fundamento. Quando amamos indevidamente, a nossa vida não tem fundamento. Então, nesse sentido, aqui a gente sai do Aristóteles, questão do hábito.

e a questão do não hábito, e a gente entra no Agostinho, questão do amor, digamos, correto, o amor certo, e o amor de segunda classe, o amor inadequado.

Qual é o amor de primeira classe? O amor de primeira classe é o amor por aquilo que é eterno. Porque, claro, se você ama o que vai desaparecer, você está em maus lençóis, vai ficar com um amor sem objeto.

Por outro lado, se você ama aquilo que não desaparece nunca, você está em bons lençóis, porque o que você ama durará para sempre. Portanto, ora, fica claro que o amor que importa ter na vida é o amor pelo eterno, por Deus.

Quando somos apegados ao que é efêmero, aí a vida começa a ficar frágil. Portanto, construção na rocha, amor por Deus. Construção na areia, amor pelo efêmero. Amor pelo que desaparece. Portanto, veja que a diferença aqui é uma diferença afetiva. É uma diferença de tipo de amor.

poderíamos até arriscar, é uma diferença de qualidade de amor. Quem constrói na rocha ama bem, quem constrói na areia ama mal. Agora, um elemento que para Agostinho é fundamental é a questão da tempestade. Porque, claro...

E do mesmo jeito que para Aristóteles quem tem o hábito resiste melhor à intempérie do que quem não tem o hábito, para Agostinho quem ama bem resiste melhor à intempérie do que quem ama mal. Portanto, aqui a comparação é sempre no momento de devastação, ou seja, está todo mundo ciente que não adianta você ser quem for, vai em algum momento...

coisa vai ficar difícil e é quando a coisa fica difícil é que você consegue identificar quem está preparado e quem não está preparado. Agostinho, ele acha, ele vai nos sugerir que a tempestade da píbula de Jesus simboliza

Exatamente a perda, a morte, a instabilidade do mundo, mas também a passagem do tempo. Agostinho é muito preocupado com a questão do tempo, conforme a gente já falou várias vezes nas Confissões do Livro 11. Quem constrói sobre a areia confia no que é efêmero.

e, portanto, se dá mal. Quem constrói sobre a rocha, esse confia no que não passa. Portanto, não precisa nem... O que eu estou tentando te dizer aqui é que não precisa nem acontecer alguma coisa de desgraçado mesmo, de miserável.

de devastador. A mera passagem do tempo já é suficiente para derrubar a casa da areia. Por quê? Porque é o amor pelo passageiro, é o amor pelo passageiro, pelo efêmero, pelo que se desgasta, pelo que se corrompe, pelo que morre, ao passo que quem ama o que é eterno, esse pode passar o tempo que for.

Eu queria acrescentar um elemento aqui no Agostinho, que me parece fundamental, que é uma diferença que ele estabelece entre a vida exterior, ou seja, as nossas relações com o mundo, e a vida interior, ou seja, o que chamamos da vida do espírito.

E por que aqui é relevante isso? Porque quando Jesus diz, você ouve e não pratica, então nós estamos estritamente na vida exterior. Ouvi. Agora, quando você ouve e pratica, é porque aquilo que veio de fora teve na vida interior o devido tratamento, o devido encaminhamento.

Então, o que está sendo proposto aqui é que a vida do espírito é uma vida, digamos, interessada pelo que vem de fora, mas é uma vida capaz de converter em prática os bons ensinamentos. O homem da rocha, portanto, é aquele que interioriza, assimila, transforma.

converte sabedoria em prática. Aqui é verdade, portanto, ela não é só objeto de aprendizado, ela é um tipo particular de iluminação na alma que permite a transformação do indivíduo, permitindo-lhe praticar. Portanto, a gente poderia dizer que para Agostinho,

Há aqui um problema a considerar. O problema não é a ignorância, porque você ouviu a palavra, você sabe a palavra. O problema é o que ele chama de fraqueza da vontade. O indivíduo sabe qual é a palavra, sabe qual é o bem, mas não faz. De novo, aqui Agostinho.

vai na contramão também do intelectualismo socrático junto com Aristóteles. Na parábola, os dois ouvem, os dois sabem, só que apenas um deles pratica, portanto tem uma vontade transformadora. Construir sobre a rocha é um ato de vontade transformador.

Finalmente, seguindo o cardápio proposto no nosso último episódio, eu queria propor uma pequena incursão pela interpretação da parábola feita por Kierkegaard, ou, como dizem os dinamarqueses, Kierkegaard, que leva essa parábola, eu diria, a um nível existencial mais...

radical, assim como diz Agostinho para Kierkegaard, o grande problema não é a ignorância da verdade, o grande problema é o adiamento, a procrastinação, é você adiar, converter a palavra em vida, em existência, você adia a vida segundo a palavra.

Existe, portanto, aqui uma imperfeição, como se fosse uma ilusão. É você ouvir, compreender, admirar, reconhecer, louvar, repetir, cantar, cultuar, mas ainda assim não mudar.

É isso que é construir sobre a areia. Aqui, a parábola se inscreve perfeitamente numa espécie de triângulo proposto por Kierkegaard sobre a vida humana, porque Kierkegaard fala no nível estético, no nível ético e no nível religioso da vida humana. Ora, o homem da areia é aquele que vive na estética.

na superfície, naquilo que é interessante, naquilo que é apetecível, naquilo que é aprazível, naquilo que é confortável. Ele vive no discurso, ele vive na eloquência, nas pequenas emoções. Já o cara da rocha dá um salto.

Ele converte aquilo que ele ouviu numa prática. É claro que Kierkegaard vai aproximar a tempestade como da angústia, do desespero, mas ele não entende que essas coisas sejam acidentais na vida, como nós poderíamos imaginar. Ele entende que...

A tempestade é constitutiva da vida, ela é inerente à vida. Portanto, não se trata de ficar esperando o acaso proporcional, uma desgraça. Não. Isso vai acontecer. Mas não é isso o mais importante. O mais importante é que a tempestade...

O vento a que se refere Jesus não é circunstancial e episódico, mas é intrínseco à vida, nos acompanha o tempo todo. Portanto, não se trata propriamente, no caso de Kierkegaard, de evitar a queda quando a tempestade vier, mas desenvolver uma qualidade de espírito?

que permita lidar com os males sem desmoronar o tempo inteiro. A gente poderia propor até um paralelo, porque se para Aristóteles a verdade se torna hábito, para Agostinho a verdade é o amor por Deus,

Para Kierkegaard, a verdade é um tipo particular de existência. Se para Aristóteles a virtude é a repetição de uma prática, para Agostinho a virtude é o amor, para Kierkegaard a virtude é decisional, a virtude resulta de uma decisão.

uma decisão de viver de um certo jeito.

Se Aristóteles coloca a ênfase na formação do caráter, Agostinho coloca a ênfase na qualificação do amor pelo eterno, Kierkegaard coloca a ênfase no salto existencial, que nos tira da simples superfície da estética e nos coloca na ética e na religiosidade. Se para Aristóteles...

a responsabilidade ética é a de se tornar bom pela prática? Para Agostinho o que importa é amar a Deus? Para Kierkegaard o que importa qualificar a existência? Superando a epiderme do que é lúdico, do que é facilmente percebido?

do que é agradável, do que é afetuoso, do que é simplesmente discursivo, e nos coloca num outro patamar de responsabilidade existencial, sobre o qual um dia podemos vir a falar. Então eu penso que com isso aqui nós concluímos a análise da parábola da casa sobre a rocha,

E concluímos dizendo que, independentemente do que te parecer mais correto de tudo que nós dissemos, o certo é que para Jesus a verdade não é propriamente aquilo que você escuta, mas é aquilo que dá sustentação à sua vida quando tudo desaba. Trata-se de converter.

conhecimento em prática e essa é a diferença entre construir na rocha e construir na areia.

Pois muito bem, eu espero que tenham gostado. Essa foi a nossa pamonha de hoje. Patrocínio eterno da Eastman Chemical do Brasil e da Insider, a roupa que te serve bem. Espero que você tenha gostado. Se você gostou, ouve de novo. Se você gostou muito, convida alguém para ouvir também. É linda a parábola. Quinta-feira que vem tem mais. Continuaremos com o pensamento de Jesus.

Valeu! Este conteúdo foi trazido até você pelo Espaço Ética, a assessoria oficial do Clóvis de Barros. Para mais informações sobre cursos, livros e palestras, acesse clóvisdebarros.com.br e siga o professor nas redes sociais.

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