Episódios de § Literatura Brasileira & Memória Cultural

Cruz e Aurora de Fagundes Varella

22 de agosto de 2026
Muito antes de Apollinaire com seu “Le cheval”, Fagundes Varela, em 1878 figurou com letras esta Cruz, em sua coleção “Cantos religiosos”.

AURORA

Antes de erguer-se de seu leito de ouro,

O rei dos astros o Oriente

inunda

De sublime clarão;

Antes de as azas desprender no espaço,

A tempestade agita-se e fustiga

O turbilhão dos euros.

†

As torrentes de idéas que se cruzam,

O pensamento eterno que se move

No levante da vida,

São auras santas, arrebóes esplendidos,

Que precedem à vinda triumphante

De um sol immorredouro.

†

O murmurar profundo, enrouquecido,

Que do seio dos povos se levanta,

Annuncia a tormenta;

Essa tormenta salutar e grande

Que o manto roçará, prenhe de fogo,

Na face das nações.

†

Preparai-vos, ó turbas! Preparai-vos,

Rebatei vossos ferros e cadêas,

Algozes e tyrannos!

A hora se approxima pouco a pouco,

E o dedo do Senhor já volve a folha

Do livro do destino!

†

Grande ha-de ser o drama, a acção

gigante,

Majestosa a lição! Luzes e trevas

Luctarão sobre os orbes!

O abysmo soltará seus tredos roncos,

E o frêmito dos mares agitados

Se unirá aos das turbas.

†

Os reis convulsarão nos thronos frágeis,

Buscando embalde sustentar nas frontes

As úmidas corôas…

Debalde!… o vendaval na fúria insana

Os levará com ellas, envolvidos

Num turbilhão de pó!

†

Vis, abatidos, o fidalgo e o rico

Sairão de seus paços vacilantes

Nos podres alicerces…

E errantes sobre a terra irão chorando,

Mendigar um farrapo ao vagabundo,

E um pedaço de pão!

†

Estranho povo surgirá da sombra

Terrível e feroz cobrindo os campos

De cruentos horrores!

O palácio e a prisão irão por

terra,

E um segundo diluvio, então de sangue,

O mundo lavará!

†

O sabio em seu retiro, estupefacto,

Verá tombar a imagem

da sciencia,

Fria estátua de argilla,

E um pallido clarão dirá que é perto

O astro divinal que às turbas míseras

Conduz a redempção!

†

Como aos dias primeiros do universo,

O globo se erguerá banhado

em luzes,

Reflexos de Deus;

E a raça humana sob um céo mais puro

Um hymno insigne enviará, prostrada

Aos pés do Omnipotente!

†

Irmãos todos serão; todos felizes;

Iguaes e bellos, sem senhor nem pêas,

Nem tyrannos e ferros!

O amor os unirá n’um laço estreito,

E o trânsito da vida uma romagem

Se tornará celeste!

†

A hora se approxima pouco a pouco;

O dedo do Senhor já volve a folha

Do livro do destino!…

Ergue-se a tela do theatro immenso,

E o mysterio infinito se desvenda

Do drama do Calvario!

Luiz Nicolau Fagundes Varella ((1841-1875)

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural

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