592: Erva Brava, de Paulliny Tort
Arthur Marchetto, Anna Raissa e Igor Oliveira Neves se reúnem em mais um episódio do Clube de Leitura 30:MIN e, desta vez, discutem "Erva Brava", de Paulliny Tort. Eles vão falar sobre a estrutura do conto, estilo, a construção de um microcosmo e outras impressões de leitura.O episódio anuncia a próxima leitura do clube: "Te dei os olhos e olhaste as trevas", de Irene Solá
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- Erva Brava: Coletânea de ContosPaulliny Tort · Coletânea de contos · Prêmio APCA · Prêmio Jabuti
- Construção de Buriti PequenoMicrocosmo da cidade · Estrutura dos contos · Conexão geográfica · Mudanças sociais e econômicas
- Os Imortais de Paulliny TortPrecisão vocabular · Construção de imagens · Linguagem poética sutil · Fugindo do óbvio
- Rios voadores ciclo hídricoApocalipse de Buriti Pequeno · Legado da cidade · Comparação com Cem Anos de Solidão · Comparação com Tieta
- Análise de personagens e temas em ficçãoO Mal no Fundo do Mar · A Mulher do Pombo · Má Sorte (Silo) · O Sino · Mandiocal
- Próxima Leitura: Te Dei os Olhos e Olhaste as TrevasIrene Solá · Estilo narrativo · Folclore catalão
Um breve aviso antes da gente começar o episódio: a gente teve um problema na captação do som, então vocês vão ver alguns ruídos de fundo, vão ver que tem uma diferença na faixa de áudio da Ana, mas tudo sob controle, tá? A gente pede só um pouquinho de paciência e um pouquinho de compreensão antes do episódio, tá bom? Boa discussão para vocês, a gente se vê na próxima semana. Está começando mais um 30 Minutos, a sua melhor alucinógena de literatura.
Eu sou Arthur Marqueto, estou aqui com Ana Raíssa e Igor Oliveira Neves. Pra gente falar de Erva Brava, uma coletânea de contos da Pauline Torte, que a gente leu no clube de leitura no mês de junho aqui do 30 Minutos em 2026. É uma coletânea bastante interessante. Tivemos algumas impressões divergentes no grupo de gostar ou não, o que que as pessoas mais gostaram ou menos gostaram, mas ninguém desgostou do livro. Então acho que é uma boa leitura que trará bons apontamentos e boas discussões por aqui, e a gente fala mais delas depois da sessão de recadinhos.
Opinião, recomendações, curiosidades e muito mais. Está no ar mais um 30 Minutos, sua meia hora alucinógena de literatura.
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Todas as mulheres do Mas Clavel, propriedade nas montanhas da Catalunya, e a elite testemunharam o passar dos séculos e compartilharam uma maldição: a ausência. Narradora de atmosferas, Irene Solá, nesta obra retoma seu estilo marcante, um deslumbre para o leitor, e continua seu projeto artístico lastreado no folclore, nas tradições e na história da Catalunya, especialmente do ponto de vista feminino. Entendeu os olhos de olhar-se às trevas?
Entre lobos caçadores, fantasmas e bandoleiras, um pacto lendário estende seu reflexo sombrio sobre gerações de mulheres da mesma família. A gente comenta este livro no primeiro sábado de agosto, dia 1, que é efetivamente o primeiro sábado, e a gente espera vocês pra ler. É um livro curtinho, bastante interessante. O Igor acha que ele vai gostar porque tem pactos fálsicos.
Tem pacto que eu gosto.
E a gente retoma eles com vocês. Para acompanhar, passar impressões de leitura, se quiser compartilhar com o episódio, você pode apoiar a gente pela Orelo, www.30min.com.br, o 30 numeral, 3-0-M-I-N, ou pode baixar a Orelo no seu celular e usar. É um tocador de podcast que também facilita para gente, porque lá cada player remunerado, você ouve, a gente recebe, você não gasta nada. Além disso, para apoiar financeiramente sem puder, né, comprometer, se não puder comprometer a sua renda mensalmente, é só fazer um Pix de qualquer valor para Pix @treinamim.com.br.
Muito bem, agora vamos lá. Pauline Torte é uma escritora de Brasília, ela é jornalista, tem também um mestrado em comunicação. Erva Brava é o primeiro livro de contos dela, ele foi vencedor do prêmio APCA, né, o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, e foi finalista do Prêmio Jabuti em 2022. Apesar de ser o primeiro livro de contos dela, não é o primeiro livro dela, O primeiro livro dela é um romance que ela escreveu em 2016, Allegro Manontrópolis, que foi publicado pela Editora Oito e Meio, foi semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura.
O livro mais recente da Pauline Torte é Os Imortais, um romance em que ela tem ali uma proposta de repensar como seria a linguagem ali feita num período ali dos neandertais. Ele também tem uma questão bastante interessante de estilo que a gente vai falar aqui do trabalho dela, mas hoje a gente vai falar de Erva Brava, essa coletânea contos são contos que envolvem principalmente uma cidade que ela busca construir ali, que é Buriti Pequeno.
Então são 12 contos que trabalham na construção desse microcosmo. Se ela consegue fazer essa construção ou não, a gente vai debater neste espaço. Eu já digo de antemão que para mim ela consegue sim. E antes da gente aprofundar isso, então eu vou pedir Para Ana começar falando o que que ela achou, como é que foi a experiência de leitura.
Vou adiantar meu voto, assim como o Arthur, de que eu gostei. E eu tenho quase certeza que ela pensou nesse livro como uma coletânea já, provavelmente, porque ele funciona assim. Se a gente parte do princípio desse microcosmo, porque eu acho que Individualmente, alguns contos, se você não souber que ele é parte dessa, desse microcosmo, eles não se amarram dentro dessa história porque não tem uma localização. Mas isso não é um demérito, tá?
Eu fiquei pensando muito nessa questão da escrita como se fosse fascículos ali, esses contos, e eles funcionam sozinhos. Não quero dizer que não funciona, mas dentro desse microcosmo, para você entender que é tudo naquela mesma cidade, naquele— eu acho que você tem que ler o livro naquela ordem sabendo disso. Assim como o Arthur, eu fiquei muito impressionada com a escrita da Pauline. E quem já me ouviu em outros espaços falando de como eu gosto da escrita, de observar a escrita, já me ouviu falando como é bom para mim enquanto leitora quando eu percebo que cada palavra ali foi pensada, sabe?
Hoje em dia eu acho que é por isso que eu não me dou muito bem com fluxo de pensamento, porque eu tenho um apreço pelo texto trabalhado que eu não acho que do jeito que saiu da sua cabeça tá bom não. Tem que ser ali, ó, martelado. Ela faz umas, uma Ela tem uns trechos muito bem trabalhados, assim, muito nada sobra. E não quer dizer nem que é simples e nem que é rebuscado. Não chega a ser aquelas facadas do Hemingway, que é assim, ó, sujeito, verbo, objeto, acabou, tal.
Não, mas é um trabalho do texto mesmo. Também não chega a ser o Guimarães Rosa, que rebusca e que tudo ali é reconstruído. Ela tem um, eu achei uma escrita muito própria, eu gostei, eu fiquei com vontade de ler outra coisa dela para perceber como que ela fez isso antes ou depois, assim, eu gostei bastante dos contos em si, em conjunto, vocês já sabem que eu gostei muito, individualmente eu gostei muitíssimo, muitíssimo assim. O Igor gosta menos de conto que eu, mas então eu já fui na tendência de gostar porque eram contos.
Contos.
Já falei assim, e fiquei pensando, o que vem aí? O que Igor terá para reclamar de serem contos, para achar ruim, para preferir que fosse poemas? Não sei, vamos saber agora.
Sempre que eu vou para um livro de contos, eu vou com baixas expectativas, porque eu tenho problemas com contos. Não que eu não goste, odeie contos, né? Inclusive, eu fui relembrando, eu lembro, eu gosto de vários livros de contos, mas não gosto de outros vários. Um problema que eu tenho com, às vezes, com texto, que eu acho que eles sai de nada para lugar nenhum, antes que eu, enfim. Mas, né, eu falei, não, vou ler esse livro aqui.
E o que me chamou atenção é que ele passaria na mesma, na mesma cidade. E aí eu tive a impressão inicialmente de que esses contos iam se interligar de alguma forma. Isso não acontece assim de forma— acontece assim, né, você vê uma citação aqui, ali, dá curiosa, né, a gente vê algumas coisas, mas essa ligação entre os contos não acontece. Mas não é um demérito É só uma coisa que eu achei que ela faria, ela não faz, tá? Uma coisa que a Ana falou e que eu tava falando com o Arthur antes é como a escrita dela é uma escrita precisa nesse sentido mesmo, que ela falou da que ela não floreia.
E aí eu fiquei, eu falei para o Arthur, né, ela não tem uma poética barata tipo Walter Ugumay, com todo respeito a quem goste, né? Eu acho que eu fui pesado aqui, mas assim, ela não tem essa, essa, né, ela tem momentos poéticos bonitos Eu acho que eu falei do, como que é o nome do conto, O Mal no Fundo do Mar, que ela fala sobre pegar um pente, né, que ela vai se pentear, só que ela não fala vai se pentear, ela acorda o pente amarelo que estava dormindo na pia.
Olha que coisa bonita, mas não é excessivo que fica em todo momento, ela fica insistindo nessa imagem poética assim, ela é muito precisa com as falas, com as palavras que ela usa. Eu falei que é a mesma sensação que eu tive quando eu leio a Mariana Salomão Carrara. Eu acho que a Mariana é um pouco mais poética, mas as duas têm esse domínio da língua que eu tenho inveja. Eu queria conseguir escrever assim, eu conseguiria conseguir colocar as palavras nessa ordem, porque é só palavras, né?
Você coloca palavras em uma ordem, mas assim, elas conseguem fazer de uma forma que me dá muita inveja. Eu falei, putz, eu queria saber fazer isso, eu não consigo. Por isso que eu sou leitor e elas são escritoras.
Ai, também agora estou invejosa.
Eu vou aproveitar, tentar fazer uma junção das as perspectivas de vocês. Pensando nessa ideia de Buriti pequeno, nessa construção de um espaço, eu fui num primeiro momento pensando em algumas narrativas de conto, coletâneas de conto, que eu acho que dialogam muito com o que a Ana falou. Assim, são coletâneas que a gente já vê que são pensadas como uma coletânea, né, que elas vão de alguma maneira comentar sobre alguma temática, sobre algum ponto, sobre alguma questão, sobre um espaço, né?
São coletâneas que falam como coletâneas, é o que eu tô querendo dizer, né? Que elas são pensadas desse jeito. E quando eu vi a ideia do Buriti Pequeno, a expectativa, né, pensando no que também foi trabalhado no grupo, que foi trabalhado nos comentários também do Telegram e do Igor, eu fui com uma ideia de que o que ela ia propor ali poderia ser uma espécie de álbum de fotografias, né? Sei lá, se a gente fosse fazer um retrato, um ensaio de alguma cidade, não necessariamente a gente vai ter foto com os mesmos personagens cruzando, né?
Se eu tirar uma foto aqui no bairro da minha casa, do centro de Santo André e da estação de trem, eu não vou ver as mesmas pessoas necessariamente, não serão histórias que se interligam necessariamente. Então eu fui nesse espaço de conhecer o Buriti pequeno com essa perspectiva: ela vai tirar algumas fotos, cada conto ali é uma foto, e eu vou conhecer um pouco da rotina dessa cidade por meio dessas escolhas, né? Por que que ela tá fotografando esse modelo, essa casa, né?
Então a gente tem dois primeiros contos que vão que me parecem um pouco por esse caminho, né? Então a gente tem ali o Ternuricrack, que vai apresentar essas figuras na beira de um rio. A gente vai ter depois, em seguida, o Cabelo das Almas também, que vai fazer uma outra perspectiva de apresentar a cidade. A gente vai ver ali a ideia da carroça, da mudança. Depois a gente vai ter aquele conto do sino, que vai mostrar a igreja.
Então ele não tá necessariamente, ela não tá ali necessariamente construindo uma coletânea, É que vai trabalhar um pouco sobre isso, né? Então, sei lá, a gente não tem essa citação direta, mas a moça do caminho, ela vai ver a missa. Provavelmente a missa que ela vê é naquela igreja que a gente conhece no terceiro capítulo. Talvez sim, talvez não. Não é o relevante ali, não é esse cruzamento. A gente tá habitando aquela cidade, vai construir aquela cidade de alguma forma.
Eu não senti essa necessidade de cruzamento. Além disso, O que eu tinha de expectativa e de conhecimento da Pauline nos outros textos, na crítica, no que circulava dela por aí, era a maneira com a qual ela trabalhava a linguagem. Acho que eu comentei isso no primeiro episódio de chamada para esse livro, principalmente dos Imortais ali, do meu interesse em ler, de como ela trabalha a linguagem. E eu acho que ela tem um exercício peculiar de como ela faz essa escolha, né?
Para mim, se eu fosse colocar um mérito dela é um mérito de estilo, porque eu acho que ela consegue fazer isso muito bem, né? Enfim, pros ouvintes assíduos da série de pente, quando a gente pensa em estilo, a gente tá pensando não necessariamente do que acontece na narrativa, não necessariamente de quais questões estão sendo discutidas ali, é uma questão de escolha de palavras, de quais figuras de linguagem ela usa, como é que ela organiza o léxico, a gramática, por que que ela tá usando ternura e não carinho, enfim.
São essas escolhas que estão relacionadas ao estilo. E ali eu acho que ela faz escolhas muito boas. Ela consegue escrever de uma maneira sucinta e direta, que a Ana descreveu, ao mesmo tempo em que ela consegue trabalhar essa coisa poética que o Igor descreveu. E isso ela faz por meio específico de uma escolha de palavras muito curiosa. Eu até marquei aqui no termo Unicrack como tem particularidades que ela coloca na descrição daquelas pessoas, daquelas cenas, que eu falo, cara, por que que a gente tá usando essa palavra?
E isso enriquece muito o tipo de trabalho que a gente tá fazendo. Tá fazendo, né? E como isso enriquece também a descrição que ela faz dos personagens, né? Então um dos trechos que eu coloquei aqui, por exemplo, é: parecem que vêm os cidadinos pela televisão, personagens de uma novela antiga. E aos cidadinos, eles parecem saídos de um filme de terror, repulsivos, cadavéricos, cobertos de chagas. Que é uma perspectiva que ela faz de como as pessoas da cidade enxergam os usuários ali na beira do rio, e os usuários vendo essas pessoas E ao mesmo tempo marcada por uma coisa que o Igor citou, que eu não tinha percebido, que é essa modernização da cidade, né?
Então ela tem aqui, ao mesmo tempo, uma figura de linguagem que vai estar ligada com a questão do televisivo, do tecnológico, ao mesmo tempo em que ela escolhe palavras como, por exemplo, chagas e citadinos, que são palavras muito específicas, são palavras, né, que demarcam um pouco dessa construção da cidade, do passado, enfim. A figura da igreja vai ser uma figura importante ao longo do texto. Então acho que ela foi muito feliz nessa construção de estilo, eu fiquei muito satisfeito com o que eu buscava do estilo dela e do que eu encontrei na coletânea de contos.
E aí, acho que para começar, eu queria ouvir do Igor também uma perspectiva que ele colocou, e aí depois a gente volta para Ana, de como você viu, como você entendeu a organização da coletânea, que você falou aqui há pouco tempo para mim, da ideia de que para você a coletânea tem duas partes, até dois focos. Eu não tinha lido por esse lado e eu acho que é uma leitura bastante interessante. E se vocês quiserem comentar, a Valéria também perguntou se ela acha, por exemplo— não entendi muito bem a pergunta.
Uma fofoca que rodaria a cidade e o outro é algo que impactara a cidade? Não, eu imagino que ela tá pensando das histórias que contam nos contos e se elas iam—
é que eu acho que ela tá se referindo à Mulher do Pombo e o Silo.
Ah, sim, entendi. Então ela rodaria a cidade, mas a gente não sabe os círculos sociais daquelas pessoas. Talvez é uma fofoca que rodou no círculo específico e não um com o outro. Ele não é uma questão obrigatória. A gente pode fazer essa suposição. A gente também não tem um recorte temporal. A gente não sabe se o que acontece em um conto tá acontecendo antes ou depois daquilo. A gente não tem como saber se aquilo que a gente tá ouvindo, uma fofoca, aconteceu 10 anos ou 20 anos depois de um conto, ou 15 anos antes.
A gente também não tem essa, essa construção. Por isso que eu não acho que deveria ou não. A gente tem, é isso que a gente tem na proposta, e a gente pode pensar. Não tô dizendo que é uma expectativa errada ou Ah, mas é porque assim, algumas marcações temporais ali também, ou marcações espaciais, ou marcações de personagens, não dão essa certeza de que, poxa, se essas duas pessoas se conhecem, por que elas não tão falando de tal coisa?
A gente tá supondo uma logística de funcionamento, que pode ser assim ou pode não ser, né? Mas se vocês quiserem comentar isso também depois do que o Igor falar, acho que vale a pena pensar na coletânea da cidade, na construção desse espaço de Buriti agora, nesse primeiro bloco, pra gente saber o que funciona, o que não funciona, as expectativas, enfim.
Para mim, aí eu, quando eu penso no livro e quando eu fui ver a sequência dos contos, né, eu imaginei esse livro dividido em duas partes. Uma primeira focada nas mudanças da cidade. Então ela queria mostrar uma cidade em mudança, né, que vai mais ou menos até o Carne de Paca ali, né, que você tem contos que vão girar em torno de uma nova situação na cidade, né? Então você tem as drogas chegando, você tem a mudança do ambiente rural com a chegada da energia, com a mudança do agronegócio, com essa mudança, você tem o subemprego, não que não existisse antes, mas um novo tipo de subemprego, né?
Por exemplo, as pessoas que vão desentupir os silos. E aí até a carne de vaca, que é a chegada de pessoas que vão fazer camping, né? Que vão acampar ali. Então pra mim, até esse momento, a gente tá olhando situações. Né, uma cidade em mudança, uma cidade em conflito com o seu passado, né. Por exemplo, o sino, que agora não precisa mais de sino, você tem uma sirene e vai, né. E aí, a partir do Santíssimo, eu acho que a gente começa a focar mais em personagens.
Não que esses primeiros contos não tinham personagens, obviamente, né, mas assim, eles não é— para mim eles não eram tão focados nos personagens. Mas a partir do Santíssimo, a gente tem mais, não tanto as mudanças na cidade. Tudo bem que você tem a Mulher do Pongo, que é um conto para mim um dos highlights do livro. O pombo enquanto elemento civilizatório, para mim assim, que sacada engraçada! Eu leio, toda vez que eu lembro desse ponto eu dou uma risada sincera assim, porque nossa, parece que eu tô lendo inclusive um conto do Machado assim, uma ideia muito machadiana, eu imagino, o pombo enquanto elemento civilizatório.
Mas enfim, né, mas para mim a partir desse momento aqui a gente tem esses personagens né, O Matadouro, O Casal, O Matadouro não, né, o conto Matadouro, né, sobre a— esqueci o nome da personagem. Enfim, O Mal no Fundo do Mar, que você tem aquela personagem, né, que a gente vai acompanhar o dia dela, que para mim é o melhor conto do livro, o mais bem escrito para mim. Enfim, então para mim o seu livro é dividido nessas duas partes, inclusive no último.
E aí acho que a discordância do Arthur E aí eu também fiquei pensando, será? Porque eu falei, para mim o último personagem é a cidade, a cidade que se destrói, né? E aí eu acho que o Arthur não concorda. E aí também não sei se eu consigo defender meu ponto depois do que ele falou. Então vamos ver quais são os argumentos dele.
Eu não tava fazendo nenhuma defesa, nenhum ataque, é porque eu não tinha lido o conto por esse viés. É que quando eu penso em personagem Eu tô pensando em alguém que tá movendo a narrativa, né? E ali a gente tá vendo um espaço em decadência por conta da colonização e da civilização— colonização não, né? Da civilização, do progresso e tal. Então eu não sei se ela é um personagem ou só uma espécie de demonstração desse decaimento, porque a gente vê os personagens fugindo e subindo e tal.
Mas eu não tenho uma opinião, teria que reler para poder pensar nessa construção da cidade. E aí ia falar para Ana também comentar como é que é a construção da cidade e tal. E aí a Valéria também, para contexto, falou: para mim é uma questão só que eu tive mais dificuldade de ver a cidade como um conjunto só pelos locais que apareciam do que a questão como um todo. É isso.
Acho que eu concordo um pouco com a Valéria, porque foi a minha impressão assim lendo só os contos. Mas eu gosto da visão do Igor, porque eu pensei algo parecido. E aí quando você pensa no livro como um todo, e aí você pega a história, por exemplo, do sino, e lá na frente você pega a história da carne de paca, que o cara chega na praça e tá aqueles alto-falantes, ele fica injuriado não sei o quê. É a mesma coisa que o Arthur comentou, a família que tá fazendo a mudança, que tem uma coisa meio vidas secas assim, quando passa na frente da igreja e tá tendo uma missa, será que é aquela missa que a gente viu?
Então, só que ela não faz isso de uma forma que deixa isso claro, a autora. Vou fazer um parênteses para falar uma coisa sobre o conto do pombal. Aqui em Brasília, na Praça dos Três Poderes, tem um pombal feito pelo Oscar Niemeyer. Que quem conhece ou quem mora aqui, se mora aqui conhece, né? Mas quem já visitou vai lembrar que parece um pregadorzão de roupa assim. Esse pombal foi construído a pedido da mulher do Jânio Quadros, porque ela falava que uma cidade precisa de, a praça da cidade precisa de pombos.
E mandaram trazer os pombos de Goiânia. O Oscar Niemeyer enrolou muito para fazer isso, porque ela não só queria um pombal, como ela queria que ele fizesse. E o projeto tava pronto, ele não queria mais nenhum elemento na praça, porque ele queria que fosse, né, ali para ser apreciado os prédios e tal, os prédios que já existiam. E ela infernizou a vida dele. O Jânio Quadros abertamente não gostava de Brasília, então assim, bem pouco ficava aqui.
Foi a única coisa construída aqui na época dele, que também foi bem curta. E conta-se que o Niemeyer, depois que ele acabou cedendo e fez o pombal, ele ficou indo na Câmara dos Deputados, encheu o saco dos deputados para não aprovarem, para não ser construído, e acabou construindo. E ela acabou inaugurando assim, não tem como não pensar que foi com base nisso, sabe? E aí eu fiquei pensando, cara, será que as pessoas pelo Brasil conhecem essa história?
Eu acho que dificilmente, porque é uma história ridícula. Por que que essa mulher insistiu nesse pombal? E deu certo assim. É um pombal, ele é usado por pombos, tem pombos lá e tal. A praça agora está repleta de pombos, é uma praça plantou uma árvore. Então assim, se não for o pombal também, não tem pombo, porque eles iam ficar olhando. Então tem essa, essa pérola.
Tira dúvida do Igor: eles voam nessas?
Olha, não lembro de se na inauguração algum caiu meio morto assim, mas já que deu certo, imagino que eles— você passa lá, eles estão todos no pombal, tem tem pombos voando por ali e também não chega a ser uma praga aqui, né? Não virou um, não saiu do controle. Então deu certo a inauguração dela. E aí não teve como, enquanto eu lia, eu não imaginar aquela cena da inauguração na Praça dos Três Poderes. Foi automático, automático. Não tinha como não pensar naquilo. Nossa, é perfeito.
Eu só queria dizer duas coisas: nada mais espatafúrdio que a realidade, né?
Nada é mais estapafúrdico que a realidade. Exatamente.
O doido do Jornal em Quadros encontrou um doido mais doido que ele.
Foi! É verdade. Ai, que beleza. E ela usava esse argumento de que, nossa, as praças em Paris, em Roma, todas têm pombos. Eu, concordando com o Igor, eu vejo essa divisão também de você ter uma parte focada na cidade, embora a gente não vejo inicialmente a cidade como um todo, mas a cidade que é mostrada em cada história, e depois uma coisa mais focada em personagens. Por um momento eu achei que personagens se repetiriam ou que lugares se repetiriam também.
Não, não aconteceu. Também não é demérito, concordo com o Igor, porém você fica com essa impressão. E aí aí você tem essa quebra de expectativa. E também porque não é, não é cronológica as mudanças pelas quais a cidade passa, porque você já começa com a história dos usuários de crack na beira do rio, que já é um problema moderno. E em outro conto você tem o cara que mora sozinho, que planta as abóboras dele, que vai vender na feira, e conta um pouco do passado dele.
Mas aí ele já tá na época que tem os alto-falantes na rua, então também é mais moderno. E aí volta, você tem um tempo que parece um pouco mais atrás, porque a questão da mudança. Então não me parece muito cronológico, não é assim do passado ao presente da cidade, o que seria uma resposta fácil, eu acho. Embora eu tenha ficado com essa sensação de que seria cronológico e que personagens se repetiriam, ou pelo menos situações se repetiriam, seria uma resposta fácil, né?
Eu acho que ela fugiu propositalmente disso. Mas dá essa sensação o tempo todo. E a forma como essas personagens são apresentadas é muito boa. A gente tá numa leva de contos que não acabam, né? Já acho que é bem o quarto que a gente grava e fala disso, que os contos não têm fim assim. Eu fiquei doida para a mulher, para parteira matar o marido da mulher lá. Não fiquei sabendo a receita de matar marido, se ele sofreu, não fiquei sabendo de nada.
Mas você fica nessa assim, vai caminhar para aquilo. E mas ela não precisa contar isso mesmo dela planejar que eu vou matar fulano. Ela sequer fala que vai matar fulano. Você vai entendendo como aquilo vai se construindo. O véio do sino, que ele tá ensinando ali para o sobrinho, e sobrinho-neto, e o moleque só tá interessado no dinheiro que ele vai pagar para ele. E você também já entende onde que aquela história vai dar, da carne de placa, tudo isso.
E também não tem títulos óbvios. Então é uma característica bem da literatura moderna, né, essas coisas. E ela trabalha muitíssimo bem isso, muitíssimo bem. Mas reforço assim, se a gente espera uma completude das nossas expectativas, não vai ter, porque as histórias não terminam como a gente imagina, ela não apresenta a cidade da forma que a gente imagina, as personagens não não aparecem de novo ou não tem um ligamento como se imagina, embora tenha.
O Arthur, a gente falou brevemente sobre isso quando eu tava terminando de ler o livro, que ele falou que o último conto dava uma fechada mesmo. Você entende que ela fez como uma coletânea mesmo, como um conjunto, era para funcionar como um livro, mas sem ser óbvio, o que é muito legal.
Tem uma coisa que eu queria que vocês comentassem também que me salta muito aos olhos, para o Igor poder retomar o conto que ele mais gostou e a gente falar também de um grande mérito dela, que é da construção de imagens, como ela consegue fazer essa construção. A Cecília ainda comentou que é uma grande aula de pente esses contos, que ela consegue construir muito bem os personagens, o espaço que ela vai trabalhar No do sino, né?
Esse cinizão específico do sino e o do— esqueci o nome específico, mas aquele que o moço fica preso dentro do silo de grãos. Acho que o nome do conto é Silo, inclusive.
Ai, que agonia desse conto, meu Deus! Que aflição, que aflição, que aflição!
Sorte, isso.
Má Sorte, o conto.
É, eu lembrava que tinha um S, eu achei que era Silo, mas é Má Sorte, não é Má Silo. Essa construção de imagens, e ela consegue né, retomando a questão do estilo e um pouco dessa construção que a gente falou, ela consegue construir ambientações muito boas da gente conseguir visualizar em vários sentidos, em vários espaços, em vários momentos. Então a cena, por exemplo, no final do conto dos sinos, que a gente vê o cara no topo fumando cigarro, que a gente consegue visualizar, eu não sei vocês, mas eu visualizei até a fumaça do cigarro do cara na hora que ele tava na ponte.
A benzedeira, a gente consegue acompanhar ela o caminho todinho ali da rotina dela, tudo que ela faz naquele dia. O último conto, acho que a gente pode deixar em suspenso para a gente comentar mais para frente, mas é um último conto também que a gente consegue visualizar aquele movimento da cidade, das pessoas nesse espaço de fuga. Enfim, são E são elementos que eu acho que são muito fortes no texto dela, né? Essa proximidade de criação de imagens que ela cria para conseguir colocar a gente ali.
Talvez por isso eu tenha ficado menos incomodado com essa ligação do conto, porque de alguma forma eu tava ali, né, vendo a gruta, vendo a questão do movimento dos personagens, das motos, das pessoas conversando na beira do rio ali, dos usuários ali na proximidade, como ela consegue trazer também a própria geografia da cidade. Então o rio, a gente já consegue acompanhar o rio e entender onde cada um tá em relação ao rio, a ponte.
Isso foi muito gostoso de acompanhar nessa prosa assim. E eu queria saber o que que vocês destacariam dessa construção, deixar o Igor também livre para falar do ponto que ele mais gostou antes da gente ir para o último bloco, elencar alguns pontos contos preferidos e falar do final efetivamente da coletânea.
Sim, acho que o livro todo ele tem imagens muito fortes, né? Elas ficam com a gente. A imagem do rio, você consegue imaginar ali os usuários, você consegue, porque a gente já viu essas, né? A gente já viu essas situações. Então, e eu acho que ela consegue construir isso de forma muito, muito boa nos livros. Você vê os cabos elétricos assim no no Cabelo das Almas, né? Você consegue imaginar, você sabe quais, como são as coisas.
Então acho que ela consegue usar essas, essas imagens a favor dela muito bem. E para mim isso fica muito, muito, muito, muito, muito bem feito no O Mal no Fundo do Mar, que é o conto que a gente vai acompanhar a Dita, que é essa bezendeira, que a gente vai acompanhar um dia dela. Assim, é um conto muito singelo, é um conto que às vezes eu reclamo, né, que sai de nada para lugar nenhum, Mas um lado, para lugar nenhum, muito, muito bem feito, né?
Então a gente vai acompanhar ela acordando, ela fazendo café, ela penteando os cabelos, e de uma forma muito cinematográfica assim. Eu fiquei lendo esse conto como se fosse um plano sequência assim. Imagina, a câmera tá mais afastada assim, a gente vai acompanhando ela durante, indo pela casa inteira. Inclusive a parte que ela se olha no espelho, que a gente sabe qual que é o espelho que ela se olha, que é aquele espelhinho laranja E eu consigo imaginar, eu conseguia ficar pensando em enquadramentos assim, a câmera tá mais aqui para baixo, eu consigo ver a cara dela aqui de cima, assim muito bem feito.
E com essa, sem essa excessividade de imagens floreadas, né, ela não precisa ficar usando, ela usa o paint, né, a corda ao paint, enfim, que eu já falei, mas ela não fica usando isso toda hora, né, ela usa nos momentos que tem que usar. De forma muito, muito bem feita, né, sutil. Acho que não é nada muito, como a Ana disse, né, nada muito seco, mas também nada muito, nada muito exagerado assim. Então esse conto, para mim, ele é o que mais ficou comigo.
Eu achei ele muito, muito delicado. E como ela conseguiu pegar uma situação que era uma situação banal, né, Enfim, a gente consegue imaginar a vida dela toda, né? Como que é o dia a dia, o bem que ela faz para as outras pessoas, quem ela ajuda, como que ela ajuda, com poucas palavras assim. Esse conto realmente ele me conquistou. Se eu tinha alguma dúvida se eu gostava de contos, eu gosto. Olha como eles são quando eles são bem feitos, olha como eles podem ser bons, né?
Mas enfim, aí você, Medo, só falta serem todos bem feitos.
Tem isso, né? Tem uns pontos aqui que eu não gostei muito do casal. Desculpa, não podia me importar menos com eles. Mas assim, é, mas acho que é isso assim, as imagens são boas no livro todo, mas nesse conto aqui em específico eu acho que ela conseguiu fazer de uma forma espetacular. E foi esse conto aqui que me fez com certeza ter vontade de ler o romance dela, Os Invisíveis, que eu já tinha achado a Invisíveis, não Os Imortais.
Os Imortais, isso. Que eu já tinha vontade pela, né, pelo sinopse, mas quando eu vi a capacidade dela como escritora, aí eu falei, não, agora eu quero ler esse livro assim.
Eu gostei muito, muito desse conto da benzedeira também, muito, muito, muito. E é o que você falou, ele é o mais delicado, ele é, ele tem uma delicadeza ali, ele é ótimo. Eu não gostei do conto do sino, só que eu vou pegar um gancho do comentário da Renata. Sim, lá no que ela fala que o último conto fala que há muito tempo o sino da igreja não toca mais. Este último conto me fez entender, e não gosto do conto em si, eu não gosto, mas me fez entender porque que esse conto tava lá.
Né, essas referências que ele faz, isso de ter fechado o livro. Então, uma, um que eu gostei, um que eu não gostei. Eu gostei muito do primeiro, que é, como é que é, o Traque Ternura. Gostei muito assim, me pegou, foi ali, o livro me pegou no primeiro assim, e eu gostei muito. E aí, voltando a falar das imagens que ela constrói, das imagens fortes, das do Má Sorte, que eu sei que é Má Sorte, pô, o Arthur acabou de falar, porque eu ia falar o conto do Silo.
Eu gostei muito dele porque assim, eu acho que se ela não soubesse fazer imagens tão bem, ele teria sido só um conto tipo de uma situação ruim, né? E mas, cara, eu lembrei de um filme que eu assisti uma vez que um cara Um dos personagens morria afogado no sorgo dentro de um silo, que ele fazia o mesmo trabalho. E aquilo me chocou tanto porque eu nunca tinha entrado em contato com essa realidade. E é, e é uma questão assim, é uma questão pessoas se afogarem em silos, que se afogar no seco, né?
Você é soterrado por grãos. E a questão da soja, os grãos eles fermentam dentro dos silos, são quentes, então você tem que estar ali movimentando para que não fermenta, você não perca aquilo, e darará, tá tudo isso no conto. E aí a soja pega porque o Centro-Oeste ele vem sendo degradado. Meu Deus, participação da mimia, esse sacolejo. O Centro-Oeste ele vem sendo degradado cada vez mais criminosamente pelo agronegócio, principalmente pela plantação de soja.
A gente tem inclusive falas criminosas assim, já teve político falando que o Cerrado é um deserto e que o agronegócio estava salvando o Cerrado, como se plantação de soja fosse vegetação, sabe? Então é terrível a especulação imobiliária em cima do terreno aqui onde tem água. Então é muito forte assim, você, você é do Centro-Oeste ou você está muito preocupado com essa questão, ou você agrobói. Não tem outra saída, não tem outra saída.
São essas duas coisas. Então eu acho que para quem pensou nisso, esse conto ele traz mais uma camada de significação, e você percebe mais ainda como são fortes as imagens que ela cria. E aí isso se aplica à natureza, às pessoas, a um ambiente confinado, ou a esse espaço de desespero, de Então ela recria muito bem cenas em variados aspectos, né? Então esses, para mim, assim, foi o que ficou na cabeça. E a forma, não o último especificamente, mas a forma como o último fecha o livro.
Olá, 30 Minutos, Eduardo Gomes aqui falando de Petrolina, Pernambuco. Hoje eu vim deixar meu selo de aprovação para o livro do mês e dizer que meu principal elogio ao gostava é de como a autora conseguiu conectar os contos utilizando espaço geográfico. Eu realmente tive a sensação de passear pelas ruas de Buriti Pequeno, ao ponto de parar a leitura, abrir o Google e jogar: Buriti Pequeno já existiu? Não, não existiu. Então não façam isso.
A autora me enganou, ela escreve muito bem, bola para frente. E como toda coletânea de contos, eu escolhi meus 3 favoritos. Em terceiro lugar, Matador. Em segundo lugar, Mandiocal. E em primeiro lugar, A Mulher do Pombo, que é uma história sensacional. É isso, leiam também, escolham seus favoritos, mas sabendo que esses são os melhores, tá? Obrigado e até a próxima.
Eu vou aproveitar esse gancho da Anne então para a gente poder destacar esse último É, para quem não leu a coletânea, acho que o Igor também, Ana, podem comentar um pouco mais. A gente tem esses contos que vão construir a cidade de algumas formas, seja para apresentar as figuras, seja para apresentar essas questões sociais. A Ana comentou bastante sobre essa questão social do agro, que eu acho que é uma das questões que aparecem aqui no livro.
Sim, ela consegue discutir bastante Problemáticas sociais atuais, econômicas atuais, que envolvem a região em específica de Buriti Pequeno, mas que acaba ecoando na construção do Brasil como um todo, né? Como é que o Centro-Oeste ali tá lidando com a questão da invasão do agro, como é que a gente tem essa construção das classes que vivem em cidades pequenas, como é que a gente tem essas questões de costumes e tradicões, com a chegada da modernidade.
Enfim, esse Buriti pequeno, né, que eu tava conversando com o Igor, uma coisa que ele falou foi tipo, ah, mas se eu não vejo essa construção, esses contos poderiam acontecer em qualquer cidade. E aí eu lembro de ter falado para ele assim, eu acho que uma das propostas é essa. Quando a gente conta uma história, sei lá, se eu colocar que a coletânea se passa em Brasília, essa é uma coletânea que tem que se passar em Brasília, ela vai ter que ter referências com Quando a gente cria Buriti Pequeno, é Buriti Pequeno.
Buriti Pequeno pode estar ali, pode estar aqui, pode estar não sei aonde. Então a gente cria esse espaço, esse microcosmo, que é um espaço que pode estar em vários lugares e dialogar com várias questões ao mesmo tempo, né? E como ela tá ao longo desses contos falando dessas quebras, dessas mudanças, dessas alterações, a gente tem um último conto chamado Rios Voadores que vai amarrar amarrar essas questões. E ela amarra numa proposta bastante curiosa, uma proposta que a gente vê, por exemplo, em, sei lá, 100 Anos de Solidão, vê até o conto do Vilarejo do Rafael Montes, tem também uma proposta no final, dadas as medidas e proporções da proposta de cada um, que é amarrar esses contos numa espécie de final é mais apocalíptico.
E aqui a gente tem então essa queda de Buriti Pequeno, essa desolação total que vai agora sim ecoar com algumas questões, né? Então a gente vai ver outras paisagens, a gente vai ver outras figuras. A Renata muito bem lembrou aqui, né, que uma das questões que aparecem no conto é a imagem de que o sino na igreja não toca mais, né? E aí escreveu aqui no chat para quem não tá acompanhando a live ao vivo, que é, ou seja, né, o cineiro morreu, o sobrinho apendeu, o tempo passou.
Todas as questões que a gente vê dialogadas ali no conto do sino, a gente vê aqui ecoando. Então a gente tem uma sugestão da temporalidade do que aconteceu, né. Vemos os morros, vemos o terreiro, temos as pessoas que passam por esse processo de de, do fim da cidade, né, dessa corruptela toda. Inclusive, esse fim me lembrou não só Os 100 Anos de Solidão, como me lembrou também o livro da Aline Wallek, Cidades Afundam em Dias Normais, que é também um livro que se passa na região Centro-Oeste, mas é uma cidade que foi submersa há muitos anos e agora ela ressurge, né.
Então também acuou um pouco, fiquei pensando, putz, será que daqui uns anos Buriti Pequeno retoma? O que que a gente vai encontrar dessa cidade? Qual seria a história, né? Acho que fiquei pensando um pouco nisso. Não sei se tem mais algum conto que eu queria destacar. Eu fiquei um pouco magoado, senti um ataque pessoal porque eu gostei muito do conto do sino e a Ana atacou ele. O conto da gruta também não é de todo ruim, eu entendo, é porque os personagens são poucos carismáticos.
Fazer o quê? Mas a proposta é legal. Na hora que ele sai, alguém mexeu na moto. Que porra é essa, pô? É uma questão interessante, é um conto divertidinho, vai. Não tem nenhum conto ruim que eu achei aqui, mas eu entendo, o casal é menos carismático, fazer o quê? E aí eu queria ouvir do Igor então essa questão da, da, do último conto. Você tem mais algum destaque que ele gostaria de fazer de algum conto em específico?
O último conto, acho que o Arthur já falou mais ou menos tudo que tinha para falar sobre ele assim, porque eu acho que ele vai amarrando várias coisas que a gente vai ver desde o começo, né? Então tipo a poluição dos rios ali já no Ternura e Craque, a gente já vai ver, né, essa questão, a impunidade do agronegócio, né, dos poderosos que saem impunes, impunes não, mas assim que conseguem sair da situação enquanto a cidade vai sendo destruída.
O que a primeira coisa que me veio na cabeça quando eu li esse conto, terminei de ler esse conto, não foi Senhor de Solidão, mas foi a novela Tieta, porque o Agnaldo Silva quando ele termina Tieta ele destrói a cidade. No livro isso não acontece, né, mas Tieta termina com spoiler da novela, enfim, com a cidade sendo coberta por areia. E aí é mesmo, todos morrem soterrados na areia ali. E aí eu só lembrei desse, quando eu li esse conto, eu lembrei de Tieta.
E aí enfim, eu acho que ele fez isso porque a novela fez muito sucesso, falou assim, não vou fazer continuação, morreu todo mundo, a cidade acabou, esquece, né? Mas enfim, sobre o último conto, acho que é isso assim que eu tenho para falar. Eu acho que ele acaba, você termina ele, né, acho que ele termina de uma forma muito, muito impactante, né, que você termina assim, você quase quer chorar junto, né. Que eu até marquei aqui tudo, né.
E ela termina falando: já não existe porente pequeno e somente nós, eu e você, saberemos. Daqui em diante será como se nunca tivesse existido. Muito, eu terminei imediatamente, nossa, Caraca, termina muito pesado, né, o livro. Termina muito impactante. Mas no geral também, quando me afastei do conto, é um conto que eu volto menos do que, por exemplo, A Mulher do Pombo ou O Mal no Fundo do Mar. Aí eu já falei de dois contos, você quer que eu fale de mais um conto, Arthur? Você acha que assim, né?
Logo eu, um hater de contos?
Mas eu gosto muito do Madrigal. Eu acho o Mandiocal muito bom, né? Eu acho, a gente vê o personagem ali todo naquele conflito interno, né? Eu anotei o nome aqui, mas eu não consigo com a minha letra aqui. Enfim, mas o personagem no conflito interno, né? E de entender o porquê que ela, Lourival, isso, do porquê a esposa dele fez isso, né? E de entender e e passar do medo, né, aceitar, né. Eu achei, eu achei esse conto também muito, muito bom.
Uns dos destaques juntos com os— inclusive eles vêm quase em sequência, né. A Mulher do Pombo, Mandiocal, aí vem o casal que eu finge que não existe, aí já vem o Mal no Fundo do Mar.
Tá certo, é por isso que aí contos para alguns você simplesmente ignora. Artur defendendo.
Não, eu ia dizer que tem outros dois contos que eu acho que merecem destaque, que é o Mandiocal e o Santíssima, que a gente não falou também. Que é o Santíssima, é aquele que elas não têm com quem contar, que é a narração intercalada com as orações, que é o que a Ana falou há pouco, né? Aí eu fiquei sem saber o que que aconteceu, como é que a gente faz essa construção. Como é que a gente faz, mata marido?
Pois é, mas já sabemos onde dá para enterrar. É, não precisava ser tão assim a flor da terra, não, podia ser mais.
Mas e você, Ana, como é que você leu esse último conto? Como é que você encerra a coletânea? Você tem algum outro destaque, outros textos que você gostou?
Eu gostei muito do Igor ter lembrado de Tieta, porque destravou a memória aqui, e acho que combina mais. Mas eu pensei no Sem a Solidão, mas que era a lembrança mais óbvia. Mas acho que o final Acho que a tinta combina mais com a natureza assim, né, do, do, da coletânea. Eu gostei muito. Ele não é o meu conto favorito, como eu falei, mas ele fecha muito bem. E ele, essas reminiscências que ele, que ele faz aos outros funcionou muito bem.
Eu gostei. Eu acho que foi o ponto alto do livro enquanto livro. Deu para entender porque na sinopse se fala que tudo aquilo se passa em Buriti Pequeno, porque se não falasse na sinopse, eu acho que a gente não ia fazer essa ligação até o último conto. Embora em alguns contos fale, ah, Buriti Pequeno, mas eu acho que ele, que a proposta dela foi essa, e ela foi muito sagaz. Eu gosto como ela foi fugindo do óbvio, de como as coisas iam se construindo de uma forma e ela elegantemente fugiu do óbvio.
Achei sensacional. Também tô, já falei, também tô querendo ler outra coisa dela porque eu quero saber mais sobre a escrita dela. Não sei se eu tenho mais outro além da— agora a gente lembra do Mandiocal para—
e do Santíssima também é muito bom.
Ah, o Santíssima, sim, Santíssima, nossa, sim. Então acho que eu gosto.
O Santíssima me lembrou, me lembrou Cupim. Me lembrou Cupim na hora, na hora eu lembrei da avó, porque tem as orações e tem os trabalhos que ela faz ali com as moças e tal.
Falei, carinha, e as parreiras, né? Ela na casa delas tinha os santos, meio cordão com santos nas parreiras assim. Eu lembrei também, legal isso, a gente tá conseguindo fazer leituras que conversam entre si, né? Eu tenho gostado disso, que trazem essas lembranças assim. Se lê e fala assim, ah, isso é Mariana Henriques, hein? Eu li isso aqui mês passado. Esse é bem legal. Eu vou retomar o que o Igor falou, que a escrita da Pauline lembra um pouco a escrita da Mariana Carrara.
Tem uma coisa assim mesmo. Uma coisa muito agradável que lembra mesmo. Eu gostei, gostei, e estou curiosa, Zé Rima, para ler os próximos.
Eu não tinha feito essa associação.
Não vou prometer ler mais de um não, que vocês sabem que eu não compro não, mas os imortais leremos.
Eu não tinha feito associação com a Salomão Carrara. E você gosta do fim especificamente, de como ele termina, de como propõe-se o fim de Buriti Pequeno?
Gosto, meu gosto. Você lembrou da Aline Wallach, e é mesmo assim, tá na moda destruir cidades no Centro-Oeste, seja com água, seja com vento, com areia, com fogo. Mas eu gosto, Não vou entrar em detalhes porque quem ouvir a gente for ouvir primeiro e for ler depois, eu acho interessante você pegar umas coisinhas assim, né? Mas eu gostei muito dessa proposta dela de fechar um livro de contos que poderia ser totalmente independentes entre si, ou poderia ter ido pelo caminho mais fácil de repetir personagens e histórias e ela ter feito isso um fechamento bom assim nesse último conto.
Ficou uma coisa bem latino-americana, não sei se pela lembrança dos 100 anos, né? Mas eu gostei. Você gostou?
Gostei, gostei. Eu quero reler ele no futuro, em algum momento, tendo agora, sabendo o que acontece no fim, para poder pegar esses sinais como os que a Renata mandou. E é um livro curtinho que dá para ler Numa sentada eu li um conto por dia e funcionou super bem. E agora vou terminar Os Imortais, efetivamente consegui ler ele com tranquilidade. E trazemos mais para vocês, contaremos para vocês o que a gente achar. Um parênteses para quem é apoiador e tá ouvindo a gente: mandem seu áudio, o grupo já está aberto desde sempre, não fechei.
Podem mandar o áudio naquele esquema para a gente colocar aqui. Por favor, envie.
Oi, gente, aqui é a Valéria.
Eu falo de Natal, Rio Grande do Norte, e eu gostei do livro. Meu único problema com ele foi que, apesar de falar que estava acontecendo na mesma cidade, teve alguns momentos que eu não senti como se isso tivesse acontecendo. Não acho que seja um um defeito grave do livro, porque ela tem uma escrita muito boa, ela tem um texto muito bonito, e eu me interessei realmente por esses personagens de forma unitária. Mas como às vezes ela citava bastante que tudo aquilo tava acontecendo na mesma cidade, eu senti falta de ver.
Eu sei que muitas pessoas conseguiram ter essa sensação pela questão de ela falar de locais da igreja e toda essa questão de passear pela cidade. Mas para mim isso não aconteceu, e se tivesse acontecido, eu acho que eu teria gostado muito mais do livro.
Bom, a gente vai ficando por aqui, vamos encerrando a nossa live, vamos encerrando também o episódio. Se você gostou desse episódio, não deixe de compartilhar ele, indicar para quem você acha que pode gostar, alguém que leu Eva Brava e gostou, alguém que querendo ler alguma coisa da Pauline Torte e quer saber um pouco mais do estilo dela, pode mandar esse episódio também. Compartilhe nas suas redes, nas suas redes sociais. Pode seguir a gente nas nossas redes abertas.
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Senhoras, senhores e proletariado não Insider. Este podcast foi editado por AJ Oliveira.
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