#PartiuPensar 210 - Platão e o Cosmo
Clóvis de Barros fala sobre a ordem do universo segundo o platonismo.
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Edição & Sonorização: Murilo Lourenço @murilou
- Felicidade e propósitoDefinição de bem · Hierarquia dos prazeres
- CosmologiaCosmos como organismo vivo · Integração no cosmos
Partiu, partiu, partiu, pensar, partiu, pensar. Por instantes de plenitude, potência e luz.
Senhoras e senhores, estamos no ar. Este é o nosso hashtag Partiu Pensar. Um oferecimento generoso da ADV Box. Olha, o tema...
de hoje, é Platão e o Cosmo ele será honrado, mas eu cortei o nosso episódio anterior sobre o prazer de forma abrupta e eu
Acabei não tendo tempo de falar de um último diálogo que Platão escreveu e que tem o prazer como noção central, que é o filebo. É o filebo. Aliás, se você perguntar na rua...
Qual é o diálogo que Platão trata do prazer? Se eu era nove de cada dez, responderão o Filebo, claro, o Filebo. Como é que eu poderia falar sobre o prazer em Platão sem mencionar aquele diálogo que é mais reconhecido como temático desse assunto? Então, vamos ao Filebo. No Filebo, Platão reflete sobre o que é o bem. Sobre o que é o bem.
E, é claro, você imagina que nós estamos já em níveis de abstração bastante elevados, porque você parte de um primeiro degrau onde você vai colecionando particulares interessantes, coisas boas, coisas bonitas, coisas agradáveis.
A música é legal, o doce de abóbora é legal, o livro é legal, o podcast é legal. Aí você pega e diz, nossa, um monte de coisa pode ter valor positivo. Aí você sente a necessidade de abstrair, porque é preciso ter certeza que isso aí é mesmo legal, isso aí é do bem.
Então é preciso encontrar definições que possam, de certo modo, abranger tudo isso que nos parece bom. E assim Platão avança, avança, avança na reflexão e no final ele se pergunta se o bem é um prazer ou uma inteligência.
E a resposta no filebo é sutil e fina mesmo, no sentido de dizer que o bem não é o prazer em si. O bem não é o prazer em si. Tampouco é a causa desse prazer.
O bem é uma reunião. O bem é uma reunião. Toda vez que os gregos usam o prefixo sim, eles juntam. Síntese. Sempre com sim é reunião como sinopse. Então, é uma reunião. E, claro, o bem seria uma reunião.
E é uma reunião interessante, porque nessa reunião há uma mistura ordenada, ou seja, sabe, com proporções adequadas. Numa equação você tem X mais...
2Y mais 3Z mais 24W é igual a... Então há pesos e medidas diferentes, né? Mas o bem é uma mistura ordenada de inteligência, de medida, medida no sentido de...
de moderação no sentido de nada de mais nem de menos, né? Nem de menos, né? É uma reunião de inteligência, de medida, de verdade e de certos prazeres, de certos prazeres. Ora, eu imagino que você se dê conta de que Platão incluiu na definição abstrata de bem certos prazeres.
Agora, que prazeres serão esses? Platão, então, se apressa a discriminar prazeres impuros, né? Ligados à sua insustentabilidade, ligados à dor. Então, a título de exemplo, para poder ter prazer mandando para o bucho abaixo uma feijoada, é preciso ter sentido fome antes, né? Para poder ter prazer enchendo o bucho de limonada, é preciso ter muita sede antes, né?
E depois, claro está, que esse prazer não é sustentável, depois de uma certa quantidade de feijoada você não aguenta mais, você não aguenta mais isso, não aguenta mais. E para ter a mesma dose de prazer, você vai precisar da mesma carência com mais estímulo. Então não tem nada de sustentável.
E ele compara isso com os prazeres puros, como os prazeres da contemplação, os prazeres decorrentes da vida do espírito, os prazeres... Por que da contemplação? Porque a ciência, para os gregos, ela tinha um método contemplativo, dado que a verdade científica estava inscrita na ordem das coisas. O Enquanto...
o trabalho do cientista moderno é um trabalho de síntese e ele juntar lé com cré, o trabalho do cientista grego é um trabalho contemplativo, porque a realidade, a verdade precisa ser apenas descoberta, ela já está ali pronta para ser contemplada, portanto existe aí uma contemplação e um prazer que lhe é correlato.
né corralar prazeres puros de contemplação de harmonia de inscrição na ordem cósmica de intelecção de matemática de geometria de beleza formal e assim por diante muito bem
Esses prazeres puros, eles não têm aquela insustentabilidade dos impuros. Você não precisa ficar seis meses sem estudar matemática para ter prazer com o teorema.
E você não precisa de estímulos maiores para ter o mesmo prazer de ontem. E como se não bastasse, é claro, a gente poderia dizer que esses prazeres puros são infinitamente mais certos, confiáveis do que os impuros.
Então, nesse sentido, o prazer acaba dependendo de uma espécie de conversão da alma. E a única coisa que me falta dizer aqui de relevante é que o prazer, e mais do que o prazer, a hierarquia dos prazeres...
é uma referência pedagógica muito relevante para nós. Ou seja, se você aprende a ter prazer com o que é bom, se você aprende a ter prazer com o que é do bem, se você aprende a ter prazer puro, se você aprende a ter prazer consequência da tua intelecção e da tua capacidade de abstração, você cada vez mais buscará esse prazer, que por sua vez será indicativo.
de uma vida boa. Por outro lado, se você vincular a sua felicidade a prazeres impuros, vai levar uma vida de vício e desgraçada. Era o que me faltou dizer do nosso encontro anterior, rapidinho passado, passemos então ao que nos falta propor. Isto é a questão do Cosmo para Platão.
Nós estamos, não vou mentir para você, concluindo aqui a nossa varredura do pensamento de Platão, não é? E claro está que essa varredura, ela poderia ser multiplicada por um milhão e ela estaria ainda lacunosa, faltante e pobre. Porém...
Como o nosso objetivo maior é treinar o pensamento e Platão é para nós um nobre pretexto a mais para treinar o pensamento, então estamos perdoados, pelo menos parcialmente, por tanta lacuna. Vamos em frente, o cosmo no pensamento de Platão. Bem, o que é o cosmo? O cosmo é o universo, o cosmo é o todo.
O Cosmo para os gregos e para Platão é um todo ordenado, não é? Finito, com começo, meio e fim. E, portanto, ele não é um mero agregado de coisas. Ele não é uma mera reunião de partes. Ele não é uma reunião circunstancial de elementos. Nada disso.
Ele é muito mais do que isso. Da mesma maneira que um motor de carro não é uma reunião casual de peças, o cosmos não é uma reunião casual de elementos. Ele é um todo ordenado, ele é um todo vivo e ele é sobretudo um todo compreensível pela razão.
Olha que loucura. Talvez você pudesse levar isso em conta. O universo é um organismo vivo. O universo é um organismo vivo.
Aí você vai dizer, mas eu quando olho para o céu, vejo muito mais só vazio e tal. Tem uma estrelinha aqui, outra lá e tal. Só vazio, né? Isso aqui não tem a menor cara de ser um organismo vivo, da gente estar dentro de um organismo vivo, né?
Eu me atreveria a dizer que se você pudesse entrar dentro de você, veria que também tem muito vazio, viu? Por onde circulam um monte de coisa que não poderia circular se não fosse o vazio, como gases, etc. Então, não sei, teu argumento é estranho. E você é um organismo vivo, e o universo é um organismo vivo.
Claro, e se você for mais chato ainda, você vai ver que tanto o universo quanto você são constituídos por átomos, e o átomo é quase só vazio mesmo, não é de se admirar que você olhe para o céu e veja vazio, mas o que você chama de vazio, para começar aqui, já tem aí uma camada de atmosfera pesada aí, que você chama de vazio porque você é...
ruim de perceber visualmente as coisas, beleza? Então, bora lá. O universo, ele é, ele é finito, ordenado, vivo e inteligível. Finito, ordenado, vivo e inteligível. E eu acrescentaria escuro, frio e velho. Mas isso sou eu que falei e você pode descartar. O universo é um organismo vivo.
E é claro que, como sempre acontece com Platão, tem algum diálogo onde ele vai se dedicar mais a tratar desse ou daquele tema. E esse diálogo aqui é o timeu. É no timeu que Platão cuida da questão do cosmos.
É interessante porque a mesma palavra que dá conta do universo também dá conta de ordem, também dá conta de ordenação, também dá conta de harmonia, também dá conta de beleza, não é? Então, veja só.
O mundo é chamado de cosmo justamente porque ele participa de uma organização, de uma ordem racional. Então, eu acho que aqui ficou bacana de você entender. E nós, dentro desse cosmo? Nós, dentro desse cosmo, somos parte.
E, portanto, devemos existir como parte. E existindo como parte, nós devemos integrar. E, integrando, nós devemos ajudá-lo a viver.
Nós somos organismo no interior de outro organismo. Nós somos vida no interior de um organismo vivo maior do que nós. Um cosmo que é belo porque ele é todo simétrico, ele é todo harmonioso. Ele é ordenado porque ele segue medidas e proporções e relações matemáticas. E ele é inteligível porque ele pode ser conhecido pela razão.
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Muito bem, no Timeu, Platão conta que um demiurgo, um demiurgo. O que é um demiurgo? É um Deus, né? É um Deus. O demiurgo é um Deus. E no Timeu, você tem ali um demiurgo que seria uma espécie de artífice, né? De artesão, de construtor, né?
Agora, que tipo de criação é essa? Eu acho que isso já bastaria para nos alegrar. O criador demiurgo do platonismo não é o criador divino do cristianismo. Não é. E por que não é? Porque...
O demiurgo, ele vai criar alguma coisa de original a partir da ordenação do que já existia. É mais ou menos como um inventor.
Todo inventor pega uma coisa aqui, pega outra coisa dali, pega outra coisa de lá e, de repente, põe tudo junto e faz existir uma coisa que não existia antes. Mas as partes reunidas, sim, já existiam. Portanto, ele não é um Deus que tira tudo do nada. Não.
O demiurgo não tira nada do nada. Ele tira tudo do que já existia tudo. Só que ele reordena, reorganiza, faz existir de um jeito diferente. E ele faz isso a partir...
de um manual de instrução que é o mundo das ideias. O mundo das ideias sempre existiu e o demiurgo pega o mundo das ideias e usa de referência.
para ordenar as partes do cosmos, partes essas que já existiam. Portanto, de certa maneira, o demiurgo estabelece uma ordem diante de um cenário de desordem ou de caos.
Então, havia ali matéria, havia coisas, realidades, e o demiurgo, estabelecendo uma ordem, faz existir o que não existia a partir do que já existia. Portanto, isso ele o faz à imagem do mundo das ideias.
Então, veja que aqui há um paralelo a propor. Enquanto Deus teria feito o homem à sua própria imagem e semelhança, o demiurgo, e teria feito o homem e a mulher...
O demiurgo, ele não é como o deus cristão, ele não tira do nada, ele simplesmente reordena e tem como referência, não a si mesmo, mas ao mundo das ideias. Portanto, de certo modo, o demiurgo tem um manual de instrução que lhe precede, que lhe antecede e que se impõe a ele, que se impõe a sua vontade.
E que determina que ele trabalhe daquele jeito. Então, quando o Demiurgo faz o cosmos, ele faz o cosmos, eu diria, para dar uma materialidade àquilo que antes era só uma idealidade, era só eidos.
Por isso, ora, quando você se dispõe a conhecer o mundo e fazer ciência, nada mais relevante do que conhecer da onde o demiurgo tirou aquilo. Qual é o guia? Você vai lá numa loja de móveis desmontados e você compra o móvel desmontado, aí vem o que? Vem o manual de instrução com a fotografia.
De como ele fica depois, encaixa aqui, encaixa ali, encaixa lá. O mundo das ideias é a referência que o demiurgo usa para fabricar o mundo sensível. Ficou claro isso? Isso é muito, muito, muito interessante. E eu imagino que você deva entender que graças ao demiurgo, você foi...
Do mundo inteligível para o mundo sensível. E o que é que Platão espera de nós humanos? Que façamos o caminho contrário e que abandonemos o mundo sensível, essa submissão ao mundo sensível e nos voltemos para o mundo inteligível da onde o Demiurgo nos fabricou. Tá certo?
O demiurgo, ele é bom, nesse sentido não há problema, e por isso ele quer que tudo seja o melhor possível, e portanto o mais semelhante possível ao que é ideal. E assim o mundo se torna ordenado e belo.
Finalmente, o mundo é dotado de alma. Ele é vivo e ele é dotado de alma. Ele é um grande organismo vivo. Então, de fato, o cosmo de Platão, ele pode ser assemelhado a um organismo vivo qualquer, onde o estômago cumpre o seu papel, o intestino cumpre o seu papel, o baço cumpre o seu papel.
e aí tudo funcionando bem o organismo funciona bem, se alguma parte claudicar, o organismo começa a funcionar mal, porque todos dependem de todos todos tem um funcionamento interdependente isso
no nosso interior, isso também no universo, o universo como organismo vivo precisa do bom funcionamento de cada um de nós, o que pressupõe uma vida adequada para cada um de nós, e não é uma vida adequada segundo a nossa perspectiva de passar bem obrigado é uma vida adequada em função da perspectiva de integrar-se a harmonia do cosmos não é?
integrar-se à harmonia do cosmos. Então, é disso que se trata. Vamos responder às perguntas dos nossos ouvintes.
Silvia Maria, nossa apoiadora querida, quer saber como é que podemos nos soltar sem ter receio de perguntar. Silvia, Silvia, há um grande problema, que é uma preocupação excessiva com o que os outros vão achar ou pensar de nós, e essa preocupação pode se traduzir numa espécie de medo, sabe? E o medo, você imagina as pessoas.
debochando de você e aí essa imagem ela te entristece, aí você não quer que essa imagem vire realidade e aí você pensa qual é a melhor maneira para que isso não aconteça e aí você abre mão de se manifestar.
Então, aí o problema, porque acabou que você gostaria de ter falado, gostaria de ter perguntado, gostaria de ter a tua dúvida esclarecida, mas você, por medo, permaneceu calada. Quantas e quantas vezes isso nos acontece a todos nós. Aí é preciso ter um certo treinamento, uma certa casca, viu? Uma casca para você, digamos...
No caso de alguém dizer alguma coisa, você não se deixar entristecer tanto. É preciso ter casca. É preciso ter uma certa blindagem, uma certa coraça. No sentido de aguentar o tranco. Porque, claro, é desagradável mesmo quando alguém...
Diz coisas ruins a nosso respeito, faz ironia, faz gracinha. É desagradável mesmo. Mas a gente tem que ter condições psicológicas de reverter esse quadro. Uma delas é uma espécie de apreço por você mesmo que você tem. E que isso te permite dar uma banana para eventuais impertinentes que queiram te ofender. Beleza?
Pergunta do Igor Yamashita. Sobre as cartas que Platão escreveu, muitas delas são consideradas espúrias segundo os historiadores da filosofia. Nesse caso, a hipótese seria de que os autores seriam também discípulos de Platão? Igor, as cartas.
Há controvérsia mesmo, você tem razão, não é? E aí, claro, a gente fica um pouco sem saber, porque se elas são apresentadas como de um autor A. Ora, se elas não forem desse autor A, o fato delas terem sido apresentadas como do autor A,
acabou impedindo durante muito tempo a investigação sobre quem seria o verdadeiro autor B. Agora, como elas, embora tenham, do ponto de vista formal, algumas diferenças, que para quem entende disso são muito significativas, de estilo, de maneira de construir o discurso, etc. Do ponto de vista filosófico, elas guardam alguma coerência e alguma riqueza.
E, portanto, como o nosso objetivo é aprender a pensar, assim, se é exatamente de Platão ou de alguém que ouvia Platão falar, para nós é menos importante do que o pretexto, que é o pretexto de pensar melhor.
Ficamos por aqui hoje. Muitíssimo obrigado pela sua atenção. Espero que tenha gostado. Se gostou, ouve novamente. Se gostou, muito. O que você faz é simplesmente compartilhar. Nos ajuda demais.
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